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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Marsílio Ficino e DEUS: uma abordagem metafísica

Dando seguimento à apresentação do filósofo do renascimento italiano Marsilio Ficino, Talyta apresenta um problema metafísico da mais alta conta.

Por Talyta Carvalho

Como prometi no post anterior sobre Marsílio Ficino, este post tem a intenção de “pincelar” algumas noções do que poderíamos determinar como o conceito de Deus na obra intitulada Teologia Platônica pelo filósofo. O leitor já passou comigo pela etapa árdua da conversa, aquela dos constrangimentos de minha parte, estão lembrados? Consideremos aquele post inicial como preliminar (em todos os sentidos), agora cumpre levar a tarefa à cabo: falemos de metafísica. Serei gentil e delicada - prometo que não vai doer nadinha.

Gostaria que assumissem Deus como Unidade, Verdade e Bondade. Ficino faz a demonstração no livro II, mas aqui vamos fingir que tudo mundo sabe disso (que os Transcendentais formam o princípio universal, e que nele unidade, verdade e bondade são a mesma coisa), pois do contrário escrever este post seria uma tarefa impossível. Bem, o que significa dizer que Deus é o princípio universal? Para Ficino, significa dizer que Deus é o primum in aliquo genere (aquele que possui a essência do universal e a comunica aos outros membros do gênero). É aquele que existe por si mesmo, perfeito e causa de seu gênero. Deus é o primeiro princípio, portanto o primum por excelência uma vez que é o primum do gênero Ser. Daí não podermos aceitar a hipótese de que um politeísmo seja verdadeiro.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

QUEM AQUI NÃO TEVE UMA NAMORADINHA QUE TEVE QUE ABORTAR?

Sérgio Cabral, candidato reeleito Governador do Rio de Janeiro é, antes de tudo - e a despeito de sua competência ou incompetência, não entraremos no mérito - é antes de tudo, dizíamos, um falastrão. Sua última máxima é uma mínima. Talyta Carvalho discute o caso.

por Talyta Carvalho

Sou jovem, mulher, namorada, filha e tento ser “filósofa-intelectual-acadêmica”. Sou uma daquelas garotas que as pessoas olham com a impressão (pouco importa se certa ou errada) de que à minha frente há um mundo de possibilidades, de coisas a serem vividas, de vitórias a serem conquistadas. Obviamente, não atingi nenhum ápice na vida ainda, seja ele o ápice pessoal ou profissional. A rigor, ainda não cheguei a lugar algum; muito embora pareça que a tendência é que um dia eu chegue, afinal, recebi os instrumentos para tanto. Imagine você leitor, o que uma gravidez acidental poderia representar neste exato momento da minha vida, que ao que tudo indica, caminha para um belo futuro?

Falo hipoteticamente, é claro. Sei que o leitor sabe que não estou, de fato, grávida. Apenas quis apontar o lugar de onde falarei sobre o polêmico tópico da legalização do aborto. Quis apenas que ficasse claro que, como se diz na Academia, tenho “capital simbólico” para discutir o assunto. Não pretendo fazer propaganda, não pretendo convencer ninguém da minha opinião, não pretendo fazer circo algum pegar fogo. Nunca quis escrever sobre este assunto, recuso propostas de falar sobre o tema, e nunca debato minha opinião fora do pequeno círculo de amigos próximos que tenho. Mas hoje eu vou falar sim neste assunto. Escrevo este post porque tem coisas quem ficam “entaladas” na garganta ao longo dos anos, e um dia a gente cansa de se omitir e dar espaço para que toda sorte de pessoas fale sem discernimento algum de coisa séria. Sim, aborto é coisa muito séria. Tão séria que é lamentável que a discussão gire em torno de argumentos que partem de certa “positividade e objetividade da lei”, o que quer que queiram dizer com isso. Já aviso: sou contra. Se você é a favor e se irrita com pessoas que, como eu, se recusam a passar a mão em sua cabeça como quem diz que “tudo bem fazer isso”, acha “evoluído” um país que aprova a legalização, e ainda que “a mulher tem direito de escolha sobre seu corpo”, uma dica: não continue lendo este texto. Você apenas irá ficar bravo(a) e sentir desprezo por uma pessoa como eu que não “entende” e não “respeita” o tal direito de escolha (“aliás, como pode uma menina esclarecida, estudada, pensar assim??”).

