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segunda-feira, 28 de março de 2011

Observatório Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Dica imperdível, o lançamento de "Herege" de G. K. Chesterton. Ieda Marcondes faz uma pequena apresentação:

“Hereges” apresenta vinte capítulos, cada um destinado a uma figura ou tendência moderna. Assim, o autor discute Rudyard Kipling, Bernard Shaw, H.G. Wells, o Comtismo, o “carpe diem” dos estetas, o Novo Jornalismo, a comunidade científica, entre outros. Para cada caso, ele emprega uma perspectiva teológica, analisando sua heresia e ressaltando a importância da ortodoxia. Dessa forma, Kipling é um herege por ser um cidadão do mundo, por não ter tempo ou paciência de se fixar definitivamente em nenhum lugar, ele representa o cosmopolitismo da sociedade moderna que avança e expande sem saber que a vida acontece quando nos enraizamos, quando nos prendemos em determinada causa ou comunidade; Shaw é um herege por não aceitar os humanos como são, por comparar homens com super-homens, com deuses ou gigantes, quando o segredo do cristianismo, e mesmo do sucesso em vida, está na humildade; Wells é um herege por duvidar do pecado original e da possibilidade da própria filosofia ao dizer que é impossível encontrar idéias seguras e confiáveis, que tudo sempre muda, mas são apenas as aparências que mudam, as idéias permanecem sempre as mesmas.

Na íntegra aqui.

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Resenha sobre o último livro de V. S Ramachandran - que sempre traz boas perguntas sobre arte e o nosso cérebro.

Twenty percent of art can now be explained by neuroscience. That, at least, is what V.S. Ramachandran thinks. Ramachandran is the Director of the Center for Brain and Cognition, and Distinguished Professor with the Psychology Department and Neurosciences Program at the University of California, San Diego. He is, in short, one of the top neuroscientists around at the moment. He is also a clear and engaging writer. His 1999 book, Phantoms in the Brain, brought him much popular attention and his most recent book, The Tell-Tale Brain, is doing more of the same.

Na íntegra aqui.

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As raízes históricas e culturais do Yoga em uma belíssima resenha de Wendy Doniger

Some American Hindus have recently argued that Hindus should “Take Back Yoga”. The Hindu American Foundation insists “that the philosophy of yoga was first described in Hinduism’s seminal texts and remains at the core of Hindu teaching”, that yoga is the legacy of a timeless, spiritual “Indian wisdom”. Other Americans agree that the Hindus should take back yoga – from the many Christians who embrace it: R. Albert Mohler Jr, president of the Southern Baptist Theological Seminary, advises Christians to abandon yoga if they value their (Christian) souls. This fight evokes for me the Monty Python skit in which Greek and German philosophers compete in a football game (which ends with Marx claiming that the Greek goalscorer was off-side). Declaring the Southern Baptists (or at least the Revd R. Albert Mohler) off-side, we may still ask, why do so many American Hindus care so much whether yoga is Hindu? And is it?

Na íntegra aqui.

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Os amigos do Falando de Música lembraram; em homenagem à Liz Taylor, uma passagem do filme "Rhapsody" - no trecho, o concerto para violino de Tchaikovsky que a Osesp tocou neste final de semana.


quinta-feira, 17 de março de 2011

A música no Império do Sol Nascente


por Leandro Oliveira

As notícias não são nada razoáveis pelo oriente. O tsunami que devastou cidades inteiras ainda desdobra algumas tragédias como as das usinas nucleares; trabalhadores locais já se tornam heróis nacionais, expondo-se como estão às conseqüencias da radiação.

Pelo mundo, solidariedades. A Sinfônica de Düsseldorf dedica sua récita da nona sinfonia de Beethoven (regida por Yutaka Sado) às vítimas da tragédia. Dia 26 de março.

A cidade parece ter a maior colônia japonesa na Alemanha. São Paulo, salvo engano, tem a maior colônia da América Latina.

Enquanto isso, a agitada temporada de Tóquio sofreu diversas baixas: a Filarmônica Tcheca e a BBC Symphony abandonaram a cidade.

A orquestra do Maggio Musicale Fiorentino foi pega de surpresa no meio de uma apresentação; cancelou todas as récitas restantes de "La Forza Del Destino" e "Tosca", mas não consegue sair de Tóquio. O cancelamento foi devido ao abandono de alguns solistas, com paura da crise nuclear. Todos do meio musical sabemos da responsabilidade extraordinária de Zubin Mehta nestas ocasiões. É notória sua dedicação à Filarmônica de Israel na ocasião da guerra do Libano - quando todos fugiam de Tel Aviv, o maestro fez o caminho contrário para exatamente ficar junto à orquestra.

