por Joel Pinheiro da Fonseca
Ok, o título é provocativo. A Inquisição Espanhola cometeu e permitiu muitas injustiças contra cristãos de origem judaica na Espanha. Mas você sabia que ela era atribuição da Coroa espanhola, e que o próprio Papa pediu que ela abrandasse seu tratamento dos réus, o que lhe rendeu uma resposta do Rei Filipe insinuando que estivesse em conluio com os conversos? Que depois de algumas reformas ela se tornou muito mais leniente do que qualquer tribunal secular da Europa? Que ela impediu as caças às bruxas na Espanha que tomaram conta do resto do continente? Que usou tortura em apenas 2% dos casos, que o tempo máximo da tortura era de 15 minutos e que ela raramente era aplicada duas vezes e nunca, em hipótese alguma, uma terceira vez? E que em 350 anos condenou 4.000 pessoas à fogueira (compare isso com a Revolução Francesa, que em cinco anos matou cerca de 40.000)?
Pois é, há fontes mais confiáveis do que Monty Python e Mel Brooks. Este artigo de Thomas F. Madden, que consultou pessoalmente os arquivos (bastante extensos) da Inquisição na Espanha, foi publicado originalmente em 2003 (e republicado agora pelo site linkado) e dá um ótimo panorama histórico da Inquisição e contesta vários mitos. Nada disso justifica ou desculpa crime algum, muito menos algo grave como tortura ou execução devido a crença religiosa de uma pessoa sequer. Colocar os fatos em sua devida proporção, contudo, é uma questão de justiça.
Retirado de Dicta.com.br.
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terça-feira, 12 de abril de 2011
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Une grande aventure vers la lumière
por Juliana Perez
Hans Scholl tinha 24 anos quando condenado à morte na manhã do dia 22 de fevereiro de 1943. Foi executado na tarde do mesmo dia. Suas palavras diante da guilhotina foram: “viva a Alemanha, viva a liberdade”.
Não significa escapismo falar em liberdade interior quando a exterior falta. Pois foi pela liberdade civil que os irmãos Scholl e os demais integrantes de "A Rosa Branca" entregaram a vida - a liberdade interior eles já possuíam. Três cartas.
Em serviço militar em Stetten, a sua irmã Inge, em 27 de junho de 1938:
No bolso interno do casaco levo um botão de rosa. Preciso desta pequena planta porque ela é “o outro lado”: muito distante dessa vida de soldado, e no entanto não contraditório a ela. É preciso sempre carregar consigo um pequeno segredo, sobretudo com os camaradas que tenho aqui.
A Rose Nägele, em 28 de outubro de 1941, meses antes de começar a escrever os panfletos:
Encontro-me em uma crise espiritual, a mais importante da minha vida, e é compreensível que eu a leve a sério e não me console com paliativos burgueses. Por sorte tampouco preciso de algum. Encontro-me em um estado de alma ao qual não pode vir nenhuma ajuda de fora, pois eu, no meu interior mais profundo, já o superei, reconheci e estou feliz. Que paradoxo! Minha cabeça dói, embora eu esteja feliz. É a felicidade do vencedor que já antecipa o final da luta.
Esta guerra é (como todas as guerras significativas), na sua verdadeira essência, uma guerra espiritual; às vezes parece que o meu pequeno cérebro é o campo de batalha de todas essas lutas. Não posso ficar de fora, pois de fora não há felicidade, pois sem verdade não há felicidade – e esta guerra é, no fundo, uma guerra pela verdade. Todos os tronos impostores devem cair – isto é o mais doloroso –, para que o que é autêntico apareça sem falsificações. Eu não estou falando do ponto de vista político, mas pessoal, espiritual. Fui obrigado a fazer uma escolha.
A Rose Nägele, em 16 de fevereiro de 1943, dois dias antes de sua prisão na Universidade de Munique:
Hoje eu devo ser como eu sou. Estou interior e exteriormente distante de você, mas nunca, não sou um estranho. Meu respeito pelo seu coração puro nunca foi tão grande como nesses dias, em que a vida se tornou um risco constante. Mas por eu ter escolhido o perigo, preciso ser livre e não ter vínculos, e ir para onde eu quero ir. Já andei por muitos caminhos errados, e eu sei, abrem-se abismos, a noite mais profunda envolve meu coração – mas eu mergulho nela. Como são grandes as palavras de Claudel: La vie, c’est une grande aventure vers la lumière.
Post scriptum: Os trechos de cartas foram retirados do livro Hans Scholl und Sophie Scholl. Briefe und Aufzeichnungen. Hrgs. Inge Jens. Frankfurt a. M.: Fischer, 2005. (pags. 23; 29; 85 e 143, respectivamente). Não há tradução do livro para o português.
Hans Scholl tinha 24 anos quando condenado à morte na manhã do dia 22 de fevereiro de 1943. Foi executado na tarde do mesmo dia. Suas palavras diante da guilhotina foram: “viva a Alemanha, viva a liberdade”.
Não significa escapismo falar em liberdade interior quando a exterior falta. Pois foi pela liberdade civil que os irmãos Scholl e os demais integrantes de "A Rosa Branca" entregaram a vida - a liberdade interior eles já possuíam. Três cartas.
Em serviço militar em Stetten, a sua irmã Inge, em 27 de junho de 1938:
No bolso interno do casaco levo um botão de rosa. Preciso desta pequena planta porque ela é “o outro lado”: muito distante dessa vida de soldado, e no entanto não contraditório a ela. É preciso sempre carregar consigo um pequeno segredo, sobretudo com os camaradas que tenho aqui.
A Rose Nägele, em 28 de outubro de 1941, meses antes de começar a escrever os panfletos:
Encontro-me em uma crise espiritual, a mais importante da minha vida, e é compreensível que eu a leve a sério e não me console com paliativos burgueses. Por sorte tampouco preciso de algum. Encontro-me em um estado de alma ao qual não pode vir nenhuma ajuda de fora, pois eu, no meu interior mais profundo, já o superei, reconheci e estou feliz. Que paradoxo! Minha cabeça dói, embora eu esteja feliz. É a felicidade do vencedor que já antecipa o final da luta.
Esta guerra é (como todas as guerras significativas), na sua verdadeira essência, uma guerra espiritual; às vezes parece que o meu pequeno cérebro é o campo de batalha de todas essas lutas. Não posso ficar de fora, pois de fora não há felicidade, pois sem verdade não há felicidade – e esta guerra é, no fundo, uma guerra pela verdade. Todos os tronos impostores devem cair – isto é o mais doloroso –, para que o que é autêntico apareça sem falsificações. Eu não estou falando do ponto de vista político, mas pessoal, espiritual. Fui obrigado a fazer uma escolha.
