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segunda-feira, 18 de abril de 2011

Colt Cavalhinho 38 Cromado


por Érico Nogueira

- Sonhei que tinha um colt cavalhinho 38 cromado. E quis contar pra vocês - já que minha tese, neste ano, vai me deixar pouquíssimo espaço pra falar de outra coisa senão dela própria;

- Teócrito é poeta imenso. Ao traduzi-lo, ora com o dodecassílabo, ora com o meu hexatônico, me sinto um pouco menos incompleto, como poeta. Participo do seu bom-humor, da sua jovialidade, das suas tiradas fantásticas, da sua mistura de registros, - e até da sua graveza e da sua ternura, aqui e ali;

- a D&C deste semestre está fenomenal: não percam;

- naufragou a tentativa de fundar uma revista/portal on-line junto com outros amigos; numa palvra: é muita estrela pra pouca constelação, como dizia o Raul, - pra nada dizer da pouca vontade de dialogar, de mediar as próprias opiniões; tá lá no Tocqueville: democracia é mediação - e pouca coisa a mais; depois a gente reclama dos autoritarismos; fiquei de saco cheio; nada, porém, que afetasse a minha amizade por todos eles;

- sonhei com um colt cavalhinho; mirava no matagal, atirava, Adriana vinha, me trazia suco de abacaxi... E Freud que vá pra puta que o pariu -- eu só queria o abacaxi, a Adriana e o colt; só isso, nada mais.

Retirado de Ars Poetica.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Dezoito quilômetros de mulher nua

por Nelson Rodrigues

A barriga do Chacrinha é uma paisagem. Digo isso e paro. Não ia começar com o homem da buzina e sim com Dostoievski. (Chacrinha virá depois.) Eis o que eu queria dizer: — num aniversário da morte de Pushkin, o romancista fez-lhe um discurso. Falou uma hora, duas, sei lá. E o discurso foi uma alucinação. O olhar de Dostoievski vazava luz como o de um santo. Pushkin foi apresentado como um profeta. O poeta tem de ser profético ou não é poeta. E o que anunciava Pushkin? A Nova Rússia. Sim, anunciava uma Rússia que se virava e revirava no ventre do tempo. E essa Rússia ainda não revelada diria ao mundo a grande Palavra Nova. Foi isso, se bem me lembro, o que disse Dostoievski.

E, quando acabou, o auditório enlouqueceu. As pessoas se abraçavam, as pessoas se beijavam. Havia um choro unânime, um gemido geral e grosso, como que vacum. Uns trepavam nas cadeiras, outros as cavalgavam. Um velhinho soluçava: — “Quero morrer, quero morrer”. Ninguém entendia essa brusca e senil nostalgia da morte. E uma moça, de uma beleza jamais concebida, veio do fundo do salão. Caminhava, ereta, de fronte alta, como uma sonâmbula.

E, diante de Dostoievski, cai-lhe aos pés. Foi terrível o que se viu. Ela curva-se e beija as botas do romancista. Depois levanta-se e desaparece, para sempre, como se jamais tivesse existido. De repente, todos sentiram que o profeta não era Pushkin, mas Dostoievski. Era ele que via a Rússia ainda uterina, a Rússia não nascida.

Passo finalmente ao Chacrinha. Disse eu, no início da presente confissão, que a sua barriga é uma paisagem. Mas o que me importa, mais do que essa plenitude do ventre, é o ordenado do Chacrinha. Já disse e aqui repito: — seu ordenado deflagra, no momento, toda uma indignação nacional. Oitenta milhões por mês.

A princípio ninguém acreditou. Nenhum brasileiro merecia tanto. Mas chegou um momento em que a evidência varreu a última dúvida. Era a pura, santa e imaculada verdade. Lembro-me de colegas que, na redação, abriam os braços para o céu: — “Como pode? Como pode?”. Cabe então a pergunta: — e onde nasceu a primeira irritação? Resposta: — nas esquerdas.

Não sei que crudelíssimo fatalismo está sempre a empurrar as nossas esquerdas para o erro, para o equívoco, para a alienação. Um brasileiro ganha oitenta milhões. As esquerdas deviam estar exultantes. Sim, elas deviam sonhar com um Brasil de Chacrinhas. Seríamos oitenta milhões a ganhar oitenta milhões.

Mas as esquerdas não aceitam o Chacrinha ou, melhor dizendo, não aceitam o salário do Chacrinha. É o salário, e não vagos preconceitos éticos e estéticos, que explica o feio, o torvo ressentimento. Num domingo recente saiu um imenso ensaio, quase uma página inteira, em corpo seis. Seu autor era, justamente, uma flor das esquerdas. E metia o pau no Chacrinha, e não só no Chacrinha: — também na música popular, na escola de samba, no Chico Buarque, no Fla-Flu e, por fim, no sexo.

O esquerdista negava tudo o que o brasileiro adora. Li aquilo e saí perguntando: — “Você gosta de sexo? De música popular? De futebol?”. E, de repente, relendo o tal artigo, percebi por que a nossa esquerda não se comunica com ninguém e vive na mais obtusa solidão. Repito: — a nossa esquerda só fala, escreve, gesticula e só doutrina para si mesma. Por isso é que no 31 de março e no 1º de abril ela ficou mais só do que um Robinson Crusoé sem radinho de pilha.

Claro que no caso dos oitenta milhões há uma unanimidade. Até o Walther Moreira Salles está em pânico. Se um brasileiro passa a ganhar oitenta milhões mensais, algo mudou ou vai mudar. Semelhante fato não pode ser intranscendente. Por trás dessa abundância salarial esconde-se alguma ameaça apavorante.

Foi isso, mais ou menos isso, o que eu disse ao Otto Lara Resende; e foi isso, mais ou menos isso, o que ele me disse. Ontem, almoçamos juntos; o Hélio Pellegrino foi a terceira presença. E depois saímos. O Hélio foi para o consultório. Vim para a cidade na carona do Otto. Propus-lhe um itinerário praiano para pôr uma paisagem no nosso papo. Seguimos então a orla que vai do Forte ao Leme. O Otto bramava: — “São os mais lindos brotos do mundo. Olha ali, rapaz, olha!”.


“E o Chacrinha?” — perguntará o leitor. Já voltaremos a ele. Por enquanto, abro um parêntese paisagístico. O Otto reagia como se ele fosse a Idade Média atirada no meio dos umbigos em flor. Ele próprio reconhecia: — “Eu sou a Idade Média!”. E íamos dizendo, um ao outro, que somos o povo mais lindo do mundo. O Otto gemia: — “Dezoito quilômetros de mulher nua!”. Sentíamos que essa nudez, múltipla, molhada, inédita no mundo, era o aviso de um Brasil novo.

Há dois Ottos: — um, público, e outro, do terreno baldio. E poucos provam do bom, do legítimo, do escocês Otto secretíssimo. Ah, o que ele disse da esquerda. Claro que a esquerda tem o direito de ser esquerda. O que lhe negamos é o direito de ser tão inepta, tão incompetente, tão irrealista, tão alienada do Brasil e, repito, tão antibrasileira. Examine-se um esquerdista. Ele não chove uma chuva própria. Pensa “idéias feitas”, diz “frases feitas”, sente “sentimentos feitos”. Seu ódio aos Estados Unidos não é realmente um ódio, um sentimento, uma paixão. Não. É uma Palavra de Ordem. Se aqui faz calor, e nos Estados Unidos, frio, foi o imperialismo norte-americano que roubou a nossa neve e a faz chover como papel picado.

