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quarta-feira, 6 de abril de 2011

Lady Gaga e Rilke

por Academic Minute

Dr. Jennifer Hoyer é professora de literatura alemã da University of Arkansas. Suas áreas de interesse incluem história e literatura judaica-alemã, poesia, percepções do século XX sobre a literatura Medieval e do início da Era Moderna, relações literárias entre Alemanha e Suécia, e a obra de Silke Hassler. Seu Ph.D. em Literatura Moderna Alemã foi realizado pela University of Minnesota.

Para o posto original em sua versão de áudio, clique aqui.

Como professora de literatura alemã eu fico entusiasmada em lembrar que Lady Gaga tem uma citação em alemão de Rainer Maria Rilke tatuada em seu braço. Lady Gaga diz freqüentemente que Rilke é uma inspiração, quase uma devoção. Leia seus "Sonetos para Orpheus" e você provavelmente ficará surpreso no tanto de Rilke que há nas coisas de Gaga. Gaga e Rilke têm interesses muito similares, e embora eles façam coisas muito diferentes com eles, ao fim e ao cabo chegam a mesma conclusão: "Gesang ist Dasein", o canto/a voz é o Ser. Os "Sonetos" terminam com uma declaração "Ich bin" (Eu sou), que Gaga reflete quando ela assevera que é ao mesmo tempo uma fantástica contadora de histórias e uma imagem no espelho: "I am telling you a lie, in a vicious effort that you will repeat my lie until it becomes true."

O "Sonetos" de Rilke invoca "Ruhm," ou fama, o primeiro objetivo de um poeta clássico. Para Rilke o poeta é o imortalizador da morte, do belo, do sublime; todo o projeto de Gaga até o momento lida com fama, a moderna obsessão pela celebridade, e o que ela chama "A Fama", "este amor-próprio, esta auto-confiança". Lady Gaga imortaliza o ouvinte projetando seu próprio senso de fama sobre eles, na segurança de seu isolamento eletrônico. De suas performances a suas entrevistas com Larry King e Barbara Walters (os editores do discusso "Gaga-Stigmata") Gaga aparece como uma imagem de espelho estilizada, sem aprovações ou condenações, apenas confirmando através de sua mímica que criamos quem nós somos. E nós somos porque criamos. Gesang ist Dasein.

A afirmação de Rilke de ser através da arte inspira Lady Gaga. E se você está interessado na representação da fama e do ser que ela faz, leia o "Sonetos para Orpheus" de Rilke - preferencialmente no original alemão.


Retirado de Academic Minute Home.

sábado, 26 de março de 2011

Bethânia, Adam Smith & um pouco de Gramsci

por Pedro Sette-Câmara

Sou reativo, só escrevo em função de algo que leio. E hoje leio uma pequena reflexão no Globo a respeito da polêmica com o blog da Maria Bethânia – aquele que recebeu autorização para captar 1,3 milhão de reais, dos quais 600 mil vão para o bolso da própria Bethânia pela “direção artística”.

Daqui do meu assento etéreo liberal, posso me perguntar se um blog vale esse dinheiro todo, e se Bethânia vale esse salário. E logo escuto a resposta: se alguém quiser pagar, vale. Isso é, se houver pessoas que queiram financiar esse projeto, vale. Será, indiretamente, dinheiro público? Claro que sim. Mas funesta é a lei que gera absurdos, e indignar-se apenas com um deles é mostra daquele estado mental de indignação seletiva que, dependendo da versão, aceita José Serra como campeão antiaborto ou considera que é “você é um preconceituoso, mesquinho, classe média babaca, deveria sim é morrer queimado na missa/culto que você tanto se orgulha em ir” é um discurso que não tem nada de ódio patológico.

Voltemos à Bethânia e aos salários. Diz o nosso companheiro Adam Smith que o trabalhador quer ganhar o maior salário possível e o empregador quer pagar o mínimo possível. Desses desejos nasce o famoso equilíbrio de mercado, porque nem um nem outro têm em si e por si o domínio absoluto da relação, e um ou outro podem estar em vantagem ou desvantagem relativa. Essa relação não pende necessariamente sempre a favor do empresário: por exemplo, se há no Brasil um “apagão da mão de obra”, as pessoas em certas áreas estão em tremenda vantagem.

