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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Osvaldo Lacerda, compositor brasileiro

Na folha online:

Um dos principais representantes da escola nacionalista no Brasil, o compositor paulistano Osvaldo Lacerda morreu de falência múltipla dos órgãos nesta segunda-feira (18), em Taquaritinga (SP), aos 84 anos de idade.

Ao lado de sua mulher, a pianista e ex-aluna Eudóxia de Barros, 74, Lacerda era ativo divulgador da música erudita brasileira. Laureada com diversos prêmios, sua produção destaca obras vocais, pianísticas e de câmara, seguindo a cartilha do nacionalismo de seu mestre e guru, Camargo Guarnieri (1907-1993). (...)


Na íntegra, aqui.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Mahler em Viena

por Leandro OLiveira

Hoje Gustav Mahler completaria 151 anos. Sua música, mais do que nunca, está presente em nossas vidas embora siga admiravelmente complexa, estranha e inescrutável para boa parte do público. Meine Zeit wird kommen teria dito o compositor, e seu tempo realmente chegou. Mas a frase não deve ser entendida como a reclamação de um gênio incompreendido ou uma aposta de fé no progresso, já bem nos esclareceu Heinrich Kralik. É, antes, uma profecia dos tempos de caos, catástrofes e angústia que lhe seguiriam. Para Quirino Principe é como se Mahler com esta frase proclamasse "haverá um tempo em que as pessoas se darão conta de serem representadas, descritas e identificadas pela minha música, e entenderão que esta música - e seu caos, e sua angústia - esteve nelas desde sempre".

Eu escrevi para a Dicta um artigo onde me pus de um lado inequívoco, entendendo o compositor como uma espécie de cínico que com sua música conflagra ou, como digo ali, deseja tais momentos de pesadelo; outros autores, todos mais respeitáveis que eu, imaginam nessas palavras a clarividência de um gênio, em uma vã tentativa de representação da dissolução já anunciada por indícios de seu mundo e, sobretudo, o anseio desesperado de frená-la.

Foram três ou quatro grandes eventos que instauram a modernidade em Viena no ano de 1897. Como eventos da mesma grandeza, ao lado da morte de Brahms e o anúncio da Sezession, devemos colocar a nomeação de Gustav Mahler como diretor da Ópera Imperial. Isto em um ano para não esquecer: em 1897, naquela cidade, Freud inicia sua auto-análise, Herzl organiza a partir dali o primeiro Congresso Sionista, Karl Kraus publica "Die Demolierte Literatur" que satiriza o Jung-Wien dos amigos Arthur Schnitzler, Peter Altenberg e Hugo von Hofmannsthal. É neste ambiente que Mahler triunfa como Kapellmeister, realizando uma pequena revolução administrativa nos palcos do teatro que todos estes freqüentavam.

Sua música segue, aqui como lá, adorada e vilipendiada no mesmo grau. Para abrandar os espíritos, em seu aniversário, coloco esta versão irretocável, no original, para piano e voz, de uma obra preferida.


Retirado de "Fünf Lieder nach Texten von Friedrich Rückert (1788-1866)".

Ich bin der Welt abhanden gekommen,
Mit der ich sonst viele Zeit verdorben,
Sie hat so lange nichts von mir vernommen,
Sie mag wohl glauben, ich sei gestorben!

Es ist mir auch gar nichts daran gelegen,
Ob sie mich für gestorben hält,
Ich kann auch gar nichts sagen dagegen,
Denn wirklich bin ich gestorben der Welt.

Ich bin gestorben dem Weltgetümmel,
Und ruh' in einem stillen Gebiet!
Ich leb' allein in meinem Himmel,
In meinem Lieben, in meinem Lied!

(Thomas Hampson - barítono e Wolfram Rieger - piano. Gravado ao vivo no dia 18 de agosto de 2005 no Salzburger Festspiele 2005)

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Amnésia Cultural - Monteiro Lobato

por Leandro Oliveira

Deus e a Osesp fizeram com que minha segunda-feira amanhecesse em Taubaté no exato dia do aniversário do filho ilustre da cidade, Monteiro Lobato. A Providência - esta senhora cheia de caprichos - fizera antes com que no sábado, dia 16, sem que soubesse das comemorações de aniversário ou atinasse que aqui tratava-se da cidade natal do escritor, eu vasculhasse minha biblioteca trechos do "Urupês" e outras bizarrias do homem que sonhou a Cuca, a Emília e o Visconde de Sabugosa.

Não entendendo tais desígnios mas imaginando que raros deles são vãos, decido compartilhar minhas perplexidades. E homenagear o homem, com sua famosa autobiografia.

Nasceu em Taubaté, aos 18 de abril de... 1884 (na verdade 1882). Mamou até 87. Falou tarde, e ouviu pela primeira vez, aos 5 anos, um célebre ditado: “Cavalo pangaré/Mulher que... em pé/Gente de Taubaté/ Dominus libera mé”.

Concordou.

Depois, teve caxumba aos 9 anos. Sarampo aos 10. Tosse comprida aos 11. Primeiras espinhas aos 15.

Gostava de livros. Leu o Carlos Magno e os doze pares de França, o Robinson Crusoé, e todo o Júlio Verne.

Metido em colégio, foi um aluno nem bom nem mau – apagado. Tomou bomba em exame de português, dada pelo Freire. Insistiu. Formou-se em Direito, com um simplesmente no 4º ano – merecidíssimo. Foi promotor em Areias, mas não promover coisa nenhuma. Não tinha jeito para a chicana e abandonou o anel de rubi (que nunca usou no dedo, aliás).

Fez-se fazendeiro. Gramou café a 4,200 a arroba e feijão a 4.000 o alqueire.

