Saiba mais

Mostrando postagens com marcador explorações. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador explorações. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 13 de abril de 2011

A modernidade dos antigos

por Leandro Oliveira

Esta semana, com um programa dedicado à música Romântica Russa - imaginando que a Balatta op. 108 de Glazunov possa ser entendida como romantismo em todo seu adiantado no tempo (é de 1931) - a Osesp me deu a oportunidade de retornar à obra deste que é talvez o mais importante musicólogo da tradição Clássica Russa da atualidade, o americano Richard Taruskin.

Dele, uma passagem extraordinária - uma tese efervescente, para quem se excita com teses musicológicas, é claro:

I hold that discussions of authentistic performance typically proceed from false premises. The split that is usually drawn between "modern performance" on the one hand and "historical performance" on the other is quite topsy-turvy. It is the latter that is truly modern performance — or rather, if you like, the avant-garde wing or cutting edge of modern performance — while the style, inherited from the nineteenth century, one that is fast becoming historical. The difference between the two, as far as I can see, is best couched in terms borrowed from T. E. Hulme: nineteenth-century ‘vital’ versus twentieth-century ‘geometrical.’ In light of this definition, modern performance, in the sense I use the term, can be seen as modernist performance, and its conceptual and aesthetic congruence with other manifestations of musical modernism stand revealed. What Carl Dahlhaus calls the ‘postulate of originality’ and defines as ‘the dominant esthetic of [Wagner’s] day’ is still with us even if Wagner is not, and still decrees that music, both as to the style of its composition and the style of its performance ‘should be novel in order to rank as authentic.’ When this is understood, it will appear no longer paradoxical but, on the contrary, very much in the nature of things that the same critics who can be counted upon predictably to tout the latterday representatives of High Modernism in music — Carter, Xenakis, Boulez — and who stand ready zealously to define them against the vulgarian incursions of various so-called postmodernist trends, are the very ones most intransigently committed, as we have already observed, to the use of ‘original instruments’ and all the rest of the ‘historical’ paraphernalia. For we have become prevaricators and no longer call novelty by its right name.

In "Text and Act: Essays on Music and Performance", p. 140.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Passages from Leonardo da Vinci's notebooks

selecionados por Fernanda Vaz

The knowledge of past times and of the places on the earth is both an ornament and nutriment to the human mind.

***

Avoid studies of which the result dies with the worker.

***

Learning acquired in youth arrests the evil of old age; and if you understand that old age has wisdom for its food, you will so conduct yourself in youth that your old age will not lack for nourishment.

***

As a day well spent procures a happy sleep, so a life well employed procures a happy death.

***

Just as food eaten without caring for it is turned into loathsome nourishment, so study without a taste for it spoils memory, by retaining nothing which it has taken in.

***

Why does the eye see a thing more clearly in dreams than with the imagination being awake?


Retirado de O Aulos de Euterpe.

sábado, 9 de abril de 2011

As piadas e a sociedade

por Academic Minute

Dr. John Capps é professor associado de filosofia do "College of Liberal Arts" do "Rochester Institute of Technology". Sua área de pesquisa é epistemologia e filosofia da ciência. Ele é co-autor, com seu pai, Donald Capps, de You've Got to Be Kidding!: How Jokes Can Help You Think.

Para o posto original em sua versão de áudio, clique aqui.

Freqüentemente o que faz uma piada engraçada é que alguém faz algo que é completamente irracional, e quando tornamos consciente o que se passa, podemos tentar não fazer o mesmo erro. Na vida real, ninguém quer ser o motivo de uma piada.

Todos provavelmente ouvimos aquela do advogado que defende um homem que assasinou seus pais, e o advogado pede clemência dizendo "meritíssimo, deixe-me lembrá-lo que este pobre rapaz é um orfão!" De fato, o que é irracional aqui é que o advogado está fazendo o que os filósofos chamam de "apelo à piedade" (appeal to pity, no original), sem que se coloque à luz que o motivo mesmo de sua orfandade é a responsabilidade pela qual ele está sendo acusado. E, de modo geral, precisamos estar cuidadosos para que não deixemos nossos sentimentos atrapalhem nossos pensamentos claros e nosso juízo do que é correto a ser feito. E esta piada é uma forma muito viva de lançar luz a este ponto.

Ainda, quando rimos de piadas mostramos que temos muito em comum, que concordamos sobre algumas coisas por serem simplesmente verdadeiras ou falsas, racionais ou não. Então, piadas podem ser importante referências sociais, que nos lembram de coisas que todos concordamos. Há uma que diz de uma mãe que acaba de ter seu filho, não pode dormir e vai ao médico dizer que está preocupada; ela teme não conseguir ouvir seu bebê caso ele caia do berço. Ela pergunta ao médico o que fazer e ele diz "ah, é fácil: tire o carpete!". Esta é uma piada engraçada porque todos sabemos que aquilo que o médico está dizendo é profundamente imoral e anti-profissional - e isto, por si só, mostra que concordamos com muitas coisas.

Então piadas dizem muito sobre nós: elas elevam nosso padrão de racionalidade e moralidade, e funcionam como uma espécie de "cola" social. Aristóteles disse que humanos são animais racionais, mas poderíamos também dizer que somos animais que fazem piada - e isto significaria quase a mesma coisa.


Retirado de Academic Minute Home.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Lady Gaga e Rilke

por Academic Minute

Dr. Jennifer Hoyer é professora de literatura alemã da University of Arkansas. Suas áreas de interesse incluem história e literatura judaica-alemã, poesia, percepções do século XX sobre a literatura Medieval e do início da Era Moderna, relações literárias entre Alemanha e Suécia, e a obra de Silke Hassler. Seu Ph.D. em Literatura Moderna Alemã foi realizado pela University of Minnesota.

Para o posto original em sua versão de áudio, clique aqui.

Como professora de literatura alemã eu fico entusiasmada em lembrar que Lady Gaga tem uma citação em alemão de Rainer Maria Rilke tatuada em seu braço. Lady Gaga diz freqüentemente que Rilke é uma inspiração, quase uma devoção. Leia seus "Sonetos para Orpheus" e você provavelmente ficará surpreso no tanto de Rilke que há nas coisas de Gaga. Gaga e Rilke têm interesses muito similares, e embora eles façam coisas muito diferentes com eles, ao fim e ao cabo chegam a mesma conclusão: "Gesang ist Dasein", o canto/a voz é o Ser. Os "Sonetos" terminam com uma declaração "Ich bin" (Eu sou), que Gaga reflete quando ela assevera que é ao mesmo tempo uma fantástica contadora de histórias e uma imagem no espelho: "I am telling you a lie, in a vicious effort that you will repeat my lie until it becomes true."

O "Sonetos" de Rilke invoca "Ruhm," ou fama, o primeiro objetivo de um poeta clássico. Para Rilke o poeta é o imortalizador da morte, do belo, do sublime; todo o projeto de Gaga até o momento lida com fama, a moderna obsessão pela celebridade, e o que ela chama "A Fama", "este amor-próprio, esta auto-confiança". Lady Gaga imortaliza o ouvinte projetando seu próprio senso de fama sobre eles, na segurança de seu isolamento eletrônico. De suas performances a suas entrevistas com Larry King e Barbara Walters (os editores do discusso "Gaga-Stigmata") Gaga aparece como uma imagem de espelho estilizada, sem aprovações ou condenações, apenas confirmando através de sua mímica que criamos quem nós somos. E nós somos porque criamos. Gesang ist Dasein.

A afirmação de Rilke de ser através da arte inspira Lady Gaga. E se você está interessado na representação da fama e do ser que ela faz, leia o "Sonetos para Orpheus" de Rilke - preferencialmente no original alemão.


