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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

What the Universe tells me

Ao final do encontro de sábado do Falando de Música um aluno me conta de "Árvore da Vida", um filme sobre a perda de um filho. Segunda-feira, Luiz Felipe Pondé faz um texto belíssimo na Folha de São Paulo, argumentando a partir do que seria a tese central do filme; no mesmo dia Martim publica seu ensaio elogioso a respeito no site da Dicta.

Fiquei ansioso e fui. Minha expectativa era enorme, como não poderia deixar de ser e, infelizmente, detestei o filme. Digo infelizmente pois respeito meus alunos, respeito o Pondé e acho que Martim tem um ótimo faro cinematográfico. Mas talvez o filme seja um pouco demais para mim.

Ficou evidente que Terrence Malick tem um excelente sensiblidade para as perguntas que se coloca - e que de alguma maneira nos afronta a todos: "por que sofremos? qual a lógica de nossa miséria e fortuna?" - ao argumentar a partir de uma aparente dicotomia explicita nas primeiras cenas, onde propõe que "devemos aprender a viver pela Natureza ou pela Graça".

Tudo isso foi discutido por nossa crítica. Curiosamente, o que não foi discutido é o filme. Pois sobre o filme duas coisas saltam aos olhos: sua pretensão e sua desumanidade.

O filme é pretensioso no pior sentido do termo: grandes dimensões (mais de duas horas), imagens assombrosas, excesso do que poderia chamar de "pedagogismo". Neste sentido, sua literalidade é realmente desconcertante, ao ponto de, à leitura das perplexidade do livro de Jó quanto da nossa ignorância a respeito da máquina do Universo ("Onde é que você estava quando criei o mundo?"), o diretor realiza um grande périplo para cenas que contam... a criação do mundo! Jó estava em lugar algum quando o mundo foi criado, mas Malick estava lá. Talvez a parte mais constrangedora do filme seja esta espécie de "La terre vue du ciel", cenas que Discovery Channel algum botaria defeito. (Juro que quando vi um dinossauro fiquei com vontade de ir embora). O resultado quanto mais cenicamente deslumbrante, mais incomoda - se visto no contexto da morte de um filho, é nada mais que tétrico.

E nisto o filme é desumano. Não há a menor forma de compartilhar a dor dos personagens ou, por outro lado, construir o dilema filosófico de maneira inequívoca. As imagens não prevêem contradições, e o problema é demasiadamente humano para ser visto de baixo (a situação onde o diretor nos coloca) ou de cima (de onde, aparentemente, o diretor está).

A crítica da Movieline vai na mosca: "Tree of Life" é sobre a vida, mas Malick não parece ligar muito para pessoas. Malick se preocupa com suas imagens, com sua textura e iluminação; é um mestre de sua ourivesaria cinematográfica. Mas um filme que fala da perda e tragédia precisa antes estar plena de compaixão, não de savoir faire.

(...)Desert rock formations, rushing streams, sunflowers waving gently in the sun, and all sorts of cradle-of-life folderol are the things that really rock his world — he cuts to them whenever he needs to try to explain the inexplicable, which is often. This is a movie about spiritual searching, about reckoning with the nature of God and his frustrating insistence on allowing suffering in the world. We know that because the movie’s characters tell us what they’re thinking, repeatedly, in voice-over: “How did she bear it? Mother.” “Lord — why?” Never trust an actor’s face to convey complicated feelings when you can just dub in words. 

(...) There certainly is a lot of filmmaking going on here: Malick grabs our attention with diminutive jump cuts; he often shoots characters in three-quarters profile, so we’re left to wonder what their faces might be saying; he invents dream images (like a slightly airborne Chastain pirouetting among the trees) and inserts them in unexpected places. There’s also lots of majestic orchestral music, courtesy of Alexandre Desplat, Bach and, presumably, God.

(...) It puzzles me that people think of Malick as a strong visual filmmaker. His movies are often gorgeous-looking — that was true even of The New World, which probably tops even Tree of Life in the pretentious snoozefest department.

But strong visuals don’t necessarily equal strong visual storytelling. If Malick could tell a story mostly with pictures — and faces — why would he need so many voice-overs? There are some good performances here, to the extent that Malick allows us to focus on them: Pitt, in particular, captures the essence of preoccupied dadness. As he schools his boys in the art of respecting the line dividing their property from a neighbor’s, or takes them all out to eat at a local diner, he’s both distanced and affectionate in the way many of us may remember our own dads to have been. Chastain has less latitude: She’s cast in the role of beatific mom-symbol, and it constrains her.

I can already hear the chorus of dissenters: But you just don’t understand! Tree of Life a tone poem made by a genius! You need to see it again, or at least think about it a lot more! Admittedly, in this particular case, deadline constraints demanded some pretty rapid processing. But I don’t think I’d find much more beneath the surface of Tree of Life if I thought about it for 12 more hours or 12 more days. Malick is doing what lots of directors do as they get older and ponder larger issues. I’m sympathetic, at least, to his intent. But he’s trying to answer big questions by making the biggest movie possible. Where is God when you need him? The one place he forgets to look is in his characters’ eyes.


Forte mas está tudo aí. Disse que meu aluno, no sábado, foi o primeiro a chamar a atenção para o filme; falávamos de Kindertotenlieder de Gustav Mahler. O texto de Friedrich Rückert fala de uma criança, o filho do poeta, morto de rubéola em 1833; Mahler aproveita setenta anos mais tarde do impacto dramático do poema e realiza sua pequena obra prima. A música é prudente e pungente - dor, sobretudo dor, e ao fim uma aposta. Dois anos depois sua filha mais velha Maria Anna falece de rubéola, aos cinco anos de idade. E o que Mahler diz? "(Quando fiz a música) me coloquei na situação da perda de um filho. Mas quando realmente perdi milha filha eu não poderia mais ter escrito tais canções..."

Talvez a sensibilidade do projeto Malick seja realmente notável, mas a arte é feita da comunicação desta sensibilidade - e nisto a técnica é apenas subsidiária. E na comunicação, os símbolos, quando soltos, são apenas símbolos soltos. Em "A Árvore da Vida", o que vemos na maior parte do tempo é uma colagem de imagens espetaculares, de grande e indubitável impacto por si, mas realmente sem pretexto ou nexo narrativo dentro do grande e real drama que se coloca: a perda, a morte, a eventual transfiguração e consolo dos que ficam. Ao fim e ao cabo, o filme pareceu-me uma grande colcha de retalhos onde percebemos as sombras de uma história trágica, e não conseguimos saber se tal trama do Universo que nos apresenta o filme passa pela cabeça dos O'Briens - e portanto é a justificativa de seu sonho redentor ao final -, ou se as sombras são apenas os gafanhotos, espumas do mar e dinossauros da câmera de Malick - portanto, parte de um certo proselitismo, convencendo a NÓS da redenção final do filho crescido.

Para falar da vida no cinema é necessário mais do que senso plástico, é necessário contar histórias, mesmo quando cheia de horríveis contradições. Malick sabe coisas demais; talvez seja o maior de todos. Mas eu não o entendo.

Ps: Mahler faz uma belíssima reflexão sobre o Universo, a Natureza e a transfiguração da vida na sua Terceira Sinfonia. É uma obra filosófica e instigante, esmiuçada no premiadíssimo documentário "What the Universe Tells me". No filme, as mesmas imagens impressionantes, a mesma música transcendente que nos remeteria a "Árvore da Vida". Mas a linguagem enxuta elucida a belíssima narrativa mahleriana e suas bases na filosofia de Schopenhauer. O filme completo no link abaixo:


por Leandro Oliveira

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A grande literatura do pequeno gesto no cinema


Não estou em idade adequada mas é fato que ultimamente tudo e qualquer coisa que me animam são reminências. Bashevis Singer, por exemplo: ler sobre o sujeito na belíssima resenha de Luiz Oricchio me fez lembrar a primeira vez que li o autor polonês.