Acredita que nas crises, é quando as pessoas mais precisam de música.

Membros do coro se prontificaram à substituição, o maestro Mehta esforçou-se para manter a temporada. Mas o sindicato dos músicos não cedeu - humano, demasiado humano.

A orquestra NHK realizava um concerto na ocasião do terremoto com o maestro Daniel Harding (Prelúdio do Parsifal e a Quinta de Mahler); a Orquestra Filarmônica do Japão apresentava-se com um programa russo (Stravinsky e Prokofiev).

A Nova Ópera Nacional cancelou sua temporada de balés e ópera. Não há previsão de novos concertos.

Para que nossos corações se voltem aos afetados, deixo-os com o "Requiem" do compositor Toru Takemitsu (1930-1996)

quarta-feira, 2 de março de 2011

Durezza nel cuore


A filosofia da linguagem guarda meandros por vezes inusitados.

por Leonardo Valverde

Tenho andado bem ocupado, por isso não tenho colocado nada aqui.

Mas tenho meditado numa palavra em sânscrito, que por sua vez leva-me ao verso 15 do capítulo 15 da bhagavad gītā:

A palavra é hṛdaya, ou ‘coração’. Podemos analisá-la assim:

hṛdaya > hṛd > hṛ = tirar, oferecer, suportar.
Minha meditação tem sido em cima destas três acepções da raiz (dhātu) aí acima.

Pensem nelas e em como o coração está ligado (metaforicamente) às acepções!

Toda palavra (nome) em sânscrito vem de uma raiz (dhātu), que é responsável por um dos significados (o mais profundo) da palavra em questão. No sânscrito, a filosofia da linguagem não é uma especulação mental, tipo a encontrada em Wittgenstein, não, ela vem da própria palavra, de sua raiz. É daí que extraímos o significado profundo de um objeto que a palavra (a escrita) denomina.

Já o verso (śloka) diz assim:

सर्वस्य चाहं हृदि संनिविष्टो
sarvasya cāhaṁ hṛdi saṁniviṣṭo
E Eu estou adentrado no coração de todos.

É o que Kṛṣṇa diz a Arjuna numa das estrofes mais lindas da gītā.

Retirado de LeonardoValverde.com

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Islã na encruzilhada dos valores


Acompanhadas com apreensão por todos os entusiastas dos valores Ocidentais, as recentes convulsões no oriente médio trazem perguntas bastante pertinentes sobre o real papel das liberdades individuais na construção de uma sociedade justa - e como poderá o Islã cultivar tais valores sem sua modernização.

por Joel Pinheiro da Fonseca

Talvez seja cedo para dizer, mas tudo indica que as atuais revoltas populares no mundo islâmico terão impacto duradouro. Por décadas ditadores permaneceram no poder sem grande contestação, e agora nenhum deles sente-se seguro. É possível que haja alguma conspiração por trás dessas revoltas; mas pela primeira vez na história não é necessário, como bem argumenta Gary North. As redes sociais, devido a seu baixíssimo custo de entrada, permitem a publicação dos sentimentos e a articulação de movimentos de massa sem organização central. Ela também diminui muito a possibilidade de reação do governo. Se em décadas passadas um regime autocrático não hesitaria em abrir fogo contra os manifestantes, seguros de que poucos fora dali ficariam sabendo, hoje é uma questão de minutos entre o disparo de uma bala e a transmissão da morte de um civil a milhões de computadores.

A grande questão é o que sairá desses movimentos. Há fortes traços islamistas, o que não impede que cristãos tomem parte (apesar das sempre cautelosas palavras do papa Shenouda III pedindo oração e não-participação; o momento é extremamente delicado). Islamismo não necessariamente significa algo pior ou mais odioso do que o que está no poder agora. É um fato curioso: governos seculares de países islâmicos incentivam a propagação do salafismo wahhabita importado da Arábia Saudita, pois ele nada tem a dizer de política, e portanto apresenta menos perigo imediato ao governo do que islamismos menos fundamentalistas mas mais politizados.

Rashid Ghannouchi, que voltou à Tunísia depois de anos exilado, defende governo secular, direitos das mulheres e poder aos sindicatos. Sua mensagem, embora sempre baseada no Corão, é essencialmente a mensagem de um movimento social por direitos humanos, sem nada do fanatismo de uma Al Qaeda. No próprio Egito, pouco antes dos ataques, foi publicado o “Documento de Renovação do Islã” assinado por diversos intelectuais; seu conteúdo é surpreendentemente moderno. Jihad, por exemplo, só defensiva e em terras islâmicas; convivência entre homens e mulheres aceita em universidades e ambientes de trabalho. Pode parecer pouco, mas se trata de um país onde, devido à influência saudita, o próprio convívio social entre os sexos ia sendo proibido, e no qual as mulheres são constrangidas a usar roupas cada vez mais “modestas”.