Antes de qualquer coisa: simpatizo com o sofrimento de mulheres que se encontram diante da agonia de uma gravidez indesejada; Eu mesma já passei pelo drama de suspeitar estar grávida de um namorado e me pegar angustiando o que eu poderia fazer para “resolver” a situação caso ela se confirmasse. Claro que a possibilidade de um aborto sempre passa pela cabeça de qualquer uma quando se vive o impasse na pele; perturbam sua cabeça questões como “meu namorado não quer esse filho, é justo o bebê não ter pai?”, “minha família vai me matar se eu disser que estou grávida”; “até quero ter filhos, mas o momento é péssimo, mal comecei minha vida, e um bebê agora vai mudar tudo”. A realidade é que nunca estive grávida, mas essas perguntas povoaram minha cabeça antes do teste resultar negativo. Eis aqui uma verdade inconveniente: decidir manter ou não uma gravidez é sempre uma decisão tomada em meio ao desespero. Uma mulher que diga ser capaz de decidir sobre isto baseada na reflexão e nas “conversas” com especialistas (médicos, assistentes sociais, psicólogos) e na ponderação do que é o “melhor” pra si, mente. É uma decisão terrível de ser tomada, e em uma instância, determinada principalmente por um afeto: medo.

Acho hipócrita gente que diz que é “hipócrita a discussão de aborto no país, que o Estado deve dar suporte a mulher pobre que faz aborto em clínica clandestina, blábláblá”. Mais ainda se quem fala é um homem. Homem que defende aborto alegando que o faz porque acha que a “mulher tem ser ouvida” e deve “ter direito sobre seu corpo” sempre soa a mim como um canalha. Ao menos tenha a coragem de admitir que você é a favor do aborto porque quer respaldo legal para não assumir a “bomba” que é a gravidez indesejada de sua namorada, amante, ficante ou caso de uma noite, e assim induzi-la a tirar o seu do reta sem pegar muito mal para você.

Aborto não é medida que se tome para não ter filhos em momentos indesejados. Todo mundo que transa sabe que pode ter uma surpresa rosinha e chorona depois de nove meses. Não é crime algum adiar, mesmo que para sempre, a maternidade: para isso é que existem os mais variados métodos contraceptivos. E se ainda assim vier um baby não desejado que poderá colocar todos seus sonhos abaixo ou ainda o qual você não terá condições de criar e sustentar, sempre há a opção de dá-lo para adoção: você não é obrigada por lei alguma a ser mãe de um bebê só porque você o gerou. O aborto não foi criminalizado, assim como o homicídio não foi criminalizado, por isso não aceito argumentos como o baseado na idéia de que a escolha deve ser permitida, algo como dizer “legalizando você assegura liberdade de escolha a todas as mulheres, se não concorda com a prática você tem o direito de não fazer. Quem quer faz, quem não quer não faz”. Isso me soa tão absurdo quanto dizer que se deve assegurar o direito dos cidadãos escolherem, por exemplo, em uma situação dramática qualquer, se cometem um homicídio ou não, sem que tenham de pagar em termos punição legal por isso. Sou a favor da vida, e a julgo inegociável.

Aborto não é mera questão de saúde pública. Converse francamente com uma mulher que tenha passado pela experiência (e antes que perguntem: sim, já conversei com muitas sobre isso, ricas e pobres). Em primeiro lugar, ela terá dificuldade de explicar como decidiu pelo aborto e, muitas vezes, fará referências a falas e conselhos de terceiros (em geral do pai, do namorado, amante, professora, analista) os quais ela desconfia que não deveria ter ouvido em um momento de tanta fragilidade e angústia. Em segundo lugar, por mais insensível que você seja, você vai notar com nitidez que o relato dela sobre a experiência exala uma percepção de que o que aconteceu naquele momento, naquela sala de uma clínica qualquer (clandestina ou super-higiênica e cara) foi uma violência com ela, e que antes fosse apenas uma violência física. Não conheço mulher alguma que tenha abortado e superado a experiência. Que ninguém se iluda pensando que é um ato que encerra ao final de um procedimento médico.