E já que o Otto chovia a própria chuva, eu quis chover a minha. Voltamos ao Chacrinha. Perguntei-lhe: — “E o padre Ávila?”. Que fazia o padre Ávila ou que faziam os outros sociólogos? Os oitenta milhões de Chacrinhas eram um dado sociológico gravíssimo. Não é por acaso que um brasileiro, altamente subdesenvolvido, passa a ganhar oitenta milhões. Minto, minto. O Chacrinha vai ganhar cem. Não mais oitenta. Cem milhões. Quem o afirma é, não o Otto público, inautêntico, das salas, mas o luminoso Otto do terreno baldio. A partir da Primeira Missa até a semana passada, o brasileiro não ganharia tanto, nem juntando cada vintém de várias encarnações. Hoje, em trinta dias, o Chacrinha vai ganhar cem milhões.

Eis o que eu queria dizer: — isso significa que começou todo um processo. Certas coisas não acontecem de graça. Há, nos milhões de Chacrinhas, um toque de mistério. Ou por outra: — é um mistério não tão misterioso, Se a nossa sociologia limpasse a poeira das próprias lentes, veria o óbvio ululante. Na verdade, o salário do Chacrinha é, para nós, o que Pushkin foi para a Rússia. Sim, o salário do Chacrinha profetiza um Brasil que vem por aí com uma saúde de centauro.

Foi isso o que eu disse ao Otto, foi isso o que o Otto me disse. O amigo me deixou na porta de O Globo. Assim me despedi: — “Até logo, Idade Média”. Ainda fiquei, por um momento, em cima do meio-fio vendo sumir na primeira esquina o seu medieval Fusca.


Retirado do livro "O Óbvio Ululante".

segunda-feira, 21 de março de 2011

O Favor que nos faz Obama


por João Vidal

Caros amigos do Ocidentalismo.org,

É no venerável espírito dos correspondentes de guerra que lhes escrevo desde a cidade que se costumava chamar (ou melhor dizendo, cujo ‘nome original’* era) Rio de Janeiro. Pois há momentos em que nos vemos irremediavelmente desviados das elucubrações do exílio intelectual a que muitos de nós se dedicam pelo noticiário cada dia mais teratológico de nosso país. Por essa razão trato aqui não dos assuntos que gostaria, mas da visita ao Brasil do prodígio que é Barack Obama.

Procurei esquivar-me de todas as formas do tema e das notícias que afluíram por todos os meios de comunicação na última semana, mas fui vencido pelo cansaço e pelo simples fato de que Obama trouxe transtornos à minha vida pessoal. Pressenti que as coisas não iam muito bem no momento que tomei conhecimento de que o líder global havia resolvido, e não sido convidado a, discursar na Cinelândia. Farejei ali a subserviência que se confirmaria com detalhes sórdidos nos dias seguintes. Primeiro veio a notícia de que a praça seria fechada e que os nativos que desejassem aplaudir o rábula de south Chicago deveriam comparecer sem bolsas e com identidades à mão. Determinações do serviço secreto americano, às quais se somaram a seguir ordens – prontamente atendidas pelo prefeito da cidade – de se fazer fechar todos os restaurantes do bairro no fim de semana e as estações de metrô circunvizinhas. (Também foram fechadas duas vias da Avenida Atlântica, onde se hospeda Obama no Rio.)

Simultaneamente me chegaram (sempre involuntariamente, repito) notícias de que o PT proibira manifestações contra o ‘estadunidense’, fato não menos interessante que a indignação do presidente regional do PSTU após protesto em frente ao consulado americano frente ao que chamou de ‘infiltração do movimento’ por elementos que teriam arremessado um ou dois coquetéis Molotov contra um segurança do referido consulado (a propósito um brasileiro, como todos os demais seguranças do consulado). Já bastante aviltado, a ponto de quase juntar-me ao PSTU em seu protesto, recebo a seguir notícia de que o primeiro concerto da série ‘fora de série’** da Orquestra Sinfônica Brasileira (não a profissional, em quarentena, mas a dita ‘jovem’), que executaria (provavelmente em vários sentidos) a raramente ouvida no Rio "Paixão Segundo São João" de Bach, estava cancelado, uma vez que Obama desistira de falar ao público que nesse ponto já deixava suas bolsas em casa para aplaudir o lenga-lenga democrata de sempre para falar aos ‘super-vips’*** desde o palco do Teatro Municipal mesmo.

Devo dizer que o cancelamento do concerto representou para mim não apenas a perda da oportunidade de ouvir essa bela obra de Bach, mas também da possibilidade – e aqui reside verdadeiramente o ‘fora de série’ da coisa – de testemunhar a primeira Paixão de Bach na qual o crucificado seria não Jesus Cristo mas a própria orquestra. Como acontece com as grandes catástrofes, a notícias se seguiam num crescendo para baixo, numa katabasis que, segundo suspeitava desde o princípio, poderia redundar talvez numa grande lição sobre o que é afinal o Brasil na cadeia alimentar mundial. Assim, o estranhamento ao ver a Cinelândia e o Teatro Municipal revistados pela CIA (ou FBI ou seja lá quem fossem os cops da ocasião) deu lugar à perplexidade, quando ouvi no Jornal Nacional que em Brasília as forças de segurança americanas procediam a revista geral do próprio Palácio do Planalto! Estava então já tomado por aquele espírito (na linguagem de nossos algozes) ‘what the fuck?’ quando ouvi que moradores da Cidade de Deus não deveriam ocupar as lajes nem postar-se às janelas de seus barracos, e ainda que nem o prefeito, nem o governador e nem mesmo o secretário de segurança do Rio poderiam acompanhar Obama em seu passeio pela favela (os dois primeiros foram convidados, porém, para em algum momento caminhar com o presidente americano até a porta de seu helicóptero).

(Como uma pequena notícia animadora, tomo conhecimento de que a Central Única das Favelas rompeu com Obama!)

Mas a primeira das ofensas máximas foi reservada à visita de Obama ao Corcovado: todos os funcionários brasileiros deveriam ser dispensados e nenhum cicerone local seria admitido. A segunda? Sem dúvida a impagável revista (‘intensa’, segundo alguns jornais, com direito a violentas apalpadas nos países baixos) de alguns dos mais importantes ministros brasileiros, entre os quais os petistas Guido Mantega e Aloísio Mercadante (cena belíssima!), em pleno Palácio do Planalto. Tratar-se-ia de episódio destinado a mostrar como o PT, dedicado ultimamente a se apropriar compulsivamente de idéias do PSDB, levou esse comportamento to a whole new level?: Celso Lafer tirou o sapato nos EUA?, pois nós nos deixamos apalpar pelo americanos aqui mesmo! Como bater essa?**** Outro ponto baixo foi Obama recusar o convite para jantar com a ‘presidenta’ do Brasil, no mínimo uma deselegância sem tamanho. Circularam notícias ainda de que o espaço aéreo de Brasília teria sido fechado e controlado por aeronaves americanas, mas prefiro nem me informar a respeito e seguir acreditando que isso não pode ser verdade.