A Rose Nägele, em 16 de fevereiro de 1943, dois dias antes de sua prisão na Universidade de Munique:
Hoje eu devo ser como eu sou. Estou interior e exteriormente distante de você, mas nunca, não sou um estranho. Meu respeito pelo seu coração puro nunca foi tão grande como nesses dias, em que a vida se tornou um risco constante. Mas por eu ter escolhido o perigo, preciso ser livre e não ter vínculos, e ir para onde eu quero ir. Já andei por muitos caminhos errados, e eu sei, abrem-se abismos, a noite mais profunda envolve meu coração – mas eu mergulho nela. Como são grandes as palavras de Claudel: La vie, c’est une grande aventure vers la lumière.
Post scriptum: Os trechos de cartas foram retirados do livro Hans Scholl und Sophie Scholl. Briefe und Aufzeichnungen. Hrgs. Inge Jens. Frankfurt a. M.: Fischer, 2005. (pags. 23; 29; 85 e 143, respectivamente). Não há tradução do livro para o português.
Méritos bretões
por Joel Pinheiro da Fonseca
Uma rápida curiosidade histórica. Sempre pensamos nos romanos como os grandes construtores de estradas no mundo antigo. Acontece que foi descoberto que parte das estradas originais da Inglaterra, outrora atribuídas aos romanos, eram na verdade anteriores à chegada do império.
Retirado de Dicta.com.br.
domingo, 20 de março de 2011
Meninos (como Homens) em tempos sombrios
por Juliana Perez
Agora o que conta é reencontrar-se, iluminar-se reciprocamente, de pessoa a pessoa...
A frase foi escrita em 1942, alguns meses antes da decapitação de um de seus autores. Não se trata de escritores nem de filósofos ou de cientistas importantes, tampouco de grandes homens de Estado ou de revolucionários titânicos. Hans Scholl (1918-1943) estudava medicina na Universidade de Munique e – com sua irmã, Sophie (1921-1943) e um amigo, Christoph Probst (1919-1943) – foi acusado de alta traição ao regime nacional-socialista. Alexander Schmorrell (1917-1943), segundo autor da frase acima, Willi Graf (1918-1943), Kurt Huber (1893-1943), seu professor de filosofia, e outras dez pessoas foram condenadas à morte dois meses mais tarde.
Hans, Sophie, Christoph, Schmorell, Graf e Huber formavam o núcleo do movimento de resistência que ficou conhecido como "A Rosa Branca" (Die Weiße Rose). Sobre ele há dois filmes: o primeiro "Die Weiße Rose" (1982) dirigido por Michael Verhoeven, é baseado em documentos pertencentes às famílias dos envolvidos e teve ampla repercussão na Alemanha; o segundo, "Sophie Scholl: The Final Days" (2009), concentra-se nos dias que antecedem a prisão dos integrantes da Rosa Branca e focaliza a comovente experiência de Sophie Scholl. O roteiro utiliza documentos ainda não conhecidos nos anos oitenta - reproduzidos quase literalmente em vários diálogos do filme (no interrogatório, por exemplo).
As primeiras informações sobre a "Rosa Branca" tornaram-se conhecidas graças ao livro da irmã mais nova de Hans e Sophie, Inge SCHOLL, "Die Weiße Rose" (Frankfurt a. M.: Fischer, 2001). O livro é amplamente conhecido na Alemanha, em muitas escolas ainda está na lista de leituras obrigatórias.
Em tempo: houve outros movimentos de resistência ao nacional-socialismo na Alemanha – a Jüdischer Kulturbund, o Kreisauer-Kreis, Schulze-Boysen/Harnack Organisation, por exemplo. De diversas tendências políticas e religiosas, procuravam se opor ao regime da forma como lhes era possível: todos eles foram mais cedo ou mais tarde violentamente reprimidos pelo regime. Mais informações? Veja o estudo de Corina Petrescu, "Against All Odds: Subversive Spaces in National Socialist Germany" (Oxford et. al.: Peter Lang, 2010).
Quanto ao grupo "A Rosa Branca", o que faz dessas seis pessoas – que talvez contassem com a colaboração de vinte ou cinquenta estudantes dos cerca de oito mil inscritos na Universidade de Munique – algo especial?
Em primeiro lugar, a quase ingenuidade de suas ações: entre junho de 1942 e janeiro de 1943, os estudantes redigiram e distribuíram panfletos de crítica ao regime. Dos primeiros panfletos foram feitas cem cópias, do último, entre duas ou três mil. Os pesquisadores costumam dividir as ações dos estudantes em 3 fases: a que inclui a redação dos quatro primeiro panfletos, que exortavam à resistência passiva; a segunda fase acontece após a volta dos estudantes do front; e a última fase, que incluiu pichações de muro pela cidade de Munique – ato temerário na época –, e o último panfleto, que causou a prisão. Os panfletos impressionam tanto por unirem a reflexão filosófico-existencial a uma corajosa análise política, quanto por expressarem a convicção de que qualquer mudança social só seria possível a partir do momento em que a responsabilidade pessoal diante dos acontecimentos fosse plenamente assumida.
Mas a falta de sistematicidade das ações e a complexidade dos panfletos – de forma nenhuma dirigidos às “massas” – são apenas alguns indícios do que vários estudiosos do tema já confirmaram: a chamada “Rosa Branca” não chegou a se constituir como movimento, era um grupo de amigos. Suas iniciativas, que lhes custariam a vida, não nasciam de projeto político ou cultural, mas de um “anseio por liberdade individual e de uma coletividade que levava a sério o ser humano em sua subjetividade e respeitava a sua dignidade pessoal” (como diz Jens e lembrado por Corina Petrescu em sua pesquisa).
Seis pessoas, seis panfletos mimeografados, uns pouco mil leitores desconhecidos, se tanto, em busca de liberdade e respeito. Nada mais perigoso para um regime ditatorial.
quinta-feira, 3 de março de 2011
Onde está Wally
| "The Ambassadors" (1533). Hans Holbein, o Jovem (1597 - 1543) |
por Fernanda Vaz
Fiz um blog para colocar só as traduções do Mabinogion e não atolar essa página com textos gigantes. Estão lá os dois contos do primeiro ramo. Vejam, vejam!
***
Percebo cada vez mais que meu gosto por História é majoritariamente anedótico e pitoresco. Sou eu aquela pessoa que decora toda a linhagem e as fofoquinhas de corte dos Tudor, mas não faz a mínima idéia de como foi o reinado de Henrique VIII politicamente para a Inglaterra.
***
Das minhas andanças pelo Google Art Project:
Com a qualidade enorme do zoom e um alemão bem chulé, pude descobrir qual é a música que está escrita escrita no livro: um coral luterano chamado Komm, Heiliger Geist, Herre Gott, cuja melodia J.S. Bach utilizou na Cantata BWV 59 e no Moteto BWV 226.