O que Bethânia está fazendo é aquilo que todos fazemos: tentando jogar nosso valor lá no alto. Se colar, colou. Francamente, como tradutor, eu não reclamaria se me pagassem mil reais por lauda (só ontem eu teria ganhado 16 mil reais), e eu mesmo faço o máximo para ganhar o máximo possível.

Como se trata de dinheiro público, você pode afirmar, e eu também, que não quer dar a Maria Bethânia 600 mil para que ela recite poesias. Só que o problema jurídico é muito anterior: existe a lei, existe o Ministério etc. E existe ainda um problema político bastante grave, que não pode deixar de ser abordado. Vivemos numa república corporativa, num verdadeiro estado burguês gramsciano: cada “categoria” recebe benefícios do Estado e dá benefícios em troca. Os nossos liberais brasileiros não costumam saber que o Brasil defende em sua política externa o livre mercado, ainda que isso signifique “queremos a abertura dos mercados europeus para nossos produtos”. Nossas queridas associações empresariais também são grupos de pressão. Os trabalhadores das empresas também constituem sindicatos e, veja só!, grupos de pressão. Todos querem aumentar seus próprios rendimentos. Só quem defende o liberalismo de maneira pura e inocente (e ingênua, e utópica, e irreal: olá, eu mesmo em 1999) no Brasil são três ou quatro garotos cujo maior bem é uma conexão de banda larga.

Se você tirar dos artistas a Lei Rouanet e o Ministério da Cultura, eles passarão a ser um dos poucos grupos no Brasil desprovidos de uma estrutura oficial de lobby e de pressão. Esse é o jeito brasileiro. Por mais que eu ache justo em abstrato acabar com a Lei e com o MinC, não posso deixar de observar que, se o Estado dá benesses para todos, por que faria essa injustiça especial com um determinado grupo?

Permitam até que eu explique melhor. Se os artistas subitamente fossem obrigados a ser empreendedores de verdade (o que eu defenderia), eles enfrentariam as mesmas dificuldades dos empresários brasileiros, com o agravante de estar desprovidos dos lobbies e grupos de pressão de que esses empresários dispõem.

Eu gostaria muito que os preços que pago pelos produtos que consumo tivessem bem menos interferência dos grupos de pressão empresariais. E gostaria que os preços que pago pelos produtos artísticos e culturais que consumo também não tivessem essa interferência. Só que, mesmo aqui, não posso deixar de observar o seguinte. Se eu for comer ou beber algo (e, mesmo sendo autor de teatro, não nego que comida e bebida são mais importantes do que teatro), vou pagar um preço proporcionalmente mais alto do que o que pagaria pela vasta maioria dos ingressos à venda para qualquer coisa, ou mesmo um preço mais alto em valores absolutos (saia do teatro e vá comer alguma coisa, e me diga onde gastou mais). Quer dizer, de um lado os grupos de pressão empresariais estão jogando os preços para cima, e, ao menos no nível da minha experiência direta, me prejudicando muito mais do que a Lei Rouanet. Entre destruir imediatamente mecanismos que “protegem a indústria nacional” ou as leis de incentivo à cultura, não preciso pensar duas vezes.

Agora, para encerrar, se você acha que dinheiro na mão do Estado é dinheiro jogado fora, por que está reclamando dessa pequena possível privatização?

Retirado de PedroSette.com.

domingo, 6 de março de 2011

Entre Carnavais



Os que esquecem antes de amar
por Nelson Rodrigues

Ontem ensaiei um paralelo entre o atual e os velhos carnavais. A dessemelhança chega a ser escandalosa. É como se fossem dois povos, duas cidades, dois idiomas, nada parecidos entre si. O carnavalesco de 1920 ia de paroxismo em paroxismo. Ninguém dormia, ninguém comia. Era uma resistência física absurda. O sujeito começava no sábado e varava o domingo, a segunda e a terça. Só apagava na quarta. Era uma danação unânime de quatro dias. Escrevi que o mistério desse formidável dinamismo era o pudor. Hoje, a própria palavra está morta. As Novas Gerações não conhecem o “pudor físico”. Ainda ontem, passei pela avenida Atlântica; fiz o itinerário obrigatório do Forte ao Leme.