Imagino que muito mais poderia ser relatado da visita ainda em andamento do dignitário americano, mas isso aí é, pelo menos para mim, suficiente para chegar ao ponto, que é o favor que nos faz Obama. Bill Gates, Madonna e Michael Jackson, para os quais já se havia fechado o trânsito no Rio e montado extraordinários esquemas de segurança, já me haviam feito suspeitar que um tratamento no mínimo singular era dado aqui a visitantes americanos, e especialmente aos bilionários e famosos. Mas foi Obama, tripudiando da população e dos mandatários do Brasil, quem veio nos dar uma lição definitiva acerca do lugar do Brasil na ordem mundial. Se nosso ministro Patriota – ironia máxima! – avisava uma semana atrás que o Brasil desejava uma relação ‘de igual para igual’ com a América do Norte, Obama didaticamente (foi professor em Chicago, consta) nos colocou em nosso devido lugar de quintal dos EUA. Pois não se pode respeitar quem não respeita primeiro a si mesmo. Com políticos que rosnam para os que estão abaixo enquanto tiram seus sapatos e são apalpados pelos que estão acima, e com cidadãos dispostos a bajular até mesmo quem os humilha, afirmo (como diria Mangabeira Unger) que não poderemos avançar um milímetro sequer na direção de ganhar algum respeito na comunidade internacional.

Daquela que se costumava chamar (ou melhor dizendo, cujo ‘nome original’***** era) Rio de Janeiro, e (insolitamente) com o PSTU e a Central Única das Favelas,

J.Vidal.

* Inside joke.

** Notemos a originalidade do nome.

*** Segundo consta planejava-se dividir os ouvintes do discurso entre ‘povo’, ‘vips’ e ‘super-vips’. Naturalmente apenas os dois últimos participaram da festa, ao fim e ao cabo.

**** Uma outra ofensa grave seria Obama ter citado ‘Pal Coelo’, ao fim do discurso no Municipal, como um dos mais importantes escritores brasileiros. Se por um lado não esperávamos mesmo que o presidente americano soubesse algo sobre literatura brasileira, por outro o gracejo mostrou que ele é provavelmente tão burro quanto George W. Bush.

***** Inside joke.

terça-feira, 8 de março de 2011

Cem anos atrás...



Carnaval — 1910
por Graciliano Ramos

Eram três dias bem desagradáveis. Sujeitos precavidos fechavam-se, olhavam suspeitosos a rua, mas isto não os livrava de pesares: se se distraíam, inundavam-nos jatos de água suja. Iam mudar a roupa, furiosos. Avizinhavam-se depois das janelas, atentos aos moleques armados de bisnagas enormes de bambu. Além desses inimigos, havia os indivíduos que traziam, em mochilas, pacotes de alvaiade, zarcão, ocre, tinta de todas as cores, com que se pintavam os transeuntes.

O doutor verboso declamava discursos irados nas esquinas, referia-se aos selvagens, aos tupinambás. Ninguém lhe dava importância — e a zanga esfriava. Bem, agora, molhado, não valia a pena recolher-se. O jeito que tinha era entrar na função, tornar-se também selvagem, vingar-se, provocar outras indignações e arrastar para a folia os amigos cautelosos.

Animavam-se todos e perdiam a compostura, acabavam achando aquilo interessante. Alguns viam perfeitamente que estavam fazendo maluqueira e desregravam-se com moderação, quase a pedir desculpas encabuladas à cidadezinha pacata. Homens graves, pais de família, tisnados, bebendo, aos gritos. Mau exemplo, doidice. Na quarta-feira retornariam a sisudez necessária.

Cadeiras nas calçadas. Meninas sérias e bicudas reprovando os excessos, sacudindo com espanto e enjôo as cabeças, onde se arrumavam papelotes. Não se contaminavam, estavam livres da pintura, dos banhos, de atracações perigosas: comportavam-se direito, como se aguardassem a passagem da procissão. Rapazes ousados atiravam nelas esguichos de água de cheiro e eram mal recebidos. Muxoxos. Que assanhamento! Nada de brincadeira. Brincadeira com moça findava na igreja ou rendia pancada. Os desejos não se escondiam sob nuvens de confete, não se amarravam com serpentinas, não se excitavam com éter.

Ainda se desconhecia o automóvel. A gente escassa pisunhava nas barrocas do calçamento ruim, equilibrava-se nas pedras pontudas.

As negras se haviam tingido com papel vermelho molhado. E andavam tesas para não desmanchar os enfeites do pixaim, branco de fiapos.

De longe em longe desfilavam parafusos, tipos envoltos em numerosas anáguas que se iam encurtando. As de cima, perto do pescoço, eram camisas de crianças. Esses espantalhos andavam inchados por dentro e por fora pacholas, cobertos de renda engomada.

Papangus vagabundos enrolavam-se em sacos de estopa, sujos, as caras escondidas em fronhas, as mãos calçadas em meias.

Bobos de máscaras horríveis se esforçavam por aterrorizar os meninos. Gingavam, falavam rouco e fanhoso:

— Você me conhece?

Se não conseguiam disfarçar-se, recebiam vaia e ficavam arreliados.

O índio, de penacho e tanga, era personagem obrigatória e silenciosa.

Passava o cordão, levantando poeira, causando entusiasmo. Um frevo decente em redor do porta-bandeira. Repetiam-se cantigas de dez anos sem nenhuma alteração, muito bem ensaiadas. As figuras marchavam na disciplina; o homem da maromba conduzia o bando, importante; papai velho exibia vaidoso a cabeleiras de algodão e as longas barbas de espanador; o morcego, na frente, fazia piruetas, agitando as asas de guarda-chuva.

Mascarados solitários produziam hilaridade com pilhérias antigas e ditos grosseiros, inconvenientes. Outros, reunidos, firmavam as críticas, motivo de receios e alarma. Alusões a notáveis acontecimentos do lugar, comentários a fatos melindrosos e particulares, mexericos todos, sem graça nenhuma. Criavam-se inimigos. E às vezes se liquidavam contas velhas.

Um cidadão espiava o morcego e o parafuso de longe. Dois ou três embuçados musculosos entravam-lhe em casa, batiam-no a cacete. Berros, súplicas, sangue, apitos sumiam-se na festa. Ninguém sabia donde vinham as pauladas — e era bom evitar opiniões. No ano seguinte as críticas seriam menos ofensivas.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Sugestões e receitas antitédio...


por Hilda Hilst

Pequenas sugestões e receitas do espanto antitedio para senhores e donas de casa durante o carnaval.

I.
Pegue um nabo. Coloque duas ou três palavras dentro dele, por exemplo: bastão, ouro, amplidão. Chacoalhe. Você não vai ouvir ruído algum. É normal. Ai ajoelhe-se com o nabo na mão e diga:

“Com o bastão que me foi dado
Com o ouro que me foi tirado
E sem nenhuma amplidão
De conceitos e dados
Quero nascer brasileiro
E poeta.”

Quem te ouvir vai ficar besta.