Convenceu-se a tempo que isso de ser produtor é sinônimo de ser imbecil e mudou de classe. Passou ao paraíso dos intermediários. Fez-se negociante, matriculadíssimo. Começou editando a si próprio e acabou editando aos outros.

Escreveu umas tantas lorotas que se vendem – Urupês, gênero de grande saída, Cidades mortas, Idéias de Jeca Tatu, subprodutos, Problema vital, Negrinha, Narizinho. Pretente publicar ainda um romance sensacional que começa por um tiro:

- Pum! E o infame cai redondamente morto...

Nesse romance introduzirá uma novidade de grande alcance, qual seja, a de suprimir todos os pedaços que o leitor pula.

Particularidades: não faz nem entende de versos, nem tentou o raid a Buenos Aires.

Físico: lindo!


Monteiro Lobato, "A Novela Semanal" (São Paulo, 2 de maio 1921)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Paulo Francis - Pugilista de idéias

por Roberto Campos

Sempre achei que o Brasil não se salvaria pelo silogismo. Mas poderia ser salvo pela anedota...

Nesse sentido, a contribuição de Paulo Francis para a modernização da mentalidade brasileira foi mais relevante que a minha. Enquanto eu produzia secos silogismos, Francis usava o veneno da ironia e o punhal do sarcasmo para colocar na defensiva os cultores da mitologia nacionalista e estatizante, que reduziu nosso potencial de crescimento e nos enfeudou à pobreza. Seu passado marxista o tornou conhecedor de técnicas de lavagem cerebral.

Que essa operação de exorcismo foi eficaz, prova-o a grande mudança na atitude popular. Os monopólios estatais, antes ungidos de sacralidade estratégica, são hoje vistos com indignação resignada. Alguns, como a Telessauro e a Embratel, caíram no plano anedótico e enriquecem o vocabulário de xingamentos dos devotos da Internet, neurotizados pelas dificuldades de acesso.

Começa-se a perceber que os funcionários das estatais há muito tinham privatizado as empresas públicas, sugando-as através de abusivas contribuições para os fundos de pensão, que se expandem comprando outras empresas. Fica o Tesouro à mingua de dividendos, e o público, à mingua de serviços.

Um pouco mais resistente à erosão da mitologia estatizante é a Petrossauro, cujo monopólio constituía uma aberração lógica por sermos no mundo o único país importador que preferia comprar petróleo de estrangeiros a receber capitais para produzi-lo internamente. (...)

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Une grande aventure vers la lumière


por Juliana Perez

Hans Scholl tinha 24 anos quando condenado à morte na manhã do dia 22 de fevereiro de 1943. Foi executado na tarde do mesmo dia. Suas palavras diante da guilhotina foram: “viva a Alemanha, viva a liberdade”.

Não significa escapismo falar em liberdade interior quando a exterior falta. Pois foi pela liberdade civil que os irmãos Scholl e os demais integrantes de "A Rosa Branca" entregaram a vida - a liberdade interior eles já possuíam. Três cartas.

Em serviço militar em Stetten, a sua irmã Inge, em 27 de junho de 1938:

No bolso interno do casaco levo um botão de rosa. Preciso desta pequena planta porque ela é “o outro lado”: muito distante dessa vida de soldado, e no entanto não contraditório a ela. É preciso sempre carregar consigo um pequeno segredo, sobretudo com os camaradas que tenho aqui.

A Rose Nägele, em 28 de outubro de 1941, meses antes de começar a escrever os panfletos:

Encontro-me em uma crise espiritual, a mais importante da minha vida, e é compreensível que eu a leve a sério e não me console com paliativos burgueses. Por sorte tampouco preciso de algum. Encontro-me em um estado de alma ao qual não pode vir nenhuma ajuda de fora, pois eu, no meu interior mais profundo, já o superei, reconheci e estou feliz. Que paradoxo! Minha cabeça dói, embora eu esteja feliz. É a felicidade do vencedor que já antecipa o final da luta.

Esta guerra é (como todas as guerras significativas), na sua verdadeira essência, uma guerra espiritual; às vezes parece que o meu pequeno cérebro é o campo de batalha de todas essas lutas. Não posso ficar de fora, pois de fora não há felicidade, pois sem verdade não há felicidade – e esta guerra é, no fundo, uma guerra pela verdade. Todos os tronos impostores devem cair – isto é o mais doloroso –, para que o que é autêntico apareça sem falsificações. Eu não estou falando do ponto de vista político, mas pessoal, espiritual. Fui obrigado a fazer uma escolha.


A Rose Nägele, em 16 de fevereiro de 1943, dois dias antes de sua prisão na Universidade de Munique:

Hoje eu devo ser como eu sou. Estou interior e exteriormente distante de você, mas nunca, não sou um estranho. Meu respeito pelo seu coração puro nunca foi tão grande como nesses dias, em que a vida se tornou um risco constante. Mas por eu ter escolhido o perigo, preciso ser livre e não ter vínculos, e ir para onde eu quero ir. Já andei por muitos caminhos errados, e eu sei, abrem-se abismos, a noite mais profunda envolve meu coração – mas eu mergulho nela. Como são grandes as palavras de Claudel: La vie, c’est une grande aventure vers la lumière.

Post scriptum: Os trechos de cartas foram retirados do livro Hans Scholl und Sophie Scholl. Briefe und Aufzeichnungen. Hrgs. Inge Jens. Frankfurt a. M.: Fischer, 2005. (pags. 23; 29; 85 e 143, respectivamente). Não há tradução do livro para o português.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Imi Lichtenfeld e Caetano Veloso?