Vi, várias vezes, esta cena: — uma menina linda, de biquíni, comprando um refrigerante na barraquinha. O crioulo destampava a garrafinha. Estava, ali, por certo, um dos brotos mais lindos da Terra. Mas aquela nudez, dentro da luz, não interessava a ninguém. A garota vinha do mar; as gotas se estilhaçavam nas suas costas, no ventre perfeito. E ela, na graça inconsciente do seu gesto, bebia pelo gargalo. O crioulo do grapete não lhe fazia a concessão de um olhar. Nenhuma curiosidade. Olhava para outro lado e era cego, surdo e mudo para a nudez adolescente, tão próxima, tangível.

Eis o que eu queria dizer: — as duas coisas seriam impossíveis no velho carnaval. Nem a nudez da menina, nem o tédio do homem. Lembrei o biquíni porque nunca a mulher se despiu tanto para os quatro dias. Nos
bailes, nas esquinas, nas calçadas, nos jardins, há uma nudez indiscriminada e obsessiva. E vem um cruel tédio visual de tantos nus absurdos.

Vou dizer o óbvio, mas paciência. Antigamente, o carnaval era “a mulher” e só ela existia. Por trás da máscara, dentro da fantasia, sem deixar de fora uma nesga de carne — não precisava ser feia, simpática, bonita ou jovem. Ou por outra: — todas eram lindas. João do Rio fez, certa vez, um conto de carnaval. Era uma mascarada que o herói deseja com obstinação e loucura. E, depois de um suspense sabiamente elaborado, o leitor descobre tudo: — a mascarada era leprosa, nem mais, nem menos.

Mas isso era então viável. Hoje a mulher não pode esconder uma brotoeja, nada. O conto de João do Rio chamava-se “Bebê de tarlatana”. Eis o que pergunto: — quantas “bebês de tarlatana” faziam do carnaval um momento de plena e desesperada voluptuosidade? Bem me lembro de uma menina muito falada em Aldeia Campista.

Tinha sido bonitinha ou, pelo menos, jeitosa de corpo e de rosto. Mas ficou “fraca do pulmão”, como se dizia. Os jornais davam à tuberculose o nome alvo, nupcial de “peste branca”. No fim de três ou quatro meses de doença, era um pobre ser, leve, incorpóreo; estava tão frágil que desfalecia com um perfume mais intenso ou com uma emoção mais forte. Já os vizinhos a chamavam de “caveirinha”. E chegou o carnaval de 1920.

Quando disse que queria “brincar”, houve um pânico na família. Foi um tal de “Deus me livre”, “Não pode” etc. etc. Mas cravou no peito dos outros um argumento imbatível: — “É o meu último carnaval!”. E todos
sabiam, na família, na rua, no bairro, que seria mesmo o seu último carnaval. Foi assim um suicídio consentido. O próprio médico não se opôs, dizendo que a pequena estava tecnicamente morta. E, na manhã de domingo, lá saiu a mocinha, de meia máscara.

Não me lembro do resto da fantasia. Só sei que era do mais hermético pudor. (Mais tarde, o caso foi contado no jornal de modinhas.) Havia, porém, um problema: — ela não teria forças nem para chegar à primeira esquina. E, no entanto, saiu, tomou um bonde, desapareceu. Depois se recriou, com as revelações de uma inconfidente, toda a sua história. Ela não queria pular em bonde, entrar em bloco, dançar na avenida. Não. Queria apenas ser beijada. Beijada.

Assim está explicado por que, depois da morte, acabou no jornal de modinhas. Era a mulher que nunca fora beijada e daria a própria vida pela sensação do primeiro beijo. “Alguém vai me beijar”, dissera à inconfidente. Hoje, o beijo quase não existe. Outro dia, num salão, dizia uma bela senhora: — “Não gosto de beijo. Não acho graça em beijo”. Todavia, no tempo do cinema mudo e do pudor físico, os usos amorosos eram outros. O beijo tinha que ser o ponto final de qualquer filme. E não é nada extraordinário que, naquele tempo, uma mulher quisesse ser beijada antes de morrer.

