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terça-feira, 16 de agosto de 2011

Observatório Ocidentalismo


Curto quando o Reinaldo Azevedo faz pequenas viagenzinhas. A de hoje é especial para mim pois acabei de recomendar o livro a amigos e alunos. Me diverti com a coincidência.

***
Por Reinaldo Azevedo:

Se o leitor ainda não o fez, deve fazê-lo: ler “O Visconde Partido ao Meio”, do escritor italiano Italo Calvino. Não chegará a ser o seu livro de cabeceira, mas se ganha bastante em poucos mais de 100 páginas. Coisa para duas ou três horas de um daqueles domingos que, muitas vezes, se desenrolam sem motivo aparente… Vocês conhecerão o Visconde Medardo di Terralba, que foi combater os turcos. Um tiro de canhão o rachou ao meio, na vertical. Uma parte, a direita, volta para a casa. Era a metade perversa, má no limite do tédio… dos outros! Depois de algum tempo, suas vítimas já haviam se acostumado com suas perversidades. Até que chegou o lado esquerdo, que havia sido cuidado por monges. Era de uma bondade… insuportável!!! Chamavam-no “o vagabundo”. As duas partes acabarão duelando pelo amor de Pamela. O resto, vocês conferem no livro.

Muitos quiseram decifrar o sentido metafísico do Visconde de Calvino. Até se tentou uma leitura política, com a “direita má” e a “esquerda boazinha”, ambas impróprias para o convívio humano. “Reunidas” as metades do marquês, nem por isso se formou uma inteireza. Somos, os homens, assim mesmo: não cindidos em duas partes, mas em muitas. “Nada do que é humano me é estranho”, escreveu Terêncio. Porque não é, somos levados a fazer escolhas, que acabam determinando com quais pessoas decidimos viver e que moralidade nos serve. Aos escolher os outros, escolhemos o nosso próprio caminho. Potencialmente, podemos ser o monstro moral da metade má ou o abestalhado da metade boa; podemos atormentar os outros tanto com o nosso egoísmo com nossa generosidade. Nada pode crescer à volta de um e de outro; um mata com o seu fel; o outro, com o seu mel. Mas que não se conclua apressadamente que a virtude está no meio, no doce-amaro, na indefinição. A “verdade”, qualquer que seja ela, está no conjunto. A razão tem de domesticar, a cada dia, a besta cínica e a besta crédula que há em nós.

Por que me lembrei de Calvino? Será Dilma Rousseff “a presidente partida ao meio”? (...)

Na íntegra aqui.

por Leandro Oliveira

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O interesse no mundo de V.S. Naipaul - ou, um jornalista trapalhão

Acaba de ser lançado pela Companhia das Letras "A Máscara da África" de V.S. Naipaul. Semana passada, Walter Oppenheimer realizou a seguinte entrevista com o recluso autor, a conta do lançamento do livro na Espanha, para o El País:

Vidiadhar Surajprasad Naipaul, más conocido como V. S. Naipaul, o Sir Vidia, no está de buen humor en esta soleada mañana de lunes. En realidad, al decir de la documentación consultada para preparar esta entrevista, Sir Vidia casi nunca está de buen humor. Esta mañana, desde luego, no. Está sentado, bastón en mano, en un sillón más bien angosto para su notable humanidad en una luminosa y acogedora sala de estar de su cottage en Wiltshire.

No es fácil llegar hasta allí. Una hora y media en tren de Londres a Salisbury y veinte minutos en taxi hasta Salterton. Los veinte minutos se transforman en media hora larga: ni el taxista ni el satélite parecen saber dónde está el cottage. ¿Será este de aquí? No, no parece. Un coche bloquea la carretera, no hay ni siquiera un rótulo con el láctico nombre del lugar, la casa parece cerrada. Llamada a Londres, aclaraciones, segundo intento: sí, era ahí.

Y ahí está Sir Vidia (Trinidad, 1932), premio Nobel de Literatura en 2001, elevado por algunos al altar de mejor escritor británico vivo. Quizás lo fue. Pero leyendo La máscara de África. Un viaje por las creencias africanas (Mondadori), nadie diría que lo sigue siendo. Los que saben de África no parecen muy impresionados. Y los que no sabemos, tampoco. Naipaul nos cuenta que África es sucia, sus ciudades superpobladas, que la religión nativa es buena pero es mala pero es buena, que en cuanto te descuidas los chamanes y los taxistas te van a cobrar más de lo debido...

No está claro si Sir Vidia está molesto por los 10 minutos de retraso o por la presencia al parecer inesperada de la fotógrafa. O quizás le dure el disgusto por las malas críticas que el libro recibió cuando apareció en Inglaterra el año pasado. "Es insensible, aburrido, nada esclarecedor y mal escrito", escribió Emily Witt en The Observer. "Tóxico, poco investigado, sin verificar", opinó en The Sunday Times Robert Harris, a quien algunos pasajes le recuerdan al político fascista Oswald Mosley "cuando se presentó a las elecciones en Notting Hill en 1959 acusando a los hombres negros de África de comer carne de perro y mantener a las mujeres encerradas en los sótanos".

Quizás Sir Vidia está de mal humor porque no le apetece ver a un periodista precisamente ahora, cuando unas declaraciones suyas declarándose superior a las mujeres escritoras han despertado los viejos fantasmas sobre su carácter, descrito con inusitada crudeza por Patrick French en 2008 en una biografía autorizada que retrata a un hombre egocéntrico, vanidoso, inseguro, extraordinariamente cruel con su primera mujer, Pat, fallecida de cáncer en 1996.

O quizás no le apetece perder el tiempo con un interlocutor al que adivina inculto y sin nivel para analizar su literatura. Él, hijo de periodista mediocre, parece aborrecer la profesión. Y, sin embargo, sus libros de viaje tienen mucho de periodísticos: ir, preguntar, generalizar...

La entrevista va mal. Desde el primer instante. No hay química. La mirada de Sir Vidia destila cada vez más impaciencia, más desprecio. Sus respuestas secas, cortas, sin ninguna complicidad, desarman al periodista. La provocación de hurgar en su pasado personal agota la escasa paciencia del autor. Sir Vidia no grita: pero corta el aire con el desdén de sus gestos, su lengua de acero, su inglés inmaculado. Al final se niega a moverse del sillón para la sesión de fotos con Ione Saizar. ¿Problemas de movilidad de un hombre de casi ochenta años o rabieta de artista endiosado? Al día siguiente, la venganza: no autoriza la publicación de las fotos. Está acostumbrado a quedarse con la última palabra.

PREGUNTA. O sea, que usted es la persona de la que todo el mundo tiene miedo.

(...)