Lembro - lembrei esta manhã novamente - que quando o li fiquei alerta: seus contos, passados na comunidades judaicas de Nova Iorque e Varsóvia, ou de pequenos stetl do leste europeu, são jóias de psicologia, humor e servem de deleite para qualquer pessoa sinceramente encantada com o mundo de vidas e encantos prosaicos que é este o nosso.

Coloco Bashevis Singer, a partir de expressões bem diferentes, ao lado de V.S. Naipaul que comentei em outro post logo abaixo. E sua diferença é como a das faces de uma mesma moeda: enquanto Naipaul parece encarnar a idéia tão cara à modernidade, do homem cosmopolita, a que tudo no mundo devora, Singer é um definitivo artesão a laborar miudezas de sua comunidade, de seu obtuso microcosmos. O primeiro, expressa aquela perplexidade que nos dá olhar o diferente, e perceber a nós; o segundo, outra emoção, a que mostra que o microcosmos particular espelha nuances de todo o universo.

Não sei qual dos dois modos mais me movem, mas sei que em Singer reencontrei uma dívida cara. E lembro que lê-lo foi uma aventura de um mundo que me fez reler em melhores moldes esta outra aventura que é o meu dia-a-dia e suas idiossincrasias. "O amor chega tarde", filme baseado em elementos de sua obra, parece-me ser, segundo posso ler no Estadão, a melhor dica para este final de semana.

Entre seus livros, "No tribunal de meu pai" é uma obra-prima. Se Joel chamou atenção no site da Dicta para referências sobre "o problema do divórcio" na mídia americana recente, Singer traz neste livro, em dado trecho, uma visão muito particular, como solução curiosa, ancestral e nobre. Chama-se "O Sacrifício".

Há neste mundo indivíduos muito estranhos, cujos pensamentos são ainda mais singulares que eles próprios.

Em nossa casa em Varsóvia - na rua Krochmalna, número 10 -, dividindo o hall de entrada conosco, vivia um casal de anciãos. Eram pessoas simples. O homem era artesão, ou talvez vendedor ambulante, e seus filhos já estavam todos casados. Contudo os vizinhos diziam que, apesar da idade avançada, os dois continuavam apaixonados. Todo sábado à tarde, após o cholent, saíam para passear de braços dados. Na mercearia, no açougue - aonde quer que fosse fazer compras -, a mulher só falava do homem: "Ele gosta de feijão... ele gosta de um bom pedaço de carne... ele gosta de vitela...". Há mulheres assim, que vivem falando de seus maridos. Ele, por sua vez, estava sempre dizendo: "Minha mulher".

Minha mãe, descendente de várias gerações de rabinos, implicava com o casal. A seus olhos, tal comportamento era uma demonstração de vulgaridade. Mas no fim das contas, o amor - sobretudo entre duas pessoas idosas-não pode ser tão facilmente repudiado.

De repente começou a correr um boato que escandalizou a todos: os dois velhos pretendiam divorciar-se! (...)

Nesse ínterim, em nossa casa, a verdade veio à tona.

A velha procurou minha mãe e falou-lhe em termos tais que o rosto pálido de mamãe enrubesceu de constrangimento. Apesar de ela ter tentado me despachar para longe dali, a fim de que eu não escutasse, acabei escutando, pois estava ardendo de curiosidade. A mulher jurava que amava o marido mais do que qualquer outra coisa no mundo.

"Cara senhora", argumentava ela, "eu daria minha vida para salvar uma unha dele que fosse. Pobre de mim, estou velha - sou um trapo de gente -, mas ele, ele ainda é um homem. E precisa de uma mulher. Por que obrigá-lo a carregar esse fardo? Enquanto nossos filhos viveram conosco, era preciso ter cuidado. As pessoas falariam. Mas agora o que elas dizem me preocupa tanto quanto o miado de um gato. Já não preciso de marido, porém ele - oxalá continue assim-é como um jovem. Ainda pode ter filhos. E agora encontrou uma moça que o quer. Ela tem trinta e poucos anos; é a hora dela de também ouvir a música das bodas. Além do mais, é órfã e trabalha como criada numa casa; será boa para ele. Com ela, ele gozará a vida. Quanto a mim, não passarei necessidade. Ele garantirá meu sustento, e eu sempre ganho alguns trocados vendendo badulaques. De que preciso na minha idade? Só quero que ele seja feliz. E ele me prometeu que - após cento e vinte anos, quando chegar a hora - jazerei a seu lado no cemitério. Voltarei a ser sua mulher no outro mundo. No Paraíso, servirei de escabelo para seus pés. Está tudo combinado."

A mulher viera a fim de, simplesmente, pedir a meu pai que cuidasse do divórcio e celebrasse o matrimônio.

Minha mãe tentou dissuadi-la. Como as outras mulheres, ela via naquele caso uma afronta ao sexo feminino. Se todos os homens de idade dessem para se divorciar de suas esposas e casar-se com mocinhas, em que bonito estado ficaria o mundo. Mamãe disse que a idéia toda era evidentemente obra do Diabo e que tal amor era uma coisa impura. Chegou a citar um dos livros de ética. Porém aquela mulher simples também sabia citar as Escrituras. Lembrou a minha mãe que Raquel e Lia haviam dado suas servas Bala e Zelfa como concubinas a Jacó.

Embora eu fosse apenas um menino, não me achava completamente indiferente à questão. Queria que os velhos fossem em frente. Em primeiro lugar, adorava assistir a um divórcio. Em segundo, nas cerimônias de casamento, eu sempre ganhava um pedaço de pão-de-ló e um golinho de conhaque ou vinho. E em terceiro, quando papai recebia algum dinheiro, costumava me dar umas moedinhas para eu gastar em doces. Não bastasse isso, no fim das contas eu também era um homem... (...)


Solução curiosa esta, a da separação como ato de amor. Lembro de Hoffmansthal e sua Marschelin no "Rosenkavalier" de Richard Strauss... Mas isso é outra coisa.

O trecho de Singer na íntegra aqui.

por Leandro Oliveira

segunda-feira, 25 de julho de 2011

La paura de Fellini

Steiner a Marcello no "La Dolce Vita". Um pouco (bastante) schopenhauriano, acho...


Qualche volta, la notte, quest’oscurità, questo silenzio, mi pesano. È la pace che mi fa paura. Temo la pace più di ogni altra cosa: mi sembra che sia soltanto un’apparenza, e che nasconda l’inferno. Pensa a cosa vedranno i miei figli domani... il mondo sarà meraviglioso, dicono! Ma da che punto di vista, se basta uno squillo di telefono ad annunciare la fine di tutto? Bisognerebbe vivere fuori dalle passioni, oltre i sentimenti, nell'armonia che c'è nell'opera d'arte riuscita, in quell'ordine incantato... Dovremmo riuscire ad amarci tanto... da vivere fuori dal tempo, distaccati... distaccati.

Às vezes, à noite, esta escuridão, este silêncio, me oprimem. É a paz que me amedronta. Temo a paz mais que qualquer outra coisa: me parece apenas uma aparência, e que oculte o inferno. Pensa o que verão, amanhã, os meus filhos... o mundo será maravilhoso, dizem! Mas de que ponto de vista, se basta um toque de telefone para anunciar o fim de tudo? Precisaríamos viver fora das paixões e os tantos sentimentos, na harmonia que há a obra de arte completa, e sua ordem encantada... Deveríamos conseguir amarmo-nos muito... a ponto de vivermos fora do tempo, soltos... soltos.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Dimensões do diálogo

por Leandro OLiveira

Um dos meus diretores prediletos é Jan Švankmajer. Pensei nele hoje, voltando de Mauá pelo projeto Osesp Itinerante... mais especificamente lembrei do vídeo "Možnosti Dialogu", de 1982. Em três partes, o que me veio à mente retornando da cidade paulistana foi o primeiro. Meu preferido é o segundo.

Divirtam-se.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Nem tudo que é um horror é ruim.

por Leandro Olveira

O título é meu, mas o texto é excelente: Leonardo Oliveira (faríamos uma dupla sertaneja, pois não) no Euterpe.