A “caveirinha” saiu no domingo e sumiu. Na terça-feira, um rapaz de Aldeia Campista passa na avenida e vê, numa esquina qualquer, um ajuntamento. Vai espiar pensando num atropelamento. Não era atropelamento, era a “caveirinha”. Estava lá, estendida, rente ao meio-fio, com uma vela, ao lado. E sangue, tanto sangue. De vez em quando, ainda hoje começo a tecer minhas fantasias. Imagino que a “caveirinha” encontrou alguém, sim. Usava meia máscara, com uma franja de renda, que cobria o queixo. Vejo-a erguer a franja e oferecer a boca. Se até a “bebê de tarlatana” fora beijada. Depois do beijo, jorrou a hemoptise final. Segundo uns mascarados, já estava morta e continuavam as golfadas de vida. O corpo passou no necrotério e, mais tarde, foi para casa. Teve caixão branco, vestido branco, tudo de virgem.

Pode-se dizer que um beijo a matou, no tempo em que os beijos ainda matavam. Mas eis o que importa notar: — antes dos nus, a mulher em chagas punha fantasia e máscara nas feridas e era amada por toda uma cidade. Por onde quer que passasse sentiria o desejo anônimo e geral. Sábado, começará um novo carnaval. Mas sabemos que, nos bailes e nas ruas, a mulher será uma figura secundária para o homem. Do mesmo modo, o homem será secundário para a mulher. Ontem, um médico me confessava o seu espanto. Os nossos jovens, de ambos os sexos, esquecem antes de amar e sentem o tédio antes do desejo.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A despedida do Fenômeno

por Leandro Oliveira

Sem dúvida, a melhor parte do nosso jornalismo está na cobertura esportiva. Hoje li um artigo como não se escreve mais, do Antero Greco no Estadão. Em que outro editorial é possível ler coisas como essa sem pensar em puros salamaleques retóricos?

(...) Mas entra para a história como um dos grandes do esporte. Craque nasceu, craque se mostrou por onde desfilou sua classe, craque será sempre. As imagens estão aí para fazer com que ninguém, nunca, seja sufocado pela saudade de suas proezas. Como amante do futebol, só me resta fazer reverência a um dos reis da bola.

Ao vivo, só vi Ronaldo em campo quando matava aulas no Colégio Pedro II. Um amigo de meu irmão, torcedor do São Cristóvão, comentava sempre do "Ronaldinho", um jovem prodígio que, com a nossa idade à época, era o artilheiro da segunda ou terceira divisão do campeonato. Ele nos convencia a fazer coisas melhores que participar das aulas de Latim...

"Ronaldinho" já mostrava o que seria e dali, dos campos do São Cristóvão, partiu para o Cruzeiro. Tenho essa pequena vaidade da convivência clandestina com um gênio antes de seu reconhecimento público, antes de seu estrelato. Quando consagrou-se na Holanda, eu com prazer dizia - "puxa, lembro dele jogando ali na quase várzea que era a sede de um time do subúrbio carioca"... E ninguém acreditava pois oficialmente eu nunca matava aulas.

Obrigado Ronaldo!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Do jornal a serviço do Brasil

por Leandro Oliveira

De volta à cidade-caos, então vamos ao jornal local:

"São válidos, mesmo que contraditórios, os recentes debates sobre o lugar da cultura hoje", pontificou Eduardo Portella.

Fiquei tão aliviado!

****

"O que se passou na Tunísia nos mostra claramente a real matriz dos problemas no mundo árabe", explicou Vladimir Safatle.

Era simples, viu só?

****

"Caro leitor, cara leitora, vamos fazer uma continha simples de somar e diminuir?", convidou Eliane Catanhede.

Deu um medo!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Corrigindo Baudelaire

Por Leandro Oliveira

Charles Baudelaire em "Higyène":

A chaque minute nous sommes écrasés par l'idée et la sensation du temps. Et il n'y a que deux moyens pour échapper à ce cauchemar : le plaisir et le travail. Le plaisir nous use. Le travail nous fortifie. Choisissons.

Comentário de uma amiga dileta, já em clima de Ano-Novo:

Ói, seu Baudelaire, me deixe. Não escolho não, quero de tudo!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Cultura i(n)-útil


Por Leandro Oliveira

Para defesa pessoal podemos considerar como arma todo o qualquer objeto que possa ser usado em resposta a uma agressão. São cinco os tipos de objetos de defesa.