(EM TEMPO: Os postos de saúde distribuem gratuitamente camisinhas. Seu namorado, amante, caso de uma noite na balada, não tinham e não gostam de usar? Sem problemas -pelo menos no quesito “gravidez”. Advinha? Também distribuem anticoncepcionais de graça!!! Sim, você leu bem: DE GRAÇA!!! Quem diria, né?

EM TEMPO 2: No fundo no fundo, eu também acredito que a mulher tem direito sobre seu corpo: dá se quiser, se não quiser não dá. E também ingere remédios contraceptivos porque escolheu assim fazer e por ser “dona” de seu corpo pode muito bem impedir com essa atitude que outro ser ali se instale (em seu útero, precisamente) contra sua vontade. Mas uma vez que tenha escolhido (uma vez que há escolha) o risco de ter ou não outro ser como “inquilino”, aí já não há “direito sobre o corpo” que valha. Lembremos que são dois corpos agora, e embora tenha um “hóspede” indesejado em seu corpo, ela não tem direito sobre ele. Antes de tudo, ela “deixou” ele ali se instalar, sabia que poderia acontecer. Ele (o feto) é que tem direito sobre si. Então, que ele decida um dia após nascer se o melhor para ele é dar fim a sua vida ou não.)

sábado, 11 de dezembro de 2010

Marsílio Ficino: Fé e Razão na Renascença


Talyta dedica este post às amigas Tati Ballan e Lou-Lou Wolf, "as quais, talvez por não estudarem filosofia, sempre que me ouvem falar de Ficino reagem com um encantamento que me supõe ser muito mais inteligente do que realmente sou." É resultado de sua defesa de dissertação de mestrado.

Por Talyta Carvalho

Sim, leitor do Ocidentalismo, realmente faz um bom tempo que não escrevo aqui. O motivo? Bem, passei os últimos dois meses estudando e me angustiando em razão daquela “malhação de Judas” acadêmica chamada “Defesa pública”. Aconteceu na semana passada (aliás, obrigada aos meus caros editores pela presença!) e com ela encerrou-se um ciclo de estudos que já vinha desde 2007. Uma das coisas que me ocorreu assim que a defesa terminou era de que havia uma pergunta em especial que eu não precisaria mais responder por um bom tempo: “O que você estuda no mestrado?” Perdi a conta de quantas vezes fiquei constrangida por causa dessa indagação. Por quê? Porque eu sabia qual seria a reação do interlocutor assim que eu respondesse “estudo Marsílio Ficino”: uma expressão facial blasé que, caso se fizesse verbal, diria “MARSÍLIO QUEM?”.

Não é um pecado intelectual uma pessoa (quer estude ou não filosofia) não saber quem é Marsílio Ficino. Meu constrangimento advinha do fato de nestes momentos eu me dava conta de que estava me tornando uma dessas pesquisadoras que não possuem interlocutor porque estudam um cara que ninguém conhece. Farei dois posts sobre Ficino. Este primeiro tem o objetivo de responder justamente a pergunta “Marsílio quem?”. O próximo deverá abordar o pensamento metafísico do autor.

Marsílio Ficino foi um filósofo neoplatonico nascido na Itália em 1433. Graças ao mecenato de Cosme de Médici pôde entrar em contato com toda a obra de Platão e de alguns neoplatonicos como Plotino e Proclo. Cosme havia adquirido manuscritos destes autores em grego (quando do Concílio de Ferrara e Florença) por meio de estudiosos bizantinos, e os entregou a Ficino para que os traduzisse para o latim. E foi justamente essa empresa de Cosme que nos legou um “primeiro” Ficino, o tradutor e divulgador das obras de Platão no Ocidente.