Retirado de Academic Minute Home.

sábado, 2 de abril de 2011

Filosofia e Polvos

por Academic Minute

Dr. Peter Godfrey-Smith é professor de filosofia da Harvard University e suas áreas de interesse e pesquisa incluem a filosofia da ciência e a filosofia da mente. Ele é autor de "Complexity and the Function of Mind in Nature" e "Theory and Reality: An Introduction to the Philosophy of Science".

Para o posto original em sua versão de áudio, clique aqui.

Em que polvos interessam à Filosofia? Interessam à parte que se preocupa com a mente. Para entender porque, demos um passo atrás e pensemos sobre as conexões evolutivas entre todos os seres vivos.

Biólogos imaginam tais relações a partir de uma "árvore da vida". Trata-se de uma enorme estrutura em forma de árvore onde cada espécie é relacionada aos parentes próximos e conectadas a outras mais distantes. Os vertebrados formam um ramo da árvore, e ali é onde encontramos praticamente todos os animais de cérebros grandes e complexos. Entre estes estamos nós, outros mamíferos e pássaros - em termos evolutivos, somos primos.

Na enorme área da árvore que contém outros animais, invertebrados, há apenas um ramo onde podemos encontrar cérebros desenvolvidos. Nele estão os cefalópodes - polvos, sépias e lulas.

Os sistemas nervosos foram desenvolvidos separadamente nestes dois ramos e em nenhum outro. Polvos são um experimento distinto na evolução da mente: encontrar um é como encontrar um ser extra-terrestre.

Pois o que tal experimento produziu? Aqui está uma coisa: o sistema nervoso de um polvo é menos centralizado que o nosso. Na verdade, mais da metade dos neurônios do animal não está no cérebro central do bicho, mas nos seus oito tentáculos. É como se cada braço tivesse um cérebro para si. Ou talvez em um polvo haja inteligência sem um self unificado.


Retirado de Academic Minute Home.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Academic Minute


por Leandro Oliveira

Acabamos de celebrar nossa primeira parceria internacional: o intercâmbio com o material do site Academic Minute.

Uma iniciativa da "WAMC Northeast Public Radio", o projeto traz professores de importantes instituições americanas desenvolvendo tópicos sérios ou descontraídos, sempre dando aos ouvintes informações sobre o que há de mais novo e excitante na academia - a ordem do dia da pesquisa científica ou a explicação de jogos de tabuleiro e seus desdobramentos na teoria dos jogos.

O projeto original é da professora Dr. Lynn Pasquerella, e seus colaboradores, professores da Duke University, University of Notre Dame e a Columbia University.

O público de Ocidentalismo.org poderá ter tais materiais traduzidos em português - ao lado de alguns convidados da academia brasileira a fazer seus vôos intelectuais e explorações.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Imi Lichtenfeld e Caetano Veloso?

Faça, mas faça certo
Por Leandro Oliveira

A frase da epígrafe é de Imi Lichtenfeld (1910 - 1998), o criador da arte de defesa pessoal israelense chamada Krav Magá. É paradigmática posto que a síntese de um modo de ver o mundo.

Imi lida claramente com um terreno específico e concreto da integridade física, ou seja, ele não pretende fazer filosofia ou proselitismo. Aliás, lidando com os tipos de problemas absolutamente práticos – e radicais, de vida e morte – com os quais lidava, pouco tempo e disposição havia para falsas soluções, dubiedades ou falação.

Mas se a frase de Imi é pragmática, sua leitura pode ser um pouco mais – como dizer? – reflexiva. E tomo a iniciativa desta reflexão pois sei que a arte de Imi tem por base uma mentalidade necessária, antídoto a esta espécie de "covardia positiva" do indíviduo e, ao mesmo tempo, da valentia grosseira dos que agem e pensam em bando.

Sua arte, assim como sua vida, são os espelhos deste novo espírito judaico que instaura o Estado de Israel em maio de 1948. Um espírito cuja transmutação, a propósito, fica bem clara no poema “Israel” de Jorge Luís Borges (Elogio da Sombra, 1969)

Um homem prisioneiro e enfeitiçado,
um homem condenado a ser a serpente
que guarda um ouro infame,
um homem condenado a ser Shylock,
um homem que se inclina sobre a terra
e que sabe que esteve no Paraíso,
um homem velho e cego que há de quebrar
as colunas do templo,
um rosto condenado a ser máscara,
um homem que apesar dos homens
é Spinoza e o Baal Shem e os Cabalistas,
um homem que é o Livro,
uma boca que louva do abismo
a justiça do firmamento,
um procurador ou um dentista
que dialogou com Deus em uma montanha,
um homem condenado a ser o escárnio,
a abominação, o judeu,
um homem lapidado, incendiado
e atirado em câmaras letais,
um homem que teima em ser imortal
e que agora voltou a sua batalha,
à violenta luz da vitória,
belo como um leão ao meio-dia.


(O crescendo do poema é extraordinário; entendo que ele lida antes de tudo com a transmutação do espírito de um povo do qual somos, cada um de nós, um verdadeiro fractal.)

Me explico melhor. Por um lado, somos, vivemos e cultivamos o just do it, este extraordinário slogan que marca uma década. Imaginando nossos atos pelo compromisso pouco exigente da paixão irrefletida, das ações irresponsáveis pois auto-justificadas. Idiotizamo-nos para sermos livres. Rebelamos contra tudo e todos, para levarmos a revolução que culminará não entendemos bem onde, pois o importante é reverberar a energia sem-causa das gerações pós-68.

Por outro lado, acabamos por demais fascinados pelo temor das certezas. Este hábito mental é aquele expresso por Caetano Veloso em seu “Estrangeiro” quando comenta “o certo é saber que o certo é o certo” apenas para elencar uma plêiade de equívocos como “o macho adulto branco sempre no comando” ou “reconhecer o valor necessário do ato hipócrita, riscar os índios nada esperar dos negros...”. Pelo medo de sermos os bárbaros cheios de convicção que andam à beira da Baía de Guanabara às costas de Caetano, nos obrigamos a solução equivocada da inércia, estrangeiros “entendendo o centro” das barbaridades "daquele cara e aquela".


Entendo e respeito, ahimé!, a tensão de uma convicção errada; imagino que seja exatamente esta tensão que justifique afinal a postura intelectual da "fé na errância" que permitirá Caetano colocar sob luzes duvidosas os "convictos" em sua música (que, aliás, acho extraordinária). Uma espécie de docta ignorantia pós-moderna.

Mas ela deve ser dosada, a bem da integridade de si. É exatamente por isso que assevera Imi. E por isso o Krav Magá não é uma arte marcial mas uma arte de defesa pessoal, onde a tomada de decisão deve ser constante, rotineira, responsável - e evidentemente individual. A arte da resiliência frente adversidades, mas sobretudo da tomada de posição pela preservação daquilo que é justo e integro no espírito humano. Imi Lichtenfeld decreta “faça, mas faça certo” após dar-se conta de que, para o povo judaico, antes da defesa do corpo em combate e guerra, havia a necessidade desta convicção do espírito, que deve ser cultivado dia-a-dia.

Para, nas agruras do mundo, teimar em voltar à batalha, "à violenta luz da vitória, belo como um leão ao meio-dia".