1) Os de tipo "martelo" são aqueles que permitem maior rigidez no contato. Ou seja: eles são usados como algo que sirva em substituição ao próprio punho ou pé pela sua eficiência e dureza. Uma cadeira, um cinzeiro ou um telefone celular, a ponta do sapato: tudo que é rígido é útil para golpear o adversário. Use a imaginação.

2) Os de tipo "perfurante" são não só as pontas de faca mas também os furadores de gelo ("Instinto Selvagem"?), os saca rolhas, as canetas, os espetos de churrasco, as hastes de óculos e, claro, para as meninas, os prendedores de cabelo. Não importando o tamanho (o tamanho diz sobretudo da distância com relação ao adversário), atingindo o lugar certo - os olhos, por exemplo - fazem maravilhas!

3) Os de tipo "cortante" são usadas, como o nome diz, para cortar. Aqui a referência óbvia são as facas - mas lâminas de alumínio, cacos de vidro, garrafas quebradas podem ser excelentes. É fácil por exemplo fazer um corte profundo com pontas de brinquedos quebrados... depois eu mostro.

4) "Dispersivos" são usados para serem arremessados contra o adversário. Mas atenção: você não está brincando de beisebol, então seu objetivo não é levar ninguém a nocaute, mas tirar a atenção ou confundir. Serve tudo: boné, casaco, dinheiro, chaveiro, areia... ou mesmo o celular, a cadeira, o prendedor de cabelo e a caneta. O problema é: distrair seu agressor para quê? Aí mora o busílis. Pode ser para sair correndo, para dar uns sopapos... depende de sua disposição. Mas saiba, os dispersivos devem ser encadeados em outras ações, necessariamente; não vale jogar o vinho de sua taça na cara do sujeito para ver o que acontece. Adianto: isso não vai acalmá-lo.

5) Objetos do tipo "corda": fios elétricos, fio dental, cordas para pular na ginástica, pedaços de arame. Bons para amarrar, evidentemente, mas quem viu filmes de ação sabe alguns usos diferentes - há muitos outros!

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A fonologia e sua poética


Por Leandro Oliveira

Quase todos os sons de nossa fala são produzidos na expiração. A inspiração normalmente funciona para nós como um instante de silêncio, um momento de pausa na elocução. Línguas há, porém, como o hotentote, o zulo, o boximane e outros idiomas africanos, que apresentam uma série de consoantes articuladas na inspiração, os ruídos que se denominam CLIQUES. Em português praticamos alguns CLIQUES, mas sem valor fonético: o beijo, que é uma bilabial inspiratória (...).

In "Nova Gramática do Português Contemporâneo" (Celso Cunha e Lindley Cintra).

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Exclusivo dos EUA - visita ao MoMA

Donald Francis Tovey já comentava que, no exercício de interpretação de obras de arte, é possível associar tudo a qualquer coisa; mas, concluía, isso não quer dizer jamais que aquilo que associamos seja de fato relevante para a interpretação. Boa parte da Arte Contemporânea vive da farsa da livre associação, uma espécie de nudez a ser apontada por "crianças" - gente invariavelmente pouco educada, de dedo em riste e alguma perplexidade bem humorada. Por vezes o Rei está nú, mas isso não o obrigará a deixar de se fazer muito importante. É o que nos mostra Joel Pinheiro da Fonseca em suas andanças por Nova Iorque.

Por Joel Pinheiro da Fonseca

Uma viagem parte turística, parte médica, tem me mantido ocupado aqui nos EUA e um tanto distante deste site. Mas agora que as coisas acalmaram, e que a Dicta terá, por um mês, um correspondente exclusivo em Baltimore, MD (”the greatest city in America”; ou pelo menos é o que está escrito nos bancos públicos ao longo do cais), tenho tempo de sobra para compartilhar as vivências culturais e sociais do coração do império.

Quero começar pela minha incursão ao MoMA (não vá ser grosseiro a ponto de errar as maiúsculas e minúsculas!) em Nova Iorque. Sim, sim, lá estão grandes clássicos da arte moderna (o Noite Estrelada de Van Gogh é, merecidamente, o maior destaque da casa); peguei até uma mostra especial de Matisse.