Por incrível que pareça, tenho algumas coisas a dizer sobre o filme "Immortal Beloved" (“Minha Amada Imortal”), hoje mais lembrado como mais uma das caricaturas do cinema dos anos 90. Dirigido por Bernard Rose, o filme ficou famoso ao romancear a busca pela identidade da unsterbliche geliebte (“bem-amada imortal”) a quem Beethoven dirigiu uma misteriosa carta, de fato encontrada entre seus pertences após sua morte em 1827.

A ideia que estrutura o filme, que reconta algo de toda a vida e obra do compositor, é o seu próprio twist final: a Amada Imortal de Beethoven, enigma biográfico de mais de século, teria sido Johanna van Beethoven, sua própria cunhada tão duramente criticada e combatida judicialmente pela guarda do sobrinho. A ideia não tem qualquer respaldo biográfico, mas então qual seria a sua graça? (...)


Para íntegra, clique aqui.

terça-feira, 19 de abril de 2011

There is so much beauty in the world

selecionado por Leandro Oliveira


I had always heard your entire life flashes in front of your eyes the second before you die. First of all, that one second isn't a second at all: it stretches on forever, like an ocean of time.

For me, it was lying on my back at Boy Scout Camp, watching falling stars.

And yellow leaves from the maple trees that lined our street.

Or my grandmother's hands, and the way her skin seemed like paper.

And the first time I saw my cousin Tony's brand new Firebird...

And Janie! and Janie!

And Carolyn.

I guess I could be pretty pissed off about what happened to me, but it's hard to stay mad when there's so much beauty in the world. Sometimes I feel like I'm seeing it all at once, and it's too much. My heart fills up like a balloon that's about to burst. And then I remember to relax, and stop trying to hold on to it, and then it flows through me like rain, and I can't feel anything but gratitude for every single moment of my stupid little life.

You have no idea what I'm talking about, I'm sure. But don't worry - you will someday.

terça-feira, 12 de abril de 2011

The voice of God

por Leandro Oliveira



On the page it looked nothing! The beginning simple, almost comic. Just a pulse: bassoons, basset horns - like a rusty squeezebox. And then, suddenly, high above it, an oboe. A single note, hanging there, unwavering... until a clarinet took it over: sweetened it into a phrase of such delight! This was no composition by a performing monkey - this was a music I had never heard. Filled with such longing, such unfulfillable longing, it seemed to me that I was hearing the voice of God.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Observatório Ocidentalismo


por Leandro Oliveira

Detalhes novos da - já velha? - querela que surge na Orquestra Sinfônica Brasileira. Com a demissão de metade da orquestra, e a justificativa de que não participaram das audições de avaliação, a direção da orquestra decidiu pelo litígio incontornável. Escolha desagradável, controversa e aparentemente pouco inteligente. Nisso todos concordam: maestro Neschling faz uma aposta para que ao menos os "meios justifiquem os fins", Antonio Meneses assevera uma esperança no retorno das drásticas decisões tomadas, Cristina Ortiz e Roberto Tibiriçá cancelam a participação nos concertos da presente temporada.

Após a declaração da federação de músicos americanos de que a presença de Roberto Minczuk - o mentor de toda esta confusão - não seria bem-vindo aos palcos dos EUA enquanto mantivesse sua posição, só me resta imaginar que Minczuk deve saber o que está fazendo, vendo aquilo que mais nenhum de nós consegue ver.

Isolado como está, em tendo razão, para além de maestro deverá ser antes um profeta. Pelo jeito é o que aposta o Conselho da instituição.

Notícia de última hora (14h40): Nelson Freire é mais um que acaba de cancelar sua participação na Temporada 2011...

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Cinema? Duas dicas: o Mubi.com, uma espécie de distribuidora online; não assinei mas ouvi falar muito bem. E para quem está em Paris, a exposição Stanley Kubrick na Cinémathèque Française com documentos sobre o trabalho preparatório, a apresentação integral dos filmes, mesas redondas e conferências sobre o autor.

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Palavras de realismo sobre o futuro da literatura no novo livro de Marjorie Garber. Nos conta Jessa Crispin:

When literature makes the headlines these days, it seems to be only bad news: books being declared "obscene" and removed from school library shelves, one expert after another telling us the rise of comic books and novels written in the language of the text message is destroying the English language, studies proving that no one reads anymore anyway... You'd think our literary culture is at a crisis point, and from here our nation will descend into illiteracy and intellectual decrepitude.

Marjorie Garber claims in "The Use and Abuse of Literature" that none of these conversations have anything to do with today's society; since the invention of written language we've been fighting over who was using it correctly and who was ruining it for the rest of us.


Na íntegra aqui.

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Amigos do Facebook: Eduardo Pohlmann sugeriu o link abaixo

Ronald Dworkin is wondering about what his friend Alfred Brendel does when he plays the piano. "Why does he play that way? When he plays a great sonata, for example, he must think his interpretation is better than other interpretations or he wouldn't play it that way, mustn't he?"

Dworkin é um dos mais importantes pensadores de filosofia moral na atualidade. Para ler a íntegra do artigo de Stuart Jeffries, sobre o recente livro do pensador, clique aqui.

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Reverberando a provocação de Ieda ontem, sugiro o artigo de Erik Silk para o Wall Street Journal e seu link para o site The Art of Videogames.

terça-feira, 29 de março de 2011

Woody Allen e as leis do Universo

por Leandro Oliveira

Lembrança mais que apropriada da amiga Jussara Almeida:


Mother: He’s been depressed. All of a sudden he can’t do anything.

Dr. Flicker: Why are you depressed, Alvin?

Mother: (to Alvin) Tell Dr. Flicker... (to Dr. Flicker) It’s something he read...

Dr. Flicker: (to Alvin) Something you read, hun?

Alvin: The universe is expanding...

Dr. Flicker: (to Alvin) The universe is expanding?

Alvin: Well, the universe is everything and, if it’s expanding, someday it will break apart and that will be the end of everything.

Mother: (to Alvin) What is that your business?... (to Dr. Flicker) He stopped doing his homework!

Alvin: What’s the point?

Mother: (to Alvin) What has the universe got to do with it? You’re here in Brooklin. Brooklin is not expanding!

Dr. Flicker: (to Alvin) It won’t be expanding for billions of years, Alvin... and we gotta try to enjoy ourselves while we’re here, hun? Hun? Ahahahahahaha

segunda-feira, 28 de março de 2011

Observatório Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

Dica imperdível, o lançamento de "Herege" de G. K. Chesterton. Ieda Marcondes faz uma pequena apresentação:

“Hereges” apresenta vinte capítulos, cada um destinado a uma figura ou tendência moderna. Assim, o autor discute Rudyard Kipling, Bernard Shaw, H.G. Wells, o Comtismo, o “carpe diem” dos estetas, o Novo Jornalismo, a comunidade científica, entre outros. Para cada caso, ele emprega uma perspectiva teológica, analisando sua heresia e ressaltando a importância da ortodoxia. Dessa forma, Kipling é um herege por ser um cidadão do mundo, por não ter tempo ou paciência de se fixar definitivamente em nenhum lugar, ele representa o cosmopolitismo da sociedade moderna que avança e expande sem saber que a vida acontece quando nos enraizamos, quando nos prendemos em determinada causa ou comunidade; Shaw é um herege por não aceitar os humanos como são, por comparar homens com super-homens, com deuses ou gigantes, quando o segredo do cristianismo, e mesmo do sucesso em vida, está na humildade; Wells é um herege por duvidar do pecado original e da possibilidade da própria filosofia ao dizer que é impossível encontrar idéias seguras e confiáveis, que tudo sempre muda, mas são apenas as aparências que mudam, as idéias permanecem sempre as mesmas.

Na íntegra aqui.

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Resenha sobre o último livro de V. S Ramachandran - que sempre traz boas perguntas sobre arte e o nosso cérebro.

Twenty percent of art can now be explained by neuroscience. That, at least, is what V.S. Ramachandran thinks. Ramachandran is the Director of the Center for Brain and Cognition, and Distinguished Professor with the Psychology Department and Neurosciences Program at the University of California, San Diego. He is, in short, one of the top neuroscientists around at the moment. He is also a clear and engaging writer. His 1999 book, Phantoms in the Brain, brought him much popular attention and his most recent book, The Tell-Tale Brain, is doing more of the same.