Em poucas circunstâncias do dia-a-dia ele podia novamente dar-se o luxo de errar. Me pergunto com Imi e seu povo: e nesta vida, que é uma apenas, posso eu me dar tal luxo?

quarta-feira, 16 de março de 2011

Beethoven, Kubrick e outros paradoxos

por Leandro OLiveira

A Osesp abre sua temporada 2011 com a Sinfonia nº 9 de Beethoven. Pretendia ilustrar a aula mostrando parte da influência da peça em alguns ícones do pop. Me ocorreu, é claro, o extraordinário "Clockwork Orange" de Stanley Kubrick. (Coincidentemente, acabo de ler sobre o lançamento comemorativo de uma caixa especial pelos 40 anos do filme; isto me serviu de inspiração para o post.)


Não há novidade nenhuma: Kubrick foi um grande conhecedor de música e tinha prazer especial em selecionar a trilha sonora para seus filmes. O que mais me impressiona em "Laranja Mecânica", mas também, evidentemente "2001", "Full Metal Jacket", ou "Eyes Wide Shut" é como a música compõe a cena - não somente sublinhando o estado de ânimo de personagens, algo comum, mas ainda criando verdadeiros paradoxos áudio-visuais.

O que quero dizer com isso? Volto a "Laranja Mecânica" em minha cena preferida. Ela acontece logo após uma espécie de motim entre os Droogs: lamentam o jeito de Alex, seu líder, sua forma de dar ordens e disciplina, questionam seu tratamento ditatorial. Para acalmar os ânimos Alex sugere negociar e pagar uma rodada de "moloko-plus" no Korova milkbar; enquanto retornam ao bar pela marina (a cena é rodada em camera lenta), Alex reflete:

As we walked along the flatblock marina, I was calm on the outside but thinking all the time. So now it was to be Georgie the General, saying what we should do, and what not to do, and Dim as his mindless, grinning bulldog. But, suddenly, I viddied that thinking was for the gloopy ones, and that the oomny ones used like inspiration and what Bog sends. For now it was lovely music that came to my aid. There was a window open, with a stereo on, and I viddied right at once what to do.

A "música pela janela" é a abertura de "La Gazza Ladra" de Rossini. No caso, estamos diante deste tipico oxímoro feito com música, que não pela primeira vez trago à baila neste site: Rossini serve - e não só ali, mas em todo o filme - para banalizar ou, talvez naturalizar, a violência e tensão dos personagens.

Mais tarde, quando o tema do quarto movimento de Beethoven é introduzido como elemento para reeducação de Alex - behaviourismo extraordinário - não deixa de ser aflitivo perceber que uma música que todos reconhecemos como "a ode à alegria" possa gerar tanta dor-de-cabeça. O paradoxo áudio-visual é tão claro que precisei desistir da cena em minha aula: a força das imagens faria necessariamente que o público, na ocasião do concerto, fizesse semioses pouco pertinentes a uma sinfonia que, de uma maneira ou de outra, pretende narrar a passagem das trevas à luz; o último movimento é uma apoteose de esperança - a léguas de distância das funcionalidades pacifistas e socializantes do roteiro do filme.

O diretor, é claro, sabia disso - e, por isso, eu tive que mudar o plano de aula. Para ilustrar o impacto de Beethoven em nossas vidas, menos que Kubrick e seu cinema extraordinário, decidi mostrar a popularidade do último movimento da Sinfonia nº9 no toque do meu celular.

terça-feira, 15 de março de 2011

Os usos filosóficos de uma catástrofe

por Leandro Oliveira

Houve um tempo onde um grande desastre com o que flagela os habitantes do Japão poderia servir como oportunidade para giros filosóficos ou poéticos de alta monta. Na ocasião do terremoto de Lisboa, Voltaire vê a oportunidade de apontar a ausência de Deus no mundo; a despeito das idiossincrasias do autor, jornalista mais que filósofo, é fato que versos semelhantes são belos em sua revolta:

O malheureux mortels ! ô terre déplorable !
O de tous les mortels assemblage effroyable !
D’inutiles douleurs éternel entretien !
Philosophes trompés qui criez : « Tout est bien » ;
Accourez, contemplez ces ruines affreuses,
Ces débris, ces lambeaux, ces cendres malheureuses,
Ces femmes, ces enfants l’un sur l’autre entassés,
Sous ces marbres rompus ces membres dispersés ;
Cent mille infortunés que la terre dévore,
Qui, sanglants, déchirés, et palpitants encore,
Enterrés sous leurs toits, terminent sans secours
Dans l’horreur des tourments leurs lamentables jours !
(...)

Dessa perplexidade sai ainda o "Candide", que é, sim, uma bobagem. Mas que bobagem! Muito distante daquelas atrozes que li outro dia. O terremoto, seu desdobramento em um tsunami (na minha época se dizia "maremoto"), a perda de tantas vidas, conseguiu ser motivo para o mais baixo proselitismo, a oportunidade de acusar "the human-caused vulnerability of our civilization".

Ou de reavaliar as superstições atávicas que todos, de uma maneira ou de outra, cultivamos: um giro mental dos mais bizarros dando à Natureza poderes "sobrenaturais" - e assumindo assim um paradoxo que não é meramente nominal mas uma necessidade de justificar moralmente causalidades complexas e cegas, frutos de uma lógica por vezes madrasta que é aquela da Natureza.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Onde está Wally

"The Ambassadors" (1533). Hans Holbein, o Jovem (1597 - 1543)
Simplesmente a observação mais culta e saborosa da web na última semana.

por Fernanda Vaz

Fiz um blog para colocar só as traduções do Mabinogion e não atolar essa página com textos gigantes. Estão lá os dois contos do primeiro ramo. Vejam, vejam!

***

Percebo cada vez mais que meu gosto por História é majoritariamente anedótico e pitoresco. Sou eu aquela pessoa que decora toda a linhagem e as fofoquinhas de corte dos Tudor, mas não faz a mínima idéia de como foi o reinado de Henrique VIII politicamente para a Inglaterra.

***

Das minhas andanças pelo Google Art Project:





Com a qualidade enorme do zoom e um alemão bem chulé, pude descobrir qual é a música que está escrita escrita no livro: um coral luterano chamado Komm, Heiliger Geist, Herre Gott, cuja melodia J.S. Bach utilizou na Cantata BWV 59 e no Moteto BWV 226.

Esse quadro é um verdadeiro mundo. Poderia falar milhares de coisas dele e o post ficaria enorme antes mesmo que eu pensasse em citar a caveira anamórfica na parte inferior - sim, notem aqui, aquela coisa esquisita e branca pairando no chão na diagonal é uma caveira pintada para ser vista de um determinado ângulo. Dizem uns que o Holbein a botou ali só pra mostrar como era um pintor danado de habilidoso; outros dizem que a pintura foi feita para ser pendurada na parede de uma escada, para que a pessoa que estivesse subindo e olhando a pintura da sua esquerda tomasse um belo dum susto. É claro que acredito na segunda teoria, porque é mais legal e eu gosto de acreditar nas coisas que me parecem mais legais (A música das esferas, por exemplo).

Não à toa falei que o quadro é um mundo, também - há os que sugerem que na estante estão três planos representados: os céus (representados pelos objetos astronômicos e científicos na parte de cima), o mundo dos humanos (identificado pelos livros e instrumentos musicais) e a morte (a tal caveira, é claro, mas eu também notei que há um alaúde jogado debaixo da estante). Tem mais milhares de detalhezinhos deliciosos de se ver - o padrão dos ladrilhos do chão teria sido retirado da Abadia de Westminster. O alaúde ao lado do livro com o coral que identifiquei tem uma corda quebrada, o que é considerado símbolo de discórdia. Os dois homens retratados foram identificados como Jean de Dinteville, embaixador da França na corte de Henrique VIII em 1533, e Georges de Selve, um religioso que se tornaria bispo de Lavaur no ano seguinte à pintura. No livro sob o qual de Selve repousa o cotovelo se lê AETATIS SVAE 23, que significa que ele teria 25 anos de idade. Já na adaga de Dinteville lê-se que tinha 29 anos. O livro perto do globo terrestre é um livro de aritmética comercial de Petrus Alpianus, e está aberto numa página que demonstra a divisão. Há um esquadro e um compasso, que junto com os instrumentos musicais e os objetos científicos, remetem ao Quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música).

