"Now old desire doth in his death-bed lie,
And young affection gapes to be his heir;
That fair for which love groan'd for and would die,
With tender Juliet match'd, is now not fair.
Now Romeo is beloved and loves again,
Alike betwitched by the charm of looks,
But to his foe supposed he must complain,
And she steal love's sweet bait from fearful hooks:
Being held a foe, he may not have access
To breathe such vows as lovers use to swear;
And she as much in love, her means much less
To meet her new-beloved any where:
But passion lends them power, time means, to meet
Tempering extremities with extreme sweet."
William Shakespeare, "Romeo and Juliet" (Prologue Act II).
***
Dublin July. 7. 88
A Problem Proposed to the Author of the "Essai Philosophique concernant L'Entendement".
A Man, being born blind, and having a globe and a cube, nigh of the same bignes, committed into his hands, and being taught or told, which is called the globe, and which the cube, so as easily to distinguish them by his touch or feeling; then both being taken from him, and laid on a table, let us suppose his sight restored to him; whether he could, by his sight, and before he touch them, know which is the globe and which the cube? Or whether he could know by his sight, before he stretch'd out his hand, whether he could not reach them, tho they were removed 20 or 1000 feet from him?
If the learned and ingenious author of the forementiond treatise think this problem worth his consideration and answer, he may at any time direct it to one that much esteems him, and is,
His Humble Servant,
William Molyneux
High Ormonds Gate in Dublin. Ireland
****
"While civilization has been improving our houses, it has not equally improved the men who are to inhabit them. It has created palaces, but it was not so easy to create noblemen and kings. And if the civilized man's pursuits are no worthier than the savage's, if he is employed the greater part of his life in obtaining gross necessaries and comforts merely, why should he have a better dwelling than the former?"
Henry D. Thoreau, "Walden" (Lembrado pela Fernandinha Ribeiro no seu blog "Apfelsaft")
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sábado, 20 de agosto de 2011
terça-feira, 16 de agosto de 2011
Observatório Ocidentalismo
Curto quando o Reinaldo Azevedo faz pequenas viagenzinhas. A de hoje é especial para mim pois acabei de recomendar o livro a amigos e alunos. Me diverti com a coincidência.
***
Por Reinaldo Azevedo:
Se o leitor ainda não o fez, deve fazê-lo: ler “O Visconde Partido ao Meio”, do escritor italiano Italo Calvino. Não chegará a ser o seu livro de cabeceira, mas se ganha bastante em poucos mais de 100 páginas. Coisa para duas ou três horas de um daqueles domingos que, muitas vezes, se desenrolam sem motivo aparente… Vocês conhecerão o Visconde Medardo di Terralba, que foi combater os turcos. Um tiro de canhão o rachou ao meio, na vertical. Uma parte, a direita, volta para a casa. Era a metade perversa, má no limite do tédio… dos outros! Depois de algum tempo, suas vítimas já haviam se acostumado com suas perversidades. Até que chegou o lado esquerdo, que havia sido cuidado por monges. Era de uma bondade… insuportável!!! Chamavam-no “o vagabundo”. As duas partes acabarão duelando pelo amor de Pamela. O resto, vocês conferem no livro.
Muitos quiseram decifrar o sentido metafísico do Visconde de Calvino. Até se tentou uma leitura política, com a “direita má” e a “esquerda boazinha”, ambas impróprias para o convívio humano. “Reunidas” as metades do marquês, nem por isso se formou uma inteireza. Somos, os homens, assim mesmo: não cindidos em duas partes, mas em muitas. “Nada do que é humano me é estranho”, escreveu Terêncio. Porque não é, somos levados a fazer escolhas, que acabam determinando com quais pessoas decidimos viver e que moralidade nos serve. Aos escolher os outros, escolhemos o nosso próprio caminho. Potencialmente, podemos ser o monstro moral da metade má ou o abestalhado da metade boa; podemos atormentar os outros tanto com o nosso egoísmo com nossa generosidade. Nada pode crescer à volta de um e de outro; um mata com o seu fel; o outro, com o seu mel. Mas que não se conclua apressadamente que a virtude está no meio, no doce-amaro, na indefinição. A “verdade”, qualquer que seja ela, está no conjunto. A razão tem de domesticar, a cada dia, a besta cínica e a besta crédula que há em nós.
Por que me lembrei de Calvino? Será Dilma Rousseff “a presidente partida ao meio”? (...)
Na íntegra aqui.
por Leandro Oliveira
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Tchaikovsky Competition and beyond
por Leandro Oliveira
É o que se fala no mundo civilizado. Após a aparente derrocada do formato "concurso de música", eis que Valery Gergiev assume a presidência do Tchaikovsky Competition, convida alguns dos artistas mais prestigiosos da atualidade para o corpo de jurados - Nelson Freire esteve lá mas declinou após a primeira semana por estafa - e fez agitar a coisa toda.
Como sempre, muita polêmica. A principal, a saída de Eduard Kunz, muito cedo pelo que parece. E, em casos assim, o esperado: o sujeito não levou o prêmio mas já ganhou o que precisa que é visibilidade e reputação. Sua participação no evento balançou o mundo musical.
Coisas oportunas: acusações de xenofobismo com candidatos dos países satélites, juízes abandonando o certame por motivos de força maior, "ingerência política" nos resultados parciais. Não que as coisas estejam necessariamente relacionadas.
Ao fim e ao cabo, os vencedores:
Piano: Daniil Trifonov (russo);
Violino: sem medalha de ouro, dois segundo colocados: Sergei Dogadin (russo) e Itamar Zorman (israelense);
Cello: Narek Hakhnazaryan (armênio, que foi insultado por um maestro da competição por ser "caipira");
Voz: Sun Young Seo e Jong Min Park (coreanos).
Coreanos?!
Para saber mais, sugiro o excelente Tom Service, que acompanha tudo de lá.
É o que se fala no mundo civilizado. Após a aparente derrocada do formato "concurso de música", eis que Valery Gergiev assume a presidência do Tchaikovsky Competition, convida alguns dos artistas mais prestigiosos da atualidade para o corpo de jurados - Nelson Freire esteve lá mas declinou após a primeira semana por estafa - e fez agitar a coisa toda.
Como sempre, muita polêmica. A principal, a saída de Eduard Kunz, muito cedo pelo que parece. E, em casos assim, o esperado: o sujeito não levou o prêmio mas já ganhou o que precisa que é visibilidade e reputação. Sua participação no evento balançou o mundo musical.
Coisas oportunas: acusações de xenofobismo com candidatos dos países satélites, juízes abandonando o certame por motivos de força maior, "ingerência política" nos resultados parciais. Não que as coisas estejam necessariamente relacionadas.
Ao fim e ao cabo, os vencedores:
Piano: Daniil Trifonov (russo);
Violino: sem medalha de ouro, dois segundo colocados: Sergei Dogadin (russo) e Itamar Zorman (israelense);
Cello: Narek Hakhnazaryan (armênio, que foi insultado por um maestro da competição por ser "caipira");
Voz: Sun Young Seo e Jong Min Park (coreanos).
Coreanos?!
Para saber mais, sugiro o excelente Tom Service, que acompanha tudo de lá.
****
Ia falar do encontro com Roberto Minczuk e a turma da Dicta semana passada. Não consegui por motivos inadiáveis - fui descansar. Mas Greg Sandow, que diz coisas que interessam e são pertinentes, diz o que seria ainda mais pertinentes no contexto do encontro. Seguir seu artigo, já na quarta parte, é a melhor maneira de concluir a discussão.
Why aren't orchestras subject (in public, or even very much in private) to detailed comparisons, revealing how well they play?
I think there are four reasons. (...) First: it would be hard to do anything with the information these comparisons would supply. (...) Second: the ideology of classical music says that everything's wonderful. (...) Third: it's in orchestra managements' interest not to have quality talked about. (...) Fourth; it's in the musicians' interest not to have their quality talked about. (...)
If baseball teams had boards, of course the comparisons would be talked about. (...)
Na mosca, não? Na íntegra aqui.
sexta-feira, 22 de abril de 2011
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Brave new world
por Leandro Oliveira
Não há a menor possibilidade de entendermos como funciona metade do mundo. Mais que outra cultura, outro universo mental. Há quatro dias, o grupo Voina recebeu o maior prêmio dado pelo Ministério da Cultura russo; eles pintaram um pênis gigante sobre uma ponte levadiça no noroeste de São Petersburgo - em frente ao prédio da antiga KGB. O efeito é o da foto acima.
O incauto gritará "viva a liberdade!", "os russo são democratas!", "liberdade de expressão é o valor último de todas as culturas!" o que apenas tornará tudo mais constrangedor. Pois o fato é que alguns dos integrantes do grupo seguem foragidos, outros presos sem possibilidade prévia de defesa. A premiação para eles é uma espécie de cala-boca - talvez, último gesto velado de negociação, antes de "sanções" mais drásticas. O grupo se nega a participar do prêmio, segundo eles é um brinquedote da nova máfia que toma lugar das antigas autoridades estatais.
Mas isso não é importante. É que Bob Dylan fez sua primeira apresentação no Vietnam, no domingo que passou. O teatro da cidade de Ho Chi Minh (antiga Saigon) conseguiu vender apenas metade dos lugares; assim como na China, onde tocara em Beijing e Shanghai na semana passada, o bardo precisou passar o setlist do show pela aprovação do governo local. Eu não estava lá, mas segunda consta, o show não teve "Blowin' in the Wind" ou "The Times They Are a-Changin'".
E pensar que ambas obras foram fundamentais na construção simbólica de uma cultura de paz que hoje se confunde com a cultura meio eunuca que é a norte-americana - que fez os EUA saírem da guerra para que este mesmo Vietnam hoje censurasse Dylan. É isso que quero dizer: a arte de protesto tem seu lugar. Adoro Shostakovich. Alguns amigos parecem não entender que, por vezes, o engajamento é sim uma maneira legítima de expressão artística. Pode-se acusar o mau-gosto da empreitada, mas seria uma performance muito apropriada e engenhosa, a da projeção de um pênis se erguendo no lugar do sol nos países de governos totalitários ou pseudo-democratas.
“There must be some way out of here,” said the joker to the thief
“There’s too much confusion, I can’t get no relief...
Businessmen, they drink my wine, plowmen dig my earth
None of them along the line, nobody out of it worth”
“No reason to get excited,” the thief, he kindly spoke
“There are many here among us who feel that life is but a joke
But you and I, we’ve been through that, and this is not our fate
So let us not talk falsely now, the hour is getting late”
All along the watchtower, princes kept the view
While all the women came and went, barefoot servants, too.
Outside, in the distance, a wildcat did growl
Two riders were approaching, the wind began to howl.
sábado, 26 de março de 2011
Bethânia, Adam Smith & um pouco de Gramsci
por Pedro Sette-Câmara
Sou reativo, só escrevo em função de algo que leio. E hoje leio uma pequena reflexão no Globo a respeito da polêmica com o blog da Maria Bethânia – aquele que recebeu autorização para captar 1,3 milhão de reais, dos quais 600 mil vão para o bolso da própria Bethânia pela “direção artística”.
Daqui do meu assento etéreo liberal, posso me perguntar se um blog vale esse dinheiro todo, e se Bethânia vale esse salário. E logo escuto a resposta: se alguém quiser pagar, vale. Isso é, se houver pessoas que queiram financiar esse projeto, vale. Será, indiretamente, dinheiro público? Claro que sim. Mas funesta é a lei que gera absurdos, e indignar-se apenas com um deles é mostra daquele estado mental de indignação seletiva que, dependendo da versão, aceita José Serra como campeão antiaborto ou considera que é “você é um preconceituoso, mesquinho, classe média babaca, deveria sim é morrer queimado na missa/culto que você tanto se orgulha em ir” é um discurso que não tem nada de ódio patológico.