Na íntegra aqui.

por Leandro OLiveira

terça-feira, 19 de julho de 2011

Arte e violência, um livro



por Leandro OLiveira

Uma indicação proveitosa a todos os interessados no tema "violência" e "arte" parece ser o livro "The Art of Cruelty" de Maggie Nelson. No New York Times Sunday Book Review:

(...) Of course, the aesthetic program of cultural modernism has long been summed up by the maxim épater la bourgeoisie. Rather than taking this directive for granted, Nelson delves into the varieties of cruelty perpetrated on us bourgeois for our supposed betterment, what the art critic Grant Kester has called the “orthopedic aesthetic.” The art of cruelty aestheticizes violence, in not necessarily scrupulous ways. It can be reckless and scattershot, provoked by the desire to make others feel as bad as the sufferers of injustice and trauma whose experiences are vicariously borrowed by artists shopping for shocks. It bludgeons audiences into getting the point. It’s responsible for a century of art-world Nurse Ratcheds, wielding jolts of aesthetic electroshock therapy and taking unseemly pleasure at rubbing people’s noses in pain. (...)

Para ler a crítica na íntegra, clique aqui.

Para encomendar o livro, clique aqui.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Mahler e a morte


por Leandro Oliveira

Após a releitura de trechos da biografia de Quirino Principe sobre Mahler (quase mil páginas!), é do psicanalista Dr. Stuart Feder o mais recente livro dos meus desejos. Chama-se Gustav Mahler - a Life in Crisis e, para muito além de dissecar o famoso encontro com Freud, revela parte intrincada das referências neuróticas de Mahler - e principalmente, como estas neuroses se traduzem em sua música. Deveria ter um pouco disso no Falando de Música desta semana, quando a Osesp apresenta a Quinta sinfonia do compositor... a ver.

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It was the crisis of 1901 when the composer believed he faced death that the theme of mourning made its most prominent appearance in his music. It was the very next summer that the composer began his Kindertotenlieder. It was characterized by well-known stylistic changes as seen in the Fifth Symphony of the time. Clearly the Wunderhorn years were over as Mahler wrote the last of the Wunderhorn songs and turned to Rückert texts. In Kindertotenlieder, only a shadow behind the deaths of children one finds the theme of the bereavement and mourning of the parents. Biographically, Mahler has revived his identification with his own parents and the multiple deaths of his siblings. This artistic and personal trend was accompanied by an astonishing change in Mahler’s actual life. Suddenly, the confirmed bachelor was ready for marriage and soon after he met Alma Schindler in the fall, marriage rapidly became a foregone conclusion. I believe the forty-one-year-old bachelor, frightened by the passage of time and his own mortality, sought the common immortality of man: the wish to have a family of his own. Thus the importance to him of marriage and the anticipated birth of his first child. Hence, all the more intense the loss that that destiny had in store.

Stuart Feder in "Mahler, Mourning and Consolation".

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Debussy tende il proprio linguaggio fin quasi a spezzarlo senza mai spezzarlo, assotigliandolo miracolosamente e rivelando la resistenza. Mahler lo infrange continuamente, ma sui frammenti accampa qualcosa di solido, e la costruzione galleggia. Motivi estetici e una morale ironica dettano forme e movimenti alla musica di Debussy: essa somiglia allo svanire evaporando, ma una sorgente la rigenera sempre. Malgrado questo, o proprio per questo, essa gira continuamente intorno al senso de distruzione e di morte, anche nei suoi luoghi più incantati. Intorno alla distruzione e alla morte gira anche la musica de Mahler, ma in modo diverso: tentando una formula, dirò che il tono generale di Mahler è la tarda maturità che si avvicina ai limiti della decomposizione senza mai toccarli. L'inferiorità di Mahler rispetto a Debussy ha un'origine prima: in Mahler il tema della morte è molto più esplicito. Manca a Mahler la vera ironia: c'è l'autoironia (che può, scivolando malamente, ribaltarsi in autocommiserazione) oppure il sarcasmo. Mahler non riesce ad essere ostile né freddo: lo guasta un nefasto "amore" per gli uomini, da cui Debussy è luminosamente immune.

Quirino Principe in "Mahler - La Musica tra Eros e Thanatos".

terça-feira, 5 de abril de 2011

Sobrevivência e companhia


L'inferno dei viventi non è qualcosa che sarà; se ce n'è uno, è quello che è già qui, l'inferno che abitiamo tutti i giorni, che formiamo stando insieme. Due modi ci sono per non soffrirne. Il primo riesce facile a molti: accettare l'inferno e diventarne parte fino al punto di non vederlo più. Il secondo è rischioso ed esige attenzione e apprendimento continui: cercare e saper riconoscere chi e cosa, in mezzo all'inferno, non è inferno, e farlo durare, e dargli spazio.

O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de não vê-lo mais. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: buscar e saber reconhecer quem e o que, no meio ao inferno, não é inferno, e preservá-lo, e dar-lhe espaço.


Italo Calvino (As cidades invisíveis, 1972)

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Une grande aventure vers la lumière


por Juliana Perez

Hans Scholl tinha 24 anos quando condenado à morte na manhã do dia 22 de fevereiro de 1943. Foi executado na tarde do mesmo dia. Suas palavras diante da guilhotina foram: “viva a Alemanha, viva a liberdade”.

Não significa escapismo falar em liberdade interior quando a exterior falta. Pois foi pela liberdade civil que os irmãos Scholl e os demais integrantes de "A Rosa Branca" entregaram a vida - a liberdade interior eles já possuíam. Três cartas.

Em serviço militar em Stetten, a sua irmã Inge, em 27 de junho de 1938:

No bolso interno do casaco levo um botão de rosa. Preciso desta pequena planta porque ela é “o outro lado”: muito distante dessa vida de soldado, e no entanto não contraditório a ela. É preciso sempre carregar consigo um pequeno segredo, sobretudo com os camaradas que tenho aqui.

A Rose Nägele, em 28 de outubro de 1941, meses antes de começar a escrever os panfletos:

Encontro-me em uma crise espiritual, a mais importante da minha vida, e é compreensível que eu a leve a sério e não me console com paliativos burgueses. Por sorte tampouco preciso de algum. Encontro-me em um estado de alma ao qual não pode vir nenhuma ajuda de fora, pois eu, no meu interior mais profundo, já o superei, reconheci e estou feliz. Que paradoxo! Minha cabeça dói, embora eu esteja feliz. É a felicidade do vencedor que já antecipa o final da luta.

Esta guerra é (como todas as guerras significativas), na sua verdadeira essência, uma guerra espiritual; às vezes parece que o meu pequeno cérebro é o campo de batalha de todas essas lutas. Não posso ficar de fora, pois de fora não há felicidade, pois sem verdade não há felicidade – e esta guerra é, no fundo, uma guerra pela verdade. Todos os tronos impostores devem cair – isto é o mais doloroso –, para que o que é autêntico apareça sem falsificações. Eu não estou falando do ponto de vista político, mas pessoal, espiritual. Fui obrigado a fazer uma escolha.