Com todas essas informações a coisa mais óbvia é ficar se perguntando o que quis dizer o Holbein com esse monte de parerga (elementos adicionais à obra de arte, que a embelezam mas ao mesmo tempo estão em conflito com ela). Este artigo faz uma análise bem detalhada e completa de todas as alegorias, contrastes e idéias contidas na pintura - mostra inclusive que todos os objetos astronômicos indicam a data 11 de Abril de 1533, Sexta-Feira Santa, o que fez com que aumentasse mais ainda meu fascínio pelo detalhismo e genialidade do pintor.

***

Se meu gosto por história é baseado em pequenos detalhes e sutilezas, a razão não é outra que não o fato de meu gosto por arte obedecer à mesma regra. Da ornamentação do barroco até os milhares de detalhes e alegorias numa pintura - acho que por mais que passeie por outras correntes, sempre vou gostar mesmo é de um "Onde está Wally" highbrow.

Retirado de Apfelsaft.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Pensamentos soltos

por Leandro Oliveira

A morte de Moacyr Scliar. Seu cuidado com a cultura judaica não é só um serviço de divulgação, como dizem muitos, mas a marca de uma estrela indomável que figurou por muito tempo como exótica em uma cultura literária que apenas muito recentemente abandonou o vício do regionalismo maneirista e do culto à miséria urbana - e suas correspondências metafísicas, por um lado ingênua, por outro nihilista.

Infelizmente não tive a oportunidade de ler nada exatamente extraordinário de Scliar, mas sequer li um terço de sua obra. Sei que no pouco que li, indubitavelmente, marcou-me o texto de um profissional sério, escritor cuidado e rigoroso com o estilo e o impacto de sua mensagem; alguém que, nesta atividade tão peculiar que é o trato com as palavras, se não foi um mestre, certamente fez por merecer seu lugar no panteão da literatura brasileira do pós-guerra como um de seus melhores artesãos.

Que a terra lhe seja leve!

****

"O Discurso do Rei" era meu favorito para o Oscar. Não exatamente por ser um capolavoro, mas por ser, este ano, o mais regular entre os filmes que concorriam. Afinal, por vezes queremos apenas ver uma boa história, contada de forma correta e bem cuidada - e isso efetivamente, Tom Hopper, faz.

Para isso, contou com elenco excelente, roteiro sóbrio e eficiente, personagens construídos de forma absolutamente coerente. Tudo a serviço de um caso extraordinário, ainda mais se levarmos em conta que parte dele tenha sido verdade.

A premiação para melhor filme, a meu ver, foi justa justíssima.

****
Do Rui Barbosa:

Tenham por averiguado que, onde quer que o colocarem, dará conta o sujeito das mais árduas empresas e solução aos mais emaranhados problemas. Se em nada se aparelhou, está em tudo e para tudo aparelhado. Ninguém vos saberá informar por quê. Mas todo o mundo vo-lo dará por líquido e certo. Não aprendeu nada, e sabe tudo. Ler, não leu. Escrever, não escreveu. Ruminar, não ruminou. Produzir, não produziu. E um improviso onisciente, o fenômeno de que poetava Dante: “In picciol tempo gran dottor si feo”.

A esses homens-panacéias, a esses empreiteiros de todas as empreitadas, a esses aviadores de todas a encomenda, se escancelam os portões da fama, do poderio, da grandeza, e, não contentes de lhes aplaudir entre os da terra a nulidade, ainda, quando Deus quer, a mandam expor à admiração do estrangeiro.

Pelo contrário, os que se tem por notório e incontestável excederem o nível da instrução ordinária, esses para nada servem. Por quê? Porque “sabem demais”. Sustenta-se aí que a competência reside, justamente, na incompetência. Vai-se, até, ao incrível de se inculcar “medo aos preparados”, de havê-los como cidadãos perigosos, e ter-se por dogma que um homem, cujos estudos passarem da craveira vulgar, não poderia ocupar qualquer posto mais grado no governo, em país de analfabetos. Se o povo é analfabeto, só ignorantes estarão em termos de o governar. Nação de analfabetos, governo de analfabetos. E o que eles, muita vez às escâncaras, e em letra redonda, por aí dizem.

Sócrates, certo dia, numa das suas conversações, que "O Primeiro Alcibíades" nos deixa escutar ainda hoje, dava grande lição de modéstia ao interlocutor, dizendo-lhe, com a costumada lhaneza: “A pior espécie de ignorância é cuidar uma pessoa saber o que não sabe... Tal, meu caro Alcibíades, o teu caso. Entraste pela política, antes de a teres estudado. E não és tu só o que te vejas nessa condição: é esta mesma a da mor parte dos que se metem nos negócios da república”.


Ouvi falar alguma coisa sobre o Emir Sader como o novo diretor da Casa Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Nada mais a declarar.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

"O Cisne Negro"


Talvez cheio de referências demais, o fato é que "O Cisne Negro" é um filme radical. Seu estilo "ame-o ou deixe-o" não escapou aos nossos colaboradores. Agora Dirceu envia, de Londres, suas explorações sobre a nova criação de Darren Aronofsky.

por Dirceu Villa

Darren Aronofsky, diretor de "Pi" (1998), filme fundamental no cinema, sobre um matemático extraordinário, seu professor sábio e sobre como um número descoberto quase ao acaso num aparente bug computacional se torna a chave tanto para judeus ortodoxos que buscam na Torá uma combinação de palavra e número que seja o nome de deus, quanto para umas pessoas muy delicadas por trás da Bolsa de Valores, dispostas a controlar a nova informação numérica que pode prever as flutuações. Inteligentemente, Aronofsky propõe essa linha, mística e matemática, se estendendo também dos meros negócios à ordem mirífica da teologia.

O filme é muito complexo. A onipresença do número na natureza, entrevista na spira mirabilis das galáxias à concha do molusco Náutilus, e às mais complexas descobertas humanas de proporção (cf. Lionardo Da Vinci) lhe dá um princípio que se desdobra, como na mística judaica, em palavra que soletra o código para tudo. Deixei, no começo deste blog em 2007, o trailer de "Pi" passando numa janela que mantinha com links para o youtube. Aronofsky fez outros filmes excelentes, e uma grande besteira, "The Fountain" (2006).

Mas agora realmente atingiu um ponto de excelência semelhante a "Pi", com "Black Swan" ("Cisne Negro"). Não vou falar do filme, uma obra-prima, mas de coisa formidável que o filme suscita intencionalmente, sobretudo se posto sob a luz cegante de "Pi", com o qual tem muitas relações.

Uma das hipóteses de "Black Swan" pode-se traduzir em: o que acontece quando o artista se torna a obra? A gente supõe que exista uma relação profunda entre quem realiza uma obra e esse resultado, a obra ela-mesma. Discutem em simpósios e tudo o mais quanta distância se pode supor entre o artista e aquilo que faz.

Idealmente, não deve existir nenhuma distância. Isso pode ser lido como um romantismo. Não é, ou, sendo, diluiria a força de sua fórmula. A transfiguração do autor no inventar da obra é coisa infinitamente mais antiga, mesmo que “autor”, nesse caso, tenha sido pensado como um canal entre duas instâncias de outra forma isoladas.