Faça, mas faça certo
Por Leandro Oliveira

A frase da epígrafe é de Imi Lichtenfeld (1910 - 1998), o criador da arte de defesa pessoal israelense chamada Krav Magá. É paradigmática posto que a síntese de um modo de ver o mundo.

Imi lida claramente com um terreno específico e concreto da integridade física, ou seja, ele não pretende fazer filosofia ou proselitismo. Aliás, lidando com os tipos de problemas absolutamente práticos – e radicais, de vida e morte – com os quais lidava, pouco tempo e disposição havia para falsas soluções, dubiedades ou falação.

Mas se a frase de Imi é pragmática, sua leitura pode ser um pouco mais – como dizer? – reflexiva. E tomo a iniciativa desta reflexão pois sei que a arte de Imi tem por base uma mentalidade necessária, antídoto a esta espécie de "covardia positiva" do indíviduo e, ao mesmo tempo, da valentia grosseira dos que agem e pensam em bando.

Sua arte, assim como sua vida, são os espelhos deste novo espírito judaico que instaura o Estado de Israel em maio de 1948. Um espírito cuja transmutação, a propósito, fica bem clara no poema “Israel” de Jorge Luís Borges (Elogio da Sombra, 1969)

Um homem prisioneiro e enfeitiçado,
um homem condenado a ser a serpente
que guarda um ouro infame,
um homem condenado a ser Shylock,
um homem que se inclina sobre a terra
e que sabe que esteve no Paraíso,
um homem velho e cego que há de quebrar
as colunas do templo,
um rosto condenado a ser máscara,
um homem que apesar dos homens
é Spinoza e o Baal Shem e os Cabalistas,
um homem que é o Livro,
uma boca que louva do abismo
a justiça do firmamento,
um procurador ou um dentista
que dialogou com Deus em uma montanha,
um homem condenado a ser o escárnio,
a abominação, o judeu,
um homem lapidado, incendiado
e atirado em câmaras letais,
um homem que teima em ser imortal
e que agora voltou a sua batalha,
à violenta luz da vitória,
belo como um leão ao meio-dia.


(O crescendo do poema é extraordinário; entendo que ele lida antes de tudo com a transmutação do espírito de um povo do qual somos, cada um de nós, um verdadeiro fractal.)

Me explico melhor. Por um lado, somos, vivemos e cultivamos o just do it, este extraordinário slogan que marca uma década. Imaginando nossos atos pelo compromisso pouco exigente da paixão irrefletida, das ações irresponsáveis pois auto-justificadas. Idiotizamo-nos para sermos livres. Rebelamos contra tudo e todos, para levarmos a revolução que culminará não entendemos bem onde, pois o importante é reverberar a energia sem-causa das gerações pós-68.

Por outro lado, acabamos por demais fascinados pelo temor das certezas. Este hábito mental é aquele expresso por Caetano Veloso em seu “Estrangeiro” quando comenta “o certo é saber que o certo é o certo” apenas para elencar uma plêiade de equívocos como “o macho adulto branco sempre no comando” ou “reconhecer o valor necessário do ato hipócrita, riscar os índios nada esperar dos negros...”. Pelo medo de sermos os bárbaros cheios de convicção que andam à beira da Baía de Guanabara às costas de Caetano, nos obrigamos a solução equivocada da inércia, estrangeiros “entendendo o centro” das barbaridades "daquele cara e aquela".


Entendo e respeito, ahimé!, a tensão de uma convicção errada; imagino que seja exatamente esta tensão que justifique afinal a postura intelectual da "fé na errância" que permitirá Caetano colocar sob luzes duvidosas os "convictos" em sua música (que, aliás, acho extraordinária). Uma espécie de docta ignorantia pós-moderna.

Mas ela deve ser dosada, a bem da integridade de si. É exatamente por isso que assevera Imi. E por isso o Krav Magá não é uma arte marcial mas uma arte de defesa pessoal, onde a tomada de decisão deve ser constante, rotineira, responsável - e evidentemente individual. A arte da resiliência frente adversidades, mas sobretudo da tomada de posição pela preservação daquilo que é justo e integro no espírito humano. Imi Lichtenfeld decreta “faça, mas faça certo” após dar-se conta de que, para o povo judaico, antes da defesa do corpo em combate e guerra, havia a necessidade desta convicção do espírito, que deve ser cultivado dia-a-dia.

Para, nas agruras do mundo, teimar em voltar à batalha, "à violenta luz da vitória, belo como um leão ao meio-dia".

Em poucas circunstâncias do dia-a-dia ele podia novamente dar-se o luxo de errar. Me pergunto com Imi e seu povo: e nesta vida, que é uma apenas, posso eu me dar tal luxo?

domingo, 20 de março de 2011

Meninos (como Homens) em tempos sombrios


por Juliana Perez

Agora o que conta é reencontrar-se, iluminar-se reciprocamente, de pessoa a pessoa...

A frase foi escrita em 1942, alguns meses antes da decapitação de um de seus autores. Não se trata de escritores nem de filósofos ou de cientistas importantes, tampouco de grandes homens de Estado ou de revolucionários titânicos. Hans Scholl (1918-1943) estudava medicina na Universidade de Munique e – com sua irmã, Sophie (1921-1943) e um amigo, Christoph Probst (1919-1943) – foi acusado de alta traição ao regime nacional-socialista. Alexander Schmorrell (1917-1943), segundo autor da frase acima, Willi Graf (1918-1943), Kurt Huber (1893-1943), seu professor de filosofia, e outras dez pessoas foram condenadas à morte dois meses mais tarde.