A Rose Nägele, em 16 de fevereiro de 1943, dois dias antes de sua prisão na Universidade de Munique:

Hoje eu devo ser como eu sou. Estou interior e exteriormente distante de você, mas nunca, não sou um estranho. Meu respeito pelo seu coração puro nunca foi tão grande como nesses dias, em que a vida se tornou um risco constante. Mas por eu ter escolhido o perigo, preciso ser livre e não ter vínculos, e ir para onde eu quero ir. Já andei por muitos caminhos errados, e eu sei, abrem-se abismos, a noite mais profunda envolve meu coração – mas eu mergulho nela. Como são grandes as palavras de Claudel: La vie, c’est une grande aventure vers la lumière.

Post scriptum: Os trechos de cartas foram retirados do livro Hans Scholl und Sophie Scholl. Briefe und Aufzeichnungen. Hrgs. Inge Jens. Frankfurt a. M.: Fischer, 2005. (pags. 23; 29; 85 e 143, respectivamente). Não há tradução do livro para o português.

sábado, 2 de abril de 2011

Filosofia e Polvos

por Academic Minute

Dr. Peter Godfrey-Smith é professor de filosofia da Harvard University e suas áreas de interesse e pesquisa incluem a filosofia da ciência e a filosofia da mente. Ele é autor de "Complexity and the Function of Mind in Nature" e "Theory and Reality: An Introduction to the Philosophy of Science".

Para o posto original em sua versão de áudio, clique aqui.

Em que polvos interessam à Filosofia? Interessam à parte que se preocupa com a mente. Para entender porque, demos um passo atrás e pensemos sobre as conexões evolutivas entre todos os seres vivos.

Biólogos imaginam tais relações a partir de uma "árvore da vida". Trata-se de uma enorme estrutura em forma de árvore onde cada espécie é relacionada aos parentes próximos e conectadas a outras mais distantes. Os vertebrados formam um ramo da árvore, e ali é onde encontramos praticamente todos os animais de cérebros grandes e complexos. Entre estes estamos nós, outros mamíferos e pássaros - em termos evolutivos, somos primos.

Na enorme área da árvore que contém outros animais, invertebrados, há apenas um ramo onde podemos encontrar cérebros desenvolvidos. Nele estão os cefalópodes - polvos, sépias e lulas.

Os sistemas nervosos foram desenvolvidos separadamente nestes dois ramos e em nenhum outro. Polvos são um experimento distinto na evolução da mente: encontrar um é como encontrar um ser extra-terrestre.

Pois o que tal experimento produziu? Aqui está uma coisa: o sistema nervoso de um polvo é menos centralizado que o nosso. Na verdade, mais da metade dos neurônios do animal não está no cérebro central do bicho, mas nos seus oito tentáculos. É como se cada braço tivesse um cérebro para si. Ou talvez em um polvo haja inteligência sem um self unificado.


Retirado de Academic Minute Home.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Observatório Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Dica imperdível, o lançamento de "Herege" de G. K. Chesterton. Ieda Marcondes faz uma pequena apresentação:

“Hereges” apresenta vinte capítulos, cada um destinado a uma figura ou tendência moderna. Assim, o autor discute Rudyard Kipling, Bernard Shaw, H.G. Wells, o Comtismo, o “carpe diem” dos estetas, o Novo Jornalismo, a comunidade científica, entre outros. Para cada caso, ele emprega uma perspectiva teológica, analisando sua heresia e ressaltando a importância da ortodoxia. Dessa forma, Kipling é um herege por ser um cidadão do mundo, por não ter tempo ou paciência de se fixar definitivamente em nenhum lugar, ele representa o cosmopolitismo da sociedade moderna que avança e expande sem saber que a vida acontece quando nos enraizamos, quando nos prendemos em determinada causa ou comunidade; Shaw é um herege por não aceitar os humanos como são, por comparar homens com super-homens, com deuses ou gigantes, quando o segredo do cristianismo, e mesmo do sucesso em vida, está na humildade; Wells é um herege por duvidar do pecado original e da possibilidade da própria filosofia ao dizer que é impossível encontrar idéias seguras e confiáveis, que tudo sempre muda, mas são apenas as aparências que mudam, as idéias permanecem sempre as mesmas.

Na íntegra aqui.

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Resenha sobre o último livro de V. S Ramachandran - que sempre traz boas perguntas sobre arte e o nosso cérebro.

Twenty percent of art can now be explained by neuroscience. That, at least, is what V.S. Ramachandran thinks. Ramachandran is the Director of the Center for Brain and Cognition, and Distinguished Professor with the Psychology Department and Neurosciences Program at the University of California, San Diego. He is, in short, one of the top neuroscientists around at the moment. He is also a clear and engaging writer. His 1999 book, Phantoms in the Brain, brought him much popular attention and his most recent book, The Tell-Tale Brain, is doing more of the same.

Na íntegra aqui.

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As raízes históricas e culturais do Yoga em uma belíssima resenha de Wendy Doniger

Some American Hindus have recently argued that Hindus should “Take Back Yoga”. The Hindu American Foundation insists “that the philosophy of yoga was first described in Hinduism’s seminal texts and remains at the core of Hindu teaching”, that yoga is the legacy of a timeless, spiritual “Indian wisdom”. Other Americans agree that the Hindus should take back yoga – from the many Christians who embrace it: R. Albert Mohler Jr, president of the Southern Baptist Theological Seminary, advises Christians to abandon yoga if they value their (Christian) souls. This fight evokes for me the Monty Python skit in which Greek and German philosophers compete in a football game (which ends with Marx claiming that the Greek goalscorer was off-side). Declaring the Southern Baptists (or at least the Revd R. Albert Mohler) off-side, we may still ask, why do so many American Hindus care so much whether yoga is Hindu? And is it?

Na íntegra aqui.

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Os amigos do Falando de Música lembraram; em homenagem à Liz Taylor, uma passagem do filme "Rhapsody" - no trecho, o concerto para violino de Tchaikovsky que a Osesp tocou neste final de semana.


sexta-feira, 25 de março de 2011

Dezoito quilômetros de mulher nua

por Nelson Rodrigues

A barriga do Chacrinha é uma paisagem. Digo isso e paro. Não ia começar com o homem da buzina e sim com Dostoievski. (Chacrinha virá depois.) Eis o que eu queria dizer: — num aniversário da morte de Pushkin, o romancista fez-lhe um discurso. Falou uma hora, duas, sei lá. E o discurso foi uma alucinação. O olhar de Dostoievski vazava luz como o de um santo. Pushkin foi apresentado como um profeta. O poeta tem de ser profético ou não é poeta. E o que anunciava Pushkin? A Nova Rússia. Sim, anunciava uma Rússia que se virava e revirava no ventre do tempo. E essa Rússia ainda não revelada diria ao mundo a grande Palavra Nova. Foi isso, se bem me lembro, o que disse Dostoievski.