A obra de arte perfeita seria aquela em que o artista mergulhasse de tal maneira que se tornasse a obra, & vice-versa; a velha história de abyssus abyssum invocat, ou “o abismo invoca o abismo”: você olha pra ele, ele olha pra você. É o perigo da dissolução na luz ou na escuridão, como toda genuína busca de conhecimento acaba trazendo. "Doctor Faustus", sobretudo o de Marlowe, propunha isso, mas Goethe pensava, é claro, em algo semelhante.

No princípio era o verbo. E depois lemos que o verbo se fez carne. Essa correlação, por mais exclusiva que fosse em sua teológica origem, abriu um precedente, que aliás já estava aberto pela velha idéia grega de poesia como um fazer: a palavra põe algo (seja lá o que for) em ação efetiva.

Os egípcios cobriam de signos seus cadáveres, encomendados com sabedoria a uma vida além desta, por caminhos sagrados e secretos, e as palavras tinham o dom de iluminar essa escuridão da ignorância mortal. A cada uma das portas com guardas o iniciado diria: “sei o seu nome e sua função, permita que eu passe”.

Era também a palavra que punha vivo o Golem (e o desfazia), porque a palavra é, como os poetas concretos disseram, verbivocovisual, e porque, além dessa completude sígnica, ela carrega em si uma ancestralidade que nos retorna ao princípio da apreensão das coisas e de sua nomeação, é um elo vivo com o passado remoto & suas transformações. É como a luz: se a física retraça o trajeto de eras em seu caminho, também a palavra guarda possibilidades semelhantes. O sentido alquímico do homúnculo não era literal, por exemplo, mas uma apreensão simbólica de virtudes e potências.

Em geral, e após o romantismo, esse modo de entender uma obra de arte, de que criador e criatura são estranhamente um, e ambos vivos, virou uma banalidade, que os artistas ruins hoje usam apenas para dizer que lá estão eles, e deram o sangue em sua triste porcaria (alguns pobremente presos à mais simplória literalidade). Ou se tornou uma metáfora do conhecimento que vai além de suas medidas, reduzindo Prometeu a um âmbito caseiro, no "Frankenstein" da Srta. Shelley, cujo irmão poeta sonhava palavras bordadas e rendadas. Porque o conhecimento é medido sem as proporções mágicas que não apenas o autorizavam antes, mas o instrumentalizavam. Como John Dee, matemático, geômetra, médico, astrônomo e feiticeiro da rainha Elizabeth I escreveu em seu "Monas Hieroglyphica": aut discat, aut taceat, "ou aprende, ou cala".

Qualquer um que tiver discernimento, no entanto, perceberá como os grandes artistas encarnam suas obras, e como suas obras se tornaram tão peculiares a eles: não de uma forma banal, de tradução barata daquele arcano verbo encarnar, mas como aquelas coisas que se moviam em suas obras foram animadas de vida, dentro de suas próprias vidas.

É um pensamento desconcertante; de certa maneira, faz supor que o artista canaliza forças muitas vezes além de sua compreensão, que moldam (ou distorcem) o tecido da realidade. Platão era dessa opinião jocosséria, e o banimento que cai sobre o poeta na "República", penso, deveria ser lido em primeiro lugar como o atestado de que o poeta e a sociedade organizada não se entendem, eles se repelem. E se repelem porque a poesia porá complicações e dúvidas numa vida sem imaginação e corriqueira, organizada pelo Estado para funcionar num sentido amplo e geral, republicano.

É o perigo e também a necessidade deste poder muito específico da poesia; não apenas o das palavras de um verdadeiro artesão delas, mas o da imaginação.

Os estóicos antigos tinham uma teoria muito interessante sobre o assunto, in illo tempore, a teoria do pneuma, o calor em que são canalizadas as idéias seminais que produzem o phantastikón, ou o plasmar algo inventado na realidade, como um fantasma, resultando num lutar com sombras, precisamente como em "Black Swan", que, como os melhores leitores dos estóicos fizeram, não decide sobre o que é realidade e o que não é, uma vez que o limite de visão é sempre coisa proporcional às visões e a quem as tem ou não.

As imagens têm poder, a imaginação focalizada, também. As palavras recompõem, por som, desenho e composição, uma parte desse fantasma, dando ao airy nothing a local habitation and a name, como escreveu Shakespeare, justamente sobre esses poderes poéticos, em "A Midsommer Nights Dreame" (Um Sonho de uma Noite de Verão).

Marsilio Ficino sugeria o tipo de som a se ouvir para determinado efeito na pessoa; sugeria a focalização de determinadas imagens e o convívio com elas, para acentuar determinadas qualidades. Era a mesma hipótese que se espelhava no livro sobre poesia, escrito por Lorenzo de’ Medici, o Magnífico, em meados do século XV. Mas não é apenas um pensamento antigo e perdido nas areias do tempo.

Kandinsky e Mondrian eram muito místicos a respeito do efeito de cores e formas, no que essas potências agenciam; Pound tinha perfeita ciência do poder evocatório e invocatório de certas palavras, assim como de certos ritmos; Arnold Schönberg não era nenhum inocente sobre a qualidade encantatória da música. Etc.

Esquecemos disso porque muito da nossa poesia se tornou lixo demagógico, ou por outro lado teórico, sem técnica (tekhné se traduz por ars em latim, de modo que técnica e arte eram sabiamente uma coisa só), sem imaginação, sem poder simbólico algum sobre o que quer que seja.

Sobretudo porque poucos lembraram desse enorme poder organizado pela poesia & pela arte, e muitos dos que lembraram são gente século XVIII demais para conceber e aceitar coisa tão... tão... fantásticas (como os seres aéreos de Shakespeare, lidos em geral como meras gracinhas).

Aronofsky, como todo grande artista, não é um desses. Seu filme, perfeito (palavra oportuna) ao que se propõe, o prova com substância nova para o grande e antigo enigma.

Retirado de O Demônio Amarelo.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Estátua da paciência


Ainda sobre o Oscar: sobre aqueles que não estarão na cerimônia.

por William Silveira

Como é possível levar a sério uma premiação que deixou de reconhecer nomes como Alfred Hitchcock, Federico Fellini e Stanley Kubrick? Os esquecimentos - eufemismo barato para erros injustificáveis - ganham proporção se soubermos que Hitchcock esteve por cinco vezes no Kodak Theatre, assim como quatro foram as indicações de Fellini e Kubrick.

O inexplicável e o imponderável fazem parte de qualquer premiação e há quem diga que as injustiças carregam certo charme e sabor ao tapete vermelho. Não raro, diz-se que há mais prestígio em juntar-se à lista dos esnobados que a dos vencedores. A ironia, sabe-se, guarda em si suas verdades.

Desde a premiação de 2010, a Academia aumentou de cinco para dez os indicados na categoria de Melhor Filme. Inegavelmente, é uma forma de diminuir injustiças, mas principalmente de acomodar e dar visibilidade a um número maior de títulos que, caso contrário, facilmente terminariam como estatísticas diluídas na grande quantidade de produções norte-americanas. Seria assim com o interessante "Inverno da Alma" e com o bom "Minhas mães e meu pai", ambos concorrendo ao prêmio principal.

Não é o papel destes filmes, contudo, protagonizar a cerimônia. Entende-se, com razão, que o reconhecimento foi dado ao serem indicados e que, com muita sorte, podem sair com uma estatueta por atuação ou roteiro. A primeira pista para tal conclusão vem de uma incongruência apresentada pela própria Academia. Se determinado título concorre entre os dez selecionados a Melhor Filme e seu diretor não está presente nas cinco vagas destinadas a Melhor Diretor, então é muito provável que o filme em questão seja apenas um espectador de luxo.