Em alguns anos todo o trabalho de tradução já estava concluído, e então, o filósofo passa a adicionar comentários dos textos às suas traduções. O ápice ocorre quando ele se propõe uma indústria própria e concebe sua maior obra, a "Teologia Platônica". Essa indústria a que me referi consistia, resumidamente, em provar por argumentos racionais a imortalidade da alma. A motivação de Ficino para tal projeto era por um lado religiosa e por outro intelectual. Ele identificava que em seu tempo o divórcio entre fé e razão caminhava para uma separação radical entre teologia e filosofia, o que ele considerava uma grande perda para as duas disciplinas, daí a motivação intelectual de reunir ambas em sua reflexão. Por outro lado, temos a motivação religiosa do autor. Ficino escreve para combater uma classe específica de pensadores: os averroístas, ainda bastante fortes e presentes no cenário intelectual da Renascença. o principal ponto de discórdia de Ficino com estes últimos era justamente a defesa da dissociação entre fé e razão, materializada conceitualmente na teoria da Dupla-Verdade.

A teoria da Dupla-Verdade não foi elaborada por nenhum averroísta, na realidade ela apenas ficou associada a estes pensadores. O que é, então, a teoria da Dupla-Verdade? Quando há dois corpos de doutrina (um deles elaborado teologicamente e o outro filosoficamente) que se propõem a analisar um mesmo objeto e as conclusões a que chegam são conflitantes, mas ainda assim ambas as doutrinas sustentam suas conclusões como verdadeiras, o resultado é uma teoria da Dupla-Verdade. Em suma, o que é válido nas bases da fé nem sempre vale nas bases da razão. Um averroísta do Renascimento (como p. ex. o paduano Pietro Pomponazzi) rejeita a razão como instrumento válido para reforçar os dogmas da fé. Daí não se poder provar, por exemplo, a imortalidade da alma individual. Marsílio Ficino supõe que a aceitação destes princípios desencadearia perda de fé e corrupção moral.

Ficino escrevia para um público específico que era o público erudito, por isso julgava necessário fazer provas racionais, pois se a fé não convence o letrado a razão deveria convencê-lo de que o caminho pelo qual se optava naquele momento poderia levar a consequências funestas.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Especial Poa Em Cena II - A Beleza dilacerada


Talyta Carvalho arrumou uma boa maneira de passar férias - diretamente do Porto Alegre EM CENA, o festival internacional de teatro. Ali assistiu a adaptação de "O Idiota" de Fiódor Dostoievski realizada por Eimuntas Nekrosius, o mais importante diretor báltico da atualidade. A produção foi a primeira incursão do encenador no universo do maior romancista russo. Talyta fala do contexto do romance e aquilo que move seu protagonista. Na seqüência, Eduardo Wolf vai nos falar da grande montagem lituana.

Por Talyta Carvalho

Fomos assistir a uma montagem belíssima de O idiota (de Fyodor Dostoievski) feita por lituanos. Tenho um amor platônico pelo escritor russo - não raro sonho acordada em ser Anna Dostoiévskaia... Tento evitar mas é mais forte do que eu. O idiota é o meu romance preferido de Fiódor (notaram a intimidade?) em sua fase de “anos milagrosos”, como diria Joseph Frank. Os anos milagrosos foram o período pós-Sibéria em que o escritor produziu seus grandes romances como Crime e castigo, Os irmãos Karamázov, Os demônios, Memórias do subsolo, além de O Idiota, claro.

O tal "idiota" do título é um príncipe de nome Míchkin, que a julgar por suas reações e posturas diante da vida, de fato, parece um doente...um idiota. Mas seria isso mesmo?

Antes de tudo, o leitor deve ter em mente que os romances de Dostoiévski são permeados por uma forte religiosidade que não se pode, de forma alguma, desprezar. Uma das idéias mais caras ao autor é justamente uma ideia cristã: a de amor incondicional (caritas). Quase sempre esse amor aparecerá encarnado em algum personagem (por exemplo, na Sônia em Crime e castigo), e a partir dele estará a redenção em seus romances.