Voltemos à Bethânia e aos salários. Diz o nosso companheiro Adam Smith que o trabalhador quer ganhar o maior salário possível e o empregador quer pagar o mínimo possível. Desses desejos nasce o famoso equilíbrio de mercado, porque nem um nem outro têm em si e por si o domínio absoluto da relação, e um ou outro podem estar em vantagem ou desvantagem relativa. Essa relação não pende necessariamente sempre a favor do empresário: por exemplo, se há no Brasil um “apagão da mão de obra”, as pessoas em certas áreas estão em tremenda vantagem.
O que Bethânia está fazendo é aquilo que todos fazemos: tentando jogar nosso valor lá no alto. Se colar, colou. Francamente, como tradutor, eu não reclamaria se me pagassem mil reais por lauda (só ontem eu teria ganhado 16 mil reais), e eu mesmo faço o máximo para ganhar o máximo possível.
Como se trata de dinheiro público, você pode afirmar, e eu também, que não quer dar a Maria Bethânia 600 mil para que ela recite poesias. Só que o problema jurídico é muito anterior: existe a lei, existe o Ministério etc. E existe ainda um problema político bastante grave, que não pode deixar de ser abordado. Vivemos numa república corporativa, num verdadeiro estado burguês gramsciano: cada “categoria” recebe benefícios do Estado e dá benefícios em troca. Os nossos liberais brasileiros não costumam saber que o Brasil defende em sua política externa o livre mercado, ainda que isso signifique “queremos a abertura dos mercados europeus para nossos produtos”. Nossas queridas associações empresariais também são grupos de pressão. Os trabalhadores das empresas também constituem sindicatos e, veja só!, grupos de pressão. Todos querem aumentar seus próprios rendimentos. Só quem defende o liberalismo de maneira pura e inocente (e ingênua, e utópica, e irreal: olá, eu mesmo em 1999) no Brasil são três ou quatro garotos cujo maior bem é uma conexão de banda larga.
Se você tirar dos artistas a Lei Rouanet e o Ministério da Cultura, eles passarão a ser um dos poucos grupos no Brasil desprovidos de uma estrutura oficial de lobby e de pressão. Esse é o jeito brasileiro. Por mais que eu ache justo em abstrato acabar com a Lei e com o MinC, não posso deixar de observar que, se o Estado dá benesses para todos, por que faria essa injustiça especial com um determinado grupo?
Permitam até que eu explique melhor. Se os artistas subitamente fossem obrigados a ser empreendedores de verdade (o que eu defenderia), eles enfrentariam as mesmas dificuldades dos empresários brasileiros, com o agravante de estar desprovidos dos lobbies e grupos de pressão de que esses empresários dispõem.
Eu gostaria muito que os preços que pago pelos produtos que consumo tivessem bem menos interferência dos grupos de pressão empresariais. E gostaria que os preços que pago pelos produtos artísticos e culturais que consumo também não tivessem essa interferência. Só que, mesmo aqui, não posso deixar de observar o seguinte. Se eu for comer ou beber algo (e, mesmo sendo autor de teatro, não nego que comida e bebida são mais importantes do que teatro), vou pagar um preço proporcionalmente mais alto do que o que pagaria pela vasta maioria dos ingressos à venda para qualquer coisa, ou mesmo um preço mais alto em valores absolutos (saia do teatro e vá comer alguma coisa, e me diga onde gastou mais). Quer dizer, de um lado os grupos de pressão empresariais estão jogando os preços para cima, e, ao menos no nível da minha experiência direta, me prejudicando muito mais do que a Lei Rouanet. Entre destruir imediatamente mecanismos que “protegem a indústria nacional” ou as leis de incentivo à cultura, não preciso pensar duas vezes.
Agora, para encerrar, se você acha que dinheiro na mão do Estado é dinheiro jogado fora, por que está reclamando dessa pequena possível privatização?
Retirado de PedroSette.com.
Sou reativo, só escrevo em função de algo que leio. E hoje leio uma pequena reflexão no Globo a respeito da polêmica com o blog da Maria Bethânia – aquele que recebeu autorização para captar 1,3 milhão de reais, dos quais 600 mil vão para o bolso da própria Bethânia pela “direção artística”.
Daqui do meu assento etéreo liberal, posso me perguntar se um blog vale esse dinheiro todo, e se Bethânia vale esse salário. E logo escuto a resposta: se alguém quiser pagar, vale. Isso é, se houver pessoas que queiram financiar esse projeto, vale. Será, indiretamente, dinheiro público? Claro que sim. Mas funesta é a lei que gera absurdos, e indignar-se apenas com um deles é mostra daquele estado mental de indignação seletiva que, dependendo da versão, aceita José Serra como campeão antiaborto ou considera que é “você é um preconceituoso, mesquinho, classe média babaca, deveria sim é morrer queimado na missa/culto que você tanto se orgulha em ir” é um discurso que não tem nada de ódio patológico.
Voltemos à Bethânia e aos salários. Diz o nosso companheiro Adam Smith que o trabalhador quer ganhar o maior salário possível e o empregador quer pagar o mínimo possível. Desses desejos nasce o famoso equilíbrio de mercado, porque nem um nem outro têm em si e por si o domínio absoluto da relação, e um ou outro podem estar em vantagem ou desvantagem relativa. Essa relação não pende necessariamente sempre a favor do empresário: por exemplo, se há no Brasil um “apagão da mão de obra”, as pessoas em certas áreas estão em tremenda vantagem.
O que Bethânia está fazendo é aquilo que todos fazemos: tentando jogar nosso valor lá no alto. Se colar, colou. Francamente, como tradutor, eu não reclamaria se me pagassem mil reais por lauda (só ontem eu teria ganhado 16 mil reais), e eu mesmo faço o máximo para ganhar o máximo possível.
Como se trata de dinheiro público, você pode afirmar, e eu também, que não quer dar a Maria Bethânia 600 mil para que ela recite poesias. Só que o problema jurídico é muito anterior: existe a lei, existe o Ministério etc. E existe ainda um problema político bastante grave, que não pode deixar de ser abordado. Vivemos numa república corporativa, num verdadeiro estado burguês gramsciano: cada “categoria” recebe benefícios do Estado e dá benefícios em troca. Os nossos liberais brasileiros não costumam saber que o Brasil defende em sua política externa o livre mercado, ainda que isso signifique “queremos a abertura dos mercados europeus para nossos produtos”. Nossas queridas associações empresariais também são grupos de pressão. Os trabalhadores das empresas também constituem sindicatos e, veja só!, grupos de pressão. Todos querem aumentar seus próprios rendimentos. Só quem defende o liberalismo de maneira pura e inocente (e ingênua, e utópica, e irreal: olá, eu mesmo em 1999) no Brasil são três ou quatro garotos cujo maior bem é uma conexão de banda larga.
Se você tirar dos artistas a Lei Rouanet e o Ministério da Cultura, eles passarão a ser um dos poucos grupos no Brasil desprovidos de uma estrutura oficial de lobby e de pressão. Esse é o jeito brasileiro. Por mais que eu ache justo em abstrato acabar com a Lei e com o MinC, não posso deixar de observar que, se o Estado dá benesses para todos, por que faria essa injustiça especial com um determinado grupo?
Permitam até que eu explique melhor. Se os artistas subitamente fossem obrigados a ser empreendedores de verdade (o que eu defenderia), eles enfrentariam as mesmas dificuldades dos empresários brasileiros, com o agravante de estar desprovidos dos lobbies e grupos de pressão de que esses empresários dispõem.
Eu gostaria muito que os preços que pago pelos produtos que consumo tivessem bem menos interferência dos grupos de pressão empresariais. E gostaria que os preços que pago pelos produtos artísticos e culturais que consumo também não tivessem essa interferência. Só que, mesmo aqui, não posso deixar de observar o seguinte. Se eu for comer ou beber algo (e, mesmo sendo autor de teatro, não nego que comida e bebida são mais importantes do que teatro), vou pagar um preço proporcionalmente mais alto do que o que pagaria pela vasta maioria dos ingressos à venda para qualquer coisa, ou mesmo um preço mais alto em valores absolutos (saia do teatro e vá comer alguma coisa, e me diga onde gastou mais). Quer dizer, de um lado os grupos de pressão empresariais estão jogando os preços para cima, e, ao menos no nível da minha experiência direta, me prejudicando muito mais do que a Lei Rouanet. Entre destruir imediatamente mecanismos que “protegem a indústria nacional” ou as leis de incentivo à cultura, não preciso pensar duas vezes.
Agora, para encerrar, se você acha que dinheiro na mão do Estado é dinheiro jogado fora, por que está reclamando dessa pequena possível privatização?
Retirado de PedroSette.com.
segunda-feira, 21 de março de 2011
O Favor que nos faz Obama
por João Vidal
Caros amigos do Ocidentalismo.org,
É no venerável espírito dos correspondentes de guerra que lhes escrevo desde a cidade que se costumava chamar (ou melhor dizendo, cujo ‘nome original’* era) Rio de Janeiro. Pois há momentos em que nos vemos irremediavelmente desviados das elucubrações do exílio intelectual a que muitos de nós se dedicam pelo noticiário cada dia mais teratológico de nosso país. Por essa razão trato aqui não dos assuntos que gostaria, mas da visita ao Brasil do prodígio que é Barack Obama.
Procurei esquivar-me de todas as formas do tema e das notícias que afluíram por todos os meios de comunicação na última semana, mas fui vencido pelo cansaço e pelo simples fato de que Obama trouxe transtornos à minha vida pessoal. Pressenti que as coisas não iam muito bem no momento que tomei conhecimento de que o líder global havia resolvido, e não sido convidado a, discursar na Cinelândia. Farejei ali a subserviência que se confirmaria com detalhes sórdidos nos dias seguintes. Primeiro veio a notícia de que a praça seria fechada e que os nativos que desejassem aplaudir o rábula de south Chicago deveriam comparecer sem bolsas e com identidades à mão. Determinações do serviço secreto americano, às quais se somaram a seguir ordens – prontamente atendidas pelo prefeito da cidade – de se fazer fechar todos os restaurantes do bairro no fim de semana e as estações de metrô circunvizinhas. (Também foram fechadas duas vias da Avenida Atlântica, onde se hospeda Obama no Rio.)
Simultaneamente me chegaram (sempre involuntariamente, repito) notícias de que o PT proibira manifestações contra o ‘estadunidense’, fato não menos interessante que a indignação do presidente regional do PSTU após protesto em frente ao consulado americano frente ao que chamou de ‘infiltração do movimento’ por elementos que teriam arremessado um ou dois coquetéis Molotov contra um segurança do referido consulado (a propósito um brasileiro, como todos os demais seguranças do consulado). Já bastante aviltado, a ponto de quase juntar-me ao PSTU em seu protesto, recebo a seguir notícia de que o primeiro concerto da série ‘fora de série’** da Orquestra Sinfônica Brasileira (não a profissional, em quarentena, mas a dita ‘jovem’), que executaria (provavelmente em vários sentidos) a raramente ouvida no Rio "Paixão Segundo São João" de Bach, estava cancelado, uma vez que Obama desistira de falar ao público que nesse ponto já deixava suas bolsas em casa para aplaudir o lenga-lenga democrata de sempre para falar aos ‘super-vips’*** desde o palco do Teatro Municipal mesmo.