Poucas atividades movimentam tanto os cinéfilos - e certamente lhes dá mais prazer que assistir à cerimônia - quanto apontar a miopia da premiação. Mesmo com uma lista de dez indicações muito boa, alguns nomes ecoam como injustiçados e poderiam perfeitamente estar presentes no próximo dia 27, em Los Angeles.

- Melhor filme: "O Escritor Fantasma" e "Ilha do Medo". Dois títulos muito aguardados, principalmente o de Polanski, nunca estiveram perto da unanimidade de crítica e público. Lançados no primeiro semestre, sofreram, sem sombra de dúvida, com a distância em relação à premiação.

- Melhor diretor: Christopher Nolan. Se ter sido preterido em 2009 pelo ótimo trabalho em "Batman - O Cavaleiro das Trevas" bastou para que os fãs do diretor megalomaníaco o rotulassem como persona non grata, Hollywood confirmou a suspeita - até que se prove o contrário - ao deixá-lo de fora pelo badalado "A Origem".

- Atriz: Julianne Moore. Além de ruiva - o que deveria bastar para a indicação -, Moore está muito bem no drama contemporâneo "Minhas mães e meu pai". O problema foi ter contracenado com a atuação irretocável de Annette Bening. Pesou ter de indicar duas atrizes do mesmo filme para a categoria e Bening foi bem escolhida.

- Ator: Ryan Gosling. Recebeu inúmeros elogios ao compor o par romântico com Michelle Williams (indicada para Melhor Atriz) em "Blue Valentine" ("Namorados para sempre", sem data de estréia no Brasil). O drama do jovem casal fez uma boa carreira antes do Oscar, mas até agora só levou o prêmio da Associação de Críticos de Chicago.

- Atriz coadjuvante: Mila Kunis e Olivia Williams. Muito competente ao ajudar na composição da oposição de Natalie Portman em Cisne Negro, Kunis não foi indicada por represália, pois ninguém que se preze deve participar de projetos como "Max Payne" e "O Livro de Eli". Por sua vez, Williams sabe que uma supporting actress não deve roubar a cena e assim o fez. Poderia muito bem ocupar a cadeira destinada a Amy Adams, dona de mais beleza que talento.

- Filme estrangeiro: "Abutres". Mais um filme do talentoso diretor argentino Pablo Trapero. Fala-se muito que a premiação expressiva de "O segredo dos seus olhos" no ano passado intimidou a Academia a indicar outra produção argentina com Ricardo Darín - o que soa como pleonasmo em Hollywood.

- Documentário: "Waiting for Superman". Vencedor de Melhor Documentário no Festival de Sundance, o filme sobre as falhas do sistema público de educação nos Estados Unidos foi apontado como favorito à categoria e surpreendeu ao sequer concorrer.

- Montagem: "A Origem". Quem assiste ao filme de Christopher Nolan facilmente percebe quanto do resultado final é méritos do trabalho seguro e eficiente do montador Lee Smith. Como nos prêmios técnicos somente estão aptos a votar os profissionais da área, pode-se imaginar que Smith não goza de grande admiração, uma vez que o atabalhoado trabalho de Pamela Martin ("O Vencedor") conseguiu indicação.

Por essas e outras, a Empire divulgou há pouco o que a revista considera como as 22 maiores injustiças da história do Oscar. Vale a pena conferir: http://www.empireonline.com/features/22-incredibly-shocking-oscars-injustices

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Homens como se fossem bichos


Um texto polêmico - o mais comentado do site da Dicta - sobre um assunto dos mais sensíveis. O que fazer com as populações e tribos sem contato com a nossa cultura - introduzi-las nas nossas atividades ou isolá-las como bichos? Joel mostra sua perplexidade quanto ao tema e explora alguns antecedentes.

por Joel Pinheiro da Fonseca

Existem no mundo, hoje, cerca de 100 tribos nunca contactadas pela sociedade mainstream. Conhecemo-las por fotos de satélite e, ocasionalmente, filmagens aéreas. Uma vez comprovada a existência, surge a pergunta: o que fazer a respeito?

A resposta da Survival International é simples: mantê-las isoladas. Pode parecer um repeteco da cansada retórica de que as culturas primitivas são muito puras e preciosas para serem infectadas por nós e devem permanecer eternas peças de museu. Não é o caso, como pode ser visto em seu FAQ. Primeiro porque eles não têm ilusões acerca da “pureza” dessas culturas: elas próprias mudam com o tempo; houve tribos na Amazônia, por exemplo, que adquiriram armas de fogo antes de conhecer o homem branco. Ninguém está perfeitamente isolado neste mundo. A Survival não busca preservar uma suposta inocência original. A proposta deles tem um motivo muito pragmático: o que acontece com as tribos depois do contato? De duas, uma: morte em conflito com madeireiros ou mendicância e prostituição em alguma cidade. Isso sem falar na baixa imunidade às nossas doenças.

A posição da ONG, portanto, é defensável. Vejo, contudo, algo de profundamente desumano em deixar a tribo isolada. Esses homens, tão homens como nós, levam uma vida material e intelectualmente muito precária. Sejamos sinceros: quase tudo em que eles acreditam acerca do universo e seu lugar nele está errado. Mesmo quem não aceite isso deve no mínimo conceder que é enriquecedor ter mais perspectivas e opiniões à disposição para que se possa escolher a melhor; por que negar isso aos índios? Ser mantido artificialmente isolado do resto do mundo é de certa forma uma traição à natureza racional deles, e eu, assim como qualquer um com um mínimo de respeito próprio, preferiria confrontar a dura realidade do que ser mantido isolado dela por sábios que zelam pelo meu bem.

Considerem este caso dramático. Uma tribo antes não-contactada foi dizimada. Sobrou, contudo, um integrante, que hoje vive sozinho no mato e prepara armadilhas pelas redondezas e ocasionalmente dispara uma flecha contra algum invasor. O articulista da Survival relata feliz, ao fim do artigo, a ação da FUNAI: isolar uma área de 3000 hectares em volta de onde ele está para que possa “viver em paz”. Em outras palavras, decidimos condenar um homem que viu todos os seus amigos e parentes morrerem violentamente a passar o resto dos seus dias no meio do mato sem entender nada do mundo à sua volta e sem ninguém com quem partilhar sua angústia; estranha paz! Isso é tratar gente como bicho. Ou não?

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O cisne indômito de algum lugar


por Leandro Oliveira

"Cisne Negro" não é a reconstrução de um pesadelo, não é sobre desejo de superação, nem sobre "a capacidade humana de se chegar a limites". Tampouco é uma pornochanchada - a tese é até boa, mas o sexo, no filme, não é mais que uma metáfora. E é mais que filme de terror, já que se vale de sua gramática e retórica, mas ultrapassa o gênero vertiginosamente.

"Cisne Negro" é uma narrativa iniciática - com mestre (Thomas Leroy), personagens aprendizes de oposição complementar (Lily x Nina), pseudo-modelos ou demônios (a Mãe x Beth MacIntyre). Está tudo lá, como o professor Olavo de Carvalho mostrou acontecer em outro filme de Hollywood, "Silêncio dos Inocentes", que também pouca gente à época entendeu. Não deixa de ser curioso que, quinze anos após o artigo que mudava toda a leitura de um filme que ganhou o Oscar, ainda hoje no Brasil "as palavras 'desejo' e 'paixão'" sigam como "chave universal" para explicar tudo.

Em "Cisne Negro", uma característica inescapável, e óbvia, é que o roteiro não força a distinção da dualidade para a resolução: ao contrário da narrativa iniciática tradicional, prevê que os pólos complementares convirjam ao final. Uma subversão do gênero justificado por uma espécie de simbolismo gnóstico? Talvez.