E, quando acabou, o auditório enlouqueceu. As pessoas se abraçavam, as pessoas se beijavam. Havia um choro unânime, um gemido geral e grosso, como que vacum. Uns trepavam nas cadeiras, outros as cavalgavam. Um velhinho soluçava: — “Quero morrer, quero morrer”. Ninguém entendia essa brusca e senil nostalgia da morte. E uma moça, de uma beleza jamais concebida, veio do fundo do salão. Caminhava, ereta, de fronte alta, como uma sonâmbula.

E, diante de Dostoievski, cai-lhe aos pés. Foi terrível o que se viu. Ela curva-se e beija as botas do romancista. Depois levanta-se e desaparece, para sempre, como se jamais tivesse existido. De repente, todos sentiram que o profeta não era Pushkin, mas Dostoievski. Era ele que via a Rússia ainda uterina, a Rússia não nascida.

Passo finalmente ao Chacrinha. Disse eu, no início da presente confissão, que a sua barriga é uma paisagem. Mas o que me importa, mais do que essa plenitude do ventre, é o ordenado do Chacrinha. Já disse e aqui repito: — seu ordenado deflagra, no momento, toda uma indignação nacional. Oitenta milhões por mês.

A princípio ninguém acreditou. Nenhum brasileiro merecia tanto. Mas chegou um momento em que a evidência varreu a última dúvida. Era a pura, santa e imaculada verdade. Lembro-me de colegas que, na redação, abriam os braços para o céu: — “Como pode? Como pode?”. Cabe então a pergunta: — e onde nasceu a primeira irritação? Resposta: — nas esquerdas.

Não sei que crudelíssimo fatalismo está sempre a empurrar as nossas esquerdas para o erro, para o equívoco, para a alienação. Um brasileiro ganha oitenta milhões. As esquerdas deviam estar exultantes. Sim, elas deviam sonhar com um Brasil de Chacrinhas. Seríamos oitenta milhões a ganhar oitenta milhões.

Mas as esquerdas não aceitam o Chacrinha ou, melhor dizendo, não aceitam o salário do Chacrinha. É o salário, e não vagos preconceitos éticos e estéticos, que explica o feio, o torvo ressentimento. Num domingo recente saiu um imenso ensaio, quase uma página inteira, em corpo seis. Seu autor era, justamente, uma flor das esquerdas. E metia o pau no Chacrinha, e não só no Chacrinha: — também na música popular, na escola de samba, no Chico Buarque, no Fla-Flu e, por fim, no sexo.

O esquerdista negava tudo o que o brasileiro adora. Li aquilo e saí perguntando: — “Você gosta de sexo? De música popular? De futebol?”. E, de repente, relendo o tal artigo, percebi por que a nossa esquerda não se comunica com ninguém e vive na mais obtusa solidão. Repito: — a nossa esquerda só fala, escreve, gesticula e só doutrina para si mesma. Por isso é que no 31 de março e no 1º de abril ela ficou mais só do que um Robinson Crusoé sem radinho de pilha.

Claro que no caso dos oitenta milhões há uma unanimidade. Até o Walther Moreira Salles está em pânico. Se um brasileiro passa a ganhar oitenta milhões mensais, algo mudou ou vai mudar. Semelhante fato não pode ser intranscendente. Por trás dessa abundância salarial esconde-se alguma ameaça apavorante.

Foi isso, mais ou menos isso, o que eu disse ao Otto Lara Resende; e foi isso, mais ou menos isso, o que ele me disse. Ontem, almoçamos juntos; o Hélio Pellegrino foi a terceira presença. E depois saímos. O Hélio foi para o consultório. Vim para a cidade na carona do Otto. Propus-lhe um itinerário praiano para pôr uma paisagem no nosso papo. Seguimos então a orla que vai do Forte ao Leme. O Otto bramava: — “São os mais lindos brotos do mundo. Olha ali, rapaz, olha!”.


“E o Chacrinha?” — perguntará o leitor. Já voltaremos a ele. Por enquanto, abro um parêntese paisagístico. O Otto reagia como se ele fosse a Idade Média atirada no meio dos umbigos em flor. Ele próprio reconhecia: — “Eu sou a Idade Média!”. E íamos dizendo, um ao outro, que somos o povo mais lindo do mundo. O Otto gemia: — “Dezoito quilômetros de mulher nua!”. Sentíamos que essa nudez, múltipla, molhada, inédita no mundo, era o aviso de um Brasil novo.

Há dois Ottos: — um, público, e outro, do terreno baldio. E poucos provam do bom, do legítimo, do escocês Otto secretíssimo. Ah, o que ele disse da esquerda. Claro que a esquerda tem o direito de ser esquerda. O que lhe negamos é o direito de ser tão inepta, tão incompetente, tão irrealista, tão alienada do Brasil e, repito, tão antibrasileira. Examine-se um esquerdista. Ele não chove uma chuva própria. Pensa “idéias feitas”, diz “frases feitas”, sente “sentimentos feitos”. Seu ódio aos Estados Unidos não é realmente um ódio, um sentimento, uma paixão. Não. É uma Palavra de Ordem. Se aqui faz calor, e nos Estados Unidos, frio, foi o imperialismo norte-americano que roubou a nossa neve e a faz chover como papel picado.

E já que o Otto chovia a própria chuva, eu quis chover a minha. Voltamos ao Chacrinha. Perguntei-lhe: — “E o padre Ávila?”. Que fazia o padre Ávila ou que faziam os outros sociólogos? Os oitenta milhões de Chacrinhas eram um dado sociológico gravíssimo. Não é por acaso que um brasileiro, altamente subdesenvolvido, passa a ganhar oitenta milhões. Minto, minto. O Chacrinha vai ganhar cem. Não mais oitenta. Cem milhões. Quem o afirma é, não o Otto público, inautêntico, das salas, mas o luminoso Otto do terreno baldio. A partir da Primeira Missa até a semana passada, o brasileiro não ganharia tanto, nem juntando cada vintém de várias encarnações. Hoje, em trinta dias, o Chacrinha vai ganhar cem milhões.

Eis o que eu queria dizer: — isso significa que começou todo um processo. Certas coisas não acontecem de graça. Há, nos milhões de Chacrinhas, um toque de mistério. Ou por outra: — é um mistério não tão misterioso, Se a nossa sociologia limpasse a poeira das próprias lentes, veria o óbvio ululante. Na verdade, o salário do Chacrinha é, para nós, o que Pushkin foi para a Rússia. Sim, o salário do Chacrinha profetiza um Brasil que vem por aí com uma saúde de centauro.

Foi isso o que eu disse ao Otto, foi isso o que o Otto me disse. O amigo me deixou na porta de O Globo. Assim me despedi: — “Até logo, Idade Média”. Ainda fiquei, por um momento, em cima do meio-fio vendo sumir na primeira esquina o seu medieval Fusca.