Devo dizer que o cancelamento do concerto representou para mim não apenas a perda da oportunidade de ouvir essa bela obra de Bach, mas também da possibilidade – e aqui reside verdadeiramente o ‘fora de série’ da coisa – de testemunhar a primeira Paixão de Bach na qual o crucificado seria não Jesus Cristo mas a própria orquestra. Como acontece com as grandes catástrofes, a notícias se seguiam num crescendo para baixo, numa katabasis que, segundo suspeitava desde o princípio, poderia redundar talvez numa grande lição sobre o que é afinal o Brasil na cadeia alimentar mundial. Assim, o estranhamento ao ver a Cinelândia e o Teatro Municipal revistados pela CIA (ou FBI ou seja lá quem fossem os cops da ocasião) deu lugar à perplexidade, quando ouvi no Jornal Nacional que em Brasília as forças de segurança americanas procediam a revista geral do próprio Palácio do Planalto! Estava então já tomado por aquele espírito (na linguagem de nossos algozes) ‘what the fuck?’ quando ouvi que moradores da Cidade de Deus não deveriam ocupar as lajes nem postar-se às janelas de seus barracos, e ainda que nem o prefeito, nem o governador e nem mesmo o secretário de segurança do Rio poderiam acompanhar Obama em seu passeio pela favela (os dois primeiros foram convidados, porém, para em algum momento caminhar com o presidente americano até a porta de seu helicóptero).
(Como uma pequena notícia animadora, tomo conhecimento de que a Central Única das Favelas rompeu com Obama!)
Mas a primeira das ofensas máximas foi reservada à visita de Obama ao Corcovado: todos os funcionários brasileiros deveriam ser dispensados e nenhum cicerone local seria admitido. A segunda? Sem dúvida a impagável revista (‘intensa’, segundo alguns jornais, com direito a violentas apalpadas nos países baixos) de alguns dos mais importantes ministros brasileiros, entre os quais os petistas Guido Mantega e Aloísio Mercadante (cena belíssima!), em pleno Palácio do Planalto. Tratar-se-ia de episódio destinado a mostrar como o PT, dedicado ultimamente a se apropriar compulsivamente de idéias do PSDB, levou esse comportamento to a whole new level?: Celso Lafer tirou o sapato nos EUA?, pois nós nos deixamos apalpar pelo americanos aqui mesmo! Como bater essa?**** Outro ponto baixo foi Obama recusar o convite para jantar com a ‘presidenta’ do Brasil, no mínimo uma deselegância sem tamanho. Circularam notícias ainda de que o espaço aéreo de Brasília teria sido fechado e controlado por aeronaves americanas, mas prefiro nem me informar a respeito e seguir acreditando que isso não pode ser verdade.
Imagino que muito mais poderia ser relatado da visita ainda em andamento do dignitário americano, mas isso aí é, pelo menos para mim, suficiente para chegar ao ponto, que é o favor que nos faz Obama. Bill Gates, Madonna e Michael Jackson, para os quais já se havia fechado o trânsito no Rio e montado extraordinários esquemas de segurança, já me haviam feito suspeitar que um tratamento no mínimo singular era dado aqui a visitantes americanos, e especialmente aos bilionários e famosos. Mas foi Obama, tripudiando da população e dos mandatários do Brasil, quem veio nos dar uma lição definitiva acerca do lugar do Brasil na ordem mundial. Se nosso ministro Patriota – ironia máxima! – avisava uma semana atrás que o Brasil desejava uma relação ‘de igual para igual’ com a América do Norte, Obama didaticamente (foi professor em Chicago, consta) nos colocou em nosso devido lugar de quintal dos EUA. Pois não se pode respeitar quem não respeita primeiro a si mesmo. Com políticos que rosnam para os que estão abaixo enquanto tiram seus sapatos e são apalpados pelos que estão acima, e com cidadãos dispostos a bajular até mesmo quem os humilha, afirmo (como diria Mangabeira Unger) que não poderemos avançar um milímetro sequer na direção de ganhar algum respeito na comunidade internacional.
Daquela que se costumava chamar (ou melhor dizendo, cujo ‘nome original’***** era) Rio de Janeiro, e (insolitamente) com o PSTU e a Central Única das Favelas,
J.Vidal.
* Inside joke.
** Notemos a originalidade do nome.
*** Segundo consta planejava-se dividir os ouvintes do discurso entre ‘povo’, ‘vips’ e ‘super-vips’. Naturalmente apenas os dois últimos participaram da festa, ao fim e ao cabo.
**** Uma outra ofensa grave seria Obama ter citado ‘Pal Coelo’, ao fim do discurso no Municipal, como um dos mais importantes escritores brasileiros. Se por um lado não esperávamos mesmo que o presidente americano soubesse algo sobre literatura brasileira, por outro o gracejo mostrou que ele é provavelmente tão burro quanto George W. Bush.
***** Inside joke.
Magistério e apostolado
Há muito tempo escutamos que o dilema da educação está nos baixos salários - ao lado da falta de "computadores na sala-de-aula", parece não haver outro problema na área, viciada em um discurso-lamento pela falta de incentivos do ponto de vista financeiro. Não estará faltando uma outra peça no quebra-cabeças? Rodrigo de Lemos mostra que sim.
por Rodrigo de Lemos
Não consegui chegar ao fim das memórias de Marcel Pagnol – apesar do clima M. Hulot de algumas páginas, sempre acho vagamente irritantes essas memórias de infância que não a minha. E, contudo, acho memorável o segundo capítulo de "La Gloire de mon père", no qual Pagnol, lembrando o pai instituteur, descreve o espírito das escolas na Terceira República francesa. As Écoles Normales, para transferir da Igreja ao Estado a responsabilidade pela educação, faziam dos candidatos a professores os modelos morais para os jovens da República. Eram campanhas anti-fumo (já então), anti-álcool, anti-adultério, discursos sobre a missão civilizatória dos mestres laicos, sobre o apostolado da ciência e do progresso – tudo para roubar aos padres o papel de exemplos para a nova sociedade. Não creio que o fim fosse o mais nobre, mas o meio não deixou de ser eficiente: a criação de uma classe devotada à causa laica, desdenhosa de riquezas, de vantagens pessoais, unida por um discurso coeso e obstinado, que viu triunfarem seus ideais na crise de 1905 (com a separação entre Igreja e Estado).
Nada disso combina com a imagem de professores a que nos acostumamos no Brasil e, em menor medida, também na França, imagem de gente insatisfeita com o salário, com a quantidade de trabalho, com a “desvalorização” da profissão. Como se contadores ou despachantes comerciais só vissem espinhas curvadas pelos caminhos, tal conquistadores em Alexandria.
Muito disso é exagero. Não tiro os motivos para choro dos que ganham pouco demais, mas a maior parte dos professores que conheci não tem salários muito menores do que os de outras profissões de classe média. O problema é que há um discurso, muito freqüente entre políticos e gente que precisa de votos, de que o destino da educação e, com isso, o futuro da sociedade dependem unicamente de um fator: o aumento dos salários. Educação, ao que parece, depende de “investimento”, e “investimento” quer dizer aumento para os professores, multimídia nas escolas. Por alguma virtude mágica, o mero contato com as telas de computador despertaria o intelecto adormecido dos alunos como uma donzela por um beijo de príncipe, o aumento na conta bancária dos professores desenvolveria neles um rápido e irresistível interesse por teoria da energia escura ou pelas pesquisas sobre o panteão indo-europeu, e eles torrariam o décimo terceiro e o terço de férias com DVDs de ópera ou com livros de lógica modal.
O investimento realmente imprescindível a um professor é o de seu próprio tempo, para estudar, e qualquer aumento de salário só se justifica na medida em que permita ao professor trabalhar menos e estudar mais. O magistério se assemelha, do ponto de vista da atividade, mais a um ministério, a um apostolado, do que a uma profissão como as outras. Dentistas, gerentes de banco não dispõem de horas e horas diárias da atenção total de 30, 40 pessoas ao mesmo tempo, horas durante as quais eles podem usar como quiserem da palavra, deitar erudição ou contar fofocas íntimas, persuadir os outros do que pensam. Só professores são assim, professores e padres. Mas esse privilégio, às vezes desconfortável, tem sua contrapartida, e, como padres, professores devem se acostumar a ambições materiais mais modestas, a condições de vida decentes, mas frugais; espera-se que a curiosidade intelectual, e que a possibilidade de sustentar-se disso, ofereça o surplus de satisfação que, em dentistas ou gerentes de banco, vem de ganhar melhor.
Pode ser que as reclamações se justifiquem quando a quantidade de trabalho obstrui o estudo, mas o número de professores frustrados por não terem ficado ricos, por não poderem consumir tanto quanto o primo empresário ou cirurgião, ultrapassa o razoável. Falta o mépris des richesses de que fala o Pagnol, aquele desdém pelos objetos de desejo das massas, aquela indiferença que experimentamos quando temos uma vida interior razoavelmente desenvolvida. Muito da insatisfação acabaria por aí. Professores do século XIII subsistiam com menos que professores de escola pública, vivendo de vaquinhas dos alunos, sem poder casar, sem estabilidade, sem três meses de férias. E – vejam só – foram esses pobres coitados, esses semi-indigentes, que elaboraram a escolástica.
PS: Este texto (original de 3 de fevereiro) havia sido retirado de nossos provedores no atentado do dia 11 de março. Como trata-se de matéria pertinente, e um dos posts mais queridos por todos nós, coloco-o novamente na primeira página.
domingo, 20 de março de 2011
Meninos (como Homens) em tempos sombrios
por Juliana Perez
Agora o que conta é reencontrar-se, iluminar-se reciprocamente, de pessoa a pessoa...
A frase foi escrita em 1942, alguns meses antes da decapitação de um de seus autores. Não se trata de escritores nem de filósofos ou de cientistas importantes, tampouco de grandes homens de Estado ou de revolucionários titânicos. Hans Scholl (1918-1943) estudava medicina na Universidade de Munique e – com sua irmã, Sophie (1921-1943) e um amigo, Christoph Probst (1919-1943) – foi acusado de alta traição ao regime nacional-socialista. Alexander Schmorrell (1917-1943), segundo autor da frase acima, Willi Graf (1918-1943), Kurt Huber (1893-1943), seu professor de filosofia, e outras dez pessoas foram condenadas à morte dois meses mais tarde.
Hans, Sophie, Christoph, Schmorell, Graf e Huber formavam o núcleo do movimento de resistência que ficou conhecido como "A Rosa Branca" (Die Weiße Rose). Sobre ele há dois filmes: o primeiro "Die Weiße Rose" (1982) dirigido por Michael Verhoeven, é baseado em documentos pertencentes às famílias dos envolvidos e teve ampla repercussão na Alemanha; o segundo, "Sophie Scholl: The Final Days" (2009), concentra-se nos dias que antecedem a prisão dos integrantes da Rosa Branca e focaliza a comovente experiência de Sophie Scholl. O roteiro utiliza documentos ainda não conhecidos nos anos oitenta - reproduzidos quase literalmente em vários diálogos do filme (no interrogatório, por exemplo).
As primeiras informações sobre a "Rosa Branca" tornaram-se conhecidas graças ao livro da irmã mais nova de Hans e Sophie, Inge SCHOLL, "Die Weiße Rose" (Frankfurt a. M.: Fischer, 2001). O livro é amplamente conhecido na Alemanha, em muitas escolas ainda está na lista de leituras obrigatórias.
Em tempo: houve outros movimentos de resistência ao nacional-socialismo na Alemanha – a Jüdischer Kulturbund, o Kreisauer-Kreis, Schulze-Boysen/Harnack Organisation, por exemplo. De diversas tendências políticas e religiosas, procuravam se opor ao regime da forma como lhes era possível: todos eles foram mais cedo ou mais tarde violentamente reprimidos pelo regime. Mais informações? Veja o estudo de Corina Petrescu, "Against All Odds: Subversive Spaces in National Socialist Germany" (Oxford et. al.: Peter Lang, 2010).
Quanto ao grupo "A Rosa Branca", o que faz dessas seis pessoas – que talvez contassem com a colaboração de vinte ou cinquenta estudantes dos cerca de oito mil inscritos na Universidade de Munique – algo especial?