Hans, Sophie, Christoph, Schmorell, Graf e Huber formavam o núcleo do movimento de resistência que ficou conhecido como "A Rosa Branca" (Die Weiße Rose). Sobre ele há dois filmes: o primeiro "Die Weiße Rose" (1982) dirigido por Michael Verhoeven, é baseado em documentos pertencentes às famílias dos envolvidos e teve ampla repercussão na Alemanha; o segundo, "Sophie Scholl: The Final Days" (2009), concentra-se nos dias que antecedem a prisão dos integrantes da Rosa Branca e focaliza a comovente experiência de Sophie Scholl. O roteiro utiliza documentos ainda não conhecidos nos anos oitenta - reproduzidos quase literalmente em vários diálogos do filme (no interrogatório, por exemplo).


As primeiras informações sobre a "Rosa Branca" tornaram-se conhecidas graças ao livro da irmã mais nova de Hans e Sophie, Inge SCHOLL, "Die Weiße Rose" (Frankfurt a. M.: Fischer, 2001). O livro é amplamente conhecido na Alemanha, em muitas escolas ainda está na lista de leituras obrigatórias.

Em tempo: houve outros movimentos de resistência ao nacional-socialismo na Alemanha – a Jüdischer Kulturbund, o Kreisauer-Kreis, Schulze-Boysen/Harnack Organisation, por exemplo. De diversas tendências políticas e religiosas, procuravam se opor ao regime da forma como lhes era possível: todos eles foram mais cedo ou mais tarde violentamente reprimidos pelo regime. Mais informações? Veja o estudo de Corina Petrescu, "Against All Odds: Subversive Spaces in National Socialist Germany" (Oxford et. al.: Peter Lang, 2010).

Quanto ao grupo "A Rosa Branca", o que faz dessas seis pessoas – que talvez contassem com a colaboração de vinte ou cinquenta estudantes dos cerca de oito mil inscritos na Universidade de Munique – algo especial?

Em primeiro lugar, a quase ingenuidade de suas ações: entre junho de 1942 e janeiro de 1943, os estudantes redigiram e distribuíram panfletos de crítica ao regime. Dos primeiros panfletos foram feitas cem cópias, do último, entre duas ou três mil. Os pesquisadores costumam dividir as ações dos estudantes em 3 fases: a que inclui a redação dos quatro primeiro panfletos, que exortavam à resistência passiva; a segunda fase acontece após a volta dos estudantes do front; e a última fase, que incluiu pichações de muro pela cidade de Munique – ato temerário na época –, e o último panfleto, que causou a prisão. Os panfletos impressionam tanto por unirem a reflexão filosófico-existencial a uma corajosa análise política, quanto por expressarem a convicção de que qualquer mudança social só seria possível a partir do momento em que a responsabilidade pessoal diante dos acontecimentos fosse plenamente assumida.

Mas a falta de sistematicidade das ações e a complexidade dos panfletos – de forma nenhuma dirigidos às “massas” – são apenas alguns indícios do que vários estudiosos do tema já confirmaram: a chamada “Rosa Branca” não chegou a se constituir como movimento, era um grupo de amigos. Suas iniciativas, que lhes custariam a vida, não nasciam de projeto político ou cultural, mas de um “anseio por liberdade individual e de uma coletividade que levava a sério o ser humano em sua subjetividade e respeitava a sua dignidade pessoal” (como diz Jens e lembrado por Corina Petrescu em sua pesquisa).

Seis pessoas, seis panfletos mimeografados, uns pouco mil leitores desconhecidos, se tanto, em busca de liberdade e respeito. Nada mais perigoso para um regime ditatorial.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Beleza, uma hora dessas?

por Leandro Oliveira

Em "Por que a beleza importa", eu falei um pouco sobre arte, mas estava mais preocupado em chamar atenção para o lugar da beleza na vida cotidiana -- nas maneiras, nas roupas, na decoração de interiores e em edifícios vernaculares comuns. Eu critiquei tanto a arquitetura funcional de concreto e vidro, que destruiu cidades em todo o mundo, quanto as maneiras egocêntricas que fizeram o mesmo com a vida doméstica. Tentei explicar por que os filósofos do Iluminismo acompanharam Shaftesbury ao colocarem a beleza no centro do novo código de valores seculares. Para Shaftesbury, Burke, Kant, Schiller e seus seguidores, sugeri eu, a beleza era o caminho de volta para o mundo que eles estavam perdendo, com a perda do Deus cristão -- o mundo do sentido, da ordem e da transcendência, que deve ser constantemente emulado neste mundo se quisermos que nossas vidas sejam verdadeiramente humanas e verdadeiramente plenas de significado. E afirmei em seguida que desde as piadas pueris de Marcel Duchamp, repetidas reiteradas vezes em toda mostra de faculdade de graduação em artes na Grã-Bretanha, um hábito de sarcasmo e profanação tinha se apoderado do exercício das artes visuais.

O sempre exato Roger Scruton em artigo imperdível aqui.

domingo, 26 de dezembro de 2010

I will never give in

por Leandro Oliveira

Estou no Rio e, como sempre quando na cidade, é momento de rever amigos, reavaliar referências, cultivar nostalgias.

Ontem ao jantar, comentávamos todos sobre as novidades nada felizes do mercado recente - e entre os tantos "causos" típicos da mesquinharia de nosso meio musical, o mais triste deles, a controversa saída do maestro Tibiriçá do projeto de Heliópolis.

Logo depois, como que ironicamente, pudemos rever algumas horas de gravações extraordinárias - o que afinal é nosso passatempo predileto quando estou na Babilônia Maravilhosa. Retomamos um dos grandes cavalheiros do piano do século XX, o mestre Arthur Rubinstein.