A principal característica do Islã saudita é a preocupação exclusiva com a adesão exterior a preceitos legais; todo homem deve ter barba e usar túnica, toda mulher deve estar completamente coberta, todo intercâmbio social entre os sexos é proibido, não se pode ter conta em banco, etc. Recentemente uma mulher perguntou a um doutor da lei em seu programa de rádio o que ela deveria fazer agora que as circunstâncias a obrigavam a trabalhar no mesmo recinto que um homem. O doutor sugeriu que ela amamentasse o colega. Sim, você leu isso mesmo: que ela desse de mamar a ele do próprio peito, e dessa forma seriam como mãe e filho, e portanto livres do risco da fornicação. No limite, o legalismo viola o espírito de suas próprias leis. A reação pública foi geral. A mesma reação que está por trás do documento dos intelectuais e das revoltas populares.

O discurso salafista (do qual o wahhabismo é uma vertente) de se manter fiel às práticas das primeiras gerações parece perder legitimidade entre o povo (ufa! Resta algum bom senso!). O documento dos intelectuais também adota o discurso de se preservar os valores originais do Islã. Só que, para eles, os valores não são a barba e o niqab, e sim “liberdade, igualdade, conhecimento, justiça e ciência”. Se isso tudo estava de fato na origem do Islã eu não sei; mas é bom que os intelectuais advoguem tais coisas.

Ao mesmo tempo em que as revoltas nos dão motivos para ter esperança, elas também trazem algo de preocupante. É o medo de dizer abertamente o que está em jogo, de apontar o verdadeiro valor a ser defendido, que acaba tomando segundo plano para uma outra bandeira que é necessariamente secundária: a democracia. Colocar a esperança na democracia enquanto tal é ingênuo. Ahmadinejad foi eleito democraticamente; seria ele muito melhor que Mubarak? Democracia é uma forma de se organizar o funcionamento da política; ela não traz consigo nenhum conteúdo; será o que a maioria quiser. E se a maioria quiser uma teocracia islâmica na qual cristãos e judeus pagam impostos extras e membros de outras religiões são expulsos ou mortos, é o que terão, democraticamente. O ponto fundamental, o valor que a democracia supostamente defende melhor do que outras formas de governo e por isso deve ser preferida, é o respeito aos direitos individuais. Sem isso, não há governo justo e não há esperança de melhora. Há algo de angustiante em um intelectual cristão animado com o prospecto de democracia no Egito (num dos artigos acima citados), sob a qual a minoria cristã (entre 5% e 10%) poderia ser representada.

Mas minoria no governo não significa nada; nem uma maioria significa se não há comprometimento do Estado em fazer valer os direitos individuais, como o Líbano tem mostrado claramente. A bandeira tem que ser os direitos individuais; não a democracia e não o direito das religiões ou das minorias; pois aglomerados não têm direitos, e é perfeitamente possível representar uma minoria oficialmente no governo e ainda assim tratar muitos de seus membros como cidadãos de segunda classe (por exemplo, impondo infinitas restrições à sua fé, como ocorre na Turquia, onde é praticamente impossível conseguir permissão para coisas como consertar o telhado de uma igreja), deixando os representantes oficiais da minoria a choramingar por uma tolerância cada vez menos respeitada. O que realmente importa é o direito individual, que inclui o direito a aderir à religião que lhe parecer verdadeira (e cujo corolário é, portanto, o direito a mudar de religião sem qualquer sanção), até mesmo se ela não constituir uma minoria significativa.

Os direitos individuais são a pedra de toque para saber se uma convivência minimamente harmônica entre Ocidente e Islã é possível. O que distingue o Ocidente das demais civilizações é sua base espiritual, que se concretiza em posições filosóficas: a afirmação da razão humana como eficaz para conhecer a realidade e, como consequência disso, a descoberta de uma moral objetiva. Um dos maiores méritos de S. Tomás de Aquino é exatamente esse: a elaboração racional da ética sem necessidade de fé e não circunscrita a um “povo eleito”. Nossos direitos universais inalienáveis são descendentes diretos da lei natural de S. Tomás. É muito significativo que, nos séculos XVI e XVII, enquanto a Espanha expandia seu império e escravizava povos inteiros, os teólogos de Salamanca afirmassem que os índios tinham direito às suas terras e liberdade, que nada justificava o roubo de suas posses e sua escravização, nem mesmo a recusa em se converter ao Cristianismo. Parece pouco, dado que os crimes ocorreram sem grandes empecilhos práticos? É verdade, ocorreram; mas ninguém duvidava seriamente de que eram crimes, ou seja, violações de uma ordem moral objetiva. No campo do espírito Salamanca venceu, e isso fez toda a diferença.