II.
Colha um pé de couve e dois repolhos. Embrulhe-os. Faça as malas e atravesse a fronteira. Tá na hora.

III.
Pergunte ao seu filhinho se ele quer laranja descascada de tampinha ou de gomo. Se ele disser que quer laranja descascada de tampinha, diga que um menino bem educado sempre escolhe a de gomo. Se ele começar a chorar, chupe você a laranja. De tampinha, naturalmente.

IV.
Enfeite a mesa com flores. Compre um peru. Feche as crianças no banheiro. Antes de começar a ceia, convide seu marido para dançar ao redor da mesa (não mexa com o Peru). Inopinadamente pergunte se ele gosta de trufas. Se ele disser que sim, gargalhe algum tempo atrás da porta e diga que “trufas não tem não, amorzinho”.

V.
Compre manteiga. Passe-a nos dedos (esqueça Marlon Brando). Chupe-os. E diga em tom de oração: Que vida solitária, meu Deus! (Contenha-se).

VI.
Compre uma língua de tucano (é uma umbelífera), uma língua de vaca (Chaptalia nutans é seu nome cientifico), um lírio branco (Lilium candidum), dois caquis (não é cáqui, não vá comprar o brim da cor dos caquis), ferva durante cinco minutos. Depois jogue fora, olhando para o alto. É uma simpatia para você não dormir.

VII.
Corte um saco em pequenos pedaços. Um de estopa, evidente. Embrulhe vários ovos, um por um, em cada pequeno pedaço de estopa. Pinte caras descarnadas, dentes pontudos e beiços vermelhos na cara dos ovos (sempre esses de galinha ou de pato, é desses que eu estou falando). Quando alguma das tuas crianças começar a pedir aquelas coisas caríssimas e imbecis que são sugeridas na televisão, cubra-se de negro a noite, use tintas fosforescentes para ressaltar a cara dos ovos (aqueles) e quebre-os um a um nas pequeninas cabeças dizendo com voz rouca: parem de pedir coisas impossíveis a sua mãe, seus canalhas!

VIII.
(Se você for PhD, leia até o fim. Se não, pule esta).
Faca um buque de orelhas. É fácil. Peça apenas uma a cada um de seus dez amigos íntimos. Diga-lhes que é para uma causa nobre. Se perguntarem qual causa (não confundir com Cáucaso, é outra coisa), diga que você precisa mandar o buque para tua velha e querida preceptora inglesa (quando você tinha quinze anos, lembra-se?), que arrancou as tuas duas porque você insistiu inquebrantável durante doze horas seguidas que aquela primeira frase de Marco Antonio para o povão era, na “tua” tradução, “Emprestai-me vossas orelhas”. Todos concordarão, acredite, com o teu pedido. Ainda mais porque todo mundo sabe que “Lend me your ears” quer dizer isso mesmo.

IX.
Se você quer se matar porque o país está podre, e você quase, pegue uma pedrinha de canfora e uma lata de caviar e coloque ao lado seu revólver. Em seguida, coloque a pedrinha de cânfora debaixo da língua e olhe fixamente para a lata de caviar. Só então engatilhe o revólver. (É bom partir com olorosas e elegantes lembranças. Atenção: não de um tiro na boca porque a pedrinha de canfora se estilhaça).

domingo, 6 de março de 2011

Entre Carnavais



Os que esquecem antes de amar
por Nelson Rodrigues

Ontem ensaiei um paralelo entre o atual e os velhos carnavais. A dessemelhança chega a ser escandalosa. É como se fossem dois povos, duas cidades, dois idiomas, nada parecidos entre si. O carnavalesco de 1920 ia de paroxismo em paroxismo. Ninguém dormia, ninguém comia. Era uma resistência física absurda. O sujeito começava no sábado e varava o domingo, a segunda e a terça. Só apagava na quarta. Era uma danação unânime de quatro dias. Escrevi que o mistério desse formidável dinamismo era o pudor. Hoje, a própria palavra está morta. As Novas Gerações não conhecem o “pudor físico”. Ainda ontem, passei pela avenida Atlântica; fiz o itinerário obrigatório do Forte ao Leme.

Vi, várias vezes, esta cena: — uma menina linda, de biquíni, comprando um refrigerante na barraquinha. O crioulo destampava a garrafinha. Estava, ali, por certo, um dos brotos mais lindos da Terra. Mas aquela nudez, dentro da luz, não interessava a ninguém. A garota vinha do mar; as gotas se estilhaçavam nas suas costas, no ventre perfeito. E ela, na graça inconsciente do seu gesto, bebia pelo gargalo. O crioulo do grapete não lhe fazia a concessão de um olhar. Nenhuma curiosidade. Olhava para outro lado e era cego, surdo e mudo para a nudez adolescente, tão próxima, tangível.

Eis o que eu queria dizer: — as duas coisas seriam impossíveis no velho carnaval. Nem a nudez da menina, nem o tédio do homem. Lembrei o biquíni porque nunca a mulher se despiu tanto para os quatro dias. Nos
bailes, nas esquinas, nas calçadas, nos jardins, há uma nudez indiscriminada e obsessiva. E vem um cruel tédio visual de tantos nus absurdos.

Vou dizer o óbvio, mas paciência. Antigamente, o carnaval era “a mulher” e só ela existia. Por trás da máscara, dentro da fantasia, sem deixar de fora uma nesga de carne — não precisava ser feia, simpática, bonita ou jovem. Ou por outra: — todas eram lindas. João do Rio fez, certa vez, um conto de carnaval. Era uma mascarada que o herói deseja com obstinação e loucura. E, depois de um suspense sabiamente elaborado, o leitor descobre tudo: — a mascarada era leprosa, nem mais, nem menos.

Mas isso era então viável. Hoje a mulher não pode esconder uma brotoeja, nada. O conto de João do Rio chamava-se “Bebê de tarlatana”. Eis o que pergunto: — quantas “bebês de tarlatana” faziam do carnaval um momento de plena e desesperada voluptuosidade? Bem me lembro de uma menina muito falada em Aldeia Campista.

Tinha sido bonitinha ou, pelo menos, jeitosa de corpo e de rosto. Mas ficou “fraca do pulmão”, como se dizia. Os jornais davam à tuberculose o nome alvo, nupcial de “peste branca”. No fim de três ou quatro meses de doença, era um pobre ser, leve, incorpóreo; estava tão frágil que desfalecia com um perfume mais intenso ou com uma emoção mais forte. Já os vizinhos a chamavam de “caveirinha”. E chegou o carnaval de 1920.

Quando disse que queria “brincar”, houve um pânico na família. Foi um tal de “Deus me livre”, “Não pode” etc. etc. Mas cravou no peito dos outros um argumento imbatível: — “É o meu último carnaval!”. E todos
sabiam, na família, na rua, no bairro, que seria mesmo o seu último carnaval. Foi assim um suicídio consentido. O próprio médico não se opôs, dizendo que a pequena estava tecnicamente morta. E, na manhã de domingo, lá saiu a mocinha, de meia máscara.

Não me lembro do resto da fantasia. Só sei que era do mais hermético pudor. (Mais tarde, o caso foi contado no jornal de modinhas.) Havia, porém, um problema: — ela não teria forças nem para chegar à primeira esquina. E, no entanto, saiu, tomou um bonde, desapareceu. Depois se recriou, com as revelações de uma inconfidente, toda a sua história. Ela não queria pular em bonde, entrar em bloco, dançar na avenida. Não. Queria apenas ser beijada. Beijada.