Mas para quê perder tempo com história antiga? O melhor da festa é o andar de arte contemporânea. Já de entrada se é brindado com cenas de muito bom-gosto em franca discordância com a moralidade sexual catoburgopuritana e uma mini-mostra de quadros protesto das “Guerrilla Girls”, que vai chacoalhar todos os seus preconceitos de gênero e raça.

Já devidamente conscientizado, pude elevar minha experiência estética com a obra de um artista – quem diria - brasileiro: Cildo Meireles. Vejam só a obra-prima (”first time on view at the MoMA”) que me aguardava.


Você é filisteu o bastante para ter achado que se trata apenas de um enorme bloco de feno? Think again...


Cildo Meireles
Brasileiro, nascido em 1948

"Thread" 1990-95
Quarenta e oito pacotes de feno, um fio de ouro 18 quilates, e cinqüenta e oito metros de fio dourado.

Presente de Patrícia Phelps de Cisneros, 2001

PRIMEIRA VEZ EM EXIBIÇÃO NO MoMA

Meireles cria esculturas e instalações que associam materiais ordinários a assuntos políticos e filosóficos mais amplos. "Thread" é um cubo modular, uma forma evocativa da racionalidade geométrica da arte Minimalista, construída de materias geralmente associados a agricultura. Um arame dourado envolve a estrutura de feno. Em uma ponta do arame, uma agulha única de ouro 18 quilates é inserido no cubo, remetendo a expressão popular "como achar uma agulha no palheiro." Ao associar substâncias com distintos valores monetários, apresentadas aqui de forma praticamente indistinguível visualmente, [Cildo] sugere a precariedade das relações econômicas; a pequena agulha, enclausurada no cubo massivo, o lugar do indivíduo dentro do sistema social.


Por mim, passaria horas naquela sala. Contudo, o doce aroma do feno que aos poucos adentrava minhas narinas acabou tendo um efeito diurético, e logo mais era minha vez de ter preocupações políticas e filosóficas enquanto promovia uma mistura de substâncias. Cota periódica de arte contemporânea: preenchida.

Retirado de Dicta.com.br

Querendo o Brasil de volta


Em semana eleitoral, é justo perguntar: e como vai a cultura? Paola faz um singelo protesto sobre a indigência da atividade de dança - certamente extensivo a outras áreas. Ela quer seu Rio de Janeiro de volta. Assim como todos nós.

Por Paola Secchin Braga

Sem vontade e sem entusiasmo de minha parte, o assunto do momento vem se impondo e uma pergunta insiste em aparecer no meio dos pensamentos: o que será da dança no Rio de Janeiro depois dessas eleições? Falo do Rio porque esta é a cidade onde vivi e trabalhei, onde vi a dança ter seu boom nos anos 80/90, passar por altos e baixos nos anos subseqüentes e pulverizar-se lentamente, até atingir o nível assustador em que se encontra hoje. O Rio de Janeiro, que já foi um dos mais importantes pólos da dança brasileira, palco onde se produzia a dança de ponta do país, se vê hoje reduzido a poucos sobreviventes trabalhando num nível assustador de precariedade, e que mesmo assim insistem em continuar, quase por implicância.

Sim, porque o que hoje ocorre nesta cidade é resultado da falta de uma política cultural pensada, planejada, duradoura. Houve um tempo em que ainda tínhamos a esperança de que, nos diversos níveis, seríamos ouvidos e respeitados. Quantas foram as reuniões organizadas, os comitês intimados, as comitivas criadas! Quantas horas gastas por inúmeros bailarinos, coreógrafos e amadores (aqueles que amam a dança) para exprimir em palavras as inúmeras necessidades da profissão! Não que em algum momento tenha havido de fato um pensamento político que levasse essas necessidades em conta, com planos e metas de longo prazo, que visasse ao crescimento e fomentasse a produção. Houve paliativos. Houve algumas pequenas ações. Ações sempre independentes e desconectadas do discurso da classe, tendo por conseqüência a criação de elefantes brancos, desnecessários e problemáticos, de idéias sem sentido, em desalinho com as demandas da profissão.

sábado, 25 de setembro de 2010

Entre utilitários e resentniks


Qual é a "utilidade" daquilo que classicamente deveria continuar sendo objeto de estudo nas faculdades de humanas? Qual é a "utilidade" de passar anos a fio estudando as construções formulaicas em Homero? A teoria do conhecimento em Platão? O cânone de Bach? Em seu texto de estréia para o Ocidentalismo.org, Rodrigo de Lemos analisa essa situação de fogo cruzado em que vive o conhecimento humanístico.