De qualquer maneira, é como narrativa iniciática que as falhas do filme devem ser apontadas; intuo algumas, mas precisaria rever outras vezes e acho que não tenho paciência... O importante é que não consigo imaginar que se possa achar nele outra filiação de gênero senão por liberdade poética; seria como tentar ler "A Bela Adormecida" tomando-a por um Bildungsroman.

****

"Bravura Indômita" é uma obra menor dos irmãos Coen, mas mesmo assim um filme de primeira linha. Distante do ethos do filme de Henry Hathaway, também baseado no romance de Charles Portis, os irmãos não deixam de se valer de alguns truques fáceis dos filmes de ação; talvez seja uma homenagem aos westerns, talvez apenas uma forma de não se levar muito a sério... Eu não os sinto plenamente justificados.

Mas os brothers são mais do que hábeis e jamais subvertem o tema fundamental da trama, que é o compromisso de Mattie Ross em fazer justiça pela morte de seu pai. Um filme impossível no Brasil, não pela técnica mas pelo norte moral; para eles é possível tal drama, para nós seria apenas um conto-de-fada.

****

Julio Lemos, que ao lado de João Vidal e Marcelo Cosentino são os únicos da minha idade que me fazem mudar de idéia, não gostou do filme da Sofia Coppola, enquanto eu o adorara.

Por conta de Julio, portanto, tive que rever "Em Lugar Qualquer" - e de fato, me dar conta que o havia supervalorizado. Mas tenho uma explicação: quando o assisti pela primeira vez, emocionava-me a companhia de minhas afilhadas. Acho que isso me fez sentir na pele o drama de Johnny Marco (eu também sou um astro pop, pois não).

Não somos por vezes assim, entendendo nas coisas aquilo que queremos delas?

Revendo o filme já em São Paulo, longe das minhas meninas, descobri que realmente é bom, mas não um capolavoro. Sigo discordando em uma coisa, no entanto: se entendi o argumento de Julio, para ele o filme não é isso tudo por ser "sem finalidade"; e exatamente por ser "sem finalidade" que eu o curti.

Ah, e ambos concordamos que Sofia, como diretora, é craque. E não, ela não é o Anticristo.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

And the winner is...


É fato incontestável: a cerimônia de premiação do Oscar é um sonífero. Glamouroso para quem vai (calma, eu nunca fui...), a verdade é que assistir pela TV os intermináveis salamaleques, as piadas privadas e os tantos intermezzi musicais de gosto duvidoso, é tarefa para poucos. William explica o caso.

por William Silveira

Sei que pode ser difícil aceitar, mas o Oscar não se importa com você. Digo isso, pois logo a premiação desponta no horizonte do mês de fevereiro e um discurso patético – mais patético porque repetitivo – vem à tona. Distantes da originalidade, as variantes críticas levam todas ao mesmo destino: o reconhecimento da Academia de Hollywood não tem mais a mesma importância, perdeu o prestígio; deixou de ser relevante.

Apesar da conclusão equivocada, algumas premissas são válidas. Sabe-se, por exemplo, que 82 anos após a primeira edição, a premiação demonstra cada vez mais dificuldades em renovar-se. Tentativas de modernização aconteceram nos últimos anos, principalmente ao acelerar e desmecanizar a dinâmica dos apresentadores, retirarem os intermináveis números musicais e diminuir – ainda que sem muito sucesso - o tempo de duração do evento. Em contrapartida, a edição passada mostrou como as inovações surtiram pouco efeito. Não bastasse a cerimônia ter se estendido mais que o planejado, um ritual lamentável de elogios artificiais foi inserido durante a premiação de melhor ator e atriz, postergando o aborrecido protocolo da noite.

Um remodelamento radical, como sugerem os detratores, não acontecerá única e simplesmente porque a Academia é composta de “velhos conservadores”, mas principalmente por ser imponderável arriscar qualquer modificação que ponha em risco a aura de glamour construída desde 1929. E isso não é por acaso.

Recrimina-se a suposta parcialidade com que os prêmios são distribuídos, o interesses financeiro, a excessiva e descarada presença de lobby, profissionalizado pelos irmãos Weinstein (Miramax Films e The Weinstein Company) e praticado for your consideration. Ora, se o problema residisse única e exclusivamente aí, então bastaria lembrar que Cannes e Veneza, bastiões de um cinema inovador, independente e de les film d'art, sofreram duras críticas quanto aos métodos e critérios por detrás das escolhas que levaram Juliete Binoche e Quentin Tarantino premiarem Michael Haneke e Sofia Coppola, respectivamente.

Mesmo com a preocupante e sintomática queda de audiência, o Oscar não vê grandes motivos para mudança. Uma premiação com entrada em tapete vermelho, smoking e transmissão para todo o mundo não está aí para agradar cinéfilos, críticos de cinema e espectadores. Sua função, longe de ser entertainment, acaba por torna-se mais nobre: sustentar o maior e mais caro mercado cinematográfico do mundo. Aos que encaram com desdém tamanha responsabilidade, faça uma rápida avaliação e procure descobrir de onde vem o dinheiro para produções dispendiosas como as que estão em cartaz. Certamente não é da venda de ingressos (receita eternamente ameaçada pela pirataria) e muito menos de filantropia estatal, como acontece no Brasil. Quem entende Cinema como algo realizado quase que divinamente, com uma idéia, uma câmera e quinze pratas, simplesmente não enxerga o Cinema, mas uma aventura de meninos.

Quando a cerimônia dura quatro horas, com discursos intermináveis e intragáveis, pode ter certeza que a exibição dos anunciantes permitirá não só um novo "A Rede Social", blockbuster qualificado, como também – e o mais importante – a sobrevida de projetos arriscados como o excelente "Cisne Negro".

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Explosões no céu

por Julio Lemos

“Remember me as a time of day” é a frase que serve de título para uma música do Explosions In The Sky. Uma espécie de leitura de “Love Will Tear Us Apart” do Joy Division ao lado das Escrituras — pois João Evangelista, o Εὐαγγελιστής Ἰωάννης, lembra-se do exato horário do dia em que conheceu Christo. É como se tivesse entendido, nas entrelinhas, que lhe dissera o messias algo como: «Lembra-te de mim como uma hora do dia».

Provavelmente João morreu velhinho, lá pelo ano 100, em Éfeso. Suas últimas lembranças talvez fossem nesse sentido — a memória da hora do dia: Christo como uma sensação, uma categórica percepção do Tempo qualitativo. Os coptas lembram-se de João como um dia em seu calendário: 2 de janeiro. Entre nós, 27 de dezembro.

Também me lembro das pessoas como um dia e uma hora. As três da tarde — momento em que escrevo isto aqui — é o time of day de uma pessoa querida que desapareceu. Encontramo-nos pela primeira vez a essa hora na esquina da Haddock Lobo com a Luís Coelho. Está tudo registrado — e não desaparecerá.

Sem ter me treinado a isso — é uma aptidão da memória bastante comum –, lembro-me das frases de um livro por sua posição na página. Basta dizer “fulano diz isso no livro tal” que, se tiver lido a obra, sei dizer a posição da frase no espaço tipográfico. Ou todos sabemos. Não me parece nada incomum.

“Uma hora do dia” e “posição na página” — espaço e tempo: x, y, z e t.

Depois da explosão do Big Bang ou de algo semelhante, se explosão houve, é assim que localizamos os nossos amores.