Assim está explicado por que, depois da morte, acabou no jornal de modinhas. Era a mulher que nunca fora beijada e daria a própria vida pela sensação do primeiro beijo. “Alguém vai me beijar”, dissera à inconfidente. Hoje, o beijo quase não existe. Outro dia, num salão, dizia uma bela senhora: — “Não gosto de beijo. Não acho graça em beijo”. Todavia, no tempo do cinema mudo e do pudor físico, os usos amorosos eram outros. O beijo tinha que ser o ponto final de qualquer filme. E não é nada extraordinário que, naquele tempo, uma mulher quisesse ser beijada antes de morrer.

A “caveirinha” saiu no domingo e sumiu. Na terça-feira, um rapaz de Aldeia Campista passa na avenida e vê, numa esquina qualquer, um ajuntamento. Vai espiar pensando num atropelamento. Não era atropelamento, era a “caveirinha”. Estava lá, estendida, rente ao meio-fio, com uma vela, ao lado. E sangue, tanto sangue. De vez em quando, ainda hoje começo a tecer minhas fantasias. Imagino que a “caveirinha” encontrou alguém, sim. Usava meia máscara, com uma franja de renda, que cobria o queixo. Vejo-a erguer a franja e oferecer a boca. Se até a “bebê de tarlatana” fora beijada. Depois do beijo, jorrou a hemoptise final. Segundo uns mascarados, já estava morta e continuavam as golfadas de vida. O corpo passou no necrotério e, mais tarde, foi para casa. Teve caixão branco, vestido branco, tudo de virgem.

Pode-se dizer que um beijo a matou, no tempo em que os beijos ainda matavam. Mas eis o que importa notar: — antes dos nus, a mulher em chagas punha fantasia e máscara nas feridas e era amada por toda uma cidade. Por onde quer que passasse sentiria o desejo anônimo e geral. Sábado, começará um novo carnaval. Mas sabemos que, nos bailes e nas ruas, a mulher será uma figura secundária para o homem. Do mesmo modo, o homem será secundário para a mulher. Ontem, um médico me confessava o seu espanto. Os nossos jovens, de ambos os sexos, esquecem antes de amar e sentem o tédio antes do desejo.

sábado, 5 de março de 2011

Alegorias


Os Romanos
por Rubem Braga

Foi no Leblon, no domingo de sol, e não era escola de samba nem rancho direito, era apenas uma tentativa de rancho, sem mulheres, sem música própria. Eram quase todos negros e mulatos, quase todos muito fortes e vestidos da maneira mais imaginosa, com saiotes e escudos e capacetes com muitos dourados e prateados, e de espada na mão. Cantavam o samba estranho “Maior é Deus no Céu” e no estandarte estava escrito assim: “Henredo o Império Romano”.

Todos achamos graça nesse H que dava ao enredo, que afinal não era enredo nenhum, uma súbita solenidade, sugerindo graves palavras históricas e heróicas, hostes de hunos, hierofantes, hieróglifos e hierarquias. E era muito guerreira a marcação da bateria – e Júlio César, com seu capacete de papel prateado de dois palmos de altura acima do pixaim, e brandindo com o enorme braço negro uma espada de ouro, nunca esteve tão soberbo na sua glória.

Não, não morreu o Império Romano, embora Mussolini fizesse questão de suicidá-lo pela segunda vez. Ele rebenta soberano do fundo dos carnavais e tu, Marco Antônio, continuas a suspirar pela serpente do velho Nilo. E tu, Cleópatra, continuas a dizer ao homem que envias para vigiar o teu amado: “Se o achares triste, dize que eu estou dançando: se o achares alegre dize que adoeci de súbito...” E esses pretos e mulatos que hoje dominam o mundo com suas espadas de bobagem, e se fazem Neros e Brutus e Calígulas, são os mesmos que de súbito se precipitam esfarrapados no “sujo” mais feroz – pois quando não são imperadores preferem ser miseráveis terríveis e não os pobres contribuintes da taxa sindical do ano inteiro.

A secreta gravidade e a espantosa riqueza do carnaval chocam-se com essa arrumação extraordinariamente pífia que os decoradores da Prefeitura fizeram na Avenida, em um requinte de mau gosto que tenta ser popular e sendo apenas ruim – e com a indigência mental desses carros alegóricos subvencionados, sem espírito, nem beleza, nem nada.Pelo gosto da Prefeitura acabaríamos na infinita palermice de um carnaval de Buenos Aires, com aqueles funcionários
municipais fazendo préstitos e a multidão aborrecida e enorme. Mas no seio do povo rebentam as imaginações como flores de loucura, esses sambas chorando, esses batuques heróicos, essa invenção incessante onde se despeja toda a fantasia, toda a tristeza, toda a opressão dos homens.

Bem-aventurados os que fazem o carnaval, os que não fogem nem se recolhem, mas enfrentam as noites bárbaras e acesas, bem-aventurados os gladiadores e Césares e chiquitas e baianas, e que a vida depois lhes seja leve na volta do sonho em que se esbaldam.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Especial - Carnaval



Ao longo do período momesco, arriscamos uma seleção de escritos de carnaval pelas mãos de nossos grandes mestres. O formato - nobre apenas no Brasil - é o da crônica. O prazer é impagável. Evohé! Momus est roi!

por Machado de Assis
(4 de fevereiro de 1894)

Quando eu li que este ano não pode haver carnaval na rua, fiquei mortalmente triste. É crença minha, que no dia em que deus Momo for de todo exilado deste mundo, o mundo acaba. Rir não é só le propre de l'homme, é ainda uma necessidade dele. E só há riso, e grande riso, quando é público, universal, inextinguível, à maneira deuses de Homero, ao ver o pobre coxo Vulcano.

Não veremos Vulcano estes dias, cambaio ou não, não ouviremos chocalhos, nem guizos, nem vozes tortas e finas. Não sairão as sociedades, com os seus carros cobertos de flores e mulheres, e as ricas roupas de veludo e cetim. A única veste que poderá aparecer, é cinta espanhola, ou não sei de que raça, que dispensa agora os coletes e dá mais graça ao corpo. Esta moda quer-me parecer que pega; por ora, não há muitos que a tragam. Quatrocentas pessoas? Quinhentas? Mas toda religião começa por um pequeno número de fiéis. O primeiro homem que vestiu um simples colar de miçangas, não viu logo todos os homens com o mesmo traje; mas pouco a pouco a moda foi pegando, até que vieram atrás das miçangas, conchas, pedras ver e outras. Daí até o capote, e as atuais mangas de presunto, em que as senhoras metem os braços, que caminho! O chapéu baixo, feltro ou palha, era há 25 anos uma minoria ínfima. Há uma chapelaria nesta cidade que se inaugurou com chapéus altos em toda a parte, nas portas, vidraças, balcões, cabides, dentro das caixas, tudo chapéus altos. Anos depois, passando por ela, não vi mais um só daquela espécie; eram muitos e baixos, de vária matéria e formas variadíssimas.