Retirado do livro "O Óbvio Ululante".

quinta-feira, 24 de março de 2011

Passagem de si


O mundo, para ele, se encolheu até ficar do tamanho de sua sala e, durante o tempo que for necessário para que ele venha a compreender isso, precisa ficar onde está. Só uma coisa é certa: não pode estar em nenhum outro lugar, seria absurdo para ele pensar em procurar um outro.

Paul Auster, “A Invenção da Solidão“.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Magistério e apostolado

Há muito tempo escutamos que o dilema da educação está nos baixos salários - ao lado da falta de "computadores na sala-de-aula", parece não haver outro problema na área, viciada em um discurso-lamento pela falta de incentivos do ponto de vista financeiro. Não estará faltando uma outra peça no quebra-cabeças? Rodrigo de Lemos mostra que sim.

por Rodrigo de Lemos

Não consegui chegar ao fim das memórias de Marcel Pagnol – apesar do clima M. Hulot de algumas páginas, sempre acho vagamente irritantes essas memórias de infância que não a minha. E, contudo, acho memorável o segundo capítulo de "La Gloire de mon père", no qual Pagnol, lembrando o pai instituteur, descreve o espírito das escolas na Terceira República francesa. As Écoles Normales, para transferir da Igreja ao Estado a responsabilidade pela educação, faziam dos candidatos a professores os modelos morais para os jovens da República. Eram campanhas anti-fumo (já então), anti-álcool, anti-adultério, discursos sobre a missão civilizatória dos mestres laicos, sobre o apostolado da ciência e do progresso – tudo para roubar aos padres o papel de exemplos para a nova sociedade. Não creio que o fim fosse o mais nobre, mas o meio não deixou de ser eficiente: a criação de uma classe devotada à causa laica, desdenhosa de riquezas, de vantagens pessoais, unida por um discurso coeso e obstinado, que viu triunfarem seus ideais na crise de 1905 (com a separação entre Igreja e Estado).

Nada disso combina com a imagem de professores a que nos acostumamos no Brasil e, em menor medida, também na França, imagem de gente insatisfeita com o salário, com a quantidade de trabalho, com a “desvalorização” da profissão. Como se contadores ou despachantes comerciais só vissem espinhas curvadas pelos caminhos, tal conquistadores em Alexandria.

Muito disso é exagero. Não tiro os motivos para choro dos que ganham pouco demais, mas a maior parte dos professores que conheci não tem salários muito menores do que os de outras profissões de classe média. O problema é que há um discurso, muito freqüente entre políticos e gente que precisa de votos, de que o destino da educação e, com isso, o futuro da sociedade dependem unicamente de um fator: o aumento dos salários. Educação, ao que parece, depende de “investimento”, e “investimento” quer dizer aumento para os professores, multimídia nas escolas. Por alguma virtude mágica, o mero contato com as telas de computador despertaria o intelecto adormecido dos alunos como uma donzela por um beijo de príncipe, o aumento na conta bancária dos professores desenvolveria neles um rápido e irresistível interesse por teoria da energia escura ou pelas pesquisas sobre o panteão indo-europeu, e eles torrariam o décimo terceiro e o terço de férias com DVDs de ópera ou com livros de lógica modal.

O investimento realmente imprescindível a um professor é o de seu próprio tempo, para estudar, e qualquer aumento de salário só se justifica na medida em que permita ao professor trabalhar menos e estudar mais. O magistério se assemelha, do ponto de vista da atividade, mais a um ministério, a um apostolado, do que a uma profissão como as outras. Dentistas, gerentes de banco não dispõem de horas e horas diárias da atenção total de 30, 40 pessoas ao mesmo tempo, horas durante as quais eles podem usar como quiserem da palavra, deitar erudição ou contar fofocas íntimas, persuadir os outros do que pensam. Só professores são assim, professores e padres. Mas esse privilégio, às vezes desconfortável, tem sua contrapartida, e, como padres, professores devem se acostumar a ambições materiais mais modestas, a condições de vida decentes, mas frugais; espera-se que a curiosidade intelectual, e que a possibilidade de sustentar-se disso, ofereça o surplus de satisfação que, em dentistas ou gerentes de banco, vem de ganhar melhor.

Pode ser que as reclamações se justifiquem quando a quantidade de trabalho obstrui o estudo, mas o número de professores frustrados por não terem ficado ricos, por não poderem consumir tanto quanto o primo empresário ou cirurgião, ultrapassa o razoável. Falta o mépris des richesses de que fala o Pagnol, aquele desdém pelos objetos de desejo das massas, aquela indiferença que experimentamos quando temos uma vida interior razoavelmente desenvolvida. Muito da insatisfação acabaria por aí. Professores do século XIII subsistiam com menos que professores de escola pública, vivendo de vaquinhas dos alunos, sem poder casar, sem estabilidade, sem três meses de férias. E – vejam só – foram esses pobres coitados, esses semi-indigentes, que elaboraram a escolástica.

PS: Este texto (original de 3 de fevereiro) havia sido retirado de nossos provedores no atentado do dia 11 de março. Como trata-se de matéria pertinente, e um dos posts mais queridos por todos nós, coloco-o novamente na primeira página.

domingo, 20 de março de 2011

Meninos (como Homens) em tempos sombrios


por Juliana Perez

Agora o que conta é reencontrar-se, iluminar-se reciprocamente, de pessoa a pessoa...

A frase foi escrita em 1942, alguns meses antes da decapitação de um de seus autores. Não se trata de escritores nem de filósofos ou de cientistas importantes, tampouco de grandes homens de Estado ou de revolucionários titânicos. Hans Scholl (1918-1943) estudava medicina na Universidade de Munique e – com sua irmã, Sophie (1921-1943) e um amigo, Christoph Probst (1919-1943) – foi acusado de alta traição ao regime nacional-socialista. Alexander Schmorrell (1917-1943), segundo autor da frase acima, Willi Graf (1918-1943), Kurt Huber (1893-1943), seu professor de filosofia, e outras dez pessoas foram condenadas à morte dois meses mais tarde.

Hans, Sophie, Christoph, Schmorell, Graf e Huber formavam o núcleo do movimento de resistência que ficou conhecido como "A Rosa Branca" (Die Weiße Rose). Sobre ele há dois filmes: o primeiro "Die Weiße Rose" (1982) dirigido por Michael Verhoeven, é baseado em documentos pertencentes às famílias dos envolvidos e teve ampla repercussão na Alemanha; o segundo, "Sophie Scholl: The Final Days" (2009), concentra-se nos dias que antecedem a prisão dos integrantes da Rosa Branca e focaliza a comovente experiência de Sophie Scholl. O roteiro utiliza documentos ainda não conhecidos nos anos oitenta - reproduzidos quase literalmente em vários diálogos do filme (no interrogatório, por exemplo).