As grandes conquistas do Ocidente decorrem da afirmação da eficácia da razão humana no plano teórico e dos direitos individuais no plano prático. A ciência, a arte, a riqueza são consequências disso. Os muçulmanos não têm nenhum pudor em se apropriar da tecnologia ocidental (embora incapazes de contribuir eles próprios com ela) e de certas filosofias ocidentais. Marxismo, relativismo, desconstrucionismo; de fato, todas vieram do Ocidente; mas o que as caracteriza é justamente a negação daquilo que nos constitui. A razão humana é incapaz de conhecer o mundo real, e o discurso moral e político não passa de máscara para jogos de poder. Elas caem como uma luva para uma visão de mundo fideísta como é a do Islã convencional (e isso vem de muitos séculos): a razão é impotente, portanto tudo é questão de fé, e portanto ninguém tem como criticar minha fé. Não há certo e errado objetivos, apenas vontades arbitrárias em conflito; portanto, entreguemo-nos à vontade arbitrária de Deus; e ninguém pode questionar as minhas práticas. Como evidência deste casamento funesto apresento este artigo de opinião pós-moderno da Al Jazeera.

A grande questão nas atuais manifestações é se os muçulmanos serão capazes de aceitar (e eu acredito que serão, pois o bom senso natural do homem está do nosso lado) o nosso verdadeiro patrimônio, a idéia de direitos individuais válidos para todo e qualquer homem, que é o que permite que a democracia não degenere na mera vontade tirânica da maioria. A outra possibilidade é bem representada pela queima de uma efígie de Mubarak com a estrela de Davi desenhada no rosto. E daí teremos mais do mesmo: nações pobres espiritual e materialmente por restrições irracionais auto-impostas, violando a dignidade de seus próprios cidadãos e atribuindo suas mazelas a terceiros que não têm nada a ver. Importa se isso ocorre democrática ou ditatorialmente?

Retirado de Dicta.com.br

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O que Hernán Cortés tem a nos ensinar


Se entre orientais somos bárbaros - como diz Stravinsky parafraseando, por sua vez, Henri Michaux - entre maias talvez tivessemos sido... sabe lá Deus. Joel Pinheiro da Fonseca introduz o tema. Para leitura antes de 2012, evidentemente.

por Joel Pinheiro da Fonseca

Em 2010 uma serpente emplumada me mordeu e fui tomado de um interesse febril pelos povos meso-americanos. O foco desse interesse estava no primeiro encontro deles com os europeus, que é sem dúvida um momento capital da história universal. Ao mesmo tempo, resultou numa das maiores tragédias da história que foi a destruição dos povos, civilizações e culturas que aqui viviam antes de chegarem as caravelas. A febre já passou, provavelmente para nunca mais voltar. A cura se deu quando cheguei a uma conclusão óbvia, já sabida por muitos, e mesmo por mim, de antemão, mas agora vista com clareza. Deixe-me traçar brevemente o itinerário que percorri.

Nunca fui daqueles que vêem os conquistadores como grandes vilões e os nativos como astrônomos hippies amantes da natureza. Contudo, aprendi que igualmente falsa é a representação do mundo asteca como um reino de horror idolátrico e bestial em níveis dignos de Lovecraft. A história real é bem mais interessante. E uma boa fonte, pela qual comecei, é ler o relato de Bernal Diaz del Castillo, um dos soldados de Hernán Cortés (soldado ralé, o que lhe deixava relativamente isento dos interesses dos poderosos) na expedição que culminou na tomada de Tenochtitlán. O que dali emerge é, em primeiro lugar, uma história contingente, acidental, que poderia ter sido muito diferente. Em nenhum momento há um plano consciente de dominação; há oportunidades que são agarradas no calor do momento; há tentativas de amizade e paz, enganações e armadilhas dos dois lados. Durou pouco a impressão de que os espanhóis fossem deuses, embora o apelido tenha permanecido; durou pouco também o horror aos cavalos, que logo estavam sendo sacrificados, junto com soldados capturados, à vista do acampamento espanhol para lhes meter medo. Em um episódio dramático, os conquistadores foram quase dizimados e tiveram que fugir desesperados cada um por si. A varíola chegou casualmente, trazida por um escravo negro; Bernal nota o contágio estranhamente forte entre os indios. Acima de tudo, é uma história de personagens singulares, como Gerónimo de Aguilar, padre franciscano que precedera os conquistadores e que vivera por anos como prisioneiro numa cidade nativa até ser resgatado e tornar-se intérprete de maia do grupo (outro sobrevivente, numa vila próxima, atingiu condição de proeminência e preferiu a nova vida a juntar-se aos espanhóis); La Malinche, a nativa de Tabasco que, além de entender tanto nahuatl quanto maia, tornou-se amante de Cortés e deu-lhe seu primeiro filho homem, considerado o “primeiro mestiço”; Montezuma, o rei asteca, alternadamente astuto e pueril, que embora feito refém pelos conquistadores tornou-se amigo de todos, levando os raptores a chorarem sua morte acidental numa escaramuça (e maldizerem o frade que ainda não o tinha catequizado devidamente).