Não admira que acabemos todos de cinta de seda. Quem sabe não é uma reminiscência da tanga do homem primitivo? Quem sabe se não vamos remontar os tempos até ao colar de miçangas? Talvez a perfeição esteja aí. Montaigne é de parecer que não fazemos mais que repisar as mesmas coisas e andar no mesmo círculo; e o Eclesiastes diz claramente que o que é, foi, e o que foi, é o que há de vir. Com autoridades de tal porte, podemos crer que acabarão algum dia alfaiates e costureiras. Um colar apenas, matéria simples, nada mais; quando muito, nos bailes, um simulacro de gibus para pedir com graça uma quadrilha ou uma polca.

Oh! a polca das miçangas! Há de haver uma com esse título, porque a polca é eterna, e quando não houver mais nada, nem sol, nem lua, e tudo tornar às trevas, últimos dois ecos da catástrofe derradeira usarão ainda, no fundo do infinito, esta polca, oferecida ao Criador: Derruba, meu Deus, derruba!

terça-feira, 1 de março de 2011

A premiação de um "gran signore"


por Leandro Oliveira

O International Classical Music Awards é uma espécie de Oscar da música clássica. Um pouco melhor que o Oscar pois, além de ser o mais prestigioso prêmio da categoria, é dado pelos críticos profissionais das mais importantes revistas e rádios da europa continental: Crescendo (Bélgica), Fono Forum e MDR-Figaro (Alemanha), Gramofon (Hungria), IMZ (Áustria), Musica (Itália), Musik & Theater (Suíça), Orpheus Radio (Rússia), Pizzicato (Luxemburgo), Resmusica.com (França), Scherzo (Espanha) e Viva Classica (Finlândia).

O grande vencedor do ano - com o "Lifetime Achievement Award" - foi o pianista Menahem Pressler.

O prêmio não veio fora de hora. Fundador do Trio Beaux Arts, Menahem Pressler é reconhecido por todos nós da área como uma de suas poucas unanimidades. Aos 86 anos, sua carreira se perpetua por seis décadas, e segue ativa até hoje, seja como recitalista, camerista ou professor. O Beaux Arts encerrou suas atividades na temporada 2007-2008, uma perda não maior pois suas gravações seguem em catálogo. Em sua última formação estavam o violinista Daniel Hope e o nosso querido Antonio Meneses. Foi com Antonio que conheci Pressler, e com eles vivi uma das histórias mais fascinantes deste mundo que tenho a sorte de trabalhar.

Realizavam os dois juntos uma turnê pelo Brasil com as sonatas de Beethoven. No Rio de Janeiro, o recital contava com a Sonata em Dó Maior no. 4, op. 102 na abertura do programa. A Sala Cecília Meirelles no Rio estava lotada, a maior parte ansiosa mais pelo nosso pernambucano que pelo monumental Pressler. Eu, curioso para estar com os dois mestres, me entreguei com o andante inicial, como um amador - ao prazer do puro som.


E algo aconteceu: não somente comigo mas com todos na Sala. Ao final do Andante - e antes do Allegro que se lhe segue, tecnicamente a ser executado sem interrupção - levantamos. Levantamos sim, no plural, todos: a Sala pôs-se inteira a aplaudir.

Os dois, altivos, apenas entreolharam-se com um leve sorriso e seguiram. Nos recompomos na cadeira, alguns, como eu, envergonhados. Um vexame coletivo, a prova de nosso hooliganismo musical.

Ao jantar, depois do concerto, fomos os dois solistas, eu e as anfitriãs, Cesarina e Sabina Riso. Comentamos, um pouco de soslaio, sobre os aplausos fora de hora. Ambos riram. Menahem, após um breve silêncio contou a seguinte história:

Esta é nossa quarta cidade da turnê. Como vocês sabem, queremos depois gravar as sonatas. Tocamos em todas as cidades por onde passamos esta sonata, em diversas posições do programa; em todas elas o público aplaudiu exatamente naquele momento. Chegando ao Rio de Janeiro, ficamos um pouco ansiosos. Alguma coisa fazemos ali, e as pessoas não podem se não aplaudir. Sabíamos que o aplauso era espontâneo, e seria uma espécie de fiasco se aqui não acontecesse, logo no Rio que amamos tanto. Seria como se tivessemos tocado um pouco pior. Longe de incomodar, foi um alívio quando aplaudiram.

Rimos. Eu escondia com a risada minha perplexidade. Ao contrário da ruína que aponta Tom Service, os aplausos equivocados foram a comunhão. Algo certamente único em minha vida musical, que jamais se repetiu nesta "minha vida de retinas tão fatigadas".

Antonio depois comentou que preparar o programa com Menahem foi como aprender música tudo de novo: se sentia um aluno iniciante. Isso disse ali, na minha frente, em português, o vencedor do concurso Tchaikovsky e responsável por gravações com Herbert von Karajan e recitais em todos o mundo. Um gênio se curvava absolutamente diante do Mestre.

Menahem é mestre e simpático. Sua música é como seu temperamento: despretensioso e sofisticado, inteligente e amável. Em um mundo de languilânguis e dudaméis, que a despretensão, a sofisticação, a inteligência e a generosidade amorosa tenham sido premiados pelo ICMA não deixa de ser um sinal de que ainda há civilização no mundo clássico.

Os outros premiados foram o compositor e regente Esa Pekka Salonen (Artista do Ano, que terá uma de suas peças executadas pela Osesp esta temporada), o pianista francês David Kadouch (Jovem Artista do Ano) e Chandos (Selo do Ano). O prêmio "Special Achievement" foi para o selo BIS pela edição completa da obra de Sibelius, marco na discografia do compositor. O "Website Clássico" ainda não foi o Ocidentalismo.org ou o Euterpe, mas o Digital Concert Hall da Filarmônica de Berlim.

A festa acontece dia 6 de Abril.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Do amor e outros demônios

por Leandro Oliveira

Me faz falta o Marcelo Consentino. Está em Paris, o amigo, pesquisando e - oxalá! - finalizando o texto de sua tese de doutoramento sobre um filósofo místico russo do século XIX. Consentino me faz falta pois era um especialista no amor, ele que fez seu mestrado sobre o dito em Platão, o que evidentemente deu muito pano para manga. Desde então o gajo é meu conselheiro sobre este tema e muitos outros, e sua ausência, a despeito do que digam os tecnófilos, não se resolve pelo Skype.

Outro dia mesmo pensei em como ele me resolveria o problema: um rapaz ama uma garota, resolve que ela é a paixão de sua vida, mas não chegam ao supra-sumo, ao aleph; algo falta ou promete incessantemente, e enquanto isso evidentemente ele sofre, ela sofre mais, pois gosta dele. Mas não parece que se entendam de fato. Tempos discutindo a relação fazem deles sombras deles mesmos, já que buscando cavar nos escombros de si os motivos para os tropeços afetivos e comportamentais que os incendeiam, não imaginam que a escuridão por onde tropeçam não é a presença de algo mas a ausência de luz. Então se separam ou, pior, ficam juntos para todo o sempre chafurdando na mesma lama?