Na íntegra aqui.

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As raízes históricas e culturais do Yoga em uma belíssima resenha de Wendy Doniger

Some American Hindus have recently argued that Hindus should “Take Back Yoga”. The Hindu American Foundation insists “that the philosophy of yoga was first described in Hinduism’s seminal texts and remains at the core of Hindu teaching”, that yoga is the legacy of a timeless, spiritual “Indian wisdom”. Other Americans agree that the Hindus should take back yoga – from the many Christians who embrace it: R. Albert Mohler Jr, president of the Southern Baptist Theological Seminary, advises Christians to abandon yoga if they value their (Christian) souls. This fight evokes for me the Monty Python skit in which Greek and German philosophers compete in a football game (which ends with Marx claiming that the Greek goalscorer was off-side). Declaring the Southern Baptists (or at least the Revd R. Albert Mohler) off-side, we may still ask, why do so many American Hindus care so much whether yoga is Hindu? And is it?

Na íntegra aqui.

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Os amigos do Falando de Música lembraram; em homenagem à Liz Taylor, uma passagem do filme "Rhapsody" - no trecho, o concerto para violino de Tchaikovsky que a Osesp tocou neste final de semana.


domingo, 20 de março de 2011

Meninos (como Homens) em tempos sombrios


por Juliana Perez

Agora o que conta é reencontrar-se, iluminar-se reciprocamente, de pessoa a pessoa...

A frase foi escrita em 1942, alguns meses antes da decapitação de um de seus autores. Não se trata de escritores nem de filósofos ou de cientistas importantes, tampouco de grandes homens de Estado ou de revolucionários titânicos. Hans Scholl (1918-1943) estudava medicina na Universidade de Munique e – com sua irmã, Sophie (1921-1943) e um amigo, Christoph Probst (1919-1943) – foi acusado de alta traição ao regime nacional-socialista. Alexander Schmorrell (1917-1943), segundo autor da frase acima, Willi Graf (1918-1943), Kurt Huber (1893-1943), seu professor de filosofia, e outras dez pessoas foram condenadas à morte dois meses mais tarde.

Hans, Sophie, Christoph, Schmorell, Graf e Huber formavam o núcleo do movimento de resistência que ficou conhecido como "A Rosa Branca" (Die Weiße Rose). Sobre ele há dois filmes: o primeiro "Die Weiße Rose" (1982) dirigido por Michael Verhoeven, é baseado em documentos pertencentes às famílias dos envolvidos e teve ampla repercussão na Alemanha; o segundo, "Sophie Scholl: The Final Days" (2009), concentra-se nos dias que antecedem a prisão dos integrantes da Rosa Branca e focaliza a comovente experiência de Sophie Scholl. O roteiro utiliza documentos ainda não conhecidos nos anos oitenta - reproduzidos quase literalmente em vários diálogos do filme (no interrogatório, por exemplo).


As primeiras informações sobre a "Rosa Branca" tornaram-se conhecidas graças ao livro da irmã mais nova de Hans e Sophie, Inge SCHOLL, "Die Weiße Rose" (Frankfurt a. M.: Fischer, 2001). O livro é amplamente conhecido na Alemanha, em muitas escolas ainda está na lista de leituras obrigatórias.

Em tempo: houve outros movimentos de resistência ao nacional-socialismo na Alemanha – a Jüdischer Kulturbund, o Kreisauer-Kreis, Schulze-Boysen/Harnack Organisation, por exemplo. De diversas tendências políticas e religiosas, procuravam se opor ao regime da forma como lhes era possível: todos eles foram mais cedo ou mais tarde violentamente reprimidos pelo regime. Mais informações? Veja o estudo de Corina Petrescu, "Against All Odds: Subversive Spaces in National Socialist Germany" (Oxford et. al.: Peter Lang, 2010).

Quanto ao grupo "A Rosa Branca", o que faz dessas seis pessoas – que talvez contassem com a colaboração de vinte ou cinquenta estudantes dos cerca de oito mil inscritos na Universidade de Munique – algo especial?

Em primeiro lugar, a quase ingenuidade de suas ações: entre junho de 1942 e janeiro de 1943, os estudantes redigiram e distribuíram panfletos de crítica ao regime. Dos primeiros panfletos foram feitas cem cópias, do último, entre duas ou três mil. Os pesquisadores costumam dividir as ações dos estudantes em 3 fases: a que inclui a redação dos quatro primeiro panfletos, que exortavam à resistência passiva; a segunda fase acontece após a volta dos estudantes do front; e a última fase, que incluiu pichações de muro pela cidade de Munique – ato temerário na época –, e o último panfleto, que causou a prisão. Os panfletos impressionam tanto por unirem a reflexão filosófico-existencial a uma corajosa análise política, quanto por expressarem a convicção de que qualquer mudança social só seria possível a partir do momento em que a responsabilidade pessoal diante dos acontecimentos fosse plenamente assumida.

Mas a falta de sistematicidade das ações e a complexidade dos panfletos – de forma nenhuma dirigidos às “massas” – são apenas alguns indícios do que vários estudiosos do tema já confirmaram: a chamada “Rosa Branca” não chegou a se constituir como movimento, era um grupo de amigos. Suas iniciativas, que lhes custariam a vida, não nasciam de projeto político ou cultural, mas de um “anseio por liberdade individual e de uma coletividade que levava a sério o ser humano em sua subjetividade e respeitava a sua dignidade pessoal” (como diz Jens e lembrado por Corina Petrescu em sua pesquisa).

Seis pessoas, seis panfletos mimeografados, uns pouco mil leitores desconhecidos, se tanto, em busca de liberdade e respeito. Nada mais perigoso para um regime ditatorial.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Beethoven, Kubrick e outros paradoxos

por Leandro OLiveira

A Osesp abre sua temporada 2011 com a Sinfonia nº 9 de Beethoven. Pretendia ilustrar a aula mostrando parte da influência da peça em alguns ícones do pop. Me ocorreu, é claro, o extraordinário "Clockwork Orange" de Stanley Kubrick. (Coincidentemente, acabo de ler sobre o lançamento comemorativo de uma caixa especial pelos 40 anos do filme; isto me serviu de inspiração para o post.)


Não há novidade nenhuma: Kubrick foi um grande conhecedor de música e tinha prazer especial em selecionar a trilha sonora para seus filmes. O que mais me impressiona em "Laranja Mecânica", mas também, evidentemente "2001", "Full Metal Jacket", ou "Eyes Wide Shut" é como a música compõe a cena - não somente sublinhando o estado de ânimo de personagens, algo comum, mas ainda criando verdadeiros paradoxos áudio-visuais.

O que quero dizer com isso? Volto a "Laranja Mecânica" em minha cena preferida. Ela acontece logo após uma espécie de motim entre os Droogs: lamentam o jeito de Alex, seu líder, sua forma de dar ordens e disciplina, questionam seu tratamento ditatorial. Para acalmar os ânimos Alex sugere negociar e pagar uma rodada de "moloko-plus" no Korova milkbar; enquanto retornam ao bar pela marina (a cena é rodada em camera lenta), Alex reflete:

As we walked along the flatblock marina, I was calm on the outside but thinking all the time. So now it was to be Georgie the General, saying what we should do, and what not to do, and Dim as his mindless, grinning bulldog. But, suddenly, I viddied that thinking was for the gloopy ones, and that the oomny ones used like inspiration and what Bog sends. For now it was lovely music that came to my aid. There was a window open, with a stereo on, and I viddied right at once what to do.

A "música pela janela" é a abertura de "La Gazza Ladra" de Rossini. No caso, estamos diante deste tipico oxímoro feito com música, que não pela primeira vez trago à baila neste site: Rossini serve - e não só ali, mas em todo o filme - para banalizar ou, talvez naturalizar, a violência e tensão dos personagens.