As primeiras informações sobre a "Rosa Branca" tornaram-se conhecidas graças ao livro da irmã mais nova de Hans e Sophie, Inge SCHOLL, "Die Weiße Rose" (Frankfurt a. M.: Fischer, 2001). O livro é amplamente conhecido na Alemanha, em muitas escolas ainda está na lista de leituras obrigatórias.

Em tempo: houve outros movimentos de resistência ao nacional-socialismo na Alemanha – a Jüdischer Kulturbund, o Kreisauer-Kreis, Schulze-Boysen/Harnack Organisation, por exemplo. De diversas tendências políticas e religiosas, procuravam se opor ao regime da forma como lhes era possível: todos eles foram mais cedo ou mais tarde violentamente reprimidos pelo regime. Mais informações? Veja o estudo de Corina Petrescu, "Against All Odds: Subversive Spaces in National Socialist Germany" (Oxford et. al.: Peter Lang, 2010).

Quanto ao grupo "A Rosa Branca", o que faz dessas seis pessoas – que talvez contassem com a colaboração de vinte ou cinquenta estudantes dos cerca de oito mil inscritos na Universidade de Munique – algo especial?

Em primeiro lugar, a quase ingenuidade de suas ações: entre junho de 1942 e janeiro de 1943, os estudantes redigiram e distribuíram panfletos de crítica ao regime. Dos primeiros panfletos foram feitas cem cópias, do último, entre duas ou três mil. Os pesquisadores costumam dividir as ações dos estudantes em 3 fases: a que inclui a redação dos quatro primeiro panfletos, que exortavam à resistência passiva; a segunda fase acontece após a volta dos estudantes do front; e a última fase, que incluiu pichações de muro pela cidade de Munique – ato temerário na época –, e o último panfleto, que causou a prisão. Os panfletos impressionam tanto por unirem a reflexão filosófico-existencial a uma corajosa análise política, quanto por expressarem a convicção de que qualquer mudança social só seria possível a partir do momento em que a responsabilidade pessoal diante dos acontecimentos fosse plenamente assumida.

Mas a falta de sistematicidade das ações e a complexidade dos panfletos – de forma nenhuma dirigidos às “massas” – são apenas alguns indícios do que vários estudiosos do tema já confirmaram: a chamada “Rosa Branca” não chegou a se constituir como movimento, era um grupo de amigos. Suas iniciativas, que lhes custariam a vida, não nasciam de projeto político ou cultural, mas de um “anseio por liberdade individual e de uma coletividade que levava a sério o ser humano em sua subjetividade e respeitava a sua dignidade pessoal” (como diz Jens e lembrado por Corina Petrescu em sua pesquisa).

Seis pessoas, seis panfletos mimeografados, uns pouco mil leitores desconhecidos, se tanto, em busca de liberdade e respeito. Nada mais perigoso para um regime ditatorial.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Inscripción

De la serie de hechos inexplicables que son el universo o el tiempo, la dedicatoria de un libro no es, por cierto, el menos arcano. Se la define como un don, un regalo. Salvo en el caso de la indiferente moneda que la caridad cristiana deja caer en la palma del pobre, todo regalo verdadero es recíproco. El que da no se priva de lo que da. Dar y recibir son lo mismo.

Como todos los actos del universo, la dedicatoria de un libro es un acto mágico. También cabría definirla como el modo más grato y más sensible de pronunciar un nombre. Yo pronuncio ahora su nombre, María Kodama. Cuántas mañanas, cuántos mares, cuántos jardines del Oriente y del Occidente, cuánto Virgilio.


Jorge Luís Borges.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Ciência, consciência e criatividade

por Leandro Oliveira

Dr. Vilayanur Ramachandran é um neurocientista indiano, diretor do Centro do Cérebro e da Cognição da Universidade da Califórnia, em San Diego. Ele surge no meio científico internacional por seu trabalho sobre ilusões visuais e, logo depois, por pesquisas em amputados com sensações em membros fantasmas - que foi tema de uma série para BBC, "Emerging Mind".

Assim como Oliver Sacks, seus livros são dos mais estimulantes escritos de divulgação científica contemporânea. Em português há a publicação de "Fantasmas no Cérebro". Grande comunicador, Ramachandran torna acessíveis questões muito recentes da neurociência. Suas pesquisas por vezes nos aponta conclusões surpreendentes sobre o funcionamento do cérebro.

Este vídeo abaixo é um dos maiores sucessos do TED, sobre criatividade. Há possibilidade de disparar as legendas.


A palestra termina - vale a pena ver seus vinte minutos - com uma nova perplexidade do cientista: a sinestesia e sua relação, por assim dizer, poética. Explica onde o cérebro realiza nossas metáforas, e como estas metáforas, abstrações simbólicas, seriam algo definitivamente humano.

Quatro anos depois, ao apresentar suas conclusões, Ramachandran parece perder um pouco o fio da meada. É o que diz a resenha de seu último livro "The Tell-Tale Brain: A Neuroscientist's Quest for What Makes Us Human", feita pelo filósofo Raymond Tallis para o Wall Street Journal. A discussão, devidamente contextualizada, versa sobre as fronteiras do conhecimento científico, seus limites e suas reais aplicações. Comenta Tallis

The trouble begins when the neurologist turns philosopher and tries to use these insights to get closer to "what makes us human." He suggests that such cross-wiring underpins both humans' ability to enjoy metaphors and artists' capacity to create novel connections — an assertion that has scarcely any research to back it up. (What little has been done depends on laughably simplistic models of how metaphors and creativity really work.) Likewise, his explanation of how we became speaking animals has scarcely a toe-hold on empirical data. (...)

It is disappointing that Dr. Ramachandran is serially unfaithful to the initial vision he presents, of humans as a species that "transcends apehood to the same degree by which life transcends mundane chemistry and physics." "The Tell-Tale Brain," though it is engagingly written and often fascinating, reminds us how little cause we have to privilege what the neuro scientists tell us about what makes us human over the testimony of novelists, poets, social workers or philosophers


A dica é de Joel Pinheiro da Fonseca na Dicta. Para o artigo na íntegra, clique aqui.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Os melhores de 2010 - II

por Jonas Lopes

Alguns grandes livros de 2010:

Javier Marías – Seu Rosto Amanhã: 3. Veneno, Sombra e Adeus. Finalmente os leitores brasileiros têm à disposição a integral do estupendo romance em três partes do escritor madrileno (e não uma trilogia, como alguns críticos brasileiros imaginam...). Nessa meditação sobre o tempo, o medo e a indefectível tendência humana de trair o próximo, Javier Marías conseguiu levar ao extremo sua particular arquitetura literária, formada por períodos quilométricos, digressões metafísicas que duram dezenas de páginas e insights sobre Oxford, a ditadura de Franco e o serviço secreto britânico. Não por acaso, a crítica internacional tem feito comparações com Proust e Henry James. Dá para contar nos dedos quantos autores vivos conseguem ainda levar o romance de ideias a tal patamar.

