Por Leandro Oliveira
Esta semana a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal e meu amigo Rodrigo de Carvalho apresentaram na Sala São Paulo um programa dedicado a trechos de óperas. Achei uma crônica perfeita para ocasião: é longa para um blog mas deliciosa do primeiro ao último parágrafo.
TANNHÄUSER e bonds elétricos. Temos finalmente na terra essas grandes novidades. O empresário do Teatro Lírico fez-nos o favor de dar a famosa ópera de Wagner, enquanto a Companhia de Botafogo tomou a peito transportar-nos mais depressa. Cairão de uma vez o burro e Verdi? Tudo depende das circunstâncias.
Já a esta hora algumas das pessoas que me lêem, sabem o que é a grande ópera. Nem todas; há sempre um grande número de ouvintes que farão ao grande maestro a honra de não perceber tudo desde logo, e entendê-lo melhor à segunda, e de vez à terceira ou quarta execução. Mas não faltam ouvidos acostumados ao seu oficio, que distinguirão na mesma noite o belo do sublime, e o sublime do fraco.
Eu, se lá fosse, não ia em jejum. Pegava de algumas opiniões sólidas e francesas e metia-as na cabeça com facilidade; só não me valeria das muletas do bom Larousse, se ele não as tivesse em casa; mas havia de tê-las. Cai aqui, cai acolá, faria uma opinião prévia, e à noite iria ouvir a grande partitura do mestre. Um amigo:
— Afinal temos o Tannhäuser; eu conheço um trecho, que ouvi há tempos...
— Eu não conheço nada, e quer que lhe diga? É melhor assim. Faço de conta que assisto à primeira representação que se deu no mundo. Tudo novo.
— O que eu ouvi, é soberbo.
— Creio; mas não me diga nada, deixe-me virgem de opiniões, Quero julgar por mim, mal ou bem...
E iria sentar-me e esperar, um tanto nervoso, irrequieto, sem atinar com o binóculo para a revista dos camarotes. Talvez nem levasse binóculo; diria que as grandes solenidades artísticas devem ser estremes de quaisquer outras preocupações humanas. A arte é uma religião. O gênio é o sumo sacerdote. Em vão, Amália, posta no camarote, em frente à mãe, lançaria os olhos para mim, assustada com a minha indiferença e perguntando a si mesma que me teria feito. Eu, teso, espero que as portas do templo se abram, que as harmonias do céu me chamem aos pés do divino mestre; não sei de Amália não quero saber dos seus olhos de turquesa.
Era assim que eu ouviria o Tannhäuser. Nos intervalos, visita aos camarotes e crítica. Aquela entrada dos fagotes, lembra-se? Admirável! Os coros, o duo, os violinos, oh! o trabalho dos violinos que cousa adorável, com aquele motivo obrigado: lá, lá, lá tra, lá, lá, lá, tra, lá, lá. . . Há neste ato inspirações que são, com certeza, as maiores do século. De resto, os próprios franceses emendaram a mão dando a Wagner o preito que lhe cabe, como um criador genial...