Pouco a pouco, conforme subia o nível etílico e com ele minha melancolia, me dei conta de nossa miséria, exatamente ao entender uma época não tão distante onde a música era espaço para pessoas menos boçais e mais generosas. Para muito além de um dos mais inspiradores artistas do piano, maestro Rubinstein era (palavra old fashion) um gentleman. À luz das peripécias indecorosas dos nossos artistas - quase todos gênios do marketing ou mestres da política -, Arthur Rubinstein talvez nunca tenha sido tão jovem. E sua juventude é sua "precisão": quando buscamos nos palcos algo a admirar, seguimos sempre ao encontro daquilo que Rubinstein e tantos outros do passado preservavam cuidadosamente: a força "espiritual" da absoluta integridade artística, integridade que talvez tenha sido ilustrada nos conhecidos versos de Ricardo Reis:

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.


Talvez não possa explicar melhor o que comentamos ontem, então sugiro esta entrevista que ilustra inequivocamente um pouco daquilo tudo. É o próprio Rubinstein, aos 90 anos, falando de sua arte. Vocês infelizmente não poderão comungar do vinho, a noite de luar, a piscina e o calor vexatório de ontem à noite, mas mesmo assim, acho que gostarão deste testemunho incomparável.

PS: Melhor: tenho certeza que gostarão. Nos dias de hoje, é fácil sentir "vergonha alheia"; este vídeo me dá a sensação contrária, de "orgulho alheio". Dê a si este presente e assista. Veja como podemos ser nobres.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Amnésia Cultural - Sérgio Bernardes


Por Leandro Oliveira

Foi com Sérgio Bernardes que aprendi uma das melhores tiradas que conheço - que uso até hoje quando estou com alguma pequena doença qualquer: "ah, se não mandarem abrir estou excelente!". Era como Sérgio lidava com sua saúde já debilitada ao final da vida, no mesmo espírito alegre e simples com que ao chegar cumprimentava - fazia questão - todos funcionários e convidados da casa.

Para muito além do maior arquiteto brasileiro de sua geração - qualquer comparação possível somente talvez com as maiores inspiraçoes de Zanini -, Sergio Wladimir Bernardes (1919 - 2002) era um gentleman de rara inteligência e sensibilidade. Lembro a primeira vez que nos vimos: conquanto ele tivesse quase oitenta e eu cerca de vinte, as perguntas vinham dele. Pareceu uma curiosidade sincera, que hoje sei fruto menos de qualquer carisma de minha parte que de sua generosidade ao perceber minha timidez. Fazia questão de deixar-me à vontade.

Desde aquele primeiro encontro pude ficar algum tempo próximo de sua família, principalmente sua esposa Kykah, e seus netos Mana e Pedro, em aniversários e pequenas viagens ao litoral. Nunca fiquei sabendo de fato quem era Sérgio, pois conviver com um gênio nos faz crer que ele é alguém como nós. Sérgio não era.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Amnésia Cultural - Márcio Montarroyos

Por Leandro Oliveira

Exatamente três anos atrás ficamos órfãos de Márcio Montarroyos.

Apesar da distância de nossa idade, formávamos um círculo muito próximo e eclético de amigos: ele e a Cris sua esposa linda, Cesarina Riso, Nelson Freire, Miguel Abrãao, Alberto Vescovi e Sabina (meus cumpadres), Alberto Nicolau, David Hadjes, o Rubens Farias, Marquinhos Portinari, Malena belíssima... Cada um de nós fazendo nossas vidas e escolhas cheias de erros e acertos, tentando discernir o que "no meio do inferno não é inferno" e seguindo em frente. Uníamo-nos por tardes inteiras, tardes que se tornavam dias e noites cheias de música e vida. Momentos despretensiosos e inesquecíveis.

Monta foi um amigo querido em uma fase muito importante da minha vida - aquela onde tomamos as decisões sobre o futuro profissional, sobre quem queremos ser e o que queremos deixar no mundo. Na verdade, sigo tomando diariamente tais decisões, mas a convivência com Marcinho me fez imaginar que era aquela alegria, inteligência e prazer permanente da arte que definitivamente eu deveria perseguir.

E segui meu caminho. Com minha transferência para São Paulo, o "mantra" da cidade caos acabou com a regularidade extraordinária daqueles dias extraordinários. Comecei a trabalhar com Neschling na Osesp, sai e voltei à Sala São Paulo e desde então sigo aqui meus dias trabalhosos e heróicos.

Alguns de nós nos distanciamos. Às vezes penso que tudo tratou-se de um sonho; às vezes acordo de sonhos que me fazem imaginar a vida como uma premonição e intuo que tudo retornará, que nos encontraremos todos nos preparativos de uma pescaria interminável, amarrando o bote à lancha que nos levará à luz do Sol e às nuvens leves de uma baía eterna. Ali ouviremos uma sonata de Beethoven e o veredicto de Márcio que aquele acorde em Ré maior é azul - e gargalharemos e estaremos felizes.

"Wave" com o trompetista Márcio Montarroyos é um presente que recebi e compartilho com todos neste domingo 12 de dezembro de 2010.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Marsílio Ficino: Fé e Razão na Renascença


Talyta dedica este post às amigas Tati Ballan e Lou-Lou Wolf, "as quais, talvez por não estudarem filosofia, sempre que me ouvem falar de Ficino reagem com um encantamento que me supõe ser muito mais inteligente do que realmente sou." É resultado de sua defesa de dissertação de mestrado.