Esse quadro é um verdadeiro mundo. Poderia falar milhares de coisas dele e o post ficaria enorme antes mesmo que eu pensasse em citar a caveira anamórfica na parte inferior - sim, notem aqui, aquela coisa esquisita e branca pairando no chão na diagonal é uma caveira pintada para ser vista de um determinado ângulo. Dizem uns que o Holbein a botou ali só pra mostrar como era um pintor danado de habilidoso; outros dizem que a pintura foi feita para ser pendurada na parede de uma escada, para que a pessoa que estivesse subindo e olhando a pintura da sua esquerda tomasse um belo dum susto. É claro que acredito na segunda teoria, porque é mais legal e eu gosto de acreditar nas coisas que me parecem mais legais (A música das esferas, por exemplo).
Não à toa falei que o quadro é um mundo, também - há os que sugerem que na estante estão três planos representados: os céus (representados pelos objetos astronômicos e científicos na parte de cima), o mundo dos humanos (identificado pelos livros e instrumentos musicais) e a morte (a tal caveira, é claro, mas eu também notei que há um alaúde jogado debaixo da estante). Tem mais milhares de detalhezinhos deliciosos de se ver - o padrão dos ladrilhos do chão teria sido retirado da Abadia de Westminster. O alaúde ao lado do livro com o coral que identifiquei tem uma corda quebrada, o que é considerado símbolo de discórdia. Os dois homens retratados foram identificados como Jean de Dinteville, embaixador da França na corte de Henrique VIII em 1533, e Georges de Selve, um religioso que se tornaria bispo de Lavaur no ano seguinte à pintura. No livro sob o qual de Selve repousa o cotovelo se lê AETATIS SVAE 23, que significa que ele teria 25 anos de idade. Já na adaga de Dinteville lê-se que tinha 29 anos. O livro perto do globo terrestre é um livro de aritmética comercial de Petrus Alpianus, e está aberto numa página que demonstra a divisão. Há um esquadro e um compasso, que junto com os instrumentos musicais e os objetos científicos, remetem ao Quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música).
Com todas essas informações a coisa mais óbvia é ficar se perguntando o que quis dizer o Holbein com esse monte de parerga (elementos adicionais à obra de arte, que a embelezam mas ao mesmo tempo estão em conflito com ela). Este artigo faz uma análise bem detalhada e completa de todas as alegorias, contrastes e idéias contidas na pintura - mostra inclusive que todos os objetos astronômicos indicam a data 11 de Abril de 1533, Sexta-Feira Santa, o que fez com que aumentasse mais ainda meu fascínio pelo detalhismo e genialidade do pintor.
***
Se meu gosto por história é baseado em pequenos detalhes e sutilezas, a razão não é outra que não o fato de meu gosto por arte obedecer à mesma regra. Da ornamentação do barroco até os milhares de detalhes e alegorias numa pintura - acho que por mais que passeie por outras correntes, sempre vou gostar mesmo é de um "Onde está Wally" highbrow.
Retirado de Apfelsaft.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Teclas e tipos
Hábitos que seguem como automatismos? Mesmo a indústria os tem. É o que fala - entre outras coisas - Joel Pinheiro da Fonseca.
por Joel Pinheiro da Fonseca
Até as coisas com as quais convivemos todo o dia e sobre as quais nunca pensamos têm uma história; às vezes longa. Olhe à esquerda do seu teclado. O que você vê aí, em cima da tecla Shift? Deve haver uma Caps Lock. Você provavelmente não usa o Caps Lock; ninguém mais, fora comentadores irados e gente com pouca familiaridade com o computador usa essa tecla. E você sabe como ela foi parar aí? Pois ela antecede o computador, tendo nascido junto com o Shift, no século XIX, para facilitar a vida dos datilógrafos; agora parece que vai se aposentar.
Outro legado das máquinas de escrever é o mau hábito de se usar dois espaços depois de um ponto. Como as máquinas até os anos 70 do século XX, por restrições tecnológicas, usavam apenas tipos mono-espaçados (nos quais cada caractere utilizava o exato mesmo espaço; ao contrário dos tipos proporcionais, nos quais, por exemplo, um “i” ocupa menos espaço que um “M”), era necessário dar um espaço duplo depois do ponto para marcar bem a separação dos períodos. Infelizmente o hábito pegou e muita gente continua a usá-lo, indo contra o consenso estabelecido por séculos de experiência tipográfica. Uma Times New Roman (criada nos anos 30 para o "The Times" de Londres), que é das fontes mais usadas, é proporcional.
A propósito, vocês sabem por que ela se chama Roman? A resposta remonta à Renascença. Os humanistas, horrorizados com as fontes góticas, descobriram o que eles acreditaram ser manuscritos escritos com os tipos dos antigos romanos, e batizaram as fontes daí criadas com o nome de romanas. O que eles não sabiam, contudo, era que os tipos nos quais se baseavam eram as minúsculas carolíngeas, criadas muitos séculos antes, mas igualmente medievais. Até hoje prestamos homenagem ao orgulho renascentista e colhemos os frutos da inovação medieval.
Retirado de Dicta.com.br.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
O anseio por uma vida mais bela
Seleção de textos e comentários de Joan Huizinga - um dos lançamentos do ano de 2010.
por Fernanda Vaz
Johan Huizinga, "O Outono da Idade Média", Cap. II, p. 63:
Um pouco antes da batalha em Crécy, quatro cavaleiros franceses reconheceram a ordem de ataque dos ingleses. O rei, que aguarda impaciente o relatório deles, vai avançando lentamente pelo campo e para quando os vê voltar. Eles atravaessam a multidão de guerreiros até estarem diante do soberano. O que há de novo, senhores?, ele pergunta. Eles se entreolharam sem dizer uma palavra sequer, pois nenhum queria falar antes do companheiro. E ficavam dizendo de um para o outro: "Dizei vós, senhor, falai com o rei. Não falarei antes de vós". E assim ficaram se debatendo por algum tempo, pois nenhum queria "ter a honra" de começar a falar. Até que o rei ordenou que um deles falasse. A objetividade teve de recuar mais ainda diante da beleza da forma no caso do Messire Gaultier Rallart, o chevalier du guet de Paris, em 1418. Esse chefe de polícia nunca costumava fazer a ronda sem que três ou quatro músicos seguissem à sua frente, soprando alegres seus instrumentos, levando o povo a dizer que, na verdade, ele estava avisando os malandros: fujam, pois estou chegando.
p. 65:
Alguém a quem se destina um beijo na mão a esconde para escapar dessa honra. Assim, a rainha da Espanha esconde sua mão diante do jovem arquiduque Filipe, o Belo; este aguarda por algum tempo e, assim que vê uma oportunidade, agarra a mão de surpresa e a beija. Dessa feita a séria corte espanhola explodiu em gargalhadas, pois a rainha já não esperava por aquele gesto.
