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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Querendo o Brasil de volta


Em semana eleitoral, é justo perguntar: e como vai a cultura? Paola faz um singelo protesto sobre a indigência da atividade de dança - certamente extensivo a outras áreas. Ela quer seu Rio de Janeiro de volta. Assim como todos nós.

Por Paola Secchin Braga

Sem vontade e sem entusiasmo de minha parte, o assunto do momento vem se impondo e uma pergunta insiste em aparecer no meio dos pensamentos: o que será da dança no Rio de Janeiro depois dessas eleições? Falo do Rio porque esta é a cidade onde vivi e trabalhei, onde vi a dança ter seu boom nos anos 80/90, passar por altos e baixos nos anos subseqüentes e pulverizar-se lentamente, até atingir o nível assustador em que se encontra hoje. O Rio de Janeiro, que já foi um dos mais importantes pólos da dança brasileira, palco onde se produzia a dança de ponta do país, se vê hoje reduzido a poucos sobreviventes trabalhando num nível assustador de precariedade, e que mesmo assim insistem em continuar, quase por implicância.

Sim, porque o que hoje ocorre nesta cidade é resultado da falta de uma política cultural pensada, planejada, duradoura. Houve um tempo em que ainda tínhamos a esperança de que, nos diversos níveis, seríamos ouvidos e respeitados. Quantas foram as reuniões organizadas, os comitês intimados, as comitivas criadas! Quantas horas gastas por inúmeros bailarinos, coreógrafos e amadores (aqueles que amam a dança) para exprimir em palavras as inúmeras necessidades da profissão! Não que em algum momento tenha havido de fato um pensamento político que levasse essas necessidades em conta, com planos e metas de longo prazo, que visasse ao crescimento e fomentasse a produção. Houve paliativos. Houve algumas pequenas ações. Ações sempre independentes e desconectadas do discurso da classe, tendo por conseqüência a criação de elefantes brancos, desnecessários e problemáticos, de idéias sem sentido, em desalinho com as demandas da profissão.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Ainda sobre o talento


O talento é uma aptidão, uma vontade, um cultivo? Em busca da resposta a este dilema é que Paola Secchin Braga se lança em um de seus deliciosos comentários sobre dança. A disponibilidade individual para lidar com as tantas situações da realidade talvez seja uma das mais decisivas distinções da existência: e o talentoso aquele que afinal mostra a todos algo notável mesmo em sua condição humana - inevitavelmente humana e, portanto, cheia de falhas.

Por Paola Secchin Braga

No conjunto de fábulas que permeiam o mundo da dança, a mitologia que ocupa o inconsciente de todos é daquela linda imagem da bailarina etérea, leve e que executa seus passos sem força e “naturalmente”... Por mais que tenhamos andado quilômetros em cena, por mais que os movimentos do quotidiano tenham entrado no repertório moderno, por mais que tenhamos descido ao chão e nos arrastado sobre ele, por mais mudanças que tenhamos passado, atrelada à palavra bailarina vem normalmente a sílfide leve e incansável.

E com esta fantasia, vem atrelada a outra, a do talento enquanto dádiva dos céus, presente divino, que se recebe sem nenhum esforço – e como se não bastasse, tem-se ainda a certeza íntima de que, quando se tem talento, se é notado e escolhido no meio da multidão, garantia de sucesso total!

Pegando carona na pergunta da Talyta, resolvi mergulhar no perigoso assunto “talento”. Talento se tornou com o tempo uma “palavra-gaveta”, onde colocamos todas as definições imagináveis e, no fim das contas, acaba perdendo todo e qualquer sentido. Pedindo ajuda ao dicionário, descobrimos que talento é:

s.m. Nome de um peso e de uma moeda, na antiguidade grega e romana; (fig.) capacidade; inteligência; aptidão natural; engenho; (lus. e bras.) força física; pulso; alento; vigor; pessoa de talento. (Do lat. talentu.)

Várias perguntas imediatas – e talvez alguns esclarecimentos. Nome de um peso e de uma moeda – imediatamente pensamos em valor: será que o talentoso vale quanto pesa? Por outro lado, a parte capacidade, inteligência, aptidão natural nos faz vacilar. O que é natural? Inteligência natural, aptidão natural? Então, a pessoa talentosa seria aquela que faria dança naturalmente? Isso existe?

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Se ela pensa eu danço


Paola Braga é nossa infiltrada no mundo da dança, escrevendo de Paris. Entre as expressões artísticas contemporâneas ocidentais, a dança é sem dúvida a que mais abriga modismos oportunistas e imposturas pós-modernas de maneira desfaçatada. Ruim para arte, péssimo para todos nós que amamos esta tradição tão universal. Não deixa de ser um sintoma de nosso tempo - um sintoma enigmático que Paola nos ajudará a decifrar.

Por Paola Secchin Braga

Quando converso com as pessoas aqui na França, onde moro, elas me perguntam por que vim para cá. Eu respondo que vim fazer um doutorado em dança e espero, já sem conter um sorriso no canto dos lábios, a reação de sempre: doutorado em dança?!?! Como assim? Isto existe? Mas dança é uma disciplina prática, como pode existir um doutorado em dança? O que se faz num doutorado em dança? E depois, o que você faz? E por aí vai. Isto já aconteceu incontáveis vezes!

Mas, sim, há graduações, mestrados e doutorados em dança. Sim, há produção intelectual sobre a dança. Hoje a dança, além de dançar, também pensa – e muitas vezes pensa mais do que dança. Não que ela não pensasse antes mas sua produção estava cheia da inocência e romantismo típicos de qualquer disciplina que está começando a se conhecer. Depois de alguns séculos de definições, redefinições e contra-definições, aos pouquinhos, começou a surgir um pensamento crítico na dança, sobre a dança, pela dança e para a dança. E até contra ela! Afinal, para se ter fogo é necessário um certo atrito, não?

Vimos surgir, especialmente, um pensamento de dança feito pelos que se definem como “alguém de dança”. Como muito bem disse Roberto Pereira – e que falta ele nos faz! –, “ser 'alguém de dança’ passa a ser um viés que precisa ser levado em conta ao longo de todo esse texto. ‘Alguém de dança’ pensado como um ofício.”

É deste lugar do ofício de ‘alguém de dança’ que passo a escrever aqui, oportunidade gentilmente criada por Ocidentalismo.org. A proposta é ampla, a estrada pode se bifurcar e tomar caminhos imprevistos. A aventura pode se tornar interessante. Abre-se mais um espaço – e eles são ainda raros – onde se poderá falar desta dança que pensa, anda e se move por suas próprias pernas.

Sejam bem vindos!
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