Em primeiro lugar, a quase ingenuidade de suas ações: entre junho de 1942 e janeiro de 1943, os estudantes redigiram e distribuíram panfletos de crítica ao regime. Dos primeiros panfletos foram feitas cem cópias, do último, entre duas ou três mil. Os pesquisadores costumam dividir as ações dos estudantes em 3 fases: a que inclui a redação dos quatro primeiro panfletos, que exortavam à resistência passiva; a segunda fase acontece após a volta dos estudantes do front; e a última fase, que incluiu pichações de muro pela cidade de Munique – ato temerário na época –, e o último panfleto, que causou a prisão. Os panfletos impressionam tanto por unirem a reflexão filosófico-existencial a uma corajosa análise política, quanto por expressarem a convicção de que qualquer mudança social só seria possível a partir do momento em que a responsabilidade pessoal diante dos acontecimentos fosse plenamente assumida.
Mas a falta de sistematicidade das ações e a complexidade dos panfletos – de forma nenhuma dirigidos às “massas” – são apenas alguns indícios do que vários estudiosos do tema já confirmaram: a chamada “Rosa Branca” não chegou a se constituir como movimento, era um grupo de amigos. Suas iniciativas, que lhes custariam a vida, não nasciam de projeto político ou cultural, mas de um “anseio por liberdade individual e de uma coletividade que levava a sério o ser humano em sua subjetividade e respeitava a sua dignidade pessoal” (como diz Jens e lembrado por Corina Petrescu em sua pesquisa).
Seis pessoas, seis panfletos mimeografados, uns pouco mil leitores desconhecidos, se tanto, em busca de liberdade e respeito. Nada mais perigoso para um regime ditatorial.
Observatório Ocidentalismo
por Leandro Oliveira
Por que não pessoas mais maduras? Michael Kaiser, diretor do Kennedy Center de Washington traz um pouco de bom senso ao debate sobre políticas culturais da música clássica:
At virtually every discussion I have with board members of arts organizations (and many discussions with other arts managers as well), the desire to attract younger audience members is a primary topic. The issue is typically introduced by someone commenting negatively on the age of most current audience members: "Our audience is too old. Everyone has gray hair. Our audience members are likely to die away. We need a younger audience. How do we get young people to come to our performances?"
While I appreciate the spirit of this question, I don't really agree with the mindset of the speakers who speak as if the missions of our organizations are not aimed at servicing senior citizens. And the fear that the older audience members will die out is not exactly justified. Many people, as they reach middle age, increase their arts participation as their discretionary time and money increase; these people replace those senior audience members who do pass away. (...)
Na íntegra, aqui.
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As tantas perguntas que Greg Sandow (não) tenta responder:
(...)What is art, in a public policy sense? Is it a public good? A commodity? A service? A luxury? A form of entertainment and recreation? A social necessity? What is its purpose? To entertain and amuse, or serve as a diversion from "real life"?? To educate? To challenge? To be part of the public political discourse? Who gets to to say what is art, and what is worth preserving, producing or supporting? Professors? The NEA? The state arts council? The "man in the street?" Museum curators? Politicians? (...)
Na íntegra aqui.
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Letícia e os brasileiros no tsunami:
(...)A gente ganhou um monte de espelho em 1500 mas, pelo jeito, a novidade durou pouco.
Na íntegra aqui.
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Comprar compositores raros ou ouvir uma rádio dedicada e fazer a própria seleção, é o que oferece Classical Archives, o maior site de música clássica na internet. Vale conferir.
quinta-feira, 10 de março de 2011
Sinal de virtude
Dilema da cultura moderna, a liberação do aborto conta com defensores e acusadores em distintas vertentes do espectro ideológico e intelectual. A tomada de posição nem sempre prevê os dramáticos desdobramentos práticos - e é isso que leva a reflexões intrigantes sobre o limite dos meios para justificativa dos fins, sempre nobres à vista de ambos partidos.
por Joel Pinheiro da Fonseca
As duas imagens que tenho do militante são o socialista e o islamista. O que une a ambos? Uma coisa é o quererem implantar sistemas sociais não muito desejáveis para um homem racional, embora bem diferentes entre si (a não ser, é claro, naqueles que unem marxismo à umma). Mais do que nos fins, há uma igualdade que diz respeito aos meios: para fazer a revolução, implantar a ditadura do proletariado ou o califado universal, tudo vale. Vale matar inocentes (que, claro, por não estarem conosco, já não são tão inocentes assim), vale roubar, vale mentir. Pela causa posso cuspir na causa e jurar nada ter com ela.
Nem todos os movimentos dessas duas correntes têm essa característica. Mas ela foi e é prevalente o bastante para marcá-las. O mesmo já foi o caso até com o Catolicismo em certos lugares, mais especificamente na Inglaterra no início de era moderna (onde eles eram, verdade seja dita, brutalmente reprimidos; padres eram imediatamente condenados à morte). Alguns católicos, liderados por Guy Fawkes, tentaram explodir o Parlamento com todos os parlamentares dentro (a idéia ingênua de mandar uma carta para um parlamentar católico alertando-o do fato pôs tudo a perder, felizmente), indo inclusive contra os pedidos dos jesuítas disfarçados que ministravam em segredo pelo país. O problema é que mesmo entre os jesuítas circulavam diferentes versões da doutrina da equivocação e da reserva mental, o que ajudou na construção da caricatura do jesuíta sorrateiro, esguio, do qual é impossível extrair uma resposta que não seja dúbia. Houve muita propaganda falsa de protestantes e do governo inglês, mas os católicos no mínimo ofereceram material para tal campanha. Lições foram aprendidas.
Avancem a fita para os dias de hoje. Nos EUA, apesar da opinião pública radicalmente dividida, vigoram leis de aborto dentre as mais liberais do mundo; pode-se abortar por qualquer motivo e até bem tarde na gestação. Se o aborto falhar e o bebê nascer vivo, pode-se deixá-lo morrer. O movimento contrário ao aborto tem ganhado força. Gente que era pro-choice hoje é pro-life. Entre eles estão Bernard Nathanson, ex-médico abortista que, após ver imagens de ultrassom dos fetos que ajudava a matar, mudou de posição e passou sua vida fazendo campanha contra a prática, e até a Roe do Roe Vs. Wade, o processo que liberou o aborto, tornou-se ativista pro-life e converteu-se ao Catolicismo.
O movimento pro-life é difuso, abrangendo todas as classes e religiões (tendo inclusive partidários ateus), mas grande parte da força dele vem dos católicos americanos, que encabeçam diversas iniciativas. Uma delas, a Live Action, fez seus membros se apresentarem a clínicas de aborto da Planned Parenthood como prostitutas menores de idade acompanhadas de seu gigolô, que pede auxílio para testar e realizar abortos em suas “funcionárias”. O auxílio dado a eles prova que as clínicas da PP dão suporte a atividades ilegais e nada fazem para impedi-las; tudo devidamente filmado com câmeras escondidas.
Tática interessante, mas... seria ela moral? Afinal de contas, o que os membros do Live Action fazem é mentir, não é? Pode-se mentir por uma boa causa? Diferentes figuras do cenário católico americano deram suas opiniões. Peter Kreeft considera o ato obviamente correto. Mark Shea discorda.
É um caso difícil. Por um lado, não dá para negar que os membros da Live Action mentiram. Por outro, se concluirmos que sua ação é imoral, então todo o jornalismo investigativo e mais, toda infiltração policial em gangues de criminosos, tática consagrada da polícia, são igualmente imorais. Ademais, parece que há casos em que mentir é justificável, como o velho e conhecido “nazista à porta, judeus no sótão”. Alguns diriam que daí não se trata de mentira, mas apenas de um falsilóquio; na minha opinião, uma mal-sucedida tentativa de mudar definições para sumir com o problema.
O intuicionismo moral do Peter Kreeft não me convence; o argumento de autoridade do Mark Shea também não – embora ele faça uma distinção que me parece relevante: no caso do nazista na porta, é o inimigo que intima a responder-lhe; no caso da Live Action, são os próprios agentes que tomam a iniciativa de dar informações falsas para enganar o adversário. Ainda assim, aceitando sua posição, teríamos que concluir que o jornalismo investigativo e a infiltração policial em gangues criminosas são sempre imorais? Há uma diferença entre mentir e interpretar um papel falso (num contexto em que isso sirva para enganar o interlocutor)? Para mim a prova da honestidade de um movimento ou militância está na capacidade de fazer esse tipo de auto-questionamento. Ao invés de transformar a causa anti-aborto num ideal que a tudo santifica, colocam também ela dentro de uma estrutura moral.
Excesso de auto-questionamento é um vício destrutivo à própria causa; ausência dele é inescrupulosidade; na medida certa, um brilhante sinal de virtude.
Reitrado de Dicta.com.br
quarta-feira, 9 de março de 2011
Pensamentos soltos
por Leandro Oliveira
Desde muito não vejo novelas. Então, não há jeito, a cena é impagável mas se tornou conhecida por mim através do excelente site da Letícia L, o Flanela Paulista. E é com agradecimentos a ela que posto o vídeo, antes de falar de coisas mais pertinentes ao nosso mundinho highbrow.
Pois não é que a OSB teve seu momento Clô Souza e Silva esta semana quando, no meio do caos das novas audições, sobrou uma cobertura especial no blog do Norman Lebrecht, sem dúvida o crítico mais conhecido da música clássica internacional?
Está tudo lá: o protesto no facebook (com a estranhíssima carta de Alex Klein); a reverberação pelo mundo; o refugo da Isabelle Faust que participaria da comissão de julgamento das audições; a carta bizarra da Presidente da União dos Músicos do Rio de Janeiro apelando, vejam só, pelos "direitos humanos" dos músicos! (esses sindicalistas precisam aumentar um pouco o vocabulário, pois não...); os esforços do professor Jim Willt pela saída dos membros da banca julgadora; a carta do Roberto Minczuk diretamente ao Lebrecht (o que mostra antes de tudo a influência do crítico, mas também, o nível de pressão interna da administração da orquestra) além, ufa!, do desmentido dos itens da cartas do maestro pelos músicos da orquestra.
É a OSB no Projac!
O resumo de Lebrecht, tal como um editorial do Cid Moreira:
The musicians fear this procedure will cost many, perhaps most of them, their jobs. The conductor, Roberto Minczuk, insists that no jobs are at risk. On the contrary, the players who pass the audition will be paid more.
Clearly, neither side trusts or understands the other.
Why else would an orchestra hold auditions except to select and reject musicians? One of the international musicians named for the jury says she was unaware of any such role; another has withdrawn.
What happens now? Are the members of the Brazil Symphony Orchestra expected to play before the three remaining judges, one of who is contemplating resignation?
And how will the orchestra ever regain trust in a conductor and management who have such little faith in their own players? It would seem that many jobs are now at risk, including maestro and manager.
How soon? Your guess is as good as mine. But I cannot recall an orchestral dispute in recent years when the two sides were so far apart and good will was so low.
O que, aliás, ressalvo não por cabotinismo mas por respeito aos leitores, foi meu julgamento a respeito no post de alguns dias...
****
Sabemos que não há musicologia de verdade no Brasil quando alguns dos nossos mais importantes mitos ainda precisam de real posicionamento - não para o grande público, que é naturalmente ingênuo, mas para os especialistas. Fernando Randau faz uma exploração interessantíssima sobre Villa-Lobos e seus vínculos políticos, descarnavalizando um pouco a lenda. E aponta para a tese "Um maestro no gabinete: música e política no tempo de Villa Lobos" de Analia Chernavsky, defendida em 2003 na Unicamp, que parece fundamental.
(O assunto é palpitante e se alguém se der o trabalho, verá que apontar tal indigência é algo recorrente no site).
****
James Levine larga a Boston Symphony por problemas de saúde. O meu amigo Marcelo Lehninger, assistente da orquestra, vai ser o responsável pelo primeiro dos três concertos no Carnegie Hall. Mesmo feliz pelo Marcelinho, a verdade é que toda a história é melancólica, para muito além da saúde do maestro.