Não é preciso dizer que essa minuciosa ornamentação da vida tem seu lugar sobretudo nas cortes dos soberanos, onde havia tempo e espaço pra isso. Mas também permeavam as esferas inferiores da sociedade - algo comprovado pelo fato de que essas formas sociais continuam preservadas hoje justamente na pequena burguesia (sem se falar nas próprias cortes). O convite reiterado para servir-se de mais comida, a insistência para que a pessoa fique mais um pouco, a recusa em passar na frente de alguém desapareceram em grande parte do comportamento social da alta burguesia na última metade deste século¹. No século XV, essas formas estão em pleno vigor. Ainda quando penosamente observadas, são objeto de sátira mordaz. Encontra-se sobretudo na Igreja o teatro das cerimônias longas e belas. Durante o ofertório, ninguém quer ser o primeiro a levar sua esmola ao altar.
Pode passar. - Ah, não, obrigada. - Por favor!
Sem dúvida vós ireis, prima.
- Não, eu não. - Chame a vizinha.
É melhor que oferte primeiro.
- Vós não deveis tolerar,
Diz a vizinha: Nem me passa pela cabeça:
Oferecei logo, pois depende só de vós
Para que o clérigo continue ².
___________________
¹ Huizinga viveu na transição do século XIX para o XX. Se estes costumes desapareceram mesmo nessa época, hoje acho que ainda dá pra dizer que estão é bem vivinhos - talvez o último fora de São Paulo.
² Eustache Deschamps (séc. XIV).
Retirado de Apfelsaft.
por Fernanda Vaz
Johan Huizinga, "O Outono da Idade Média", Cap. II, p. 63:
Um pouco antes da batalha em Crécy, quatro cavaleiros franceses reconheceram a ordem de ataque dos ingleses. O rei, que aguarda impaciente o relatório deles, vai avançando lentamente pelo campo e para quando os vê voltar. Eles atravaessam a multidão de guerreiros até estarem diante do soberano. O que há de novo, senhores?, ele pergunta. Eles se entreolharam sem dizer uma palavra sequer, pois nenhum queria falar antes do companheiro. E ficavam dizendo de um para o outro: "Dizei vós, senhor, falai com o rei. Não falarei antes de vós". E assim ficaram se debatendo por algum tempo, pois nenhum queria "ter a honra" de começar a falar. Até que o rei ordenou que um deles falasse. A objetividade teve de recuar mais ainda diante da beleza da forma no caso do Messire Gaultier Rallart, o chevalier du guet de Paris, em 1418. Esse chefe de polícia nunca costumava fazer a ronda sem que três ou quatro músicos seguissem à sua frente, soprando alegres seus instrumentos, levando o povo a dizer que, na verdade, ele estava avisando os malandros: fujam, pois estou chegando.
p. 65:
Alguém a quem se destina um beijo na mão a esconde para escapar dessa honra. Assim, a rainha da Espanha esconde sua mão diante do jovem arquiduque Filipe, o Belo; este aguarda por algum tempo e, assim que vê uma oportunidade, agarra a mão de surpresa e a beija. Dessa feita a séria corte espanhola explodiu em gargalhadas, pois a rainha já não esperava por aquele gesto.
| (Filipe, o Belo e Joana de Aragão. c. 1505) |
Não é preciso dizer que essa minuciosa ornamentação da vida tem seu lugar sobretudo nas cortes dos soberanos, onde havia tempo e espaço pra isso. Mas também permeavam as esferas inferiores da sociedade - algo comprovado pelo fato de que essas formas sociais continuam preservadas hoje justamente na pequena burguesia (sem se falar nas próprias cortes). O convite reiterado para servir-se de mais comida, a insistência para que a pessoa fique mais um pouco, a recusa em passar na frente de alguém desapareceram em grande parte do comportamento social da alta burguesia na última metade deste século¹. No século XV, essas formas estão em pleno vigor. Ainda quando penosamente observadas, são objeto de sátira mordaz. Encontra-se sobretudo na Igreja o teatro das cerimônias longas e belas. Durante o ofertório, ninguém quer ser o primeiro a levar sua esmola ao altar.
Pode passar. - Ah, não, obrigada. - Por favor!
Sem dúvida vós ireis, prima.
- Não, eu não. - Chame a vizinha.
É melhor que oferte primeiro.
- Vós não deveis tolerar,
Diz a vizinha: Nem me passa pela cabeça:
Oferecei logo, pois depende só de vós
Para que o clérigo continue ².
___________________
¹ Huizinga viveu na transição do século XIX para o XX. Se estes costumes desapareceram mesmo nessa época, hoje acho que ainda dá pra dizer que estão é bem vivinhos - talvez o último fora de São Paulo.
² Eustache Deschamps (séc. XIV).
Retirado de Apfelsaft.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
O que Hernán Cortés tem a nos ensinar
Se entre orientais somos bárbaros - como diz Stravinsky parafraseando, por sua vez, Henri Michaux - entre maias talvez tivessemos sido... sabe lá Deus. Joel Pinheiro da Fonseca introduz o tema. Para leitura antes de 2012, evidentemente.
por Joel Pinheiro da Fonseca
Em 2010 uma serpente emplumada me mordeu e fui tomado de um interesse febril pelos povos meso-americanos. O foco desse interesse estava no primeiro encontro deles com os europeus, que é sem dúvida um momento capital da história universal. Ao mesmo tempo, resultou numa das maiores tragédias da história que foi a destruição dos povos, civilizações e culturas que aqui viviam antes de chegarem as caravelas. A febre já passou, provavelmente para nunca mais voltar. A cura se deu quando cheguei a uma conclusão óbvia, já sabida por muitos, e mesmo por mim, de antemão, mas agora vista com clareza. Deixe-me traçar brevemente o itinerário que percorri.