(Disse "quase sempre" porque há um romance sem redenção alguma que é Os demônios.)

Em O idiota, essa figura tomada de caritas é justamente o príncipe Míchkin; e como um sujeito que é arrastado por tal amor sempre parecerá “estranho” para nós, a impressão de Míchkin é de um doente: não reage quando lhe passam a perna, é o alvo mais fácil de enganação e, a julgar pelo trajeto de sua vida, aquele que deveria ser a pessoa mais completamente amargurada e rancorosa. E, no entanto, não é: parece mesmo um caso clássico de um completo imbecil...

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

“Thais” ou Era uma vez...

De Shelley Duval a Santo Agostinho, Talyta Carvalho arrisca o improvável: explicar como os dilema morais perdem seu lugar de destaque na formação de nossa juventude quando contaminamos por ideologia, correção política ou o que quer que seja os "Contos de Fadas". Eles deveriam se preservar como uma reserva do bom e do justo... mesmo nos programas de TV.

Por Talyta Carvalho

Pois é, meu mestrado acabou. E digo isso sem a menor tristeza, como todos devem supor. Recebi, além do óbvio alívio e da paz de espírito tão esperada, muitas congratulações dos amigos e familiares. Mas algo especial ocorreu: não sei se já comentei antes, mas tenho uma irmã gêmea. Sim, ela é idêntica fisicamente a mim e se chama Thais. A Thais é uma mocinha doce e atenciosa, orgulho da família, estudante de Medicina em uma faculdade altamente conceituada de São Paulo. Thais é o sonho de qualquer pai e de qualquer mãe.

Mais ainda, Thais é o sonho de qualquer irmã.

Sou uma garota que tem lá suas obsessões banais na vida, como quase todo mundo. Uma de minhas obsessões é com uma lembrança vaga da infância que sempre tive o anseio de recuperar. Quando pequena, eu era uma dessas crianças geeks que passavam seus dias a ler livros de gente grande e a resolver problemas de matemática. Mas havia um ou outro dia da semana em que eu era uma criança como todas as outras, e esses dias eram os dias em que eu assistia um programa de TV acompanhada de meus pais e da Thais. Havia uma história que era minha preferida: “A rainha da neve”. O programa saiu do ar há muitos anos atrás, mas mesmo assim eu havia crescido obcecada por esta história.


Na última semana, Thais me entrega um presente por eu ter concluído a pesquisa. Quando abri o pacote não pude conter minha empolgação e alegria. Graças a minha irmã eu estava prestes a entender, finalmente, o motivo de minha obsessão. Obviamente, assisti ao DVD na mesma hora. O que eu achei? Bem, na realidade a história e a produção eram infinitamente melhores na minha imaginação. Contudo, ao final, Shelley Duvall (idealizadora e da série) narra a moral da história dizendo a importância da amizade. Aí então eu entendi minha obsessão.

Era uma obsessão com a moral da história agora finalmente relembrada. E digo “moral” em todos os sentidos. Percebi que esse era o motivo primordial do meu fascínio com os Contos de Fadas, afinal, eles são a maneira pela qual costumava-se ensinar sobre virtude e vício para as crianças.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Ainda sobre o talento


O talento é uma aptidão, uma vontade, um cultivo? Em busca da resposta a este dilema é que Paola Secchin Braga se lança em um de seus deliciosos comentários sobre dança. A disponibilidade individual para lidar com as tantas situações da realidade talvez seja uma das mais decisivas distinções da existência: e o talentoso aquele que afinal mostra a todos algo notável mesmo em sua condição humana - inevitavelmente humana e, portanto, cheia de falhas.

Por Paola Secchin Braga

No conjunto de fábulas que permeiam o mundo da dança, a mitologia que ocupa o inconsciente de todos é daquela linda imagem da bailarina etérea, leve e que executa seus passos sem força e “naturalmente”... Por mais que tenhamos andado quilômetros em cena, por mais que os movimentos do quotidiano tenham entrado no repertório moderno, por mais que tenhamos descido ao chão e nos arrastado sobre ele, por mais mudanças que tenhamos passado, atrelada à palavra bailarina vem normalmente a sílfide leve e incansável.