E dizendo isso lembrei de uma passagem extraordinário do Nelson Rodrigues. A cada Natal, ligando para um conhecido, o Dr. Alceu de Amoroso Lima, Nelson recebe sempre uma referência algo que bizarra, uma resposta aos votos quase protocolar onde ouvia "Ah, acabei de rezar por você". Nelson se aflige com a resposta, pois ela reitera-se ano após ano. E culmina com uma passagem extraordinária:

Bem me lembro do nosso último 24 de dezembro. Ouço a voz do dr. Alceu: — “Alô?”. Estou imaginando: — “Vai repetir tudo, igualzinho como da outra vez”. Digo: — “Dr. Alceu, é o Nelson Rodrigues. Como vai essa figura?”. Foi de uma larga e cálida efusão: — “Ah, Nelson, acabei de rezar por você”. Tomo um baque. Ele insiste: — “Tenho pedido muito por você”. Aproveito uma pausa e dou o meu recado: — “Vim desejar-lhe todas as felicidades etc. etc.”.

(E eu queria pingar, como no pires de um cego, a moeda da minha oração.) Baixa em mim o tédio: começo a crer que o amigo é uma impossibilidade. A conversa continuou e chegava a ser irreal, quase um pesadelo humorístico. Subitamente, ele suspira: — “Ah, Nelson, você aí nessa lama!”. Exatamente: — lama. Começo a ter medo do resto. Dr. Alceu dizia “lama” familiarmente, como se falasse de uma tia minha, bem idosa e até estimável. Tive a idéia de responder-lhe: — “Minha lama vai bem. E a sua, dr. Alceu?”.

Acabei com aquilo sumariamente: — “Até logo, até logo. Passar bem”. Desliguei e confesso: — com um desgosto do Natal e, até, um tédio retrospectivo do presépio do Tico-Tico. Nunca mais telefonei, nunca mais. Mas, ao relembrar o episódio, imagino um mundo em que as senhoras se cumprimentassem assim: — “Como tem passado a sua lama?”. Eis o que o dr. Alceu, na sua imodéstia de santo, não percebe — qualquer um tem seus íntimos pântanos, sim, pântanos adormecidos. É preciso não despertá-los. Mas certos acontecimentos acordam a lama do seu negro sono. Quando isso acontece, a alma começa a exalar o tifo, a malária, e a paisagem apodrece.


Reli a passagem escapando das leituras por vezes enfadonhas dos estudos acadêmicos. Lembro que ao reler pensei imediatamente na minha lama, aquela que não costumo visitar, e meditei sobre onde ela se esconderia. Projetos falhos, desejos torpes, palavras frouxas, atos vis. Acontece que era dia de sol, então não tive qualquer desconforto em pensar nelas como monstrinhos animados, gremlins que não se molham à meia noite. E fiquei ali, fumando meu cigarro semanal.

Hoje, com a fumaça de outro cigarro, me veio a explicação. Pude fantasiar, através dos caminhos divertidos da fumaça que se desintegrava no ar, como Marcelo me explicaria sua leitura de Platão. Fantasei, ia dizendo, que talvez esta paixão entre duas pessoas é apenas o reflexo de um amor maior, o Amor, cujo grau e instância é imenso, completo, infalível. Eis o que queria dizer: talvez aquele Amor - imenso, completo, infalível - seja o tema mesmo da falência desse aqui, ordinário, despedaçado, cheio de rugas; ao intuir tais alturas nos damos conta de nossa pequenez de anjos caídos. Errantes, sofremos esta nossa condição, o preço por estarmos vivos.

(Marcelo possivelmente me lembraria de um dia quando um judeu foi crucificado para que não soframos mais... a que responderia pensar Nele todo dia, sempre com o temor de que em Seu sofrimento esteja apenas o bom coração de um amigo tentando me consolar.)

domingo, 26 de dezembro de 2010

I will never give in

por Leandro Oliveira

Estou no Rio e, como sempre quando na cidade, é momento de rever amigos, reavaliar referências, cultivar nostalgias.

Ontem ao jantar, comentávamos todos sobre as novidades nada felizes do mercado recente - e entre os tantos "causos" típicos da mesquinharia de nosso meio musical, o mais triste deles, a controversa saída do maestro Tibiriçá do projeto de Heliópolis.

Logo depois, como que ironicamente, pudemos rever algumas horas de gravações extraordinárias - o que afinal é nosso passatempo predileto quando estou na Babilônia Maravilhosa. Retomamos um dos grandes cavalheiros do piano do século XX, o mestre Arthur Rubinstein.

Pouco a pouco, conforme subia o nível etílico e com ele minha melancolia, me dei conta de nossa miséria, exatamente ao entender uma época não tão distante onde a música era espaço para pessoas menos boçais e mais generosas. Para muito além de um dos mais inspiradores artistas do piano, maestro Rubinstein era (palavra old fashion) um gentleman. À luz das peripécias indecorosas dos nossos artistas - quase todos gênios do marketing ou mestres da política -, Arthur Rubinstein talvez nunca tenha sido tão jovem. E sua juventude é sua "precisão": quando buscamos nos palcos algo a admirar, seguimos sempre ao encontro daquilo que Rubinstein e tantos outros do passado preservavam cuidadosamente: a força "espiritual" da absoluta integridade artística, integridade que talvez tenha sido ilustrada nos conhecidos versos de Ricardo Reis:

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.


Talvez não possa explicar melhor o que comentamos ontem, então sugiro esta entrevista que ilustra inequivocamente um pouco daquilo tudo. É o próprio Rubinstein, aos 90 anos, falando de sua arte. Vocês infelizmente não poderão comungar do vinho, a noite de luar, a piscina e o calor vexatório de ontem à noite, mas mesmo assim, acho que gostarão deste testemunho incomparável.

PS: Melhor: tenho certeza que gostarão. Nos dias de hoje, é fácil sentir "vergonha alheia"; este vídeo me dá a sensação contrária, de "orgulho alheio". Dê a si este presente e assista. Veja como podemos ser nobres.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Amnésia Cultural - Márcio Montarroyos

Por Leandro Oliveira

Exatamente três anos atrás ficamos órfãos de Márcio Montarroyos.

Apesar da distância de nossa idade, formávamos um círculo muito próximo e eclético de amigos: ele e a Cris sua esposa linda, Cesarina Riso, Nelson Freire, Miguel Abrãao, Alberto Vescovi e Sabina (meus cumpadres), Alberto Nicolau, David Hadjes, o Rubens Farias, Marquinhos Portinari, Malena belíssima... Cada um de nós fazendo nossas vidas e escolhas cheias de erros e acertos, tentando discernir o que "no meio do inferno não é inferno" e seguindo em frente. Uníamo-nos por tardes inteiras, tardes que se tornavam dias e noites cheias de música e vida. Momentos despretensiosos e inesquecíveis.

Monta foi um amigo querido em uma fase muito importante da minha vida - aquela onde tomamos as decisões sobre o futuro profissional, sobre quem queremos ser e o que queremos deixar no mundo. Na verdade, sigo tomando diariamente tais decisões, mas a convivência com Marcinho me fez imaginar que era aquela alegria, inteligência e prazer permanente da arte que definitivamente eu deveria perseguir.