Nunca fui daqueles que vêem os conquistadores como grandes vilões e os nativos como astrônomos hippies amantes da natureza. Contudo, aprendi que igualmente falsa é a representação do mundo asteca como um reino de horror idolátrico e bestial em níveis dignos de Lovecraft. A história real é bem mais interessante. E uma boa fonte, pela qual comecei, é ler o relato de Bernal Diaz del Castillo, um dos soldados de Hernán Cortés (soldado ralé, o que lhe deixava relativamente isento dos interesses dos poderosos) na expedição que culminou na tomada de Tenochtitlán. O que dali emerge é, em primeiro lugar, uma história contingente, acidental, que poderia ter sido muito diferente. Em nenhum momento há um plano consciente de dominação; há oportunidades que são agarradas no calor do momento; há tentativas de amizade e paz, enganações e armadilhas dos dois lados. Durou pouco a impressão de que os espanhóis fossem deuses, embora o apelido tenha permanecido; durou pouco também o horror aos cavalos, que logo estavam sendo sacrificados, junto com soldados capturados, à vista do acampamento espanhol para lhes meter medo. Em um episódio dramático, os conquistadores foram quase dizimados e tiveram que fugir desesperados cada um por si. A varíola chegou casualmente, trazida por um escravo negro; Bernal nota o contágio estranhamente forte entre os indios. Acima de tudo, é uma história de personagens singulares, como Gerónimo de Aguilar, padre franciscano que precedera os conquistadores e que vivera por anos como prisioneiro numa cidade nativa até ser resgatado e tornar-se intérprete de maia do grupo (outro sobrevivente, numa vila próxima, atingiu condição de proeminência e preferiu a nova vida a juntar-se aos espanhóis); La Malinche, a nativa de Tabasco que, além de entender tanto nahuatl quanto maia, tornou-se amante de Cortés e deu-lhe seu primeiro filho homem, considerado o “primeiro mestiço”; Montezuma, o rei asteca, alternadamente astuto e pueril, que embora feito refém pelos conquistadores tornou-se amigo de todos, levando os raptores a chorarem sua morte acidental numa escaramuça (e maldizerem o frade que ainda não o tinha catequizado devidamente).
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Narrativas urbanas
A modernidade traz, assim como para os artistas da virada do século XIX e XX, também aos historiadores a preocupação em levar à frente da discussão metodológica, os elementos "anônimos" da história: rotinas ordinárias, narrativas de pessoas vulgares, ferramentas tecnológicas; são os correlatos historiográficos da "quebra de paredes" que a arte propõe, ao trazer ao palco melodias folclóricas, para às telas pinturas primitivas, e aos livros a inflexão oral. "Vorticismo" e "primitivismo" na arte têm seus correlatos nas pesquisa histórica: são a abolição do estudo exclusivo de "processos" e a introdução da compreensão da vida como ela é a partir do relato de seus atores, os indivíduos. É o que nos conta Karen Worcman.
Por Karen Worcman
“Na verdade, a história oral é tão antiga quanto a própria história”, diz Paul Thompson, historiador inglês e responsável, em grande parte, pelo renascimento da História oral no mundo acadêmico na Inglaterra nos anos 70. Segundo ele, não era apenas nas sociedades essencialmente orais, como as africanas, que o uso da memória fazia parte das ferramentas para o exercício de registro e transmissão das tradições, valores e sentido de continuidade de um grupo. No entanto, nas sociedades ocidentais, esse exercício veio, pouco a pouco se restringindo à escrita. A História com H maiúsculo colocou as fontes orais de escanteio.
Com a chegada do gravador , o acesso ao registro de “falas”e entrevistas” independente da escrita, voltaram à tona. Hoje, essa pratica está presente de inúmeras formas: no mundo acadêmico, mas também no jornalismo, nos programas de TV e rádio. Os “testemunhos”são hoje parte de nosso cotidiano. Por trás deles, sempre as “histórias”.
Paralelamente à chegada do gravador, vieram as fotografias e finalmente o vídeo. Se formos pensar mais profundamente, essas tecnologias transformam nossas formas de comunicação, e com sua popularização, nosso cotidiano. Na medida em que os gravadores, as máquinas de fotografia e as câmeras de vídeo tornaram-se objetos altamente acessíveis, a idéia de que poderíamos, cada um, registrar imagens, histórias e nossas próprias memórias introduziu-se em nosso dia-a-dia familiar, pessoal ou nosso ambiente de trabalho.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
A escrita como uma tecnologia que reestrutura a mente - Parte I
Por Leandro Oliveira
A escrita, quer dizer, o evento histórico que permite este ato que faço agora e que o leitor tem a oportunidade de acessar quando dou enter no mecanismo do blogger, a escrita, como dizia, foi um desdobramento muito recente para a humanidade. O primeiro registro incontroverso de linguagem de fato que conhecemos foi desenvolvido entre os Sumérios na Mesopotâmia somente por volta do ano 3500 A.C - ou seja, mais ou menos 6.000 anos atrás; o alfabeto, esta inovação tecnológica extraordinária, menos de 4.000 anos. Se considerarmos que, em uma estimativa conservadora, o Homo Sapiens está na Terra há pelo menos 30.000 anos, temos a conclusão decisiva: é uma sorte estatística você estar aí enquanto eu aqui tomo um chá quente e batemos este papo - o mais provável seria que estivéssemos mostrando os dentes ou tentando fazer filosofia por sinais de fumaça (impossibilidade categórica, mas explico isso depois...).
Claro que não necessariamente seríamos tão bárbaros. Muito antes dos primeiros registros escritos da fala, havia a fala (rá!), e, com ela, podemos permitir dizer, algum tipo de comunicação elaborada entre seres humanos. A questão é que das mais de dez mil línguas que serviram ou servem para comunicação oral no curso da história humana, apenas uma parte ínfima - Munro Edmonson em seu estudo "Lore: An Introduction to the Science of Folklore and Literature" de 1971 calcula pouco mais de 100 - compromete-se de algum modo com a escrita de maneira a permitir produção de registros regulares escritos. A maior parte delas jamais foi registrada: mesmo entre as cerca de 4.000 línguas faladas hoje, estimamos cerca de oitenta com a disponibilidade para preservar algo que podemos chamar de literatura .
domingo, 31 de outubro de 2010
The lady in number 6
"I never hate. Hatred only brings hatred.(...)
Only in our old age do we truly understand the beauty of life."
Only in our old age do we truly understand the beauty of life."
Há coisas que não precisam de muita explicação exatamente por sua excelência - as coisas verdadeiramente extraordinárias que acontecem no mundo dispensam apresentações. Karen Worcman nos mostra um caso desses: a preciosidade de um depoimento de uma pianista de 107 anos, sobrevivente do holocausto. Imperdível. Necessário. Neste domingo de sol em Sampa, é uma mensagem de luz para um bom bimestre final a todos nós.
Por Karen Worcman
Acabo de chegar de viagem. Voltei decidida a escrever sobre a quantidade de iniciativas interessantes com as quais tive contato, de pólo a pólo, as inúmeras ideias que me cativaram no Canadá e em Ushuaia (a borda do mundo...) - todas em torno do meu assunto preferido: a "memória".
Mas então recebi um presente pela Internet. Meu primo, Jacob Herzog, enviou um vídeo com uma das coisas mais bonitas que vi ultimamente: o trailler de um documentário sobre Alice Herz-Sommer. Exímia pianista, ela é a mais “velha sobrevivente do holocausto”, completando 107 anos agora em novembro de 2010. O documentário é dirigido por Malcolm Clarke e chama-se "Alice Dancing under the Gallows" (página do Facebook).