Por Talyta Carvalho

Sim, leitor do Ocidentalismo, realmente faz um bom tempo que não escrevo aqui. O motivo? Bem, passei os últimos dois meses estudando e me angustiando em razão daquela “malhação de Judas” acadêmica chamada “Defesa pública”. Aconteceu na semana passada (aliás, obrigada aos meus caros editores pela presença!) e com ela encerrou-se um ciclo de estudos que já vinha desde 2007. Uma das coisas que me ocorreu assim que a defesa terminou era de que havia uma pergunta em especial que eu não precisaria mais responder por um bom tempo: “O que você estuda no mestrado?” Perdi a conta de quantas vezes fiquei constrangida por causa dessa indagação. Por quê? Porque eu sabia qual seria a reação do interlocutor assim que eu respondesse “estudo Marsílio Ficino”: uma expressão facial blasé que, caso se fizesse verbal, diria “MARSÍLIO QUEM?”.

Não é um pecado intelectual uma pessoa (quer estude ou não filosofia) não saber quem é Marsílio Ficino. Meu constrangimento advinha do fato de nestes momentos eu me dava conta de que estava me tornando uma dessas pesquisadoras que não possuem interlocutor porque estudam um cara que ninguém conhece. Farei dois posts sobre Ficino. Este primeiro tem o objetivo de responder justamente a pergunta “Marsílio quem?”. O próximo deverá abordar o pensamento metafísico do autor.

Marsílio Ficino foi um filósofo neoplatonico nascido na Itália em 1433. Graças ao mecenato de Cosme de Médici pôde entrar em contato com toda a obra de Platão e de alguns neoplatonicos como Plotino e Proclo. Cosme havia adquirido manuscritos destes autores em grego (quando do Concílio de Ferrara e Florença) por meio de estudiosos bizantinos, e os entregou a Ficino para que os traduzisse para o latim. E foi justamente essa empresa de Cosme que nos legou um “primeiro” Ficino, o tradutor e divulgador das obras de Platão no Ocidente.

Em alguns anos todo o trabalho de tradução já estava concluído, e então, o filósofo passa a adicionar comentários dos textos às suas traduções. O ápice ocorre quando ele se propõe uma indústria própria e concebe sua maior obra, a "Teologia Platônica". Essa indústria a que me referi consistia, resumidamente, em provar por argumentos racionais a imortalidade da alma. A motivação de Ficino para tal projeto era por um lado religiosa e por outro intelectual. Ele identificava que em seu tempo o divórcio entre fé e razão caminhava para uma separação radical entre teologia e filosofia, o que ele considerava uma grande perda para as duas disciplinas, daí a motivação intelectual de reunir ambas em sua reflexão. Por outro lado, temos a motivação religiosa do autor. Ficino escreve para combater uma classe específica de pensadores: os averroístas, ainda bastante fortes e presentes no cenário intelectual da Renascença. o principal ponto de discórdia de Ficino com estes últimos era justamente a defesa da dissociação entre fé e razão, materializada conceitualmente na teoria da Dupla-Verdade.

A teoria da Dupla-Verdade não foi elaborada por nenhum averroísta, na realidade ela apenas ficou associada a estes pensadores. O que é, então, a teoria da Dupla-Verdade? Quando há dois corpos de doutrina (um deles elaborado teologicamente e o outro filosoficamente) que se propõem a analisar um mesmo objeto e as conclusões a que chegam são conflitantes, mas ainda assim ambas as doutrinas sustentam suas conclusões como verdadeiras, o resultado é uma teoria da Dupla-Verdade. Em suma, o que é válido nas bases da fé nem sempre vale nas bases da razão. Um averroísta do Renascimento (como p. ex. o paduano Pietro Pomponazzi) rejeita a razão como instrumento válido para reforçar os dogmas da fé. Daí não se poder provar, por exemplo, a imortalidade da alma individual. Marsílio Ficino supõe que a aceitação destes princípios desencadearia perda de fé e corrupção moral.

Ficino escrevia para um público específico que era o público erudito, por isso julgava necessário fazer provas racionais, pois se a fé não convence o letrado a razão deveria convencê-lo de que o caminho pelo qual se optava naquele momento poderia levar a consequências funestas.

domingo, 21 de novembro de 2010

Adeus a um mestre

Por Leandro Oliveira

O maestro José Antônio de Almeida Prado faleceu hoje, em São Paulo. Nascido em Santos em 1943, estudou no Brasil com Dinorah de Carvalho, Osvaldo Lacerda e Camargo Guarnieri. Após vencer o Festival da Guanabara em 1969, estudou com Nadia Boulanger e Olivier Messiaen e, a partir dali, tornou-se um dos primeiros compositores brasileiros a enveredar pelas trilhas da então “música de vanguarda”, abordando técnicas atonais e pós-seriais desenvolvidas à sua própria maneira:

Não rejeitei nada [de minha formação], acabei fazendo uma síntese de tudo, do nacionalismo de Camargo Guarnieri às ideias “ecológicas” de Messiaen, que era profundamente ligado à natureza. Isso rendeu as "Cartas Celestes", por exemplo, que é música universal, sem se preocupar em saber se o tema é nordestino ou seja lá o que for. (Revista Concerto, 2000)

Sempre presente na Sala São Paulo - era um papo ótimo -, recentemente Almeida Prado foi um dos responsáveis pela música de um dos concertos mais emocionantes que pude participar: aquele que a Fundação Osesp fez em parceira com a Cinemateca na projeção do filme "Études sur Paris", sob a regência do maestro Cláudio Cruz. Antes (2005) sua "Sinfonia dos Orixás" já havia sido um alvoroço...

Para ouvir uma recente peça do compositor, com Antônio Meneses, clique aqui.