Mais tarde, quando o tema do quarto movimento de Beethoven é introduzido como elemento para reeducação de Alex - behaviourismo extraordinário - não deixa de ser aflitivo perceber que uma música que todos reconhecemos como "a ode à alegria" possa gerar tanta dor-de-cabeça. O paradoxo áudio-visual é tão claro que precisei desistir da cena em minha aula: a força das imagens faria necessariamente que o público, na ocasião do concerto, fizesse semioses pouco pertinentes a uma sinfonia que, de uma maneira ou de outra, pretende narrar a passagem das trevas à luz; o último movimento é uma apoteose de esperança - a léguas de distância das funcionalidades pacifistas e socializantes do roteiro do filme.

O diretor, é claro, sabia disso - e, por isso, eu tive que mudar o plano de aula. Para ilustrar o impacto de Beethoven em nossas vidas, menos que Kubrick e seu cinema extraordinário, decidi mostrar a popularidade do último movimento da Sinfonia nº9 no toque do meu celular.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Pensamentos soltos

por Leandro Oliveira

A morte de Moacyr Scliar. Seu cuidado com a cultura judaica não é só um serviço de divulgação, como dizem muitos, mas a marca de uma estrela indomável que figurou por muito tempo como exótica em uma cultura literária que apenas muito recentemente abandonou o vício do regionalismo maneirista e do culto à miséria urbana - e suas correspondências metafísicas, por um lado ingênua, por outro nihilista.

Infelizmente não tive a oportunidade de ler nada exatamente extraordinário de Scliar, mas sequer li um terço de sua obra. Sei que no pouco que li, indubitavelmente, marcou-me o texto de um profissional sério, escritor cuidado e rigoroso com o estilo e o impacto de sua mensagem; alguém que, nesta atividade tão peculiar que é o trato com as palavras, se não foi um mestre, certamente fez por merecer seu lugar no panteão da literatura brasileira do pós-guerra como um de seus melhores artesãos.

Que a terra lhe seja leve!

****

"O Discurso do Rei" era meu favorito para o Oscar. Não exatamente por ser um capolavoro, mas por ser, este ano, o mais regular entre os filmes que concorriam. Afinal, por vezes queremos apenas ver uma boa história, contada de forma correta e bem cuidada - e isso efetivamente, Tom Hopper, faz.

Para isso, contou com elenco excelente, roteiro sóbrio e eficiente, personagens construídos de forma absolutamente coerente. Tudo a serviço de um caso extraordinário, ainda mais se levarmos em conta que parte dele tenha sido verdade.

A premiação para melhor filme, a meu ver, foi justa justíssima.

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Do Rui Barbosa:

Tenham por averiguado que, onde quer que o colocarem, dará conta o sujeito das mais árduas empresas e solução aos mais emaranhados problemas. Se em nada se aparelhou, está em tudo e para tudo aparelhado. Ninguém vos saberá informar por quê. Mas todo o mundo vo-lo dará por líquido e certo. Não aprendeu nada, e sabe tudo. Ler, não leu. Escrever, não escreveu. Ruminar, não ruminou. Produzir, não produziu. E um improviso onisciente, o fenômeno de que poetava Dante: “In picciol tempo gran dottor si feo”.

A esses homens-panacéias, a esses empreiteiros de todas as empreitadas, a esses aviadores de todas a encomenda, se escancelam os portões da fama, do poderio, da grandeza, e, não contentes de lhes aplaudir entre os da terra a nulidade, ainda, quando Deus quer, a mandam expor à admiração do estrangeiro.

Pelo contrário, os que se tem por notório e incontestável excederem o nível da instrução ordinária, esses para nada servem. Por quê? Porque “sabem demais”. Sustenta-se aí que a competência reside, justamente, na incompetência. Vai-se, até, ao incrível de se inculcar “medo aos preparados”, de havê-los como cidadãos perigosos, e ter-se por dogma que um homem, cujos estudos passarem da craveira vulgar, não poderia ocupar qualquer posto mais grado no governo, em país de analfabetos. Se o povo é analfabeto, só ignorantes estarão em termos de o governar. Nação de analfabetos, governo de analfabetos. E o que eles, muita vez às escâncaras, e em letra redonda, por aí dizem.

Sócrates, certo dia, numa das suas conversações, que "O Primeiro Alcibíades" nos deixa escutar ainda hoje, dava grande lição de modéstia ao interlocutor, dizendo-lhe, com a costumada lhaneza: “A pior espécie de ignorância é cuidar uma pessoa saber o que não sabe... Tal, meu caro Alcibíades, o teu caso. Entraste pela política, antes de a teres estudado. E não és tu só o que te vejas nessa condição: é esta mesma a da mor parte dos que se metem nos negócios da república”.


Ouvi falar alguma coisa sobre o Emir Sader como o novo diretor da Casa Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Nada mais a declarar.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

"O Cisne Negro"


Talvez cheio de referências demais, o fato é que "O Cisne Negro" é um filme radical. Seu estilo "ame-o ou deixe-o" não escapou aos nossos colaboradores. Agora Dirceu envia, de Londres, suas explorações sobre a nova criação de Darren Aronofsky.

por Dirceu Villa

Darren Aronofsky, diretor de "Pi" (1998), filme fundamental no cinema, sobre um matemático extraordinário, seu professor sábio e sobre como um número descoberto quase ao acaso num aparente bug computacional se torna a chave tanto para judeus ortodoxos que buscam na Torá uma combinação de palavra e número que seja o nome de deus, quanto para umas pessoas muy delicadas por trás da Bolsa de Valores, dispostas a controlar a nova informação numérica que pode prever as flutuações. Inteligentemente, Aronofsky propõe essa linha, mística e matemática, se estendendo também dos meros negócios à ordem mirífica da teologia.

O filme é muito complexo. A onipresença do número na natureza, entrevista na spira mirabilis das galáxias à concha do molusco Náutilus, e às mais complexas descobertas humanas de proporção (cf. Lionardo Da Vinci) lhe dá um princípio que se desdobra, como na mística judaica, em palavra que soletra o código para tudo. Deixei, no começo deste blog em 2007, o trailer de "Pi" passando numa janela que mantinha com links para o youtube. Aronofsky fez outros filmes excelentes, e uma grande besteira, "The Fountain" (2006).

Mas agora realmente atingiu um ponto de excelência semelhante a "Pi", com "Black Swan" ("Cisne Negro"). Não vou falar do filme, uma obra-prima, mas de coisa formidável que o filme suscita intencionalmente, sobretudo se posto sob a luz cegante de "Pi", com o qual tem muitas relações.

Uma das hipóteses de "Black Swan" pode-se traduzir em: o que acontece quando o artista se torna a obra? A gente supõe que exista uma relação profunda entre quem realiza uma obra e esse resultado, a obra ela-mesma. Discutem em simpósios e tudo o mais quanta distância se pode supor entre o artista e aquilo que faz.

Idealmente, não deve existir nenhuma distância. Isso pode ser lido como um romantismo. Não é, ou, sendo, diluiria a força de sua fórmula. A transfiguração do autor no inventar da obra é coisa infinitamente mais antiga, mesmo que “autor”, nesse caso, tenha sido pensado como um canal entre duas instâncias de outra forma isoladas.

A obra de arte perfeita seria aquela em que o artista mergulhasse de tal maneira que se tornasse a obra, & vice-versa; a velha história de abyssus abyssum invocat, ou “o abismo invoca o abismo”: você olha pra ele, ele olha pra você. É o perigo da dissolução na luz ou na escuridão, como toda genuína busca de conhecimento acaba trazendo. "Doctor Faustus", sobretudo o de Marlowe, propunha isso, mas Goethe pensava, é claro, em algo semelhante.

No princípio era o verbo. E depois lemos que o verbo se fez carne. Essa correlação, por mais exclusiva que fosse em sua teológica origem, abriu um precedente, que aliás já estava aberto pela velha idéia grega de poesia como um fazer: a palavra põe algo (seja lá o que for) em ação efetiva.

Os egípcios cobriam de signos seus cadáveres, encomendados com sabedoria a uma vida além desta, por caminhos sagrados e secretos, e as palavras tinham o dom de iluminar essa escuridão da ignorância mortal. A cada uma das portas com guardas o iniciado diria: “sei o seu nome e sua função, permita que eu passe”.

