Por Leandro Oliveira
É possível criar paradoxos musicais. Obtemos esse efeito, por exemplo, quando um texto e seu caráter emocional mais imediato contrastam com as características da peça. Quer um exemplo? Ouça lá:
O texto do Lou Reed diz:
"Um dia simplesmente perfeito/ (...) E quando anoitece voltamos para casa (...)/ Tanta diversão(...)".
A descrição de uma rotina aparentemente banal, por si só, não seria capaz de contrastar com o ideal de "dia perfeito" tanto quanto Reed consegue com o apoio da música: é só ali que o dia perfeito de fato se torna bem deprimente e amargurado - ali, com as harmonias, o andamento, instrumentação e o contorno melódico pouco dados à alegria de um dia perfeito.
(Certamente não à toa a música serviu de trilha para Trainspotting - Sem Limites de Danny Boyle.)
Chico Buarque faz isso aqui e ali. Mahler faz isso à sua maneira no final da Sinfonia nº4 quando o texto da soprano descreve uma grande alegria e a música se desintegra (na escuridão?) paulatinamente...
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For those who have a religious experience all nature is capable of revealing itself as cosmic sacrality. Mircea Eliade.
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