sábado, 11 de dezembro de 2010

Magister dixit. (minha pesquisa para o mestrado)


A descrição de projetos de dissertação de mestrado por vezes assemelha-se a contos fantásticos de Jorge Luís Borges. Leonardo Valverde comenta seu tema, sua justificativa e tudo o mais... À diferença das ficções do escritor maior argentino, no entanto, a pesquisa de Valverde é real.

por Leonardo Valverde

1. Delimitação do tema.

Os historiadores situam a descoberta da língua sânscrita como um dos grandes fatores para o desenvolvimento do estudo da linguagem. A partir desta descoberta temos os estudos filológicos comparativos do indo-europeu, e daí uma ciência geral da linguagem, que se chamaria por fim de linguística; embora alguns tratados antigos de língua já tenham sido estruturados linguisticamente, fazendo com que certas teorias modernas sejam apenas um ‘retorno’ ao conhecimento dos gramáticos antigos. Alguns desses historiadores, como R.H. Robins, consideram o ano de 1786 um marco inicial da ciência linguística contemporânea, onde possivelmente teria se dado a primeira das quatro ‘rupturas’ significativas ocorridas no desenvolvimento do que hoje entendemos por estudos linguísticos. Aconteceu neste ano a famosa declaração no Royal Asiatic Society por William Jones que “o sânscrito, sem levar em conta sua antiguidade, possui uma estrutura maravilhosa: é mais perfeito que o grego, mais rico que o latim e mais extraordinariamente refinado que ambos” (ROBINS, 2004: 106). Aqui no Brasil, o nosso famoso linguista J. Mattoso Camara Jr. dedicou um capítulo de sua História da Lingüística ao sânscrito, dizendo que “os métodos e as concepções da gramática do sânscrito, que se encontravam em Pāṇini e seus seguidores, estimularam o espírito europeu no sentido de uma nova visão da linguagem” (CAMARA JR., 1975: 44).

Esta nova visão não se restringiu somente à linguística histórico-comparativa. O estudo do sânscrito deu origem a muitas análises de linguística sincrônica, já que as gramáticas originais desta língua abordaram praticamente todos os campos deste ramo. Os estudos linguísticos do sânscrito eram divididos em vyākaraṇa (análise linguística), śikṣā (fonética) e nirukta (etimologia), as três faziam parte de uma educação tradicional voltada para a linguagem chamada vedāṅga [1] (conhecimento auxiliar). Estes estudos, de acordo com Robins, podem ser considerados sob três aspectos: teoria linguística geral e semântica; fonética e fonologia; gramática descritiva (ROBINS, 2004: 109).

Das obras linguísticas da época, a gramática Aṣṭādhyāyī (Oito Capítulos) de Pāṇini, este conhecido gramático do século IV a.C., foi o primeiro tratado científico de uma língua, e chegou a ser considerada por Bloomfield como “um dos maiores monumentos da inteligência humana” (BLOOMFIELD, 1984: 11). As regras são todas organizadas em pequenas sentenças, sūtra ou “fio”, que surpreendem por tamanha economia com que conseguem formular suas afirmações linguísticas. Da obra de Pāṇini e da vyākaraṇa saíram conceitos como o termo fonológico sandhi (usado por Mattoso Camara Jr. para explicar certos casos do português), o desenvolvimento de processos de formação de palavras, o estudo morfofonêmico[2], e a representação zero de um elemento ou categoria - familiar aos linguistas modernos.