PS: O maestro era primo da inacreditável Hilda Hilst, e dela são os poemas de algumas músicas.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Poemas de Amor - Nazim Hikmet


Quevedo, Kaváfis, Pierre Louÿs - além de alguns versos da própria lavra. Eis algumas das pérolas poéticas que Pedro Gonzaga vem oferecendo aos leitores do Ocidentalismo.org. Agora é a vez de nos deliciarmos com alguns dos mais belos versos de um extraordinário poeta, o turco Nazim Hikmet. Além das traduções abaixo, o leitor não pode perder o texto de Gonzaga sobre Hikmet na Revista Norte, onde encontrará ainda outros versos notáveis do autor de "Carta para minha mulher".

Por Pedro Gonzaga

Poemas de Nazim Hikmet (traduzidos do inglês)

Vera Acordando

as cadeiras dormem sobre os próprios pés
assim como a mesa
o tapete está deitado de costas
aprisionando seu desenho
o espelho está dormindo
os olhos das janelas estão bem fechados
a sacada dorme com suas pernas balançando em pleno ar
no telhado em frente dormem também as chaminés
assim como as acácias na calçada
a nuvem dorme
com uma estrela guardada no peito
a luz dorme aqui dentro e lá fora
você acordou minha rosa
as cadeiras acordaram
e se puseram a passear de lá para cá
junto com a mesa
o tapete se sentou ereto
lentamente revelando suas cores
como um lago ao entardecer despertou o espelho
as janelas abriram seus grandes olhos azuis
acordou a sacada
e recolheu suas pernas do ar
no telhado em frente as chaminés fumegaram
as acácias na calçada irromperam numa canção
a nuvem acordou
e lançou a estrela guardada em seu peito para dentro de nosso quarto
a luz despertou aqui dentro e lá fora
inundando teus cabelos
deslizando por entre teus dedos
abraçando tua cintura nua e estes teus pés tão brancos

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Villa-Lobos sem charuto

Por Leandro Oliveira

No youtube não canso de encontrar documentos extraordinários. Esta entrevista famosa, finalmente disponível para o grande público, é de Heitor Villa-Lobos falando sobre a música e o Brasil em 1951.

Às vezes lembra, se me perdoam o senso de humor, o Gilberto Gil. Está tudo aí: o tom salmódico, o papo quase esotérico, a exaltação das forças atávicas brasileiras como legitimadoras da "música do coração" que é aquela da produção nacional. Um discurso estético pleno de populismo e contradições, que se sustenta menos pela sua lógica ou inteligência e mais pelo seu carisma - ou melhor, o carisma de uma música que não está lá, mas que não podemos deixar de ouvir o tempo todo quando sabemos que é um discurso de Villa-Lobos.

Afinal, Villa fala como compõe. Só que quando faz música, as contradições se resolvem, a irreverência se justifica pois a produção poética se presta exatamente a isso: abrir portas para as possibilidades da realidade. E como diziam os romanos, a digito cognoscitur leo; e os dedos do Villa estão na sua música, não em seus projetos ou idéias políticas. A obra do Villa redime qualquer e todos os seus pecadilhos intelectuais.

Aos interessados em adquirir o original - um CD que conta ainda com o próprio compositor executando seus prelúdio e o choros nº1, além de outras peças para piano -, um possível caminho para compra aqui.


Esta semana, a Osesp apresenta o "Choros nº6" de Heitor Villa-Lobos.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Vamos reabilitar o capitalismo?


"Uma flor é uma flor é uma flor", mas nem sempre. No terreno da vida real - já poderiam dizer os gramáticos na Idade Média, e hoje asseveram os semioticistas - uma flor é um presente, um elemento de processos ecológicos, um símbolo aristocrático... Os nomes das coisas dizem de referências que estão para além delas; neste sentido, o termo "capitalismo" guarda realidades muito distantes daquelas do senso comum. Sentidos a serem reabilitados, como bem nos diz Joel Pinheiro da Fonseca.

Por Joel Pinheiro da Fonseca

Numa língua “perfeita” (digo idealizada, irrealizável, não necessariamente melhor), cada palavra teria um único significado. De cada palavra, sempre saberíamos exatamente ao que ela se refere. No mundo real, as palavras podem ter muitos significados, o que todo mundo sabe, mas acontece que há, também, palavras sem significado nenhum, e ainda palavras que já tiveram significados e não têm mais.

É o caso de “capitalismo”. Produto da mente tortuosa de algum pensador alemão (Marx não inventou o termo, apesar de tê-lo popularizado) - ou seja, nenhum dos autores em geral associados ao capitalismo, como Adam Smith, jamais o escreveu - “capitalismo” se referia supostamente a um certo sistema econômico. O problema é que esse sentido original já era sem sentido. Diferentemente do socialismo, que é algo imposto à sociedade, uma série de regras, proibições e intervenções governamentais para moldar a sociedade segundo uma certa concepção, o capitalismo nada mais é do que as pessoas vivendo e interagindo livremente; é a ausência de um sistema. Produzo algo, troco com outra pessoa, ofereço meu trabalho por um preço combinado mutuamente para um contratante, etc. Cada um é dono do que é seu e pode usá-lo livremente. Isso é capitalismo. O termo ainda tinha o mérito de ressaltar a importância do capital, isto é, da poupança, para o crescimento. Uma nação só prospera se tiver capital; e como forma capital? Poupando. Em todo caso, mesmo esse bom sentido, contido no próprio nome, acabou se perdendo.