Retirado de Feliz Nova Dieta.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Arquitetura Evolutiva


Arquitetura e suas agruras modernistas... uma pequena reflexão.

por Joel Pinheiro da Fonseca

Certas formas de arte são mais passíveis de experimentos do que outras. Pense num quadro. O sujeito vai ao museu, olha a chocante aberração por uns dois minutos, acha que gostou e volta para casa. Com música é mais difícil; poucos se dispõem a aturar meia-hora que seja num concerto dodecafônico; na hora de encher as salas de concerto, são os barrocos, clássicos e românticos que salvam a orquestra.

Na arquitetura, por outro lado, pouco pensamos, embora ela interfira muito no nosso dia-a-dia e bem-estar. O suposto princípio da arquitetura moderna é a submissão da forma (aparência) à função. O problema é que a função pensada pelos arquitetos-artistas do século XX não era, muitas vezes, a vida normal e natural do ser humano, mas a vida que o homem por eles sonhado deveria ter.

Há uns dois anos foi disponibilizado no Google Video a série de documentários How Buildings Learn do escritor Stewart Brand cujo principal interesse não é com a fotografia do prédio na revista ou com as inovações da planta, e sim em como o prédio se adapta à vida humana e como, em consequência disso, ele muda ao longo dos anos.

“Na Bibliotèque Nationale, as notórias torres de vidro mostraram-se muito quentes para os livros lá dentro. Um dia de sol forte e eles assariam. Venezianas de madeira tiveram de ser adicionadas por todo o prédio, aumentando em muito os custos da construção.” No todo, a manutenção do prédio é tão cara que as autoridades tiveram que diminuir o orçamento da compra de livros.

A vida humana segue independente dos delírios grandiloqüentes de um Corbusier (ou de um Niemeyer); e se a tomarmos como critério, então as obras mais louvadas publicamente são também as menos úteis, as mais caras de se manter e as mais difíceis de se adaptar a novos usos e tecnologias. Prédios menos vistosos são frequentemente superiores; dê a eles alguns séculos, e uma obra-prima emerge das incontáveis alterações.

Retirado de Dicta.com.br.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Do perdão e outros demônios


Por Leandro OLiveira

O vocalista do grupo Simply Red, Mick Hucknall, fez um pedido público de desculpas em entrevista para o jornal inglês The Guardian. As desculpas são endereçadas às cerca de mil mulheres (!) com quem ele calcula ter dormido enquanto desfrutava o auge do sucesso.

O mundo é um pouco louco e, embora não possamos duvidar da sinceridade do Hucknall, é claro que tem algo de artificioso ou leviano na declaração pública de um pedido de desculpas sobre coisas sentimentais. Afinal este verdadeiro Don Giovanni contemporâneo não deve nada ao público do Simply Red ou a nós, posto que nada do que ele fez nos custou um centavo ou hora de sono. Deve desculpas às meninas e à sua família que foi magoada.

O que me ligou na notícia foi outra coisa: a natureza do perdão.

Afinal, pedimos desculpas para que aquele ofendido se sinta aliviado, não por nós mesmos. Aquele que ofende pode ter talvez um alívio de segunda mão, ao reconhecer no perdão do próximo a superação da ofensa mas jamais poderá, em seus pedidos de desculpas, aliviar-se por si. Nas palavras de Borges "não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me." Então, como salvar-me - ou, colocando em termos menos místicos, como ter as falhas e culpas "lavadas", largar a bola de pedra da foto acima?

Atualmente, o mecanismo utilizado pela elite intelectual ocidental é cruel ao tentar descaracterizar a culpa como um sentimento nobre. Ela seria mais uma "construção da sociedade burguesa" etc e tal. Nada disso me importa: sei que quando machuco pessoas que amo me sinto mal, e sei que é bom sentir-me mal quando faço mal aos outros; ou seríamos uma sociedade de psicopatas.

Reiteradamente uma solução se coloca: o esquecimento, "o único perdão". Mas o esquecimento tampouco seria um caminho de duas vias. Esquecer, neste sentido, é ser esquecido, esquecer é morrer completamente. É ser não uma "falta que não é a ausência" como aquela do poema de Drummond, mas a falta que é a ausência, o nada ou um sonho da memória.

Esquecer é vingar-se.

A propósito: vocês viram este filme melancólico que é "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" (a música, com Beck, chama-se "Everybody gotta learn sometimes...")?


O filme trata disso e, curiosamente, revelando seu problema sugere uma solução. Parte da idéia de uma máquina do esquecimento como a saída daqueles que sofrem por amor, incapazes de perdoar. Mas, caminho imperfeito, o esquecimento com todas suas dores e perdas não liberta o espírito. Só a consciência o permite, e a liberdade do espírito é a possibilidade da escolha - mesmo que, como no caso do filme, a escolha do reencontro. Ao fim e ao cabo, Joel e Clementine não precisam esquecer quem são ou o que fizeram para seguir juntos. Seu perdão é uma aposta, uma aposta de um no outro. Pedir perdão parece ser pedir para que os votos de confiança se renovem.

Para encerrar este post que começa a ficar anárquico: o nome do filme "Eternal Sunshine of the Spotless Mind", é retirado do verso de um belíssimo poema de Alexander Pope que deve ser lido absolutamente. Chama-se Eloisa to Abelard e é inspirado na triste história de amor de Heloise d'Argenteuil e Peter Abelard, figuras reais - ele um professor de lógica, ela sua aluna dileta - que apaixonados não conseguem viver o amor, impossível pelas circunstâncias e... ah, mas isso é outra história.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Cultura i(n)-útil


Por Leandro Oliveira

Para defesa pessoal podemos considerar como arma todo o qualquer objeto que possa ser usado em resposta a uma agressão. São cinco os tipos de objetos de defesa.

1) Os de tipo "martelo" são aqueles que permitem maior rigidez no contato. Ou seja: eles são usados como algo que sirva em substituição ao próprio punho ou pé pela sua eficiência e dureza. Uma cadeira, um cinzeiro ou um telefone celular, a ponta do sapato: tudo que é rígido é útil para golpear o adversário. Use a imaginação.

2) Os de tipo "perfurante" são não só as pontas de faca mas também os furadores de gelo ("Instinto Selvagem"?), os saca rolhas, as canetas, os espetos de churrasco, as hastes de óculos e, claro, para as meninas, os prendedores de cabelo. Não importando o tamanho (o tamanho diz sobretudo da distância com relação ao adversário), atingindo o lugar certo - os olhos, por exemplo - fazem maravilhas!

3) Os de tipo "cortante" são usadas, como o nome diz, para cortar. Aqui a referência óbvia são as facas - mas lâminas de alumínio, cacos de vidro, garrafas quebradas podem ser excelentes. É fácil por exemplo fazer um corte profundo com pontas de brinquedos quebrados... depois eu mostro.

4) "Dispersivos" são usados para serem arremessados contra o adversário. Mas atenção: você não está brincando de beisebol, então seu objetivo não é levar ninguém a nocaute, mas tirar a atenção ou confundir. Serve tudo: boné, casaco, dinheiro, chaveiro, areia... ou mesmo o celular, a cadeira, o prendedor de cabelo e a caneta. O problema é: distrair seu agressor para quê? Aí mora o busílis. Pode ser para sair correndo, para dar uns sopapos... depende de sua disposição. Mas saiba, os dispersivos devem ser encadeados em outras ações, necessariamente; não vale jogar o vinho de sua taça na cara do sujeito para ver o que acontece. Adianto: isso não vai acalmá-lo.

5) Objetos do tipo "corda": fios elétricos, fio dental, cordas para pular na ginástica, pedaços de arame. Bons para amarrar, evidentemente, mas quem viu filmes de ação sabe alguns usos diferentes - há muitos outros!
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...