E com esta fantasia, vem atrelada a outra, a do talento enquanto dádiva dos céus, presente divino, que se recebe sem nenhum esforço – e como se não bastasse, tem-se ainda a certeza íntima de que, quando se tem talento, se é notado e escolhido no meio da multidão, garantia de sucesso total!

Pegando carona na pergunta da Talyta, resolvi mergulhar no perigoso assunto “talento”. Talento se tornou com o tempo uma “palavra-gaveta”, onde colocamos todas as definições imagináveis e, no fim das contas, acaba perdendo todo e qualquer sentido. Pedindo ajuda ao dicionário, descobrimos que talento é:

s.m. Nome de um peso e de uma moeda, na antiguidade grega e romana; (fig.) capacidade; inteligência; aptidão natural; engenho; (lus. e bras.) força física; pulso; alento; vigor; pessoa de talento. (Do lat. talentu.)

Várias perguntas imediatas – e talvez alguns esclarecimentos. Nome de um peso e de uma moeda – imediatamente pensamos em valor: será que o talentoso vale quanto pesa? Por outro lado, a parte capacidade, inteligência, aptidão natural nos faz vacilar. O que é natural? Inteligência natural, aptidão natural? Então, a pessoa talentosa seria aquela que faria dança naturalmente? Isso existe?

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Você tem talento?


Algumas pessoas transpõem montanhas com aparente facilidade, outras sequer conseguem organizar o equipamento necessário para a escalada. O fato é que cada um de nós é talentoso para algumas coisas, e evidentemente inapto para tantas outras... Talyta Carvalho retorna explorando um pouco a questão do que é ser genial, ter algum talento e - finalmente - cortar um dobrado para fazer coisas minimamente decentes.

Por Talyta Carvalho

Sou mestranda em fase final de pesquisa. Ora, o que isso quer dizer? Quer dizer apenas que experimento uma mistura de angústia profunda - em razão dos prazos apertados, da cobrança pessoal para fazer um bom trabalho, e etc. – e uma eminência de felicidade intensa – afinal, o fim se aproxima, e ao que tudo indica, sobreviverei!

Ressalva: eu sinto esse mix de sentimentos somente quando não estou em dinâmica de surto, o que acontece com uma freqüência, digamos... ah, deixa pra lá!

Sofro do que os manuais de psiquiatria chamam de TOC? Não consigo parar de reescrever meu texto porque sou vítima de uma insatisfação intelectual crônica; por isso, sempre acho que o texto pode melhorar e fico reescrevendo-o até que uma boa alma me force a parar, (quando não é uma boa alma a cumprir esse papel quem o assume é própria Pontifícia que me manda recados singelos, cujo conteúdo é algo como “sua bolsa acabou, portanto, entregue logo essa dissertação”, mas, evidentemente, escrito com muito mais delicadeza do que eu sou capaz de expressar.)

A pergunta que o leitor deve estar se fazendo, provavelmente, é: “Por que diabos essa garota sofre de insatisfação intelectual crônica consigo mesma”? Respondo: Porque eu não sou talentosa.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

...no, you can't!


Continuação de "You can't have it all".

Há tempos o feminismo enche jovens mulheres de falsas expectativas. A pregação feminista ensina que as mulheres têm sido maltratadas desde os primórdios da humanidade. Enquanto movimento social, o feminismo prega que uma sociedade justa é aquela em que homens e mulheres são tratados igualmente em todas as circunstâncias, muito embora seja razoável pensarmos que devam sim ser considerados de forma diferentes (pequeno adendo a este respeito: duvido que alguma feminista iria querer igualdade caso estivesse presente no naufrágio do Titanic e não houvesse lugar para todos no último bote de salvação. Tivesse o Titanic afundado em tempos pós-revolução feminista, certamente a maioria dos sobreviventes não seria composta de mulheres – aliás, obrigada feminismo por ter nos legado também a morte do cavalheirismo e da gentileza!); enquanto movimento econômico ensina que a verdadeira realização da mulher só pode ser encontrada no trabalho pago.