Philip Roth – A Humilhação. Roth dispensa apresentações: desde "Operação Shylock", de 1993, não para de produzir obras-primas. A novela "A Humilhação" integra uma tetralogia sobre a morte composta ainda por "Homem Comum", "Indignação" e o recente "Nemesis", programado para sair no Brasil em 2011. Mais uma vez Roth explora o massacre que é a velhice através da história de Simon Axler, ator dedicado aos grandes personagens do cânone teatral (Falstaff, Tio Vânia, Peer Gynt) que um dia simplesmente perde a magia. A abordagem do autor, mais uma vez, é cáustica: mais do que se preocupar com a proximidade do fim e com seu senso de finitude, Axler precisa encontrar um modo de apodrecer dignamente. Uma chance ocorre quando se relaciona com uma mulher bem mais jovem. Quanto à atmosfera do livro, impossível não pensar em "Death", poema de Yeats (que tem um verso utilizado como referência por Roth para o título de outra obra, "O Animal Agonizante"): “He knows death to the bone/ Man has created death”.

Juan José Saer – O Grande. Saer morreu tragicamente cedo, em 2005, aos 67 anos, e sua produção continua saindo a ritmo de conta-gotas no Brasil (corra atrás de "A Pesquisa" e "As Nuvens"). Inspirado na "Grosse Fuge" de Beethoven e na "Nona Sinfonia" de Schubert, "O Grande" ficou inacabado. Nada que atrapalhe o ritmo febril e tortuoso do texto saeriano, tão ensaístico quanto o de Marías. Algo mítica, a trama trata do retorno de Willi Gutiérrez à região natal, no norte de Argentina, depois de trinta anos vivendo na Europa. Em sete capítulos, um referente a cada dia da semana, Saer destrincha as mudanças ocorridas na população da pequena e abafada Rincón devido a esse inesperado regresso.

Henry James – Os Embaixadores. Pode parecer mentira, mas aquele que concorre seriamente ao posto de mais perfeito livro de Henry James – e que the master himself considerava o seu predileto – nunca tinha sido editado no Brasil. Agora foi, graças aos esforços da Cosac Naify e do crítico e professor Marcelo Pen, estudioso da obra do escritor (vale a pena ler sua tese de doutorado, que traça paralelos pertinentes entre este romance e "Memorial de Aires"). Exemplar típico do estilo tardio de James, "Os Embaixadores" é uma obra-prima de transição entre a velha narração novecentista e o nascente modernismo. Em poucos trabalhos percebe-se tão bem como o americano aproveitou a rápida carreira de dramaturgo (abortada pela incompreensão e estupidez do público) para criar uma prosa alusiva, rica em sugestões e ambiguidade. Por meio de um narrador espertamente incerto e não-confiável, James vasculha cada canto da consciência de Lambert Strether e induz o leitor a confrontar os conflitos morais antes mesmo do protagonista.

Liev Tolstói – Ressurreição. Ainda tem muita gente que associa os livros do final da vida de Tolstói às ideias sobre moral, religião e arte que o gênio russo adotou na época. Bobagem. Como negar as imensas qualidades de "A Sonata a Kreutzer" ou de "Khadji-Murát" (aliás, também relançado este ano)? Ressurreição encaixa-se nessa categoria: por vários anos o romance foi considerado uma mera pregação. Azar de quem não reconhece o impacto desse mergulho nos meandros da redenção. Trata-se, em especial, de um ataque feroz ao desejo do Estado de nos conduzir como carneirinhos. A tradução é de Rubens Figueiredo, agora debruçado sobre o monumental "Guerra e Paz". Encontro marcado, portanto, daqui a um ano, nesta mesma lista, neste mesmo blog.

Mas houve muito mais coisa em 2010, inclusive de não-ficção, como "O Outono da Idade Média" (Johann Huizinga), "O Poder da Arte" (Simon Schama), "Aforismos" (Karl Kraus), "O Tempero da Vida" (Chesterton) e "Arte Moderna na Europa" (Giulio Carlo Argan). Na literatura brasileira, destaco livros de três gêneros: poesia ("Em Alguma Parte Alguma", de Ferreira Gullar), conto ("Uma Fome", de Leandro Sarmatz) e romance ("Passageiro do Fim do Dia", de Rubens Figueiredo). Entre as reedições, "As Viagens de Gulliver" enfim ganhou versão de um tradutor digno, Paulo Henriques Britto, e tivemos novas edições de Bellow, Cheever, Bioy Casares, Bulgákov, Carver, Gógol, Sebald, Sarmiento...

Retirado de Dicta.com.br.

sábado, 20 de novembro de 2010

O Animal agonizante em três tempos


Por Willian Silveira

É interessante notar como certas obras se localizam à greta de outras. No caso de Philip Roth, a produção prolífica e o incessante acúmulo de premiações a partir dos anos oitenta catapultaram seu nome à posição de patriarca da literatura americana. Obras de talento irrefutável como O Complexo de Portnoy (Portnoy's Complaint, 1969), Teatro de Sabath (Sabbath's Theater, 1995) e Pastoral Americana (American Pastoral, 1997) com o passar do tempo transformaram-se em sinônimos do autor. Entre a sombra de tais totens, reside O Animal Agonizante (The Dying Animal, 2001).

Último dos três livros do personagem David Kepesh - "The Breast" (1972) e "O Professor do Desejo" (1977) -, O Animal Agonizante apresenta o relato de um professor de literatura em fim de carreira que acaba por envolver-se com a bela e jovem Consuela Castillo, sua aluna no curso de Practical Criticism. Solipsista, hedonista e esteta, Kepesh profere uma religião que cobra caro, em última instância, pelo deus que adora. Seu relato é um acerto de contas e um desabafo.

Depois de adaptado ao cinema pela espanhola Isabel Coixet, em 2008, e de receber no Brasil o péssimo título de Fatal, a short novel chegou ao Theatro São Pedro, em Porto Alegre, para quatro apresentações. Sob a direção de Luciano Alabarse e com Luiz Paulo Vasconcellos no papel principal, a peça que estreou na primeira semana de novembro segue, a partir do dia 12, no Instituto Goethe.

Apesar dos visíveis esforços e de acertos particulares, tanto Coixet quanto Alabarse deixam a desejar em suas recriações. O que não significa que sejam ruins e dispensem a investida, pelo contrário, o problemático é colocá-las constantemente em comparação com o texto original, deixando-as enfrentar de forma desleal o vigor e a profundidade da narrativa - por vezes quase histérica - de Roth.