E segui meu caminho. Com minha transferência para São Paulo, o "mantra" da cidade caos acabou com a regularidade extraordinária daqueles dias extraordinários. Comecei a trabalhar com Neschling na Osesp, sai e voltei à Sala São Paulo e desde então sigo aqui meus dias trabalhosos e heróicos.

Alguns de nós nos distanciamos. Às vezes penso que tudo tratou-se de um sonho; às vezes acordo de sonhos que me fazem imaginar a vida como uma premonição e intuo que tudo retornará, que nos encontraremos todos nos preparativos de uma pescaria interminável, amarrando o bote à lancha que nos levará à luz do Sol e às nuvens leves de uma baía eterna. Ali ouviremos uma sonata de Beethoven e o veredicto de Márcio que aquele acorde em Ré maior é azul - e gargalharemos e estaremos felizes.

"Wave" com o trompetista Márcio Montarroyos é um presente que recebi e compartilho com todos neste domingo 12 de dezembro de 2010.

sábado, 27 de novembro de 2010

Machado de Assis e a ópera

Por Leandro Oliveira

Esta semana a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal e meu amigo Rodrigo de Carvalho apresentaram na Sala São Paulo um programa dedicado a trechos de óperas. Achei uma crônica perfeita para ocasião: é longa para um blog mas deliciosa do primeiro ao último parágrafo.

TANNHÄUSER e bonds elétricos. Temos finalmente na terra essas grandes novidades. O empresário do Teatro Lírico fez-nos o favor de dar a famosa ópera de Wagner, enquanto a Companhia de Botafogo tomou a peito transportar-nos mais depressa. Cairão de uma vez o burro e Verdi? Tudo depende das circunstâncias.

Já a esta hora algumas das pessoas que me lêem, sabem o que é a grande ópera. Nem todas; há sempre um grande número de ouvintes que farão ao grande maestro a honra de não perceber tudo desde logo, e entendê-lo melhor à segunda, e de vez à terceira ou quarta execução. Mas não faltam ouvidos acostumados ao seu oficio, que distinguirão na mesma noite o belo do sublime, e o sublime do fraco.

Eu, se lá fosse, não ia em jejum. Pegava de algumas opiniões sólidas e francesas e metia-as na cabeça com facilidade; só não me valeria das muletas do bom Larousse, se ele não as tivesse em casa; mas havia de tê-las. Cai aqui, cai acolá, faria uma opinião prévia, e à noite iria ouvir a grande partitura do mestre. Um amigo:

— Afinal temos o Tannhäuser; eu conheço um trecho, que ouvi há tempos...
— Eu não conheço nada, e quer que lhe diga? É melhor assim. Faço de conta que assisto à primeira representação que se deu no mundo. Tudo novo.
— O que eu ouvi, é soberbo.
— Creio; mas não me diga nada, deixe-me virgem de opiniões, Quero julgar por mim, mal ou bem...

E iria sentar-me e esperar, um tanto nervoso, irrequieto, sem atinar com o binóculo para a revista dos camarotes. Talvez nem levasse binóculo; diria que as grandes solenidades artísticas devem ser estremes de quaisquer outras preocupações humanas. A arte é uma religião. O gênio é o sumo sacerdote. Em vão, Amália, posta no camarote, em frente à mãe, lançaria os olhos para mim, assustada com a minha indiferença e perguntando a si mesma que me teria feito. Eu, teso, espero que as portas do templo se abram, que as harmonias do céu me chamem aos pés do divino mestre; não sei de Amália não quero saber dos seus olhos de turquesa.

Era assim que eu ouviria o Tannhäuser. Nos intervalos, visita aos camarotes e crítica. Aquela entrada dos fagotes, lembra-se? Admirável! Os coros, o duo, os violinos, oh! o trabalho dos violinos que cousa adorável, com aquele motivo obrigado: lá, lá, lá tra, lá, lá, lá, tra, lá, lá. . . Há neste ato inspirações que são, com certeza, as maiores do século. De resto, os próprios franceses emendaram a mão dando a Wagner o preito que lhe cabe, como um criador genial...

domingo, 10 de outubro de 2010

Especial Poa Em Cena IV - Ute Lemper


It was a wrong number that started it, the telephone ringing three times in the dead of night, and the voice on the other end asking for someone he was not...

Por Leandro Oliveira

"Hi Leonardo, here is Ute". Agruras nada típicas de um professor de história da cultura, ser interrompido no meio de divagações sobre Tocqueville por um número cheio de zeros (chamada internacional) ao celular - e ter o próprio nome confundido em uma língua que não a sua. Não, não sou Leonardo, senhora Lemper, mas Leandro, por favor. Como está, fez boa viagem?

A diva que deveria acompanhar pelos próximos dias me ligava do aeroporto pois o motorista havia atrasado. Fui por três anos diretor artístico da série de concerto internacionais da TUCCA, uma organização que cuida de crianças carentes com câncer e tem como estratégia para levantar recursos a programação de cinco concertos anuais na Sala São Paulo, concertos cuja renda é revertida para as atividades que promove. Ela trouxe Brad Mehldau há poucos dias. Naquele ano, Ute abriria nossas atividades ao lado da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal e o maestro Rodrigo de Carvalho.

Minha vida entre estrelas não começava ali. Na verdade, tratava-se de uma espécie de rotina do grand monde que eu habitara não sem muita timidez desde os 16 anos, quando começara a estudar piano a sério e pude conviver - por forças das circunstâncias bastante particulares, não do meu talento - com Nelson Freire, Antonio Meneses, Ricardo Castro, Jocy de Oliveira ou John Neschling (para ficar entre os brasileiros) e desde então assumir com certa naturalidade a mania carioca de chamar os mais próximos entre eles pelo diminutivo (Nelsinho, Ricardinho, Johnny etc...).

Ute nunca foi "Utinha", mas o "Senhora Lemper" caiu na segunda ligação. O motorista havia chegado - um anjo da guarda, por nome Marcelo. Ficamos juntos toda a semana. O ponto máximo de nossa intimidade foi a recepção para patrocinadores após o concerto, quando ela ao pé de meu ouvido pediu para ficar próximo, já que estava pouco à vontade entre tanta gente estranha falando uma língua esquisita.

Ute Lemper pouco à vontade?


Lembrei disso pois Ute esteve há pouco tempo no "Porto Alegre Em Cena". No show apresentou alguns de seus belíssimos cavalos de batalha como o "Die Moritat von Meckie Messer" (em versão particularíssima aqui) de Kurt Weil, e sua sempre emocionante "Ne me quittes pas" - que, aliás, não à toa foram as últimas palavras que falei para ela no aeroporto ano passado... Seus partners, sempre afinadíssimos, foram o pianista Vana (ou Werner Gierig para os não íntimos) e o bandoneonista Tito Castro (este último não esteve conosco no show em São Paulo).

Quem foi não esquecerá. Todos do Ocidentalismo.org que foram ficaram catatônicos e por isso, não conseguiram escrever. Eu não fui, então esta crônica a la Forrest Gump. Sei que dali ela partiu para o Rio e meus amigos que puderam assisti-la na Cidade Maravilhosa largaram a família ou embriagaram-se completamente pelo resto da vida. Poucos acreditam que eu tenha sobrevivido tendo tido sua voz sussurrante à minha direita.
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