Deve ficar claro ao leitor que há uma diferença entre feminismo e feminino. O feminismo pode ser também chamado, em razão de sua missão, de “movimento de liberação das mulheres”. "Liberação de quê?", indagará o leitor. Liberação daquilo que se julgou oprimir e diminuir a mulher, a saber: o casamento, o marido, os filhos, o lar. Para uma feminista, exercer essas funções colocava a mulher em relação de inferioridade ao homem, e legitimava a dominação masculina. Para citar Betty Friedan, o lar se configuraria como um “campo de concentração confortável”.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

You can't have it all...


Não poderíamos jamais deixar de polemizar com algumas agruras comportamentais dos séculos XX e XXI. Se hoje é normal quase tudo e se é fato que de perto ninguém normal, estamos, para dizer o mínimo, em uma encruzilhada. Afinal queremos tudo e podemos tudo, mas não seria o comportamento do just do it mais um dos tantos "ismos" que compõem este aguerrido e querido "totalitarismo da vontade" que nos assola? Neste texto, Talyta Carvalho chama para a briga um dos tantos mal-entendidos comportamentais do século XX: o feminismo engajado.

Por Talyta Carvalho

Passei uma semana intensa de estudos, daquelas em que atravessamos madrugadas em claro e nas quais manter-se disposto só é uma possibilidade real quando ingerimos doses cavalares de café e cigarros. Nada de muito grave. Grave mesmo foi perceber o estado em que se encontravam minhas unhas: não havia nelas mera sombra do cuidado que um dia já espelharam.

Decidi que o mestrado deveria ser colocado em suspenso, mesmo que por apenas uma tarde, afinal, era patente que eu me lembrasse de que era mulher. Logo após o almoço, corro para aquele templo do bem-estar feminino, repleto de encanto, cappuccinos e mimos, chamado salão de beleza. Enquanto fazia as minhas patinhas, já me sentindo muito feliz e satisfeita em minha própria pele, noto uma mulher ao meu lado, também fazendo as suas. A única diferença entre nós eram os acessórios que portávamos: eu trazia comigo uma bolsa, dessas que qualquer mulher ligada em moda gostaria de exibir, e um celular do qual não desgrudo; ela trazia consigo uma bolsa igualmente desejável, e... um bebê. Sim, enquanto eu não desgrudava do meu aparelho celular aguardando, ansiosamente, algum sinal de vida no bbm, minha colega não desgrudava daquela mini-pessoa rosinha e gordinha, que ao contrário do meu celular, correspondia todas às suas expectativas e lhe era somente sorrisos gratuitos.

Eu, obviamente, fiquei babando mais do que o próprio bebê ao presenciar aquela relação tão poderosa que acontecia bem diante dos meus olhos. Não pude evitar minha curiosidade e, entre uma bebericada de cappuccino e outra, tomo coragem e inicio uma conversa com a recente mamãe. Pergunto a ela a idade daquela fofura, e ela responde que a fofura em questão não contava mais de seis meses.

Não foi necessário muito esforço de minha parte para que aquela mulher, intensamente apaixonada por sua cria, começasse a falar o quanto estava realizada e feliz. Sim, as palavras são justamente essas: realizada e feliz. Cara leitora feminista: sinto muito ser eu a pessoa a lhe informar, mas a maternidade não é um meio de dominação e opressão de uma sociedade patriarcal. E quanto mais cedo as mulheres perceberem esse engodo, melhor.

A minha colega de salão não era uma mulher sem oportunidades, reprimida, e com poucas opções acerca do que fazer de sua vida. Muito pelo contrário, durante nossa conversa, descobri que ela tinha 32 anos, estudou em bons colégios, cursou Arquitetura na USP, e que possuía um escritório próprio montado com a ajuda do marido. Ela ainda não voltara ao trabalho desde o nascimento do bebê, e afirmou que não voltaria até que a criança começasse a freqüentar a escola, pois queria estar 100% presente durante o seu crescimento. Indaguei o porquê dessa decisão, e a provoquei com interrogações como: “Você não acha que sua carreira será profundamente afetada por essa decisão? Que seu crescimento profissional será prejudicado?”