O processo descritivo de sua gramática, mais de dois mil anos depois, influenciou as análises que Saussure fez de certas palavras gregas, alguns importantes trabalhos do Bloomfield[3], e também sabe-se que a gramática gerativo-transformacional criada por Chomsky teve sua influência paniniana, porque em seu “trabalho de descrição, as regras são de tal modo ordenadas, que as últimas levam sempre em conta os resultados das primeiras. Isto permite obter maior economia no processo descritivo, o que era um dos objetivos primordiais da obra de Pāṇini” (ROBINS, 2004: 188).[4]

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Igualdade social - uma ilusão; ou, "um homem singular"


O Ocidente assume como válidos, tradicionalmente, dois tipos de "igualdade": a igualdade de oportunidades e a igualdade perante Deus. Enquanto o último, entendido em seus termos metafísicos, implica que devemos desfrutar de uma certa dignidade pelo fato de sermos humanos, membros da mesma comunidade no mundo, o primeiro sugere algo distinto: a permissão, por parte da cultura, do desenvolvimento de talentos e inclinações individuais livre de barreiras arbitrárias como sangue, classe social ou o que quer que seja. Mas há ainda um terceiro tipo, recente, que assume como justa e necessária a distribuição igual dos frutos econômicos da sociedade. É a estranha "igualdade social" (ou "equality of results", em inglês) de que fala Leonardo Valverde.

Por Leonardo Valverde

Já disse aqui que a idéia de igualdade é mais do que um dos pontos centrais da filosofia vedānta: é a própria estrutura da realidade. Mas que funciona simultaneamente - e isso quebra o princípio da não-contradição aristotélico - com a diferença.

Falo da realidade física e metafísica. Entendendo por física a “camada” da matéria antes da social, que, inclusive, nos torna parecidos enquanto espécies; e por metafísica a alma ou o ser; ou simplesmente aquilo que é eterno e não é matéria.

É na realidade física e metafísica, portanto, que a igualdade existe.

E numa realidade social, existe a igualdade?

Tirando a igualdade que o Direito cria, não. Somos desiguais por natureza. Criamos um aparato como a lei justamente para nos fazermos iguais sob certos princípios. Enquanto social, e fora da esfera do Direito, a idéia de igualdade chega ser absurda. Mas por quê?

Vejamos o que o Bhagavad Gītā nos diz e como ele nos ajuda a clarear as idéias:

चातुर्वर्ण्यं मया सृष्टम् गुणकर्मविभागशः
cāturvarṇyaṁ mayā sṛṣṭam guṇakarmavibhāgaśaḥ

As quatro classes são criadas por Mim,
segundo a distribuição de qualidade e ação.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Poemas de Amor - Nazim Hikmet


Quevedo, Kaváfis, Pierre Louÿs - além de alguns versos da própria lavra. Eis algumas das pérolas poéticas que Pedro Gonzaga vem oferecendo aos leitores do Ocidentalismo.org. Agora é a vez de nos deliciarmos com alguns dos mais belos versos de um extraordinário poeta, o turco Nazim Hikmet. Além das traduções abaixo, o leitor não pode perder o texto de Gonzaga sobre Hikmet na Revista Norte, onde encontrará ainda outros versos notáveis do autor de "Carta para minha mulher".

Por Pedro Gonzaga

Poemas de Nazim Hikmet (traduzidos do inglês)

Vera Acordando

as cadeiras dormem sobre os próprios pés
assim como a mesa
o tapete está deitado de costas
aprisionando seu desenho
o espelho está dormindo
os olhos das janelas estão bem fechados
a sacada dorme com suas pernas balançando em pleno ar
no telhado em frente dormem também as chaminés
assim como as acácias na calçada
a nuvem dorme
com uma estrela guardada no peito
a luz dorme aqui dentro e lá fora
você acordou minha rosa
as cadeiras acordaram
e se puseram a passear de lá para cá
junto com a mesa
o tapete se sentou ereto
lentamente revelando suas cores
como um lago ao entardecer despertou o espelho
as janelas abriram seus grandes olhos azuis
acordou a sacada
e recolheu suas pernas do ar
no telhado em frente as chaminés fumegaram
as acácias na calçada irromperam numa canção
a nuvem acordou
e lançou a estrela guardada em seu peito para dentro de nosso quarto
a luz despertou aqui dentro e lá fora
inundando teus cabelos
deslizando por entre teus dedos
abraçando tua cintura nua e estes teus pés tão brancos

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Brincando com relógios


Sobre a essência do tempo, o Ocidente tem poucas certezas e muitas dúvidas. A estas tantas, Leonardo traz algumas outras, retiradas diretamente de suas traduções vedantinas.