Era também a palavra que punha vivo o Golem (e o desfazia), porque a palavra é, como os poetas concretos disseram, verbivocovisual, e porque, além dessa completude sígnica, ela carrega em si uma ancestralidade que nos retorna ao princípio da apreensão das coisas e de sua nomeação, é um elo vivo com o passado remoto & suas transformações. É como a luz: se a física retraça o trajeto de eras em seu caminho, também a palavra guarda possibilidades semelhantes. O sentido alquímico do homúnculo não era literal, por exemplo, mas uma apreensão simbólica de virtudes e potências.

Em geral, e após o romantismo, esse modo de entender uma obra de arte, de que criador e criatura são estranhamente um, e ambos vivos, virou uma banalidade, que os artistas ruins hoje usam apenas para dizer que lá estão eles, e deram o sangue em sua triste porcaria (alguns pobremente presos à mais simplória literalidade). Ou se tornou uma metáfora do conhecimento que vai além de suas medidas, reduzindo Prometeu a um âmbito caseiro, no "Frankenstein" da Srta. Shelley, cujo irmão poeta sonhava palavras bordadas e rendadas. Porque o conhecimento é medido sem as proporções mágicas que não apenas o autorizavam antes, mas o instrumentalizavam. Como John Dee, matemático, geômetra, médico, astrônomo e feiticeiro da rainha Elizabeth I escreveu em seu "Monas Hieroglyphica": aut discat, aut taceat, "ou aprende, ou cala".

Qualquer um que tiver discernimento, no entanto, perceberá como os grandes artistas encarnam suas obras, e como suas obras se tornaram tão peculiares a eles: não de uma forma banal, de tradução barata daquele arcano verbo encarnar, mas como aquelas coisas que se moviam em suas obras foram animadas de vida, dentro de suas próprias vidas.

É um pensamento desconcertante; de certa maneira, faz supor que o artista canaliza forças muitas vezes além de sua compreensão, que moldam (ou distorcem) o tecido da realidade. Platão era dessa opinião jocosséria, e o banimento que cai sobre o poeta na "República", penso, deveria ser lido em primeiro lugar como o atestado de que o poeta e a sociedade organizada não se entendem, eles se repelem. E se repelem porque a poesia porá complicações e dúvidas numa vida sem imaginação e corriqueira, organizada pelo Estado para funcionar num sentido amplo e geral, republicano.

É o perigo e também a necessidade deste poder muito específico da poesia; não apenas o das palavras de um verdadeiro artesão delas, mas o da imaginação.

Os estóicos antigos tinham uma teoria muito interessante sobre o assunto, in illo tempore, a teoria do pneuma, o calor em que são canalizadas as idéias seminais que produzem o phantastikón, ou o plasmar algo inventado na realidade, como um fantasma, resultando num lutar com sombras, precisamente como em "Black Swan", que, como os melhores leitores dos estóicos fizeram, não decide sobre o que é realidade e o que não é, uma vez que o limite de visão é sempre coisa proporcional às visões e a quem as tem ou não.

As imagens têm poder, a imaginação focalizada, também. As palavras recompõem, por som, desenho e composição, uma parte desse fantasma, dando ao airy nothing a local habitation and a name, como escreveu Shakespeare, justamente sobre esses poderes poéticos, em "A Midsommer Nights Dreame" (Um Sonho de uma Noite de Verão).

Marsilio Ficino sugeria o tipo de som a se ouvir para determinado efeito na pessoa; sugeria a focalização de determinadas imagens e o convívio com elas, para acentuar determinadas qualidades. Era a mesma hipótese que se espelhava no livro sobre poesia, escrito por Lorenzo de’ Medici, o Magnífico, em meados do século XV. Mas não é apenas um pensamento antigo e perdido nas areias do tempo.

Kandinsky e Mondrian eram muito místicos a respeito do efeito de cores e formas, no que essas potências agenciam; Pound tinha perfeita ciência do poder evocatório e invocatório de certas palavras, assim como de certos ritmos; Arnold Schönberg não era nenhum inocente sobre a qualidade encantatória da música. Etc.

Esquecemos disso porque muito da nossa poesia se tornou lixo demagógico, ou por outro lado teórico, sem técnica (tekhné se traduz por ars em latim, de modo que técnica e arte eram sabiamente uma coisa só), sem imaginação, sem poder simbólico algum sobre o que quer que seja.

Sobretudo porque poucos lembraram desse enorme poder organizado pela poesia & pela arte, e muitos dos que lembraram são gente século XVIII demais para conceber e aceitar coisa tão... tão... fantásticas (como os seres aéreos de Shakespeare, lidos em geral como meras gracinhas).

Aronofsky, como todo grande artista, não é um desses. Seu filme, perfeito (palavra oportuna) ao que se propõe, o prova com substância nova para o grande e antigo enigma.

Retirado de O Demônio Amarelo.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Estátua da paciência


Ainda sobre o Oscar: sobre aqueles que não estarão na cerimônia.

por William Silveira

Como é possível levar a sério uma premiação que deixou de reconhecer nomes como Alfred Hitchcock, Federico Fellini e Stanley Kubrick? Os esquecimentos - eufemismo barato para erros injustificáveis - ganham proporção se soubermos que Hitchcock esteve por cinco vezes no Kodak Theatre, assim como quatro foram as indicações de Fellini e Kubrick.

O inexplicável e o imponderável fazem parte de qualquer premiação e há quem diga que as injustiças carregam certo charme e sabor ao tapete vermelho. Não raro, diz-se que há mais prestígio em juntar-se à lista dos esnobados que a dos vencedores. A ironia, sabe-se, guarda em si suas verdades.

Desde a premiação de 2010, a Academia aumentou de cinco para dez os indicados na categoria de Melhor Filme. Inegavelmente, é uma forma de diminuir injustiças, mas principalmente de acomodar e dar visibilidade a um número maior de títulos que, caso contrário, facilmente terminariam como estatísticas diluídas na grande quantidade de produções norte-americanas. Seria assim com o interessante "Inverno da Alma" e com o bom "Minhas mães e meu pai", ambos concorrendo ao prêmio principal.

Não é o papel destes filmes, contudo, protagonizar a cerimônia. Entende-se, com razão, que o reconhecimento foi dado ao serem indicados e que, com muita sorte, podem sair com uma estatueta por atuação ou roteiro. A primeira pista para tal conclusão vem de uma incongruência apresentada pela própria Academia. Se determinado título concorre entre os dez selecionados a Melhor Filme e seu diretor não está presente nas cinco vagas destinadas a Melhor Diretor, então é muito provável que o filme em questão seja apenas um espectador de luxo.

Poucas atividades movimentam tanto os cinéfilos - e certamente lhes dá mais prazer que assistir à cerimônia - quanto apontar a miopia da premiação. Mesmo com uma lista de dez indicações muito boa, alguns nomes ecoam como injustiçados e poderiam perfeitamente estar presentes no próximo dia 27, em Los Angeles.

- Melhor filme: "O Escritor Fantasma" e "Ilha do Medo". Dois títulos muito aguardados, principalmente o de Polanski, nunca estiveram perto da unanimidade de crítica e público. Lançados no primeiro semestre, sofreram, sem sombra de dúvida, com a distância em relação à premiação.

- Melhor diretor: Christopher Nolan. Se ter sido preterido em 2009 pelo ótimo trabalho em "Batman - O Cavaleiro das Trevas" bastou para que os fãs do diretor megalomaníaco o rotulassem como persona non grata, Hollywood confirmou a suspeita - até que se prove o contrário - ao deixá-lo de fora pelo badalado "A Origem".

- Atriz: Julianne Moore. Além de ruiva - o que deveria bastar para a indicação -, Moore está muito bem no drama contemporâneo "Minhas mães e meu pai". O problema foi ter contracenado com a atuação irretocável de Annette Bening. Pesou ter de indicar duas atrizes do mesmo filme para a categoria e Bening foi bem escolhida.