Por Rodrigo de Lemos

Os resultados de um mestrado na minha vida mental até agora foram os seguintes: a) passei a entender um pouco mais de latim, um pouco mais de poesia latina, um pouco mais de poesia francesa e aprendi a escrever num francês um pouco menos botocudo do que há dois anos; b) desenvolvi a virtude búdica da paciência para explicar aos outros como alguém pode se interessar por esse tipo de coisa.

Claro, Deus me abençoou com amigos aos quais não preciso explicar nada disso, que entendem scholarship autofágica e até aspiram a uma vaguinha nesse pequeno Olimpo. Mas, digamos que the man in the street, que o homme de la rue não tem a mínima idéia do que acontece (e por que acontece) numa faculdade de história, de literatura ou de filosofia. Dias atrás, encontrei uma ex-colega de segundo grau (MBA terminado em 2008) muito gentil, muito queridinha (óbvio que ela me pediu o celular para “a gente marcar alguma coisa”), que, quando respondi qual era o tema da minha dissertação, me olhou quase com piedade “Mas para que serve isso?”. Curiosamente, eu mesmo não perguntei qual era a missão divina que o MBA dela viera cumprir na Terra.

O problema não está no fato de essas pessoas ignorarem as faculdades de humanas. O preocupante é que a ignorância de gente razoavelmente escolarizada em torno das faculdades de humanas dá mostras da ignorância geral com relação aos próprios temas que se estudam (ou que se deveriam estudar) nas faculdades de humanas, e até mesmo quanto à importância de ter algum conhecimento sobre esses assuntos. Ninguém precisa estar por dentro dos últimos lançamentos em matéria de teologia da Sorbonne, mas um “para que serve isso?” ao ouvir a palavra “soterologia” certamente não dá provas de uma inteligência lá muito fina.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

"Étonne-moi!" ou, quero o Diaghilev de volta


Por Leandro Oliveira

Outro dia conversando com uma amiga dileta, ouvi uma confissão: ela não entendia, havia desistido dos espetáculos de dança. Fora a um recentemente, de linguagem contemporânea e, definitivamente, curtira os meninos sarados, ficara com inveja das meninas bonitas mas... that's it. Não entendera o propósito, achara tudo hermético, se sentira uma idiota.

Comentei solidário - embora eu preferisse as meninas, é claro. Colaborei por muitos anos com espetáculos de dança contemporânea como compositor convidado e, embora tenha tido momentos mágicos na "Tanzhaus  Cia. de Dança" no Rio de Janeiro, posteriormente, me vi muitas vezes perplexo com a mentalidade dos responsáveis pela criação da coisa toda que ia ao palco. Eis que deparo-me com um artigo de Laura Jacobs no "The New Criterion" que reverbera essa nossa impressão. O primeiro parágrafo abaixo, o link para o artigo completo (em inglês), logo depois.

Como chegamos aqui? Como chegamos ao ponto onde exatamente cada novo "clássico" é sem sentido? Hoje, estréias de espetáculos de grandes companhias são apresentados com figurinos os mais "antenados" sobre os corpos mais sarados... Eles se jactam invariavelmente de uma série de altas referências, se valem do zeitgeist como se fosse sua própria natureza. Algumas dessas premieres apertam os botões corretos e geram estusiasmo suficiente para radiar sucesso, enquanto outros apertam os botões errados e desaparecem depois de uma temporada ou duas. Não importa qual botão, há muito pouca diferença entre o bom e o ruim. A média do estado-da-arte de cada estréia é tão derivada de Forsythe, Tharp ou Martins que ela parece de segunda mão (mesmo quando os balés são de Forsythe, Tharp, ou Martins, eles parecem de segunda mão). Ou traz de volta antigos clichés. (...)

Para o artigo completo, que parte de tais perplexidades para - através da relação de Balanchine com o empresário Sergei Diaghilev - apontar outros rumos para a cena contemporânea, clique aqui.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Walk on the wild side

"O que eles fazem é legal - mas não muito. Vamos dizer assim: tem lugar pra todo mundo, mas cada um no seu lugar. (...) A gente vem de outro conceito, esse é que o problema."
Zeca Pagodinho sobre o samba do bairro carioca da Lapa, feito por jovens que estudam o gênero e responsáveis parcialmente por sua revitalização recente.