Ela, serena, responde que eu só seria capaz de entender a grandeza daquela experiência e a razão de tudo o mais ter se tornado, subitamente, secundário no dia em que também me tornasse mãe. Penso que ela está absolutamente certa.

Há tempos o feminismo enche jovens mulheres de falsas expectativas. A pregação feminista ensina que as mulheres têm sido maltratadas desde os primórdios da humanidade. Enquanto movimento social, o feminismo prega que uma sociedade justa é aquela em que homens e mulheres são tratados igualmente em todas as circunstâncias, muito embora seja razoável pensarmos que devam sim ser considerados de forma diferentes (pequeno adendo a este respeito: duvido que alguma feminista iria querer igualdade caso estivesse presente no naufrágio do Titanic e não houvesse lugar para todos no último bote de salvação. Tivesse o Titanic afundado em tempos pós-revolução feminista, certamente a maioria dos sobreviventes não seria composta de mulheres – aliás, obrigada feminismo por ter nos legado também a morte do cavalheirismo e da gentileza!); enquanto movimento econômico ensina que a verdadeira realização da mulher só pode ser encontrada no trabalho pago.

Deve ficar claro ao leitor que há uma diferença entre feminismo e feminino. O feminismo pode ser também chamado, em razão de sua missão, de “movimento de liberação das mulheres”. "Liberação de quê?", indagará o leitor. Liberação daquilo que se julgou oprimir e diminuir a mulher, a saber: o casamento, o marido, os filhos, o lar. Para uma feminista, exercer essas funções colocava a mulher em relação de inferioridade ao homem, e legitimava a dominação masculina. Para citar Betty Friedan, o lar se configuraria como um “campo de concentração confortável”.

Já o que é feminino é de outra ordem, totalmente diversa. Uma mulher feminina (não feminista) nos tempos atuais é aquela que aprecia ser mulher em todas as suas particularidades e diferenças, que está ciente de que pode realizar-se em diversas carreiras de sua opção, inclusive a carreira doméstica de mãe e esposa. Sei que não estou sendo original, muito antes de mim, mulheres como Phyllis Schlaflly e Carolyn Graglia, por exemplo, já haviam dito o mesmo. De fato, pode-se encontrar lucidez em toda parte, até mesmo entre as feministas: para citar apenas duas sugiro Naomi Wolf e Susan Pinker (link fechado para assinantes UOL).

O que minha colega de salão percebeu foi a urgência de estar perto e cuidar de seu bebê por todo tempo que fosse possível. Talvez, o que ela pretenda evitar seja o já tão batido arrependimentos das mães que se focaram em suas carreiras, e por isso, precisaram entregar seus filhos aos cuidados de babás e creches. De fato, no momento derradeiro ninguém pensa “Eu gostaria de ter passado mais tempo no trabalho”. O que a maternidade traz é um apelo milenar cujo conteúdo não trata somente da criança precisar da mãe, mas também da mãe precisar da criança. E isso está além de qualquer suposta opressão social. Culpem Deus... ou Darwin, tanto faz. Mas que é assim é!

Evidente que não estou propondo uma revolução feminista ao contrário, tampouco está se dizendo aqui que todas as mulheres devam abandonar suas carreiras por todo sempre para serem mães. Apenas proponho que as mulheres de hoje, principalmente as mais jovens, exerçam sua faculdade reflexiva e ajam com ceticismo mediante propostas feministas falaciosas que fazem crer ser possível ter tudo depois de obter sucesso profissional. O fato é que muito provavelmente o mundo não será seu, e escolhas deverão ser feitas a respeito do conflito “carreira X maternidade”.

O problema da escolha não está no que você escolherá para si propriamente, mas sim, no que escolherá abrir mão.

Por Talyta Carvalho
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