- Ator: Ryan Gosling. Recebeu inúmeros elogios ao compor o par romântico com Michelle Williams (indicada para Melhor Atriz) em "Blue Valentine" ("Namorados para sempre", sem data de estréia no Brasil). O drama do jovem casal fez uma boa carreira antes do Oscar, mas até agora só levou o prêmio da Associação de Críticos de Chicago.

- Atriz coadjuvante: Mila Kunis e Olivia Williams. Muito competente ao ajudar na composição da oposição de Natalie Portman em Cisne Negro, Kunis não foi indicada por represália, pois ninguém que se preze deve participar de projetos como "Max Payne" e "O Livro de Eli". Por sua vez, Williams sabe que uma supporting actress não deve roubar a cena e assim o fez. Poderia muito bem ocupar a cadeira destinada a Amy Adams, dona de mais beleza que talento.

- Filme estrangeiro: "Abutres". Mais um filme do talentoso diretor argentino Pablo Trapero. Fala-se muito que a premiação expressiva de "O segredo dos seus olhos" no ano passado intimidou a Academia a indicar outra produção argentina com Ricardo Darín - o que soa como pleonasmo em Hollywood.

- Documentário: "Waiting for Superman". Vencedor de Melhor Documentário no Festival de Sundance, o filme sobre as falhas do sistema público de educação nos Estados Unidos foi apontado como favorito à categoria e surpreendeu ao sequer concorrer.

- Montagem: "A Origem". Quem assiste ao filme de Christopher Nolan facilmente percebe quanto do resultado final é méritos do trabalho seguro e eficiente do montador Lee Smith. Como nos prêmios técnicos somente estão aptos a votar os profissionais da área, pode-se imaginar que Smith não goza de grande admiração, uma vez que o atabalhoado trabalho de Pamela Martin ("O Vencedor") conseguiu indicação.

Por essas e outras, a Empire divulgou há pouco o que a revista considera como as 22 maiores injustiças da história do Oscar. Vale a pena conferir: http://www.empireonline.com/features/22-incredibly-shocking-oscars-injustices

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Cultura sem limites


por Leandro Oliveira

Bráulio Mantovani, Luís Felipe Pondé, Nivaldo Cordeiro, o papai aqui, Laís Bodansky... é parte da turma de gente buona que participa da primeiríssima edição do projeto "Cultura sem Limites" na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.

Cursos sobre Dostoiévski, Ocidente, Nelson Rodrigues ou - meu assunto preferido - a cultura como negócio vão balançar as rochas da Avenida Paulista. Vagas limitadas: informem-se, divulguem, façam a inscrição: o primeiro curso já no final de Março.

Para saber mais do "Cultura sem limites", clique aqui.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O cisne indômito de algum lugar


por Leandro Oliveira

"Cisne Negro" não é a reconstrução de um pesadelo, não é sobre desejo de superação, nem sobre "a capacidade humana de se chegar a limites". Tampouco é uma pornochanchada - a tese é até boa, mas o sexo, no filme, não é mais que uma metáfora. E é mais que filme de terror, já que se vale de sua gramática e retórica, mas ultrapassa o gênero vertiginosamente.

"Cisne Negro" é uma narrativa iniciática - com mestre (Thomas Leroy), personagens aprendizes de oposição complementar (Lily x Nina), pseudo-modelos ou demônios (a Mãe x Beth MacIntyre). Está tudo lá, como o professor Olavo de Carvalho mostrou acontecer em outro filme de Hollywood, "Silêncio dos Inocentes", que também pouca gente à época entendeu. Não deixa de ser curioso que, quinze anos após o artigo que mudava toda a leitura de um filme que ganhou o Oscar, ainda hoje no Brasil "as palavras 'desejo' e 'paixão'" sigam como "chave universal" para explicar tudo.

Em "Cisne Negro", uma característica inescapável, e óbvia, é que o roteiro não força a distinção da dualidade para a resolução: ao contrário da narrativa iniciática tradicional, prevê que os pólos complementares convirjam ao final. Uma subversão do gênero justificado por uma espécie de simbolismo gnóstico? Talvez.

De qualquer maneira, é como narrativa iniciática que as falhas do filme devem ser apontadas; intuo algumas, mas precisaria rever outras vezes e acho que não tenho paciência... O importante é que não consigo imaginar que se possa achar nele outra filiação de gênero senão por liberdade poética; seria como tentar ler "A Bela Adormecida" tomando-a por um Bildungsroman.

****

"Bravura Indômita" é uma obra menor dos irmãos Coen, mas mesmo assim um filme de primeira linha. Distante do ethos do filme de Henry Hathaway, também baseado no romance de Charles Portis, os irmãos não deixam de se valer de alguns truques fáceis dos filmes de ação; talvez seja uma homenagem aos westerns, talvez apenas uma forma de não se levar muito a sério... Eu não os sinto plenamente justificados.

Mas os brothers são mais do que hábeis e jamais subvertem o tema fundamental da trama, que é o compromisso de Mattie Ross em fazer justiça pela morte de seu pai. Um filme impossível no Brasil, não pela técnica mas pelo norte moral; para eles é possível tal drama, para nós seria apenas um conto-de-fada.

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Julio Lemos, que ao lado de João Vidal e Marcelo Cosentino são os únicos da minha idade que me fazem mudar de idéia, não gostou do filme da Sofia Coppola, enquanto eu o adorara.

Por conta de Julio, portanto, tive que rever "Em Lugar Qualquer" - e de fato, me dar conta que o havia supervalorizado. Mas tenho uma explicação: quando o assisti pela primeira vez, emocionava-me a companhia de minhas afilhadas. Acho que isso me fez sentir na pele o drama de Johnny Marco (eu também sou um astro pop, pois não).

Não somos por vezes assim, entendendo nas coisas aquilo que queremos delas?

Revendo o filme já em São Paulo, longe das minhas meninas, descobri que realmente é bom, mas não um capolavoro. Sigo discordando em uma coisa, no entanto: se entendi o argumento de Julio, para ele o filme não é isso tudo por ser "sem finalidade"; e exatamente por ser "sem finalidade" que eu o curti.

Ah, e ambos concordamos que Sofia, como diretora, é craque. E não, ela não é o Anticristo.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

And the winner is...


É fato incontestável: a cerimônia de premiação do Oscar é um sonífero. Glamouroso para quem vai (calma, eu nunca fui...), a verdade é que assistir pela TV os intermináveis salamaleques, as piadas privadas e os tantos intermezzi musicais de gosto duvidoso, é tarefa para poucos. William explica o caso.

por William Silveira

Sei que pode ser difícil aceitar, mas o Oscar não se importa com você. Digo isso, pois logo a premiação desponta no horizonte do mês de fevereiro e um discurso patético – mais patético porque repetitivo – vem à tona. Distantes da originalidade, as variantes críticas levam todas ao mesmo destino: o reconhecimento da Academia de Hollywood não tem mais a mesma importância, perdeu o prestígio; deixou de ser relevante.

Apesar da conclusão equivocada, algumas premissas são válidas. Sabe-se, por exemplo, que 82 anos após a primeira edição, a premiação demonstra cada vez mais dificuldades em renovar-se. Tentativas de modernização aconteceram nos últimos anos, principalmente ao acelerar e desmecanizar a dinâmica dos apresentadores, retirarem os intermináveis números musicais e diminuir – ainda que sem muito sucesso - o tempo de duração do evento. Em contrapartida, a edição passada mostrou como as inovações surtiram pouco efeito. Não bastasse a cerimônia ter se estendido mais que o planejado, um ritual lamentável de elogios artificiais foi inserido durante a premiação de melhor ator e atriz, postergando o aborrecido protocolo da noite.

Um remodelamento radical, como sugerem os detratores, não acontecerá única e simplesmente porque a Academia é composta de “velhos conservadores”, mas principalmente por ser imponderável arriscar qualquer modificação que ponha em risco a aura de glamour construída desde 1929. E isso não é por acaso.