Vivendo em Londres em um pequeno apartamento do sexto andar, Alice é conhecida pelos vizinhos e passantes como the lady in number 6. Sua história impressiona não só pela vivacidade supreendente em idade tão avançada, mas por ter sido deportada para Theresienstadt aos 39 anos, com seu filho - e tendo sobrevivido sem rancor ou traumas aparentes.
“Adoro as pessoas”, diz. "Adoro todas as pessoas. Adoro falar com as pessoas. Saber de suas vidas com outras pessoas...“ Alice me fez sentir, mais uma vez, o maravilhamento que me levou a fundar o Museu da Pessoa. E quando após tocar, comenta
Beethoven... ele é milagre. Sua música não é apenas melodia. É o que existe dentro... o que há dentro, o que a preenche. É intenso. Fenomenal!
me dá a noção de que por trás de cada pequena janela de um apartamento qualquer reside a possibilidade de conhecer um novo mundo. O mundo que cada um de nós guarda na própria alma e podemos generosamente mostrar aos outros com o depoimento de nossa história de vida.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
There is no such thing as public money
Por Leandro Oliveira
Capturado por nossos amigos inteligentes...
One of the great debates of our time is about how much of your money should be spent by the State and how much you should keep to spend on your family. Let us never forget this fundamental truth: the State has no source of money other than money which people earn themselves. If the State wishes to spend more it can do so only by borrowing your savings or by taxing you more. It is no good thinking that someone else will pay—that "someone else" is you. There is no such thing as public money; there is only taxpayers' money.
Prosperity will not come by inventing more and more lavish public expenditure programmes. You do not grow richer by ordering another cheque-book from the Bank. No nation ever grew more prosperous by taxing its citizens beyond their capacity to pay. We have a duty to make sure that every penny piece we raise in taxation is spent wisely and well. For it is our party which is dedicated to good housekeeping—indeed, I would not mind betting that if Mr. Gladstone were alive today he would reapply to join the Conservative Party.
Protecting the taxpayer's purse, protecting the public services — these are our two great tasks, and their demands have to be reconciled. How very pleasant it would be, how very popular it would be, to say "spend more on this, expand more on that." We all have our favourite causes — I know I do. But someone has to add up the figures. Every business has to do it, every housewife has to do it, every Government should do it, and this one will.
Capturado por nossos amigos inteligentes...
One of the great debates of our time is about how much of your money should be spent by the State and how much you should keep to spend on your family. Let us never forget this fundamental truth: the State has no source of money other than money which people earn themselves. If the State wishes to spend more it can do so only by borrowing your savings or by taxing you more. It is no good thinking that someone else will pay—that "someone else" is you. There is no such thing as public money; there is only taxpayers' money.
Prosperity will not come by inventing more and more lavish public expenditure programmes. You do not grow richer by ordering another cheque-book from the Bank. No nation ever grew more prosperous by taxing its citizens beyond their capacity to pay. We have a duty to make sure that every penny piece we raise in taxation is spent wisely and well. For it is our party which is dedicated to good housekeeping—indeed, I would not mind betting that if Mr. Gladstone were alive today he would reapply to join the Conservative Party.
Protecting the taxpayer's purse, protecting the public services — these are our two great tasks, and their demands have to be reconciled. How very pleasant it would be, how very popular it would be, to say "spend more on this, expand more on that." We all have our favourite causes — I know I do. But someone has to add up the figures. Every business has to do it, every housewife has to do it, every Government should do it, and this one will.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
A mão do diabo?
Por Leandro Oliveira
Esta semana a Osesp apresenta a suíte "Vila Rica" de Camargo Guarnieri. Feita a partir de referências da trilha para o filme "Rebelião de Vila Rica", a obra é de 1959 e desdobramento da polêmica "Carta Aberta ao Músicos", de 1950. Ali, o compositor paulista condenava o "formalismo" na música clássica brasileira - e por "formalismo" entenda-se principalmente o método dodecafônico (introduzido no Brasil anos antes pelo exilado alemão Hans-Joachim Koellreutter), mas também experimentalismos que negassem a "identidade nacional".
A Carta reverberava a sua maneira o politburo e a "Doutrina Zhdanov", que inaugurará a segunda fase do realismo socialista e, em 1948, começara sanções públicas severas à artistas da então União Soviética - censurando compositores como Prokofiev e Shostakovich ou mesmo entusiastas do regime como Aaram Khachaturian. Em abril do mesmo ano, o Congresso da União de Compositores Soviéticos coloca os termos para a produção da música "progressista": os nacionalismos regionais como a base do que mais claramente servia a expressão do "proletariado".
André Egg faz um excelente artigo a respeito. Realiza algumas distinções entre os tantos "nacionalismos" no Brasil do pós-guerra e, principalmente, comenta a referência ainda mais específica sobre este assunto, a tese de doutorado do professor Luís Antônio Giani "As Trombetas anunciam o paraíso - recepção do realismo socialista na música brasileira. 1945 - 1958".
O tema é interessante, mais do que tudo por apontar as raízes que estarão na briga cultural que culminará no golpe de 1964. Ops, mas isso é outra história...
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Book Curses
Quem nunca emprestou um livro e o perdeu de vista, não leia este post. Para todos os demais, Fernanda mostra que o problema não é típico da vida contemporânea. Emprestar às calendas estes nossos tão desejados objetos de desejo, ou mesmo tê-los literalmente roubados, são coisas de sempre - tanto assim que é possível inventariar algumas soluções já bastante engenhososas desde a Idade Média.
Por Fernanda Vaz
Não sou eu a maior fornecedora de livros - as bibliotecas dos amigos costumam ser muito maiores e mais interessantes do que a talvez meia centena da qual sou dona até agora. Aos emprestadores que sofrem com amigos caloteiros, entretanto, tenho uma dica oriunda da idade média: maldições escritas.
Numa época em que um único exemplar de uma obra era fruto do trabalho árduo de um monge copista, um livro que não fosse copiado não sobreviveria, bem como um que fosse adulterado ou tivesse suas boas cópias destruídas antes que outros pudessem reproduzí-las. O roubo de um livro criaria uma lacuna talvez irremediável na biblioteca de origem. Assim, para proteger de ladrões o fruto de seu trabalho, alguns monges depois de terminar a cópia deixavam escritas maldições como esta:
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amém. No milésimo, duocentésimo, vigésimo nono ano da encarnação de nosso Senhor, Pedro, de todos os monges o menos importante, deu este livro ao [Monastério Beneditino do] mais abençoado mártir, São Quintino. Se alguém roubá-lo, que saiba que no Dia do Juízo o mais santo mártir será contra ele o acusador, diante da face de Nosso Senhor Jesus Cristo.
ou:
Thys boke is one
And Godes kors ys anoder;
They take the ton,
God gefe them the toder
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Parole, parole...