Por Leonardo Valverde

Duvido que alguém tenha passado ileso de um único aniversário. Ou que no caminhar do dia nunca tenha se perguntado “para onde foi o meu bendito tempo?”. Quase todos que pensaram sobre a vida, pensaram sobre o tempo. Ele é invisível, não tem cheiro e sequer dá “bom dia”, está por aí, sorrateiro, taciturno, e ninguém consegue segurá-lo.

Eu já pensei sobre o tempo. Você também já pensou sobre ele.

Mas o que o vedānta nos diz sobre ele? Na bhagavad gītā (10.33), Kṛṣṇa diz que:

अहम् एवाक्षयः कालो

aham evākṣayaḥ kālo

Eu, sozinho, sou o tempo infinito.

Aqui, Kṛṣṇa não diz que ele é o tempo simplesmente, mas que é o infinito (ākṣaya).

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A causa material do universo. (se non è vero, è ben trovato)


Aqueles que acompanham o Ocidentalismo.org sabem que não evitamos perguntas difíceis, ou mesmo improváveis: exatamente aquelas necessárias e infelizmente ausentes em nossas revistas culturais ordinárias. Agora, excitados pelo entusiasmo da mídia sobre o mais recente livro de Stephen Hawking, retomamos internamente os debates sobre "Causa Primeira", origem do Universo, existência de Deus. Leibniz dizia que "todo estado presente de uma substância simples é uma continuação natural do seu estado passado"; Leonardo Valverde nos sugere uma leitura original sobre a discussão - e parte para isso da tradição vedānta.

Por Leonardo Valverde

Semanas atrás, um dos físicos mais conhecidos e respeitados hoje, Stephen Hawking, voltou a considerar a idéia de um universo não criado por Deus. E com esta declaração, o físico entrou num dos pontos cruciais da tradição vedānta - já estudado há milênios.

Para o físico e cosmólogo, os universos não precisariam de intervenção divina para serem criados, e mais, surgiriam do nada (ou do Nada?). O que chamam de Teoria-M.

A notícia - por conta do lançamento de seu novo livro "The Grand Design" - deixou-me com uma curiosidade enorme para rever o que a obra Vedānta Sūtra expõe a respeito.

E lá fui eu conferir...

Os aforismos abaixo estão no tópico 7, da sessão 4, do capítulo 1, este tópico é chamado de prakṛtyadhikaraṇam, ou o substrato da matéria.

प्रकृतिश्च प्रतिज्ञदृष्टान्तानुपरोधात्
prakṛtiśca pratijñadṛṣṭāntānuparodhāt (1.4.23)
Da não contradição de exemplo e proposição, (o Absoluto é) também (a causa) material.


अभिध्योपदेशाच्च
abhidhyopadeśācca (1.4.24)
Da referência ao desejo.

साक्षाच्चोभयाम्नानात्
sākṣāccobhayāmnānāt (1.4.25)
É (causa) direta, por conta da menção de ambos (criação e dissolução).

आत्मकृतेः परिणामात्
ātmakṛteḥ pariṇāmāt (1.4.26)
Autocriado por causa da transformação.

योनिश्च हि गीयते
yoniśca hi gīyate (1.4.27)
E é chamado, certamente, a origem.

Detalhe: os sūtra são como “mensagens de telegrama”, temos de compor o sentido.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Uma outra Gramática


O estudo da Gramática de uma língua - qualquer língua - permite pequenas epifanias. Os meandros que justificam nossa forma de falar são, antes, portas para entendermos outras formas de falar aquilo que entendemos - e o que é viver senão nomear as coisas do mundo, e nomeando-as, relacionarmo-nos com elas? Nosso Vírgilio orientalista, Leonardo Valverde, nos apresenta uma visão fascinante do estudo da Gramática - no caso, partindo do sânscrito e relacionando-o com outros curiosos elementos da história do estudo desta ciência no Português.


Por Leonardo Valverde

कवर्गादिषु  माहेश्वर्याद्याः पशुमातरः

kavargādiṣu māheśvaryādyāḥ paśumātaraḥ

Māheśvarī e etc., mães das criaturas, estão nas consoantes. (śiva sūtra, 3.20)


kavargādiṣu - nas consoantes (da letra “k” em diante);

māheśvaryādyāḥ - Māheśvarī e etc.;

paśumātaraḥ - mães das criaturas.


Este é o sūtra 20 da terceira parte do śiva sūtra.