Recrimina-se a suposta parcialidade com que os prêmios são distribuídos, o interesses financeiro, a excessiva e descarada presença de lobby, profissionalizado pelos irmãos Weinstein (Miramax Films e The Weinstein Company) e praticado for your consideration. Ora, se o problema residisse única e exclusivamente aí, então bastaria lembrar que Cannes e Veneza, bastiões de um cinema inovador, independente e de les film d'art, sofreram duras críticas quanto aos métodos e critérios por detrás das escolhas que levaram Juliete Binoche e Quentin Tarantino premiarem Michael Haneke e Sofia Coppola, respectivamente.

Mesmo com a preocupante e sintomática queda de audiência, o Oscar não vê grandes motivos para mudança. Uma premiação com entrada em tapete vermelho, smoking e transmissão para todo o mundo não está aí para agradar cinéfilos, críticos de cinema e espectadores. Sua função, longe de ser entertainment, acaba por torna-se mais nobre: sustentar o maior e mais caro mercado cinematográfico do mundo. Aos que encaram com desdém tamanha responsabilidade, faça uma rápida avaliação e procure descobrir de onde vem o dinheiro para produções dispendiosas como as que estão em cartaz. Certamente não é da venda de ingressos (receita eternamente ameaçada pela pirataria) e muito menos de filantropia estatal, como acontece no Brasil. Quem entende Cinema como algo realizado quase que divinamente, com uma idéia, uma câmera e quinze pratas, simplesmente não enxerga o Cinema, mas uma aventura de meninos.

Quando a cerimônia dura quatro horas, com discursos intermináveis e intragáveis, pode ter certeza que a exibição dos anunciantes permitirá não só um novo "A Rede Social", blockbuster qualificado, como também – e o mais importante – a sobrevida de projetos arriscados como o excelente "Cisne Negro".

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O nosso Cinema Paradiso


por Leandro Oliveira

Não sou de São Paulo, não pude ter qualquer relação de afeto com o Cine Belas Artes. Na verdade, quando me transferi para a cidade o espaço era já um aglomerado pouco charmoso de salas de exibição ligeiramente desconfortáveis - o acesso ao andar superior era bizarro, e em caso de eventualidades, sem qualquer escape de emergência.

Quanto à programação, sinceramente, nada que o diferenciasse dos demais cinemas de shoppings - muito mais apropriados e modernos. A exceção, notável, eram as sessões noturnas que até pouco tempo levavam à madrugada da cidade alguns clássicos. Mas sinceramente, nem sei se o projeto seguia funcionando.

Não sou a favor de que siga a qualquer custo. O cheiro de decadência me causa urticárias e disputando lugar com outros cinemas comerciais o Cine Belas Artes seria sempre um lugar decadente - pouco charmoso e sem funcionalidades como um bom café ou estacionamento. E se existem lugares mais qualificados e rentáveis, com programações mais criativas ou recursos mais adequados ao mercado atual, por que não deixar que eles explorem o mercado?

Isso tudo para dizer que lamento o fechamento do Cine Belas Artes provavelmente por motivos diferentes dos meus amigos: lamento que um espaço público de cultura não consiga se re-inventar e, no caso do Belas Artes, que não consiga ter uma atuação condizente com sua capilaridade social.

Espaços de cultura devem seguir as leis naturais da economia - a administração da melhor aplicação de recursos escassos. Desde o anúncio da quebra do contrato com seu patrocinador, o Cine Belas Artes, infelizmente, ficou à deriva com um modelo de negócios que não tinha a menor intuição de uma vocação diferenciada para exploração de seu espaço e marca, seguindo com sua programação errática. O dono do prédio não precisa se fazer de santo e acho um absurdo que lhe tirem o direito de melhor explorar o lugar.

Em caso de tombamento, talvez o espaço pudesse ser agora uma espécie de posto avançado da Cinemateca... mas isso, é claro, dependeria de tantos fatores que meu medo é que antes se tornasse uma idéia grotesca, um cinema ao estilo "Adeus Lênin". Mas acho um final melancólico, de qualquer maneira, o tombamento.

Arre, arre! A morte mais digna para uma iniciativa de cultura com a qual temos afeto genuíno é a que permita as boas recordações e a esperança que em algum momento futuro o projeto renasça das cinzas.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Os Outros Nomes de Aslan


por Ieda Marcondes

Alguns acreditam que os filmes de antigamente, como conjunto de produção, eram muito melhores do que os que são feitos hoje em dia. Apesar da idéia parecer facilmente defensável apenas citando alguns poucos títulos, eu não acredito totalmente nisto. Acredito que conhecemos filmes de antigamente porque estes sobreviveram, porque foram escolhidos e perpetuados através dos tempos justamente por serem bons. Acredito que deveria haver muita coisa ruim que, a não ser que nos tornemos pesquisadores ferrenhos, simplesmente não tomamos ou sequer tomaremos conhecimento. Da mesma forma, não é possível que todos os filmes de um determinado país sejam bons porque os que conhecemos, se é que conhecemos, são alguns poucos selecionados, por festivais, por críticos, etc., por serem coisas dignas de nota ou mesmo extraordinárias. Tudo que há de ruim costuma ser esquecido, escondido - e muito justamente. Os clássicos são clássicos porque diferem dos demais, se destacam de todo o resto. Não é possível que tudo em determinada época ou lugar seja um clássico. Há de haver coisa ruim também. Mas se podemos considerar que os filmes de antigamente são melhores, levando em conta de que filmes são reflexos culturais de determinadas épocas, podemos dizer também que os filmes de agora são piores porque as pessoas são piores. Contra isto, eu já não tenho muitos argumentos.

Os três filmes de Nárnia, baseados na obra de C. S. Lewis, tentam formar, talvez de forma tristemente solitária, pessoas melhores. Pessoas mais fortes, com convicções, que não cederão às tentações freqüentes e farão sempre o melhor – pois esta é a atitude de reis e rainhas. O último filme, “As Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada” pode não ter a novidade do primeiro ou a força do segundo, não é tão bem escrito ou mesmo filmado, mas ainda é um excelente formador de caráter. Algo que forma o caráter não precisa, é claro, ser chato e instrutivo. Os melhores contos são aqueles capazes de instruir aos homens, de prover exemplos a serem seguidos, mas também de divertir, de emocionar, pois é a emoção que atravessa todas as camadas do espectador e traz à tona seu coração, suas memórias e mesmo seu intelecto. Não há como ensinar com frieza, com distanciamento. Brecht estava errado.

Há um personagem novo que vai para Nárnia em “Viagem do Peregrino”, o primo chato dos Pevensies, Eustace, que, apesar da pouca idade, é um racionalista convicto. Mesmo ao se deparar com um rato e um minotauro que falam, ele acredita que estão todos loucos, que aquilo não pode ser real porque não há lógica. Ele não percebe que a realidade não tem nada a ver com razão ou lógica, que a realidade é simplesmente real. Ele é o ateu. É o bobo que não sabe o que todo mundo sabe, que não acredita no que ele mesmo pode ver ou tocar. Mas, no filme, ele é o primeiro a ver Aslan. Não porque merecesse, mas talvez porque fosse o que mais precisasse. Entre os Pevensies, ele é o personagem mais moderno, mais atual de todos. Ele é arrogante, esnobe, precoce – como muitas pessoas que conhecemos. Eustace é importante ao filme porque, apesar de Lucy e Edmund também enfrentarem seus próprios demônios, eles conhecem Aslan, eles sabem do que ele é capaz. O primo chato, ainda não. E sempre haverá primos chatos.

Ao final do filme, Aslan diz à Lucy, que não retornará novamente a Nárnia, que ele tem outro nome no mundo real. Que conhecê-lo em Nárnia ajudaria a identificá-lo e encontrá-lo no mundo real. Isto resume a importância da arte, da literatura, do cinema; conhecer Deus na ficção para encontrá-lo na realidade. Lucy chora e abraça Aslan da mesma forma que faríamos com determinados livros, determinados filmes, porque sabemos que são de certa forma sagrados e que não podemos esquecê-los jamais, porque nos trouxeram algo de valioso, algo de verdadeiro. Ao fechar um livro ou sair de uma sala de cinema, precisamos saber reconhecer constantemente na vida real aquilo que um dia nos pareceu sagrado, importante, bom. E apenas querer isto já nos torna melhores.
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