Por Leandro Oliveira

O primeiro problema da crítica é o de realizar distinções. Antes de qualificar, recuperar ou mesmo combater – sim, um crítico é também um soldado – qualquer profissional que pensa a cultura deve saber discriminar joio e trigo, agulha e palheiro, alhos e bugalhos. E como não seria se, mesmo entre pessoas normais, ou seja, aquelas que não ganham para pensar mas simplesmente tentam entender as coisas, é assim? Fazemos todos sem exceção tais discriminações todos os dias. Não comparamos rock’n’roll com pizza, por exemplo.

Isso parece ridiculamente óbvio. Mas é fato: as crianças não fazem de forma tão bem acabada estas distinções, que podem ir se sofisticando com a experiência, e assim podemos nos ver quando entre elas na situação delicada de tentar responder: “tio, você prefere ouvir música ou comer a melhor comida do mundo?”. Nestes termos, o embróglio é claramente infantil. Matérias distintas, natureza de afeto distinta.

A Companhia das Letras acaba de lançar “Atravessar o Fogo – 310 Letras de Lou Reed”. São mais de setecentas páginas com textos traduzidos de músicas de Lou Reed – um dos grandes roqueiros das décadas de sessenta e setenta e figura decisiva na história do gênero, ao criar, a frente do Velvet Underground um dos sons mais viscerais do período. Até aí tudo ótimo, um petisco para os fãs. O problema? Lançar o calhamaço na mesma coleção onde estão contos de Truman Capote e Isaac Bashevis Singer, novelas de Pirandello, fábulas coletadas por Ítalo Calvino...

Agora, nós que amamos literatura poderemos comparar trechos como esse:

A anfitriã arrumou o elegante vestido preto e apertou os lábios, nervosa. Era muito jovem e pequena e perfeita. Seu rosto era claro e emoldurado pelo cabelo preto liso, e o batom era um pouquinho escuro demais. Passava das duas, e ela estava cansada e queria que todos fossem embora, mas não era tarefa fácil se livrar de umas trinta pessoas, particularmente quando a maioria estava encharcada do scotch de seu pai. O ascensorista tinha subido duas vezes para reclamar do barulho; então ela lhe dera um highball, que de qualquer modo é só o que ele quer. E agora os marinheiros... ah, eles que se danem.

...onde temos um exemplo notável da arquitetura sofisticada – embora ainda não completamente desenvolvida - de construção da psicologia de um personagem de Truman Capote, a tal pérola poética:

Oh oh oh, satélite do amor,
Oh oh oh, satélite do amor,
Oh oh oh, satélite do amor!
Satélite do...

Sem a música - que é uma balada despretensiosa -, parece coisa de idiota. É a geléia geral.



Borges comenta que organizar uma biblioteca é fazer crítica literária. Quando uma editora coloca figuras tão díspares lado a lado, ela iguala diferenças. Quando igualamos diferenças medimos a todos pelo mais medíocre – afinal, não será Bashevis Singer que passará a ser valorizado entre punks, ou ficará mais nobre ao lado de Lou Reed. Será a academia que passará a fazer notas de rodapé com citações pedestres e pseudo-cultas sobre o Legião Urbana.

O incrível é que tal selo de credibilidade literária, pelo que parece, nem o roqueiro imaginara para si. Tanto assim que à mesma falta de critério da Festa Literária de Paraty deste ano - o que, a propósito, apenas mostra o estado lastimável de nossos produtores culturais mais prestigiosos - Reed deu uma banana. Usando dos mesmos parâmetros para parte do resto de sua programação, a FLIP flopou com o cartunista Robert Crumb, que disse em alto e bom som não saber o que estava fazendo ali, e jamais se imaginaria sendo levado tão a sério.

No Brasil, a fábula é invertida: é o rei que sai gritando “estou nu! estou nu!”.

Erra quem imagina que realizar tais relações é coisa de elitista. Não realizar é que é coisa de acadêmico. Está lá o Zeca Pagodinho que não me deixa mentir.
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