Assim como em outras línguas, o sânscrito também tem um simbolismo em suas letras e alfabeto, na forma como se apresentam, na estrutura, na ordenação das palavras, em sua gramática. A chamada vyakāraṇa, ou gramática, é uma das três disciplinas dedicadas à língua (as outras: śikṣā, fonética; e nirukta, etimologia) da educação tradicional védica, ou vedāṅga (que se parece, nesta parte, com a educação do trivium na época medieval - creio eu: hoje mais atual e necessária do que nunca).

Quando comecei meus estudos de sânscrito seriamente em 1998 (já conhecia a língua e era fascinado por ela desde 95), depois de ter sido alfabetizado por Arthur Perez, fui me embrenhar na gramática tradicional. Na época, como o Arthur ensinava através de uma gramática ocidentalizada (e boa) de um padre jesuíta (gramática conhecida do estudante indiano, A Sanskrit Manual, de R. Antoine, S.J.), eu saí da pequena turma e fui procurar estudar da forma como há anos se estudava o sânscrito, do modo tradicional. Foi aí que eu tive a tremenda sorte (!) de receber dois conselhos; o primeiro, veio antes mesmo de começar: de estudar o sânscrito tradicionalmente; o segundo, veio logo depois que eu comecei: me dedicar a cada etapa como se fosse a mais importante. Ambos os conselhos vieram respectivamente do Swami Purushatraya e do Yadu Dasa Brahmachari, todos os dois responsáveis pela tradução e comentários da vyakāraṇa de Jīva Gosvāmī - trabalho de um primor inigualável e inédito (para a língua inglesa) até aquele momento (1996). Um deles, o Yadu, é praticamente um vyakāraṇa acārya (mestre de gramática), e fala o sânscrito fluentemente.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Inteligência e Realidade



"Entre orientais nos tornamos bárbaros" e para livrarmo-nos da bárbarie convidamos Leonardo Valverde para ser nosso guia por tais searas. Se somos ocidentais por condição e por gosto, é fato que uma das mais fascinantes qualidades de nossa cultura é a abertura para o estudo e compreensão de outras formas de participar do mundo. Orientemo-nos, pois.

Por Leonardo Valverde

Esta semana passei por mais uma etapa da edição do śiva sūtra.

E revisando um dos sūtra, fiquei tentado a comentá-lo, como se faz tradicionalmente.

Na terceira e última parte da obra, encontramos:

धीवशात् सत्त्वसिद्धिः
dhīvaśāt sattvasiddhiḥ
A perfeição da realidade (é alcançada) pelo inteligente. (3.12)

dhīvaśāt (m. abl. sing. √dhī + vat ‘perceber’, ‘refletir’) - do inteligente.
sattva (n.) - existência, realidade.
siddhiḥ (f. nom. sing. √sidh ’ser consumado, consolidado’) - consumação, perfeição.

1.
Traduzi a palavra siddhi aqui como perfeição porque denota um objetivo consolidado e estágio final de qualquer processo - isso falando de forma geral. Já especificamente, um significado bastante adotado (e verdadeiro) é poder místico, devido a associação àqueles que se dedicam a uma vida ascética. Mas lembrando: esses ‘poderes’ não constituem um legado espiritual propriamente dito, pois trata-se de ‘poderes místicos’ sobre a matéria.

2.
A palavra acima não vem sozinha, está em composição com outra palavra: sattva. E por sua formação temos o significado existência ou realidade. Temos sat + tva; na primeira um particípio presente da raiz (dhātu) √as (cl.2.), ou ’ser, existir’, por isso existente, na segunda um sufixo usado para formar nomes abstratos, e por isso o significado acima. E preferi priorizar realidade por causa do teor filosófico da palavra sânscrita - já explico.

3.
E por último a primeira palavra do sūtra, dhīvat, cuja raiz significa refletir, perceber. E seu significado completo “aquele que possui reflexão, percepção, inteligência”.

Explicação:
Como falei, optei pela palavra realidade para traduzir sattva, porque a existência em si tem três qualidades (guṇa), e dessas qualidades, a sattva tem um efeito ascensional, ou seja, de elevação, e, portanto, de um “estágio” em que é possível entender a existência e suas nuances de forma mais completa. Só que o sūtra vai ainda mais longe, ele não fala só dessa realidade, fala de uma perfeição, ou, dos poderes gerados a partir deste guṇa.

Só que (e agora o detalhe mais importante do sūtra) esta perfeição só é alcançada pelos inteligentes, por aqueles que refletem, percebem, e não por qualquer um. Só o inteligente é capaz de perceber a perfeição da realidade.

Retirado de www.leonardovalverde.com.
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