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quarta-feira, 2 de março de 2011

Durezza nel cuore


A filosofia da linguagem guarda meandros por vezes inusitados.

por Leonardo Valverde

Tenho andado bem ocupado, por isso não tenho colocado nada aqui.

Mas tenho meditado numa palavra em sânscrito, que por sua vez leva-me ao verso 15 do capítulo 15 da bhagavad gītā:

A palavra é hṛdaya, ou ‘coração’. Podemos analisá-la assim:

hṛdaya > hṛd > hṛ = tirar, oferecer, suportar.
Minha meditação tem sido em cima destas três acepções da raiz (dhātu) aí acima.

Pensem nelas e em como o coração está ligado (metaforicamente) às acepções!

Toda palavra (nome) em sânscrito vem de uma raiz (dhātu), que é responsável por um dos significados (o mais profundo) da palavra em questão. No sânscrito, a filosofia da linguagem não é uma especulação mental, tipo a encontrada em Wittgenstein, não, ela vem da própria palavra, de sua raiz. É daí que extraímos o significado profundo de um objeto que a palavra (a escrita) denomina.

Já o verso (śloka) diz assim:

सर्वस्य चाहं हृदि संनिविष्टो
sarvasya cāhaṁ hṛdi saṁniviṣṭo
E Eu estou adentrado no coração de todos.

É o que Kṛṣṇa diz a Arjuna numa das estrofes mais lindas da gītā.

Retirado de LeonardoValverde.com

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O erudito de poucos livros

por Leandro Oliveira

Afogado em leituras e aulas na web, deparo-me - em um raro momento de devaneio - com a passagem abaixo:

Por tudo que sei da vida, dos homens, deve-se ler pouco e reler muito. A arte da leitura é a da releitura. Há uns poucos livros totais, uns três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos.

Certa vez, um erudito resolveu fazer ironia comigo. Perguntou-me: “O que é que você leu?”. Respondi: “Dostoievski”. Ele queria me atirar na cara os seus quarenta mil volumes. Insistiu: “Que mais?”. E eu: “Dostoievski”. Teimou: “Só?”. Repeti: “Dostoievski”. O sujeito, aturdido pelos seus quarenta mil volumes, não entendeu nada. Mas eis o que eu queria dizer: pode-se viver para um único livro de Dostoievski. Ou uma única peça de Shakespeare. Ou um único poema não sei de quem. O mesmo livro é um na véspera e outro no dia seguinte. Pode haver um tédio na primeira leitura. Nada, porém, mais denso, mais fascinante, mais novo, mais abismal do que a releitura.


Nelson Rodrigues, "Uma Banana como Merenda" in "O Óbvio Ululante".

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Igualdade social - uma ilusão; ou, "um homem singular"


O Ocidente assume como válidos, tradicionalmente, dois tipos de "igualdade": a igualdade de oportunidades e a igualdade perante Deus. Enquanto o último, entendido em seus termos metafísicos, implica que devemos desfrutar de uma certa dignidade pelo fato de sermos humanos, membros da mesma comunidade no mundo, o primeiro sugere algo distinto: a permissão, por parte da cultura, do desenvolvimento de talentos e inclinações individuais livre de barreiras arbitrárias como sangue, classe social ou o que quer que seja. Mas há ainda um terceiro tipo, recente, que assume como justa e necessária a distribuição igual dos frutos econômicos da sociedade. É a estranha "igualdade social" (ou "equality of results", em inglês) de que fala Leonardo Valverde.

Por Leonardo Valverde

Já disse aqui que a idéia de igualdade é mais do que um dos pontos centrais da filosofia vedānta: é a própria estrutura da realidade. Mas que funciona simultaneamente - e isso quebra o princípio da não-contradição aristotélico - com a diferença.

Falo da realidade física e metafísica. Entendendo por física a “camada” da matéria antes da social, que, inclusive, nos torna parecidos enquanto espécies; e por metafísica a alma ou o ser; ou simplesmente aquilo que é eterno e não é matéria.

É na realidade física e metafísica, portanto, que a igualdade existe.

E numa realidade social, existe a igualdade?

Tirando a igualdade que o Direito cria, não. Somos desiguais por natureza. Criamos um aparato como a lei justamente para nos fazermos iguais sob certos princípios. Enquanto social, e fora da esfera do Direito, a idéia de igualdade chega ser absurda. Mas por quê?

Vejamos o que o Bhagavad Gītā nos diz e como ele nos ajuda a clarear as idéias:

चातुर्वर्ण्यं मया सृष्टम् गुणकर्मविभागशः
cāturvarṇyaṁ mayā sṛṣṭam guṇakarmavibhāgaśaḥ

As quatro classes são criadas por Mim,
segundo a distribuição de qualidade e ação.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Poemas de Amor - Nazim Hikmet


Quevedo, Kaváfis, Pierre Louÿs - além de alguns versos da própria lavra. Eis algumas das pérolas poéticas que Pedro Gonzaga vem oferecendo aos leitores do Ocidentalismo.org. Agora é a vez de nos deliciarmos com alguns dos mais belos versos de um extraordinário poeta, o turco Nazim Hikmet. Além das traduções abaixo, o leitor não pode perder o texto de Gonzaga sobre Hikmet na Revista Norte, onde encontrará ainda outros versos notáveis do autor de "Carta para minha mulher".

Por Pedro Gonzaga

Poemas de Nazim Hikmet (traduzidos do inglês)

Vera Acordando

as cadeiras dormem sobre os próprios pés
assim como a mesa
o tapete está deitado de costas
aprisionando seu desenho
o espelho está dormindo
os olhos das janelas estão bem fechados
a sacada dorme com suas pernas balançando em pleno ar
no telhado em frente dormem também as chaminés
assim como as acácias na calçada
a nuvem dorme
com uma estrela guardada no peito
a luz dorme aqui dentro e lá fora
você acordou minha rosa
as cadeiras acordaram
e se puseram a passear de lá para cá
junto com a mesa
o tapete se sentou ereto
lentamente revelando suas cores
como um lago ao entardecer despertou o espelho
as janelas abriram seus grandes olhos azuis
acordou a sacada
e recolheu suas pernas do ar
no telhado em frente as chaminés fumegaram
as acácias na calçada irromperam numa canção
a nuvem acordou
e lançou a estrela guardada em seu peito para dentro de nosso quarto
a luz despertou aqui dentro e lá fora
inundando teus cabelos
deslizando por entre teus dedos
abraçando tua cintura nua e estes teus pés tão brancos

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Dom Quixote - Um Romance do Século XXI (1)

Dom Quixote de La Mancha, protagonista da obra-prima homônima de Miguel de Cervantes, é um personagem cuja atualidade e fascínio segue incontestável. Ponto de transformação da literatura ocidental, o texto e seu simbolismo são discutidos neste especial do site Loop Mídia.

Por Nivaldo Cordeiro


Retirado de Loop Mídia.
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