A nomeação e a sobrevida de Levine no cargo foi uma vergonha; não posso que me indignar quando da usurpação de nossos melhores homens no front: e o caso é que algumas instituições fazem o papel de nossos melhores homens, legitimando e dando parâmetros para nossas sensibilidades. Esta é a importância de um bom museu e de uma boa orquestra. Assim como ficaria triste com a má administração do Louvre, me entristece perceber que a Boston Symphony está desde muito tempo perdida por nós, nesta batalha que travamos, como cultura, pela nossa preservação (batalha dura entre ocidentais, coitados, tão suspeitos neste mundinho politicamente correto...).
Não bastasse o desastroso quarto de século sob a batuta do Seiji Ozawa - um gênio da técnica da regência mas um músico bem fraquinho, esta é a verdade - a orquestra mais rica dos EUA via agora como rotina um chefe dividido em tantas atribuições (seguia como regente do Met de Nova Iorque), e seus cancelamentos. O resultado não poderia jamais ser feliz a longo prazo e, qual um general envelhecido e senil deve saber a hora de deixar suas responsabilidades, Levine deveria ter há muito tempo pedido para sair.
Tomara que agora a orquestra encontre alguém que possa a ela se dedicar. E que não seja mais um selvagem como os dudaméis e outros tantos que estão por aí. Todo músico sério sabe, a Boston Symphony é uma boa tropa - onde, no entanto, há muito trabalho a ser feito.
****
Queria falar também da crise da Detroit Symphony, a greve dos músicos que parece ser o único assunto de verdade no mundo musical atual - a OSB, entre os comentadores do norte, é querela aborígene, uma espécie de batalha entre líbios e seu khadafi particular, cuja intervenção civilizada só acontecerá com a chancela da ONU. Ali, no império, o problema é sério pois lida com a discussão sobre o papel de uma instituição musical como uma orquestra sinfônica em épocas de crise. A cidade de Detroit tem praticamente 30% de casas abandonadas por conta da última crise financeira. A posição dos músicos se tornou muito antipática ao público, léguas de distância das orquestras que, na segunda guerra, reuniam-se sob bombardeio para levantar o moral da população. Algo deve acontecer nos próximos dias, mas a chaga já deve estar rasgada: em meio a uma das mais graves crises econômicas de todos os tempos, os músicos de Detroit preferiram viver em seu universo particular, pleiteando aumento e que tais. Realizam a greve de músicos mais longa da história (já dura mais de cinco meses) e é possível que jamais saiam dela. Ao menos espiritualmente. Mas acho que é assunto para outro post... talvez não. A ver.
Desde muito não vejo novelas. Então, não há jeito, a cena é impagável mas se tornou conhecida por mim através do excelente site da Letícia L, o Flanela Paulista. E é com agradecimentos a ela que posto o vídeo, antes de falar de coisas mais pertinentes ao nosso mundinho highbrow.
Pois não é que a OSB teve seu momento Clô Souza e Silva esta semana quando, no meio do caos das novas audições, sobrou uma cobertura especial no blog do Norman Lebrecht, sem dúvida o crítico mais conhecido da música clássica internacional?
Está tudo lá: o protesto no facebook (com a estranhíssima carta de Alex Klein); a reverberação pelo mundo; o refugo da Isabelle Faust que participaria da comissão de julgamento das audições; a carta bizarra da Presidente da União dos Músicos do Rio de Janeiro apelando, vejam só, pelos "direitos humanos" dos músicos! (esses sindicalistas precisam aumentar um pouco o vocabulário, pois não...); os esforços do professor Jim Willt pela saída dos membros da banca julgadora; a carta do Roberto Minczuk diretamente ao Lebrecht (o que mostra antes de tudo a influência do crítico, mas também, o nível de pressão interna da administração da orquestra) além, ufa!, do desmentido dos itens da cartas do maestro pelos músicos da orquestra.
É a OSB no Projac!
O resumo de Lebrecht, tal como um editorial do Cid Moreira:
The musicians fear this procedure will cost many, perhaps most of them, their jobs. The conductor, Roberto Minczuk, insists that no jobs are at risk. On the contrary, the players who pass the audition will be paid more.
Clearly, neither side trusts or understands the other.
Why else would an orchestra hold auditions except to select and reject musicians? One of the international musicians named for the jury says she was unaware of any such role; another has withdrawn.
What happens now? Are the members of the Brazil Symphony Orchestra expected to play before the three remaining judges, one of who is contemplating resignation?
And how will the orchestra ever regain trust in a conductor and management who have such little faith in their own players? It would seem that many jobs are now at risk, including maestro and manager.
How soon? Your guess is as good as mine. But I cannot recall an orchestral dispute in recent years when the two sides were so far apart and good will was so low.
O que, aliás, ressalvo não por cabotinismo mas por respeito aos leitores, foi meu julgamento a respeito no post de alguns dias...
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Sabemos que não há musicologia de verdade no Brasil quando alguns dos nossos mais importantes mitos ainda precisam de real posicionamento - não para o grande público, que é naturalmente ingênuo, mas para os especialistas. Fernando Randau faz uma exploração interessantíssima sobre Villa-Lobos e seus vínculos políticos, descarnavalizando um pouco a lenda. E aponta para a tese "Um maestro no gabinete: música e política no tempo de Villa Lobos" de Analia Chernavsky, defendida em 2003 na Unicamp, que parece fundamental.
(O assunto é palpitante e se alguém se der o trabalho, verá que apontar tal indigência é algo recorrente no site).
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James Levine larga a Boston Symphony por problemas de saúde. O meu amigo Marcelo Lehninger, assistente da orquestra, vai ser o responsável pelo primeiro dos três concertos no Carnegie Hall. Mesmo feliz pelo Marcelinho, a verdade é que toda a história é melancólica, para muito além da saúde do maestro.
A nomeação e a sobrevida de Levine no cargo foi uma vergonha; não posso que me indignar quando da usurpação de nossos melhores homens no front: e o caso é que algumas instituições fazem o papel de nossos melhores homens, legitimando e dando parâmetros para nossas sensibilidades. Esta é a importância de um bom museu e de uma boa orquestra. Assim como ficaria triste com a má administração do Louvre, me entristece perceber que a Boston Symphony está desde muito tempo perdida por nós, nesta batalha que travamos, como cultura, pela nossa preservação (batalha dura entre ocidentais, coitados, tão suspeitos neste mundinho politicamente correto...).
Não bastasse o desastroso quarto de século sob a batuta do Seiji Ozawa - um gênio da técnica da regência mas um músico bem fraquinho, esta é a verdade - a orquestra mais rica dos EUA via agora como rotina um chefe dividido em tantas atribuições (seguia como regente do Met de Nova Iorque), e seus cancelamentos. O resultado não poderia jamais ser feliz a longo prazo e, qual um general envelhecido e senil deve saber a hora de deixar suas responsabilidades, Levine deveria ter há muito tempo pedido para sair.
Tomara que agora a orquestra encontre alguém que possa a ela se dedicar. E que não seja mais um selvagem como os dudaméis e outros tantos que estão por aí. Todo músico sério sabe, a Boston Symphony é uma boa tropa - onde, no entanto, há muito trabalho a ser feito.
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Queria falar também da crise da Detroit Symphony, a greve dos músicos que parece ser o único assunto de verdade no mundo musical atual - a OSB, entre os comentadores do norte, é querela aborígene, uma espécie de batalha entre líbios e seu khadafi particular, cuja intervenção civilizada só acontecerá com a chancela da ONU. Ali, no império, o problema é sério pois lida com a discussão sobre o papel de uma instituição musical como uma orquestra sinfônica em épocas de crise. A cidade de Detroit tem praticamente 30% de casas abandonadas por conta da última crise financeira. A posição dos músicos se tornou muito antipática ao público, léguas de distância das orquestras que, na segunda guerra, reuniam-se sob bombardeio para levantar o moral da população. Algo deve acontecer nos próximos dias, mas a chaga já deve estar rasgada: em meio a uma das mais graves crises econômicas de todos os tempos, os músicos de Detroit preferiram viver em seu universo particular, pleiteando aumento e que tais. Realizam a greve de músicos mais longa da história (já dura mais de cinco meses) e é possível que jamais saiam dela. Ao menos espiritualmente. Mas acho que é assunto para outro post... talvez não. A ver.
quarta-feira, 2 de março de 2011
A queda dos que não sobem
por Leandro Oliveira
No Globo online de hoje, notícia que de algum modo interessa a todos:
RIO - O sociólogo Emir Sader não vai mais assumir a presidência da Fundação Casa de Rui Barbosa conforme havia sido anunciado pelo governo, segundo informou o colunista do GLOBO Ancelmo Gois. O professor fez críticas à ministra da Cultura, Ana de Hollanda.
Sader, cuja nomeação para a Casa de Rui Barbosa ainda não chegou a ser publicada no "Diário Oficial", chamou Ana de Hollanda de "autista" em entrevista ao jornal "Folha de S. Paulo" e disse que ela não reagiu aos cortes orçamentários. Sader também teria manifestado intenção de transformar a fundação num centro de debates sobre "o Brasil para Todos", um slogan do governo Lula. A ministra ainda não anunciou o que fará em relação a Sader, mas fontes no MinC dizem que ele pode ser demitido nos próximos dias.
No Globo online de hoje, notícia que de algum modo interessa a todos:
RIO - O sociólogo Emir Sader não vai mais assumir a presidência da Fundação Casa de Rui Barbosa conforme havia sido anunciado pelo governo, segundo informou o colunista do GLOBO Ancelmo Gois. O professor fez críticas à ministra da Cultura, Ana de Hollanda.
Sader, cuja nomeação para a Casa de Rui Barbosa ainda não chegou a ser publicada no "Diário Oficial", chamou Ana de Hollanda de "autista" em entrevista ao jornal "Folha de S. Paulo" e disse que ela não reagiu aos cortes orçamentários. Sader também teria manifestado intenção de transformar a fundação num centro de debates sobre "o Brasil para Todos", um slogan do governo Lula. A ministra ainda não anunciou o que fará em relação a Sader, mas fontes no MinC dizem que ele pode ser demitido nos próximos dias.
terça-feira, 1 de março de 2011
La prova d'orchestra
por Leandro Oliveira
Com exceção dos sádicos, ninguém gosta de mandar gente embora do emprego. Muito menos, deveria gostar de mandar fora musicistas - gente normalmente sensível e dedicada, a despeito de sua destreza. Dito isso, a máxima: nem todo maestro é sádico. É com isso em mente que acompanho a querela entre os músicos da Orquestra Sinfônica Brasileira, no Estadão de hoje, já antevisto nos jornais locais há algumas semanas.
Roberto Minczuk está, a duras penas, nos últimos cinco anos, tentando realizar no Rio de Janeiro aquilo que foi feito em São Paulo mais de dez anos atrás. Ali, infelizmente, as condições parecem um pouco problemáticas, mercê de fatores políticos e logísticos infinitamente mais complexos que aqueles da terra da garoa. Nada de novo no front. Embora possa parecer que no Brasil tais coisas sejam mais comuns que em outra parte, no mundo inteiro a relação entre músicos e maestro é conturbada.
Exemplo recente na Welsh National Opera: um oboista, que trabalhava na instituição há 34 anos, acusou o regente de bullying. O problema foi parar no tribunal.
Uma orquestra é um organismo sensível de alto rendimento. Os concertos geralmente são agendados com bastante antecipação, mudanças de última hora não são mais toleradas pelo público ou pelos patrocinadores mais antenados, e os ensaios nem sempre são programados em número adequado. Tudo isso, sem dúvida, gera algum senão muito stress. E embora o problema de uma orquestra esteja para além dos critérios de eficiência e racionalidade de uma gestão administrativa, a boa economia de meios é fundamental: um maestro, visitante ou titular do posto, precisa ser hábil e severo para obter o máximo de resultado no mínimo tempo disponível. Habilidade que nem sempre está presente.