Por Leandro Oliveira
Já que Talyta termina seu mestrado distinguindo o talento do esforço, e Julio comenta en passant sobre as agruras sádicas das bancas de doutorado, vou também falar de educação. Um sistema mais hardcore, para não decepcionar aqueles que me conhecem e sabem que não sou dado a gentilezas.
Por isso, entro de sola no Medievo. E, pois não, o sistema educacional da Idade Média revela surpresas extraordinárias - não para o leitor habitual do Ocidentalismo é claro, mas certamente para boa parte do público brasileiro. No país tropical, tão bonito por natureza, o grande público ainda está acostumado - e percebo isso nas aulas que dou pelo interior de São Paulo - a entender o pensamento do Medioevo como o da "era das trevas"...
O que, aliás, é irônico, estando o Brasil com a educação iluminada que estamos.
"Tudo isso foi documentadamente desmentido, mas pouco importa: os lugares-comuns emocionais são tanto mais indestrutíveis quanto melhor servirem aos interesses dos ativistas políticos", nos ensinava o saudoso Wilson Martins. Então é assim. Hoje as escolas de elite estão mais preocupadas com o ensino de história de uma África idílica e inexistente conquanto reverbere maledicências ignorantes sobre a Europa. Curioso que não deveria sê-lo, mesmo estando nós orgulhosamente mestiços e ecléticos, pois já na primeira metade do século XX, scholars como Mortimer Adler, Robert Maynard Hutchins e Chäim Perelman, cada um a sua maneira, entenderam e advogaram sobre a relevância e atualidade das práticas de ensino medievais não por chauvinismo, eurocentrismo ou qualquer dessas patacoadas. Não por conservadorismo - embora boa parte deles fossem conservadores - mas por sua relevância inquestionável.
Mas onde está a relevância, bicho?
Como assim "onde está"? Dorothy Sayers em seu famoso artigo The lost tools of learning de 1947 (!) já mostrava que a primeira parte das chamadas Artes Liberales condensava muito mais que matérias curriculares como entendemos hoje, mas disciplinas que "ensinavam a aprender". Sofisticado? Sim, e sem "construtivismos" idiotizantes.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Eu, você e todos nós
Como distinguimos nas nossas decisões aquelas que comporão o grande quadro da História? Que fazemos e devemos preservar em nossa intimidade? Karen Worcan comenta um pouco destas e outras perplexidades que lhe ocorreram ao longo das experiência de mais de quinze anos de entrevistas e coletas de histórias de vida.
Por Karen Worcman
No final dos anos 80 realizei uma série de entrevistas no Rio de Janeiro com imigrantes judeus. O casal de poloneses Adam e Krystyna Drozdowicz morava em um apartamento de primeiro andar no Largo do Machado. O apartamento era escuro e redondo e sua forma bem particular: se quando entrávamos fôssemos para a direita, estávamos na parte de Krystyna; se virássemos à esquerda, na parte de Adam.
Na parte de Krystyna, o caos imperava. Sentava no seu sofá entre livros, roupas, pratos e garfos; na parede havia vários quadros e gravuras polonesas, judaicas e referências as mais confusas. Na parte de Adam, imperava a total organização. Tudo estava em ordem, os livros cuidadosamente organizados, os móveis limpos, a roupa mesmo quando aparente, sempre devidamente dobrada.
Ambos tinham mais de 70 anos. Ela andava com uma muleta e ele ainda ia, todos os dias, de ônibus, trabalhar no hospital universitário da UFRJ. Adam era microbiologista. Tinha cursado universidade - uma exceção em seu tempo -, e estava fazendo o doutorado quando a Alemanha invadiu a Polônia.
Na ocasião da ocupação, os dois tornaram-se, à sua maneira, heróis. Além de apoiarem a guerrilha de resistência, Krystyna salvou toda a sua família dos campos de concentração: mãe, pai, irmão, irmã, cunhados. Adam tornou-se “anti-mohel”, especializando-se em ajudar judeus a reverter as marcas da circuncisão.
Entrevistei cada um por um mês. Apesar de ser judia, filha e neta de judeus e de ter escutado histórias do holocausto desde sempre, com eles fui vislumbrando um outro jeito de entender a guerra, o gueto e o cotidiano daquele momento. Soube, por exemplo, que os judeus organizaram uma espécie de universidade de medicina em pleno gueto de Varsóvia. Dito por Adam Drozdowicz:
... Devia parecer um curso para sanitaristas, mas o nível era o de uma faculdade de medicina de antes da Guerra. A cada dia procurávamos um lugar onde fazer as aulas. Precisávamos de salas bem grandes porque logo que foi anunciado este curso apareceram duzentos ou mais candidatos… as cinco horas começavam as aulas, porque antes muitos dos alunos eram pegos para trabalhar para os alemães. Tanto este laboratório quanto essa faculdade funcionaram até a liquidação do gueto, que começou em 22 de junho de 1942. …nesse periodo desenvolveram-se também muitas pesquisas. Muitos pesquisadores judeus, médicos, aproveitaram a oportunidade e fizeram um estudo sobre a fisiologia da fome…porque o pano de fundo dessa universidade, dessa vida intelectual maravilhosa, era de cadáveres nas ruas. E cadáver já não era tão trágico. Trágico eram as crianças, num dia tão magrinhas, no outra tão inchadas - os sintomas típicos da fome…
Uma das noites, quando Adam me contava como os judeus construíam os muros que os cercavam, de como ele tinha perdido a primeira esposa, o pai e todos na liquidação do gueto, de como ele e a família tinham voltado da Rússia para o apartamento de antes da guerra na Polônia, perguntei quase que com uma certa raiva: por que os judeus ficaram fazendo os muros e não saíram ou se rebelaram? Como vocês foram ficando e deixando tudo acontecer? Por que vocês voltaram da Rússia?
Ele me olhou e disse:
Hoje nós sabemos o que aconteceu. Naquele instante, era um dia atrás do outro. A luta era pela sobrevivência e pela tentativa de ficar com o que conhecíamos. As coisas iam acontecendo e nós íamos nos adaptando. Não temos como julgar com os olhos de hoje.
O encontro com o casal Drozdowicz foi uma lição de humildade. Ao final das entrevistas me dei conta que do ponto de vista da intimidade última, havia semelhanças entre aqueles judeus no gueto e as decisões que tomava para seguir minha vida nas ruas cariocas. Por mais incomparáveis que fossem suas tragédias ao meu conforto, eu estava também ali, entre balas perdidas, o tráfico e a taxa de mortalidade por mortes diárias mais altas do que na Palestina, me adaptando e tentando tornar “natural” viver no meio daquela guerra particular.