Acontece que associou-se “capitalismo” a outra coisa: uma certa relação entre governos e grandes empresas, a concessão de monopólios, governos preocupado em aumentar o PIB, em controlar a taxa de juros e a inflação. Como o mesmo termo era usado tanto para um conjunto de valores e idéias acerca da sociedade quanto para designar o dono de uma empresa, as duas coisas acabaram se confundindo. Assim, se um grande empresário (um grande capitalista) entra em conluio com o governo, então o capitalismo, enquanto idéias e valores, deve ter algo a ver com isso; o que é obviamente falso. Hoje em dia, “capitalismo” não tem propriamente um significado, um objeto que seja designado pelo termo. É antes um produtor de reações no ouvinte: alguns detestam, outros adoram, mas ninguém sabe bem do que se está falando.

domingo, 24 de outubro de 2010

Papo de Facebook. Ou: Como meus amigos são inteligentes! (2)

Capturado no Facebook da Jussara Almeida, amiga dileta do site:

Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e por-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso, não conhece a natureza humana.

Mikhail Bakunin, anarquista russo, 1814-1876

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Ioanna Tsatsu - "Tu amargura"



Érico Nogueira por voltas com poesia neo-helênica no seu blog Ars Poetica, cujo epíteto deveria ser "o necessário". Como ele ressalva, os textos são traduzidos pelo poeta espanhol Mario Domínguez Parra. Érico tem o bom tom de introduzir o poeta da vez; após a nota biobibliográfica onde esclarece Ioanna Tsatsu, segue o poema "Tu amargura".

Por Érico Nogueira

Ioanna Tsatsu nació en Atenas en 1909. Su familia tiene una profunda relación con las letras. Su padre, Stelios Seferiadis, fue poeta y traductor de Lord Byron al griego moderno. Su hermano Yorgos Seferis, uno de los grandes poetas griegos. Su otro hermano, Ánguelos Seferiadis, fue poeta también, aunque oculto. El único libro de Tsatsu en español es "Diario de la invasión" (tr. Alicia Villar Lecumberri, Madrid, Ediciones Clásicas, 1991), crónica de los cuatro años de la invasión nazi de Grecia y de las penalidades que sufrieron ella y su entorno, que permanecieron en Grecia mientras que Yorgos Seferis formaba parte del gobierno griego en el exilio.

La obra poética de Tsatsu es amplia e importante, y está impregnada tanto de los ecos de la Grecia Clásica como de una profunda religiosidad proveniente del Cristianismo Ortodoxo. Escribió libros en prosa, como el mencionado diario. Otro libro del mismo género, La poesía y el Hades, diario que comprende los años 70 y 80, surge a partir de la amistad de Tsatsu con el poeta católico francés Pierre Emmanuel. Es necesario también mencionar un libro capital en el campo de la biografía, Mi hermano Yorgos Seferis, que mereció el Premio Nacional de Biografía en Grecia, en 1974, año en el que cayó la dictadura de los coroneles contra la que se manifestó Seferis desde el golpe de estado de 1967.

Esta biografía cuenta los primeros cuarenta y cinco años de la vida del poeta. Escribió también cuentos y un libro autobiográfico, Kydathineon 9 (dirección de la casa familiar en el centro de Atenas). Tsatsu escribió en este libro: «Para mí, de niña, Atenas significaba lo que estaba alrededor de la Acrópolis». Por esta casa pasó buena parte de la sociedad literaria y política del país, puesto que Tsatsu era esposa del dramaturgo, filósofo, ensayista y político Konstantinos Tsatsos, que llegó a ser Ministro de Educación y posteriormente Presidente de la República. Este libro incluye la crónica biográfica, el diario y el género epistolar. Tsatsu murió en 2000.


TU AMARGURA

No se me va el sabor
de tu amargura,
así no obstante cruzo
la corteza de la tierra

sangré el mundo
y mi corazón
recogí todo lo valioso
la salvaje pena del aire
ríos del cataclismo de mi nostalgia

lo dejé sobre tus rodillas;

me miraste con insistencia
avanzaste hacia tu vida.

(Tradução de Mario Domínguez Parra.)

Retirado de Ars Poetica.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Dom Quixote - Um Romance do Século XXI (1)

Dom Quixote de La Mancha, protagonista da obra-prima homônima de Miguel de Cervantes, é um personagem cuja atualidade e fascínio segue incontestável. Ponto de transformação da literatura ocidental, o texto e seu simbolismo são discutidos neste especial do site Loop Mídia.

Por Nivaldo Cordeiro


Retirado de Loop Mídia.

sábado, 16 de outubro de 2010

Wilson Simonal

Por Leandro Oliveira

Sábado de sol... Então para relaxar, o mestre Wilson Simonal em dois momentos: com a extraordinária Sarah Vaughan, e no documentário fundamental de Cláudio Manoel.


Do release oficial de "Simonal - Ninguém sabe o duro que dei":

Como é que pode o Rei do Suingue ser condenado ao ostracismo por falta de jogo de cintura?! Pois é... esse é o paradoxo que marcou a vida de um dos maiores artistas da música brasileira: Wilson Simonal. "Alegria, Alegria" era o bordão desse cantor negro que orquestrava platéias gigantescas. O dom que ele tinha em dominar as massas, lhe faltou na hora de lidar com o sucesso. Simonal era subversivo e carismático ao mesmo tempo, sendo mal interpretado numa época em que tudo era analisado com radicalismo: ou você era da Direita Perversa ou da Esquerda Intolerante. No meio desse tiroteio de ideologias, Simonal foi vítima das duas correntes. O precursor da musica POP Brasileira, intérprete da "Pilantragem" (estilo de musica debochado e malandro da época), perdeu o rebolado quando não teve habilidade em lidar com o suposto roubo de seu contador. O menino negro e pobre, filho de empregada doméstica, que alcançou o sucesso graças ao seu talento, viu tudo desmoronar... julgado e renegado pelos seus colegas de trabalho e pela mídia, num boicote que durou mais de duas décadas.
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