Por isso, há que se considerar algo de notadamente "político" nesta relação maestro-orquestrais. Antipatias podem fazer com que a colaboração seja prejudicada e, não tenha dúvidas, se o músico não coopera, não há regente genial ou chiliquento que dê jeito. (Mesmo sendo o chilique violento como no vídeo abaixo; aos com coração frágil, ou amantes de Brahms, é altamente recomendável pular o áudio e seguir o texto.)
O que deve acontecer em tais casos? Idealmente, a parte que se sente incomodada deve reportar o incidente de um eventual recalcitrante ao administrador artístico, que precisa ser rápido e discreto ao lidar com o assunto. É sabido de ao menos um caso cujo dilema parece quase irreal onde o regente titular e o spalla - o líder dos primeiros violinos e o mais importante músico da orquestra, entre outras coisas, responsável pela afinação - não se davam. É algo como o técnico e o capitão do time serem inimigos. O administrador artístico, experiente no assunto, fez com que nos tantos anos de colaboração do maestro com a orquestra, os dois não tivessem que compartilhar o palco - um sistema de rodízio engenhoso que foi fundamental para a manutenção da boa governança do grupo.
Mas nada disso existe no Brasil, a não ser na Osesp.
Uma orquestra pode acomodar personalidades vaidosas e humildes. É de sua natureza. Mas não pode tolerar incompetentes e revolucionários. Ambos são motivos de conflito e, uma vez o conflito instaurado, o processo passa a ser doloroso e muitas vezes irreversível. No caso da OSB, infelizmente, o processo parece já ter dado água...
(para quem não lembra, a solução encontrada na Osesp para um problema similar de avaliação dos músicos, e a eventual demissão dos inadequados, foi não só a contratação dos aprovados na atual Osesp, mas a relocação dos desaprovados em uma nova orquestra, SOB AS MESMAS CONDIÇÕES DE TRABALHO antigas)
...e, dali em diante, temo, pouco poderá ser feito. Mesmo que a audição aconteça e o maestro selecione os seus, se bem organizados os músicos poderão sempre fazer pequenos boicotes, que facilmente minarão a qualidade artística do projeto como um todo. Com tantos regentes girando no posto, não é difícil saber que é disso que se trata o embróglio do Theatro Municipal de São Paulo; ali, a opção já foi tomada.
A vitória dos que gritam mais alto - maestros ou sindicatos - e não do bom senso mediado, sempre resulta na miséria institucional.
Com exceção dos sádicos, ninguém gosta de mandar gente embora do emprego. Muito menos, deveria gostar de mandar fora musicistas - gente normalmente sensível e dedicada, a despeito de sua destreza. Dito isso, a máxima: nem todo maestro é sádico. É com isso em mente que acompanho a querela entre os músicos da Orquestra Sinfônica Brasileira, no Estadão de hoje, já antevisto nos jornais locais há algumas semanas.
Roberto Minczuk está, a duras penas, nos últimos cinco anos, tentando realizar no Rio de Janeiro aquilo que foi feito em São Paulo mais de dez anos atrás. Ali, infelizmente, as condições parecem um pouco problemáticas, mercê de fatores políticos e logísticos infinitamente mais complexos que aqueles da terra da garoa. Nada de novo no front. Embora possa parecer que no Brasil tais coisas sejam mais comuns que em outra parte, no mundo inteiro a relação entre músicos e maestro é conturbada.
Exemplo recente na Welsh National Opera: um oboista, que trabalhava na instituição há 34 anos, acusou o regente de bullying. O problema foi parar no tribunal.
Uma orquestra é um organismo sensível de alto rendimento. Os concertos geralmente são agendados com bastante antecipação, mudanças de última hora não são mais toleradas pelo público ou pelos patrocinadores mais antenados, e os ensaios nem sempre são programados em número adequado. Tudo isso, sem dúvida, gera algum senão muito stress. E embora o problema de uma orquestra esteja para além dos critérios de eficiência e racionalidade de uma gestão administrativa, a boa economia de meios é fundamental: um maestro, visitante ou titular do posto, precisa ser hábil e severo para obter o máximo de resultado no mínimo tempo disponível. Habilidade que nem sempre está presente.
Por isso, há que se considerar algo de notadamente "político" nesta relação maestro-orquestrais. Antipatias podem fazer com que a colaboração seja prejudicada e, não tenha dúvidas, se o músico não coopera, não há regente genial ou chiliquento que dê jeito. (Mesmo sendo o chilique violento como no vídeo abaixo; aos com coração frágil, ou amantes de Brahms, é altamente recomendável pular o áudio e seguir o texto.)
O que deve acontecer em tais casos? Idealmente, a parte que se sente incomodada deve reportar o incidente de um eventual recalcitrante ao administrador artístico, que precisa ser rápido e discreto ao lidar com o assunto. É sabido de ao menos um caso cujo dilema parece quase irreal onde o regente titular e o spalla - o líder dos primeiros violinos e o mais importante músico da orquestra, entre outras coisas, responsável pela afinação - não se davam. É algo como o técnico e o capitão do time serem inimigos. O administrador artístico, experiente no assunto, fez com que nos tantos anos de colaboração do maestro com a orquestra, os dois não tivessem que compartilhar o palco - um sistema de rodízio engenhoso que foi fundamental para a manutenção da boa governança do grupo.
Mas nada disso existe no Brasil, a não ser na Osesp.
Uma orquestra pode acomodar personalidades vaidosas e humildes. É de sua natureza. Mas não pode tolerar incompetentes e revolucionários. Ambos são motivos de conflito e, uma vez o conflito instaurado, o processo passa a ser doloroso e muitas vezes irreversível. No caso da OSB, infelizmente, o processo parece já ter dado água...
(para quem não lembra, a solução encontrada na Osesp para um problema similar de avaliação dos músicos, e a eventual demissão dos inadequados, foi não só a contratação dos aprovados na atual Osesp, mas a relocação dos desaprovados em uma nova orquestra, SOB AS MESMAS CONDIÇÕES DE TRABALHO antigas)
...e, dali em diante, temo, pouco poderá ser feito. Mesmo que a audição aconteça e o maestro selecione os seus, se bem organizados os músicos poderão sempre fazer pequenos boicotes, que facilmente minarão a qualidade artística do projeto como um todo. Com tantos regentes girando no posto, não é difícil saber que é disso que se trata o embróglio do Theatro Municipal de São Paulo; ali, a opção já foi tomada.
A vitória dos que gritam mais alto - maestros ou sindicatos - e não do bom senso mediado, sempre resulta na miséria institucional.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Jazz para que te quero...
por Leandro Oliveira
Infelizmente, o Theatro Municipal segue o mantra da permanente improvisação. Após a saída repentina de Alex Klein, foi nomeado - de modo certamente não menos repentino - o maestro Abel Rocha. Ele será o responsável para levar adiante os projetos do centenário da instituição, no papel de seu diretor artístico.
A reedição pouco humorada de "Apertem o cinto, o piloto sumiu"? Tomara que não. Mas é fato que o talentoso maestro - cujos serviços musicais à cidade são incontestáveis - aceitou muito mais que um desafio artístico que o corajoso papel de performer como homem-bala. Não há o que ele ou qualquer outro possam fazer em um lugar como esse, a não ser cultivar-se como bucha de canhão, improvisando à tarde a solução para o incêndio que se conflagra pela manhã.
Ironia do destino: ao contrário das acusações (injustas) que levaram à queda de seu antecessor Rodrigo de Carvalho, Alex Klein saiu não por "inépcia artística". Seria impensável, artista consagrado que é. Embora possamos refletir sobre sua habilidade para gerir uma instituição complexa como o Theatro Municipal sem experiência administrativa prévia (muitos duvidavam de sua capacidade), na verdade, justiça seja feita, ele sequer teve tempo de mostrar incompetência. Ambos (e a eles soma-se José Maria Florêncio, o antecessor de Rodrigo) sairam por não ter como bancar politicamente as decisões necessárias para a reestruturação do projeto - soluções dolorosas mas factíveis e certamente conhecidas por todos.
O problema do Theatro Municipal é a ilustração da falta de capacidade da burocracia pública de gerir uma instituição cultural dinâmica, independente e com planos de médio prazo. E do poder de grupos internos de pressão que, ao fim e ao cabo, querem apenas que tudo fique como está. Nelson Kunze resume de forma lapidar:
A nossa vergonha cultural é o Teatro Municipal de São Paulo, mais tradicional palco da cidade, que neste ano, de portas fechadas, comemora tristemente o seu centenário. Onerando os cofres públicos em milhões de reais todos os meses, o Teatro Municipal não oferece à cidade o bem para o qual foi concebido, qual seja, a ópera. (A bem da verdade, não oferece nem ao menos música sinfônica.) Amarrado a uma estrutura antiquada e burocrática no pior sentido do termo, o teatro é implacável na destruição de qualquer iniciativa de mudança. E a lista dos maestros e gestores moídos pela máquina acaba de ganhar mais um medalhão, desta vez o oboísta e maestro Alex Klein.
Não pensem que os derrotados são fracos, incompetentes ou covardes. A lista ostenta nomes de personalidades que se afirmaram entre os melhores do mundo – taí Alex Klein para confirmar. Ocorre que não há força humana capaz de enfrentar a morosidade e a impessoalidade cínicas da burocracia do estado. Um projeto de lei em tramitação na Câmara de Vereadores, que pretende transformar o Teatro Municipal em uma fundação pública, é a luz que brilha no fim do túnel. O túnel, contudo, parece um filme de terror – quanto mais se avança nele, mais fraca a luz vai se tornando.
A "luz que brilha no fim do túnel", no entanto, me parece ser menos a saída que um trem desgovernado que vem à nossa direção. Esperar a aprovação da lei que transforma a personalidade jurídica gestora do Theatro é um falso caminho pois a personalidade jurídica é apenas um modelo administrativo para cuidar de coisas muito mais fundamentais. E estas coisas fundamentais seguem desconversadas. Quais serão as estratégias de sustentabilidade financeira, marketing e coordenação administrativa? Como serão geridos os dilemas de trabalho como passivo trabalhista, avaliação do corpo artístico, contratação de corpo técnico, previdência?
Após tanto tempo inerte, seria de se esperar que ao menos este plano detalhado estivesse publicado pela administração atual responsável pelo Theatro. Mas não está, ninguém sabe, ninguém viu, provavelmente não há.
Toda sorte a Abel Rocha! Mas não me iludo - todos amigos, sem exceção, confundem votos de auspícios com a projeção da vontade como realidade (uma maneira bizarra de wishful thinking), e acham que "agora vai!". As condições da nomeação do maestro não são sequer razoáveis e ele deve ter recebido pouco mais que escombros das gestões anteriores (há, pelo que parece, um esboço de temporada, a partir de onde deverá trabalhar...).
Não esperemos milagres, exatamente para que não queimemos mais este ator importante da cultura paulista. Se for bem sucedido, ou seja, se sobreviver por mais de uma temporada, mais do que maestro e gestor, Abel Rocha terá mostrado apenas seu talento como jazzer.
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Cultura sem limites
por Leandro Oliveira
Bráulio Mantovani, Luís Felipe Pondé, Nivaldo Cordeiro, o papai aqui, Laís Bodansky... é parte da turma de gente buona que participa da primeiríssima edição do projeto "Cultura sem Limites" na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.
Cursos sobre Dostoiévski, Ocidente, Nelson Rodrigues ou - meu assunto preferido - a cultura como negócio vão balançar as rochas da Avenida Paulista. Vagas limitadas: informem-se, divulguem, façam a inscrição: o primeiro curso já no final de Março.