Começo minha contribuição para o Ocidentalismo.org com esta pergunta: qual a relação entre a micro historieta de cada um de nós e estas grandes narrativas? Como poderemos conectar nossas singularidades à História maiúscula? Como historiadora, lancei-me a este desafio profissional: relacionar as pessoas, suas experiências de vida, ao complexo mundo que nos rodeia - procurar em suas histórias uma fonte de renovação constante de minha própria visão da História.
E então – tarefa máxima do estudo historiográfico –, entender um pouco de mim e nosso tempo. Tomando decisões dia após dia, mesmo no caos, seguíamos no Rio de Janeiro querendo construir nossa rotina. Dávamos o resto como fatalidade. Eu morava na Glória, e saía sempre daqueles encontros com Adam e Krystyna caminhando pelo Largo do Machado. Nas calçadas, pessoas e pessoas dormindo. Mendigos, famílias no meio do lixo e eu me esquivando para não pisar em ninguém.
Os depoimentos integrais de Adam e Krystina Drozdowicz - e muitos outros - podem ser consultados no acervo do Museu da Pessoa.
Por Karen Worcman
No final dos anos 80 realizei uma série de entrevistas no Rio de Janeiro com imigrantes judeus. O casal de poloneses Adam e Krystyna Drozdowicz morava em um apartamento de primeiro andar no Largo do Machado. O apartamento era escuro e redondo e sua forma bem particular: se quando entrávamos fôssemos para a direita, estávamos na parte de Krystyna; se virássemos à esquerda, na parte de Adam.
Na parte de Krystyna, o caos imperava. Sentava no seu sofá entre livros, roupas, pratos e garfos; na parede havia vários quadros e gravuras polonesas, judaicas e referências as mais confusas. Na parte de Adam, imperava a total organização. Tudo estava em ordem, os livros cuidadosamente organizados, os móveis limpos, a roupa mesmo quando aparente, sempre devidamente dobrada.
Ambos tinham mais de 70 anos. Ela andava com uma muleta e ele ainda ia, todos os dias, de ônibus, trabalhar no hospital universitário da UFRJ. Adam era microbiologista. Tinha cursado universidade - uma exceção em seu tempo -, e estava fazendo o doutorado quando a Alemanha invadiu a Polônia.
Na ocasião da ocupação, os dois tornaram-se, à sua maneira, heróis. Além de apoiarem a guerrilha de resistência, Krystyna salvou toda a sua família dos campos de concentração: mãe, pai, irmão, irmã, cunhados. Adam tornou-se “anti-mohel”, especializando-se em ajudar judeus a reverter as marcas da circuncisão.
Entrevistei cada um por um mês. Apesar de ser judia, filha e neta de judeus e de ter escutado histórias do holocausto desde sempre, com eles fui vislumbrando um outro jeito de entender a guerra, o gueto e o cotidiano daquele momento. Soube, por exemplo, que os judeus organizaram uma espécie de universidade de medicina em pleno gueto de Varsóvia. Dito por Adam Drozdowicz:
... Devia parecer um curso para sanitaristas, mas o nível era o de uma faculdade de medicina de antes da Guerra. A cada dia procurávamos um lugar onde fazer as aulas. Precisávamos de salas bem grandes porque logo que foi anunciado este curso apareceram duzentos ou mais candidatos… as cinco horas começavam as aulas, porque antes muitos dos alunos eram pegos para trabalhar para os alemães. Tanto este laboratório quanto essa faculdade funcionaram até a liquidação do gueto, que começou em 22 de junho de 1942. …nesse periodo desenvolveram-se também muitas pesquisas. Muitos pesquisadores judeus, médicos, aproveitaram a oportunidade e fizeram um estudo sobre a fisiologia da fome…porque o pano de fundo dessa universidade, dessa vida intelectual maravilhosa, era de cadáveres nas ruas. E cadáver já não era tão trágico. Trágico eram as crianças, num dia tão magrinhas, no outra tão inchadas - os sintomas típicos da fome…
Estudantes do departamento de Microbiologia da Universidade de Varsóvia, Polônia. A maioria do grupo era judeu, todos mortos na Segunda Guerra Mundial. Ao centro, o professor B. Assallk, que ajudou Adam Drozdowick a sobreviver na Polônia ocupada.
Uma das noites, quando Adam me contava como os judeus construíam os muros que os cercavam, de como ele tinha perdido a primeira esposa, o pai e todos na liquidação do gueto, de como ele e a família tinham voltado da Rússia para o apartamento de antes da guerra na Polônia, perguntei quase que com uma certa raiva: por que os judeus ficaram fazendo os muros e não saíram ou se rebelaram? Como vocês foram ficando e deixando tudo acontecer? Por que vocês voltaram da Rússia?
Ele me olhou e disse:
Hoje nós sabemos o que aconteceu. Naquele instante, era um dia atrás do outro. A luta era pela sobrevivência e pela tentativa de ficar com o que conhecíamos. As coisas iam acontecendo e nós íamos nos adaptando. Não temos como julgar com os olhos de hoje.
O encontro com o casal Drozdowicz foi uma lição de humildade. Ao final das entrevistas me dei conta que do ponto de vista da intimidade última, havia semelhanças entre aqueles judeus no gueto e as decisões que tomava para seguir minha vida nas ruas cariocas. Por mais incomparáveis que fossem suas tragédias ao meu conforto, eu estava também ali, entre balas perdidas, o tráfico e a taxa de mortalidade por mortes diárias mais altas do que na Palestina, me adaptando e tentando tornar “natural” viver no meio daquela guerra particular.
Começo minha contribuição para o Ocidentalismo.org com esta pergunta: qual a relação entre a micro historieta de cada um de nós e estas grandes narrativas? Como poderemos conectar nossas singularidades à História maiúscula? Como historiadora, lancei-me a este desafio profissional: relacionar as pessoas, suas experiências de vida, ao complexo mundo que nos rodeia - procurar em suas histórias uma fonte de renovação constante de minha própria visão da História.
E então – tarefa máxima do estudo historiográfico –, entender um pouco de mim e nosso tempo. Tomando decisões dia após dia, mesmo no caos, seguíamos no Rio de Janeiro querendo construir nossa rotina. Dávamos o resto como fatalidade. Eu morava na Glória, e saía sempre daqueles encontros com Adam e Krystyna caminhando pelo Largo do Machado. Nas calçadas, pessoas e pessoas dormindo. Mendigos, famílias no meio do lixo e eu me esquivando para não pisar em ninguém.
Os depoimentos integrais de Adam e Krystina Drozdowicz - e muitos outros - podem ser consultados no acervo do Museu da Pessoa.
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