Para evitar lançar observações gratuitas sobre as escolhas dos diretores, penso nas dificuldades encontradas tanto no filme quanto na peça e tento resolvê-las, mas as alternativas viáveis nem sempre resultam melhores. A exposição excessiva, por exemplo, atrapalha muito o filme e é contornada quando o teatro privilegia o monólogo. O que se pode concluir não é nenhuma novidade: o expositivo se configura melhor nos palcos que na tela.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Dom Quixote - Um Romance do Século XXI (3)

Como "Dom Quixote" pode atravessar os anos para dizer algo a nós nos dias de hoje? Além de várias coisas, ainda pela ilustração exemplar da negação da realidade - elemento fundamental para entender as grandes ideologias do século XX que reverberam em boa parte das boas intenções e políticas públicas de nosssos dias. É o que diz Nivaldo Cordeiro.

Por Nivaldo Cordeiro


Retirado de Loop Mídia.

sábado, 30 de outubro de 2010

Monteiro Lobato e o politicamente correto


Parafraseando Augusto Nunes, de nossa "Era da Mediocridade" não escapa sequer o pai do Jeca Tatú... Recentemente é Monteiro Lobato, aquele do Sítio do Pica-Pau Amarelo, que recebe censuras do politicamente correto. Fernanda Vaz, sempre altiva e educada, não se conteve e entrou na briga ao lado do pai da Narizinho.

Por Fernanda Vaz

Os que me conhecem minimamente sabem que não sou lá a pessoa mais dada a discutir atualidades, especialmente se estiverem de alguma forma relacionada a governos ou política. Digo isso sem temer críticas - a mim faz bem deixar de ler o "Times" para ler as "Eternities", como recomendava Henry David Thoreau, e assumo certo nível de alienação sem maiores conflitos de consciência.

Há certas coisas, entretanto, que nem a mais blasé das almas consegue ignorar. Uma delas é a proposta do Conselho Nacional de Educação de banir das escolas brasileiras o livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato. É redundante falar sobre a importância das obras de Monteiro Lobato para a literatura brasileira, sobre o valor de seus livros para a alfabetização, sobre o enriquecimento de linguagem que proporcionam (posso citar de memória pelo menos meia dúzia de palavras que lembro ter aprendido, na infância, lendo as Memórias da Emília) ou, last but not least, sobre o universo rico, imaginativo e estimulante que é o Sítio do Pica-Pau amarelo. "As Reinações de Narizinho" e "Os Serões de Dona Benta" foram parte importante da infância dos meus pais, da minha própria e de muitos brasileiros mais.

Pois bem, parece que agora uma tal de Secretaria de Alfabetização e Diversidade resolveu dizer que o livro só pode ser usado quando o professor tiver "a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil". Não sei você, leitor, mas a mim parece que essas pessoas acham que se um professor citar tia Nastácia se esquecendo dos reumatismos e "trepando feito uma macaca de carvão", as crianças vão automaticamente começar a zombar dos colegas negros. Essa, entretanto, não é nem de longe a questão principal - o autor comparou a personagem a uma "macaca de carvão". Suponhamos que fosse Dona Benta a trepar, digamos, em uma árvore, esquecendo-se de qualquer limitação física: imagino que a comparação seria mudada de "macaca de carvão" para "macaca de açúcar" ou "macaca de algodão", porque para mim é evidente que a palavra relacionada à cor da pele da personagem é "carvão", não "macaca". O animal só tem relação com o ato de subir em algo com agilidade.

Mas as pessoas do Conselho Nacional de Educação parecem não saber ler. Acho que os cérebros ali funcionam como computadores simples que têm armazenadas certas palavras-chave e fazem soar o 'alarme vermelho' sempre que as encontram, seja qual for o contexto. E vejam, não são algumas pessoas - o caráter racista da obra foi aprovado por unanimidade na Câmara de Educação Básica e no CNE. Lá, caros meus, se encontram dez, vinte, trinta, cinqüenta, sabe-se lá quantas pessoas que não sabem ler. Que, lendo Monteiro Lobato, não conseguem encontrar nada além de suposta desigualdade racial. O quão assustador é isso?

Uma acusação de racismo mais absurda ainda está no outro trecho citado pela matéria d'O Globo, onde se lê "não é à toa que macacos se parecem tanto com os homens. Só dizem bobagens". Esta é uma frase que não é nem passível de análise - posso revirá-la e lê-la quantas vezes for, que não consigo ver onde está o racismo. Tivesse Monteiro Lobato comparado os macacos faladores de besteiras aos homens negros, a crítica seria compreensível, mas ele só fala de homens. Os narradores do Discovery Channel que tomem cuidado, porque daqui a pouco a simples menção a um símio vai configurar racismo.

Diz o velho ditado que a maldade está em quem a vê, e esse é um clássico caso de racismo in the eyes of the beholder. Não vou nem falar da mentalidade simplista, politicamente correta e burrinha dos órgãos que decidem o que deve ser feito nas escolas, pois isso a essa altura do campeonato já deve ser bem óbvio. Só o que há para dizer é que talvez Monteiro Lobato estivesse mais certo do que nunca. Certos macacos e homens (brancos, negros, amarelos, azuis ou magenta com bolinhas verdes) são parecidíssimos mesmo - só dizem (e fazem) bobagem.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Um gigante e uma biografia gigantesca


Dostoiévski em breve se tornará o escritor mais citado no Ocidentalismo.org. Oba! A discussão de sua obra está permeada pela compreensão dos elementos biográficos com os quais precisou lidar - e neste sentido, a publicação monumental de Joseph Franck sobre sua vida é decisiva. Renato Moraes faz sua resenha sobre o livro.

Por Renato Moraes

Para minha satisfação, e em parte tristeza, terminei o último dos cinco volumes da biografia de Dostoiévski, escrita por Joseph Frank, que foi professor de Literatura nas universidades de Princeton e Stanford. A tristeza é aquela de quando terminamos um livro excelente, em cuja companhia permanecemos meses: começa a bater a saudade, e sabemos que nunca mais leremos aquela obra pela primeira vez.

Todos os volumes da biografia, editada no Brasil pela Edusp, somam mais de 3.000 páginas. Nem acredito que os enfrentei! No entanto, posso assegurar, sem medo de exagerar, que foi uma das melhores coisas que li na vida. Cada volume apresenta trechos antológicos, e não consigo destacar um em relação aos outros: tudo é muito interessante.

A biografia transita por três níveis: a vida propriamente dita de Dostoiévski, que é o fio que unifica tudo; a análise da sua obra literária; e o ambiente cultural e político daqueles anos na Rússia. Joseph Frank é habilidoso ao entretecer os assuntos, mantendo sempre o ritmo e chamando a atenção do leitor; parece até um romance do biografado.

Por sinal, a vida de Dostoiévski é impressionante. Sua formação intelectual, os flertes revolucionários da juventude, o tempo de prisão, os anos no exército, o retorno à vida cultural e a confecção das suas obras-primas, as disputas ideológicas nas quais se envolveu, a profunda humanidade da sua vida familiar, sua consagração pública nos últimos anos... Os vários eventos são contados com profundidade e agilidade, e o biógrafo chega às motivações religiosas e morais do biografado, que dão o sentido último de sua existência.
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