Para saber mais do "Cultura sem limites", clique aqui.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Islã na encruzilhada dos valores
Acompanhadas com apreensão por todos os entusiastas dos valores Ocidentais, as recentes convulsões no oriente médio trazem perguntas bastante pertinentes sobre o real papel das liberdades individuais na construção de uma sociedade justa - e como poderá o Islã cultivar tais valores sem sua modernização.
por Joel Pinheiro da Fonseca
Talvez seja cedo para dizer, mas tudo indica que as atuais revoltas populares no mundo islâmico terão impacto duradouro. Por décadas ditadores permaneceram no poder sem grande contestação, e agora nenhum deles sente-se seguro. É possível que haja alguma conspiração por trás dessas revoltas; mas pela primeira vez na história não é necessário, como bem argumenta Gary North. As redes sociais, devido a seu baixíssimo custo de entrada, permitem a publicação dos sentimentos e a articulação de movimentos de massa sem organização central. Ela também diminui muito a possibilidade de reação do governo. Se em décadas passadas um regime autocrático não hesitaria em abrir fogo contra os manifestantes, seguros de que poucos fora dali ficariam sabendo, hoje é uma questão de minutos entre o disparo de uma bala e a transmissão da morte de um civil a milhões de computadores.
A grande questão é o que sairá desses movimentos. Há fortes traços islamistas, o que não impede que cristãos tomem parte (apesar das sempre cautelosas palavras do papa Shenouda III pedindo oração e não-participação; o momento é extremamente delicado). Islamismo não necessariamente significa algo pior ou mais odioso do que o que está no poder agora. É um fato curioso: governos seculares de países islâmicos incentivam a propagação do salafismo wahhabita importado da Arábia Saudita, pois ele nada tem a dizer de política, e portanto apresenta menos perigo imediato ao governo do que islamismos menos fundamentalistas mas mais politizados.
Rashid Ghannouchi, que voltou à Tunísia depois de anos exilado, defende governo secular, direitos das mulheres e poder aos sindicatos. Sua mensagem, embora sempre baseada no Corão, é essencialmente a mensagem de um movimento social por direitos humanos, sem nada do fanatismo de uma Al Qaeda. No próprio Egito, pouco antes dos ataques, foi publicado o “Documento de Renovação do Islã” assinado por diversos intelectuais; seu conteúdo é surpreendentemente moderno. Jihad, por exemplo, só defensiva e em terras islâmicas; convivência entre homens e mulheres aceita em universidades e ambientes de trabalho. Pode parecer pouco, mas se trata de um país onde, devido à influência saudita, o próprio convívio social entre os sexos ia sendo proibido, e no qual as mulheres são constrangidas a usar roupas cada vez mais “modestas”.
A principal característica do Islã saudita é a preocupação exclusiva com a adesão exterior a preceitos legais; todo homem deve ter barba e usar túnica, toda mulher deve estar completamente coberta, todo intercâmbio social entre os sexos é proibido, não se pode ter conta em banco, etc. Recentemente uma mulher perguntou a um doutor da lei em seu programa de rádio o que ela deveria fazer agora que as circunstâncias a obrigavam a trabalhar no mesmo recinto que um homem. O doutor sugeriu que ela amamentasse o colega. Sim, você leu isso mesmo: que ela desse de mamar a ele do próprio peito, e dessa forma seriam como mãe e filho, e portanto livres do risco da fornicação. No limite, o legalismo viola o espírito de suas próprias leis. A reação pública foi geral. A mesma reação que está por trás do documento dos intelectuais e das revoltas populares.
O discurso salafista (do qual o wahhabismo é uma vertente) de se manter fiel às práticas das primeiras gerações parece perder legitimidade entre o povo (ufa! Resta algum bom senso!). O documento dos intelectuais também adota o discurso de se preservar os valores originais do Islã. Só que, para eles, os valores não são a barba e o niqab, e sim “liberdade, igualdade, conhecimento, justiça e ciência”. Se isso tudo estava de fato na origem do Islã eu não sei; mas é bom que os intelectuais advoguem tais coisas.
Ao mesmo tempo em que as revoltas nos dão motivos para ter esperança, elas também trazem algo de preocupante. É o medo de dizer abertamente o que está em jogo, de apontar o verdadeiro valor a ser defendido, que acaba tomando segundo plano para uma outra bandeira que é necessariamente secundária: a democracia. Colocar a esperança na democracia enquanto tal é ingênuo. Ahmadinejad foi eleito democraticamente; seria ele muito melhor que Mubarak? Democracia é uma forma de se organizar o funcionamento da política; ela não traz consigo nenhum conteúdo; será o que a maioria quiser. E se a maioria quiser uma teocracia islâmica na qual cristãos e judeus pagam impostos extras e membros de outras religiões são expulsos ou mortos, é o que terão, democraticamente. O ponto fundamental, o valor que a democracia supostamente defende melhor do que outras formas de governo e por isso deve ser preferida, é o respeito aos direitos individuais. Sem isso, não há governo justo e não há esperança de melhora. Há algo de angustiante em um intelectual cristão animado com o prospecto de democracia no Egito (num dos artigos acima citados), sob a qual a minoria cristã (entre 5% e 10%) poderia ser representada.
Mas minoria no governo não significa nada; nem uma maioria significa se não há comprometimento do Estado em fazer valer os direitos individuais, como o Líbano tem mostrado claramente. A bandeira tem que ser os direitos individuais; não a democracia e não o direito das religiões ou das minorias; pois aglomerados não têm direitos, e é perfeitamente possível representar uma minoria oficialmente no governo e ainda assim tratar muitos de seus membros como cidadãos de segunda classe (por exemplo, impondo infinitas restrições à sua fé, como ocorre na Turquia, onde é praticamente impossível conseguir permissão para coisas como consertar o telhado de uma igreja), deixando os representantes oficiais da minoria a choramingar por uma tolerância cada vez menos respeitada. O que realmente importa é o direito individual, que inclui o direito a aderir à religião que lhe parecer verdadeira (e cujo corolário é, portanto, o direito a mudar de religião sem qualquer sanção), até mesmo se ela não constituir uma minoria significativa.
Os direitos individuais são a pedra de toque para saber se uma convivência minimamente harmônica entre Ocidente e Islã é possível. O que distingue o Ocidente das demais civilizações é sua base espiritual, que se concretiza em posições filosóficas: a afirmação da razão humana como eficaz para conhecer a realidade e, como consequência disso, a descoberta de uma moral objetiva. Um dos maiores méritos de S. Tomás de Aquino é exatamente esse: a elaboração racional da ética sem necessidade de fé e não circunscrita a um “povo eleito”. Nossos direitos universais inalienáveis são descendentes diretos da lei natural de S. Tomás. É muito significativo que, nos séculos XVI e XVII, enquanto a Espanha expandia seu império e escravizava povos inteiros, os teólogos de Salamanca afirmassem que os índios tinham direito às suas terras e liberdade, que nada justificava o roubo de suas posses e sua escravização, nem mesmo a recusa em se converter ao Cristianismo. Parece pouco, dado que os crimes ocorreram sem grandes empecilhos práticos? É verdade, ocorreram; mas ninguém duvidava seriamente de que eram crimes, ou seja, violações de uma ordem moral objetiva. No campo do espírito Salamanca venceu, e isso fez toda a diferença.
As grandes conquistas do Ocidente decorrem da afirmação da eficácia da razão humana no plano teórico e dos direitos individuais no plano prático. A ciência, a arte, a riqueza são consequências disso. Os muçulmanos não têm nenhum pudor em se apropriar da tecnologia ocidental (embora incapazes de contribuir eles próprios com ela) e de certas filosofias ocidentais. Marxismo, relativismo, desconstrucionismo; de fato, todas vieram do Ocidente; mas o que as caracteriza é justamente a negação daquilo que nos constitui. A razão humana é incapaz de conhecer o mundo real, e o discurso moral e político não passa de máscara para jogos de poder. Elas caem como uma luva para uma visão de mundo fideísta como é a do Islã convencional (e isso vem de muitos séculos): a razão é impotente, portanto tudo é questão de fé, e portanto ninguém tem como criticar minha fé. Não há certo e errado objetivos, apenas vontades arbitrárias em conflito; portanto, entreguemo-nos à vontade arbitrária de Deus; e ninguém pode questionar as minhas práticas. Como evidência deste casamento funesto apresento este artigo de opinião pós-moderno da Al Jazeera.
A grande questão nas atuais manifestações é se os muçulmanos serão capazes de aceitar (e eu acredito que serão, pois o bom senso natural do homem está do nosso lado) o nosso verdadeiro patrimônio, a idéia de direitos individuais válidos para todo e qualquer homem, que é o que permite que a democracia não degenere na mera vontade tirânica da maioria. A outra possibilidade é bem representada pela queima de uma efígie de Mubarak com a estrela de Davi desenhada no rosto. E daí teremos mais do mesmo: nações pobres espiritual e materialmente por restrições irracionais auto-impostas, violando a dignidade de seus próprios cidadãos e atribuindo suas mazelas a terceiros que não têm nada a ver. Importa se isso ocorre democrática ou ditatorialmente?
Retirado de Dicta.com.br
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Direitos autorais?
por Leandro Oliveira
Nossos ministros cantores. Depois do Gilberto Gil, Juca Ferreira... Juca não canta? Ah, mas isso é um detalhe! No saguão do aeroporto, retornando do Rio, encontrei Ana de Hollanda. Soube depois que fizera uma canja no show da Miúcha, ali no CCBB. Achei um pouco sui generis, mas era coisa de família.
Agora é, inevitável, a hora e a vez da Ministra (ops!). E com ela uma discussão muito nobre sobre direitos de autor, Creative Commons e tudo isso que nos atormenta desde pelo menos o Renascimento. O problema se torna evidente com a internet, que permitiu o elogio à pirataria e o acesso a informações aparentemente sem qualquer possibilidade de controle.
Para nós que amamos música clássica tais características dificilmente poderiam ser ditas "problemas". Hoje, uma benção, podemos ouvir, ou por vezes ver partituras e performances de virtualmente todo o repertório composto pela humanidade. O Google é o maior amigo da atual musicologia.
Mas para o mercado clássico a coisa está longe de deixar de ser controversa. Demorou um pouco mas infelizmente a política de direitos de autor tomou conta dos canais clássicos do YouTube. Basicamente, se uma orquestra ou selo encontram uma de suas performances no site sem sua autorização podem requerer sua retirada - ou, mais bizarro, seu emudecimento. Considero uma bobagem, a perda da oportunidade de alcançar um novo mercado, mas isso fica para outro post. Chama atenção outro incidente, hilário. Primeiro, o vídeo abaixo:
Algo estranho? Algo muito estranho. Trata-se da gravação de 4’33″ de John Cage, a famosa música onde prevê um pianista que, ao entrar no palco, fica por quatro minutos e trinta e três segundos em silêncio... uma provocação cheia de intenções filosóficas (ou pseudo-filosóficas) mas que nem sempre é bem entendida. Agora o inusitado: se tentarmos tocar o vídeo em sua página original veremos a seguinte informação:
AVISO Este vídeo contém uma faixa de áudio que não foi autorizada por WMG. O áudio foi desativado.
O ápice do nonsense burocrático desautorizar a "execução" do silêncio. (E nem é a primeira vez que a performance da peça cria tais embaraços). É ou não não uma maravilha?
Nossos ministros cantores. Depois do Gilberto Gil, Juca Ferreira... Juca não canta? Ah, mas isso é um detalhe! No saguão do aeroporto, retornando do Rio, encontrei Ana de Hollanda. Soube depois que fizera uma canja no show da Miúcha, ali no CCBB. Achei um pouco sui generis, mas era coisa de família.
Agora é, inevitável, a hora e a vez da Ministra (ops!). E com ela uma discussão muito nobre sobre direitos de autor, Creative Commons e tudo isso que nos atormenta desde pelo menos o Renascimento. O problema se torna evidente com a internet, que permitiu o elogio à pirataria e o acesso a informações aparentemente sem qualquer possibilidade de controle.
Para nós que amamos música clássica tais características dificilmente poderiam ser ditas "problemas". Hoje, uma benção, podemos ouvir, ou por vezes ver partituras e performances de virtualmente todo o repertório composto pela humanidade. O Google é o maior amigo da atual musicologia.
Mas para o mercado clássico a coisa está longe de deixar de ser controversa. Demorou um pouco mas infelizmente a política de direitos de autor tomou conta dos canais clássicos do YouTube. Basicamente, se uma orquestra ou selo encontram uma de suas performances no site sem sua autorização podem requerer sua retirada - ou, mais bizarro, seu emudecimento. Considero uma bobagem, a perda da oportunidade de alcançar um novo mercado, mas isso fica para outro post. Chama atenção outro incidente, hilário. Primeiro, o vídeo abaixo:
Algo estranho? Algo muito estranho. Trata-se da gravação de 4’33″ de John Cage, a famosa música onde prevê um pianista que, ao entrar no palco, fica por quatro minutos e trinta e três segundos em silêncio... uma provocação cheia de intenções filosóficas (ou pseudo-filosóficas) mas que nem sempre é bem entendida. Agora o inusitado: se tentarmos tocar o vídeo em sua página original veremos a seguinte informação:
AVISO Este vídeo contém uma faixa de áudio que não foi autorizada por WMG. O áudio foi desativado.
O ápice do nonsense burocrático desautorizar a "execução" do silêncio. (E nem é a primeira vez que a performance da peça cria tais embaraços). É ou não não uma maravilha?
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Beleza, uma hora dessas?
por Leandro Oliveira
Em "Por que a beleza importa", eu falei um pouco sobre arte, mas estava mais preocupado em chamar atenção para o lugar da beleza na vida cotidiana -- nas maneiras, nas roupas, na decoração de interiores e em edifícios vernaculares comuns. Eu critiquei tanto a arquitetura funcional de concreto e vidro, que destruiu cidades em todo o mundo, quanto as maneiras egocêntricas que fizeram o mesmo com a vida doméstica. Tentei explicar por que os filósofos do Iluminismo acompanharam Shaftesbury ao colocarem a beleza no centro do novo código de valores seculares. Para Shaftesbury, Burke, Kant, Schiller e seus seguidores, sugeri eu, a beleza era o caminho de volta para o mundo que eles estavam perdendo, com a perda do Deus cristão -- o mundo do sentido, da ordem e da transcendência, que deve ser constantemente emulado neste mundo se quisermos que nossas vidas sejam verdadeiramente humanas e verdadeiramente plenas de significado. E afirmei em seguida que desde as piadas pueris de Marcel Duchamp, repetidas reiteradas vezes em toda mostra de faculdade de graduação em artes na Grã-Bretanha, um hábito de sarcasmo e profanação tinha se apoderado do exercício das artes visuais.
O sempre exato Roger Scruton em artigo imperdível aqui.
Em "Por que a beleza importa", eu falei um pouco sobre arte, mas estava mais preocupado em chamar atenção para o lugar da beleza na vida cotidiana -- nas maneiras, nas roupas, na decoração de interiores e em edifícios vernaculares comuns. Eu critiquei tanto a arquitetura funcional de concreto e vidro, que destruiu cidades em todo o mundo, quanto as maneiras egocêntricas que fizeram o mesmo com a vida doméstica. Tentei explicar por que os filósofos do Iluminismo acompanharam Shaftesbury ao colocarem a beleza no centro do novo código de valores seculares. Para Shaftesbury, Burke, Kant, Schiller e seus seguidores, sugeri eu, a beleza era o caminho de volta para o mundo que eles estavam perdendo, com a perda do Deus cristão -- o mundo do sentido, da ordem e da transcendência, que deve ser constantemente emulado neste mundo se quisermos que nossas vidas sejam verdadeiramente humanas e verdadeiramente plenas de significado. E afirmei em seguida que desde as piadas pueris de Marcel Duchamp, repetidas reiteradas vezes em toda mostra de faculdade de graduação em artes na Grã-Bretanha, um hábito de sarcasmo e profanação tinha se apoderado do exercício das artes visuais.
O sempre exato Roger Scruton em artigo imperdível aqui.
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
QUEM AQUI NÃO TEVE UMA NAMORADINHA QUE TEVE QUE ABORTAR?
Sérgio Cabral, candidato reeleito Governador do Rio de Janeiro é, antes de tudo - e a despeito de sua competência ou incompetência, não entraremos no mérito - é antes de tudo, dizíamos, um falastrão. Sua última máxima é uma mínima. Talyta Carvalho discute o caso.
por Talyta Carvalho
Sou jovem, mulher, namorada, filha e tento ser “filósofa-intelectual-acadêmica”. Sou uma daquelas garotas que as pessoas olham com a impressão (pouco importa se certa ou errada) de que à minha frente há um mundo de possibilidades, de coisas a serem vividas, de vitórias a serem conquistadas. Obviamente, não atingi nenhum ápice na vida ainda, seja ele o ápice pessoal ou profissional. A rigor, ainda não cheguei a lugar algum; muito embora pareça que a tendência é que um dia eu chegue, afinal, recebi os instrumentos para tanto. Imagine você leitor, o que uma gravidez acidental poderia representar neste exato momento da minha vida, que ao que tudo indica, caminha para um belo futuro?
Falo hipoteticamente, é claro. Sei que o leitor sabe que não estou, de fato, grávida. Apenas quis apontar o lugar de onde falarei sobre o polêmico tópico da legalização do aborto. Quis apenas que ficasse claro que, como se diz na Academia, tenho “capital simbólico” para discutir o assunto. Não pretendo fazer propaganda, não pretendo convencer ninguém da minha opinião, não pretendo fazer circo algum pegar fogo. Nunca quis escrever sobre este assunto, recuso propostas de falar sobre o tema, e nunca debato minha opinião fora do pequeno círculo de amigos próximos que tenho. Mas hoje eu vou falar sim neste assunto. Escrevo este post porque tem coisas quem ficam “entaladas” na garganta ao longo dos anos, e um dia a gente cansa de se omitir e dar espaço para que toda sorte de pessoas fale sem discernimento algum de coisa séria. Sim, aborto é coisa muito séria. Tão séria que é lamentável que a discussão gire em torno de argumentos que partem de certa “positividade e objetividade da lei”, o que quer que queiram dizer com isso. Já aviso: sou contra. Se você é a favor e se irrita com pessoas que, como eu, se recusam a passar a mão em sua cabeça como quem diz que “tudo bem fazer isso”, acha “evoluído” um país que aprova a legalização, e ainda que “a mulher tem direito de escolha sobre seu corpo”, uma dica: não continue lendo este texto. Você apenas irá ficar bravo(a) e sentir desprezo por uma pessoa como eu que não “entende” e não “respeita” o tal direito de escolha (“aliás, como pode uma menina esclarecida, estudada, pensar assim??”).
Antes de qualquer coisa: simpatizo com o sofrimento de mulheres que se encontram diante da agonia de uma gravidez indesejada; Eu mesma já passei pelo drama de suspeitar estar grávida de um namorado e me pegar angustiando o que eu poderia fazer para “resolver” a situação caso ela se confirmasse. Claro que a possibilidade de um aborto sempre passa pela cabeça de qualquer uma quando se vive o impasse na pele; perturbam sua cabeça questões como “meu namorado não quer esse filho, é justo o bebê não ter pai?”, “minha família vai me matar se eu disser que estou grávida”; “até quero ter filhos, mas o momento é péssimo, mal comecei minha vida, e um bebê agora vai mudar tudo”. A realidade é que nunca estive grávida, mas essas perguntas povoaram minha cabeça antes do teste resultar negativo. Eis aqui uma verdade inconveniente: decidir manter ou não uma gravidez é sempre uma decisão tomada em meio ao desespero. Uma mulher que diga ser capaz de decidir sobre isto baseada na reflexão e nas “conversas” com especialistas (médicos, assistentes sociais, psicólogos) e na ponderação do que é o “melhor” pra si, mente. É uma decisão terrível de ser tomada, e em uma instância, determinada principalmente por um afeto: medo.
Acho hipócrita gente que diz que é “hipócrita a discussão de aborto no país, que o Estado deve dar suporte a mulher pobre que faz aborto em clínica clandestina, blábláblá”. Mais ainda se quem fala é um homem. Homem que defende aborto alegando que o faz porque acha que a “mulher tem ser ouvida” e deve “ter direito sobre seu corpo” sempre soa a mim como um canalha. Ao menos tenha a coragem de admitir que você é a favor do aborto porque quer respaldo legal para não assumir a “bomba” que é a gravidez indesejada de sua namorada, amante, ficante ou caso de uma noite, e assim induzi-la a tirar o seu do reta sem pegar muito mal para você.
Aborto não é medida que se tome para não ter filhos em momentos indesejados. Todo mundo que transa sabe que pode ter uma surpresa rosinha e chorona depois de nove meses. Não é crime algum adiar, mesmo que para sempre, a maternidade: para isso é que existem os mais variados métodos contraceptivos. E se ainda assim vier um baby não desejado que poderá colocar todos seus sonhos abaixo ou ainda o qual você não terá condições de criar e sustentar, sempre há a opção de dá-lo para adoção: você não é obrigada por lei alguma a ser mãe de um bebê só porque você o gerou. O aborto não foi criminalizado, assim como o homicídio não foi criminalizado, por isso não aceito argumentos como o baseado na idéia de que a escolha deve ser permitida, algo como dizer “legalizando você assegura liberdade de escolha a todas as mulheres, se não concorda com a prática você tem o direito de não fazer. Quem quer faz, quem não quer não faz”. Isso me soa tão absurdo quanto dizer que se deve assegurar o direito dos cidadãos escolherem, por exemplo, em uma situação dramática qualquer, se cometem um homicídio ou não, sem que tenham de pagar em termos punição legal por isso. Sou a favor da vida, e a julgo inegociável.
Aborto não é mera questão de saúde pública. Converse francamente com uma mulher que tenha passado pela experiência (e antes que perguntem: sim, já conversei com muitas sobre isso, ricas e pobres). Em primeiro lugar, ela terá dificuldade de explicar como decidiu pelo aborto e, muitas vezes, fará referências a falas e conselhos de terceiros (em geral do pai, do namorado, amante, professora, analista) os quais ela desconfia que não deveria ter ouvido em um momento de tanta fragilidade e angústia. Em segundo lugar, por mais insensível que você seja, você vai notar com nitidez que o relato dela sobre a experiência exala uma percepção de que o que aconteceu naquele momento, naquela sala de uma clínica qualquer (clandestina ou super-higiênica e cara) foi uma violência com ela, e que antes fosse apenas uma violência física. Não conheço mulher alguma que tenha abortado e superado a experiência. Que ninguém se iluda pensando que é um ato que encerra ao final de um procedimento médico.
(EM TEMPO: Os postos de saúde distribuem gratuitamente camisinhas. Seu namorado, amante, caso de uma noite na balada, não tinham e não gostam de usar? Sem problemas -pelo menos no quesito “gravidez”. Advinha? Também distribuem anticoncepcionais de graça!!! Sim, você leu bem: DE GRAÇA!!! Quem diria, né?
EM TEMPO 2: No fundo no fundo, eu também acredito que a mulher tem direito sobre seu corpo: dá se quiser, se não quiser não dá. E também ingere remédios contraceptivos porque escolheu assim fazer e por ser “dona” de seu corpo pode muito bem impedir com essa atitude que outro ser ali se instale (em seu útero, precisamente) contra sua vontade. Mas uma vez que tenha escolhido (uma vez que há escolha) o risco de ter ou não outro ser como “inquilino”, aí já não há “direito sobre o corpo” que valha. Lembremos que são dois corpos agora, e embora tenha um “hóspede” indesejado em seu corpo, ela não tem direito sobre ele. Antes de tudo, ela “deixou” ele ali se instalar, sabia que poderia acontecer. Ele (o feto) é que tem direito sobre si. Então, que ele decida um dia após nascer se o melhor para ele é dar fim a sua vida ou não.)
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