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segunda-feira, 18 de abril de 2011

Colt Cavalhinho 38 Cromado


por Érico Nogueira

- Sonhei que tinha um colt cavalhinho 38 cromado. E quis contar pra vocês - já que minha tese, neste ano, vai me deixar pouquíssimo espaço pra falar de outra coisa senão dela própria;

- Teócrito é poeta imenso. Ao traduzi-lo, ora com o dodecassílabo, ora com o meu hexatônico, me sinto um pouco menos incompleto, como poeta. Participo do seu bom-humor, da sua jovialidade, das suas tiradas fantásticas, da sua mistura de registros, - e até da sua graveza e da sua ternura, aqui e ali;

- a D&C deste semestre está fenomenal: não percam;

- naufragou a tentativa de fundar uma revista/portal on-line junto com outros amigos; numa palvra: é muita estrela pra pouca constelação, como dizia o Raul, - pra nada dizer da pouca vontade de dialogar, de mediar as próprias opiniões; tá lá no Tocqueville: democracia é mediação - e pouca coisa a mais; depois a gente reclama dos autoritarismos; fiquei de saco cheio; nada, porém, que afetasse a minha amizade por todos eles;

- sonhei com um colt cavalhinho; mirava no matagal, atirava, Adriana vinha, me trazia suco de abacaxi... E Freud que vá pra puta que o pariu -- eu só queria o abacaxi, a Adriana e o colt; só isso, nada mais.

Retirado de Ars Poetica.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O norte da cerveja

Crônicas de viagem e as andanças pelo norte da Europa de Érico Nogueira.

por Érico Nogueira

Estive ausente por vários dias. Tratava-se da última viagem desta minha temporada européia, desta feita para Estocolmo, Copenhague, Amsterdã revisited e Londres, - em que, avariado da esbórnia, encontrei o meu caro Dirceu Villa, sempre um gentleman, cujo ouvido fiz de pinico. Sorry, Mr. Villa: that's the way the world ends.

Estocolmo é do outro mundo; Copenhague é fenomenal; Amsterdã não precisa de comentários; e Londres é a matriz da junk food. Mas calma lá.

A Suécia, pra mim, eram as cenas e enredos do Bergman e do Strindberg. Mas ela é muito mais: é frio pacacete, sem dúvida, mas o frio é adoçado, é mitigado, é derretido, em suma, pela afabilidade do povo - e pelo gosto da cerveja e do snapps, consumidos à larga pelos suecos, sim, e também pelos turistas com American Express. Obrigado Corvão.

Na cervejaria "Falcon", regados à cerveja homônima, topamos com um sessentão norte-americano radicado em Estocolmo, que lá ia "fazer um som". Meu irmão gritou logo "Neil Young!", e eu continuei "Tell me why!"; fomos atendidos; e lá nos deixamos estar (e deixamos nossas calças), pedindo e recebendo "Creedence!", "Grateful dead!", "Johnny Cash!", "Bob Dylan!"... Foi incrível.

Acordamos às seis da matina, fazia uns menos quinze, - mas lá fomos nós pra estação de trem, rumo a Copenhague. O bom da ressaca é que o radiador ferve.

Chegando ao reino da Dinamarca, um passeio daqui, uma água dali, um repouso de uma horinha: e dá-lhe cervejaria "Apollo", em que o néctar da casa foi acompahado de uma costela no bafo simplesmente sublime; ficamos sem palavras. No dia seguinte, depois de conhecer o cais, o palácio real e tudo o que havia pra conhecer, a dobradinha foi a lendária "Carlsberg" com Frikadeller, ou almôndegas de peixe, no almoço - outro prato típico -, e estas bombas da "Vesterbro Bryghus" no jantar, antes do avião para Amsterdã:


Minha cara diz tudo: uma paulada. "A Dinamarca é para os fortes", pensei. E fomos rever Amsterdã.

Quem diz Amsterdã, diz "Café Hoppe", que tem servido cerveja e bitterballen desde 1670, e diz também "Amstel", uma das melhores cervejas que pode haver, para o paladar brasileiro: leve, sem ser aguada, e muito saborosa, sem ser enjoativa. Em suma: um primor.

Entre outras coisas, revi o parque Vondel, achei uma edição de 1928 das "Werken" de Karel van de Woestijne, e visitei o Museu Van Gogh. Amsterdã é uma das cidades do meu coração. Eu ainda vou traduzir o "Lucifer" de Joost van den Vondel, podem anotar.

London, London.

Não sei se foi o muito de cerveja e de quitutes deliciosos que experimentáramos, mas o fato é que Londres, e a sabidamente oleosa e sem graça culinária inglesa, não nos pegou. A cidade é suntuosa, evidentemente. Mas, se é que dois dias por lá são o suficiente para fundamentar um juízo justo, supeito que o "algo mais" do Reino Unido esteja no campo, em Oxford, Cambridge, a Escócia e a Irlanda. No pé em que as coisas estão, porém, pode ser que o errado seja eu, que dirijo pela direita.

De volta a Roma, Adriana e eu ficamos meio tristes: agora é arrumar as malas e voltar para o Brasil. Foi um ano maravilhoso, aqui na velha Europa.

Retirado de Ars Poetica.

domingo, 2 de janeiro de 2011

A Tumba de Virgílio


A dita "Tumba de Virgílio" é um lugar especialíssimo e sua mítica fez ser ponto de peregrinação durante tempos. Érico Nogueira passou por lá. O relato é assombroso.

Por Érico Nogueira

Pois é: terminei o ano falando de Virgílio, princeps poetarum, e começo o seguinte na mesma toada: aos vinte e nove de dezembro de 2010 eu visitei a tumba-santuário do poeta em Nápoles, uma experiência única - e, como vocês verão, mágica -, sobretudo em se tratando de um aficcionado como eu.

O Parco Vergiliano é um lugar pequeno, que passa quase despercebido, - abrigando, porém, um monumento e os supostos restos de Virgílio, duas grutas romanas, um aqueduto, e o túmulo de Giacomo Leopardi: o que mais se pode querer? Chegamos, e, como de costume, não havia vivalma no local - a não ser um galo (isso mesmo, leitor: um galo), que, meio solene, parecia fazer de sentinela. Depois de muitos degraus, entramos propriamente na gruta-monumento, e deparamos com uma pira votiva: Virgílio ficou no imaginário popular napolitano como uma espécie de mago, e é costume depositar um bilhete escrito na tal pira, endereçando-lhe um pedido. Não me fiz de rogado: escrevi o bilhete, em que pedia o que vocês já certamente imaginam, e, assim que lhe pus fogo, o galo lá fora cacarejou; Adriana, Henrique e eu nos entreolhamos surpresos; o dia estava lindo, fazia silêncio; ventou, e os ciprestes cantaram. Quando o bilhete acabou de queimar, soltou uma faísca e explodiu de leve; entreolhamo-nos de novo, de novo surpresos; olhei pra dentro da pira: e no meio dos papéis em que ardera o meu voto surgiu a forma de uma estrela, literalmente talhada a fogo pelo meu pedido. O galo tornou a cantar, os ciprestes a responder. Descemos os degraus.

Eu não sei o que isso significa -- mas quero crer seja um bom agouro pro meu ano poético de 2011. Sob o patrocínio de Virgílio, agora mais do que nunca: piscosos scopulos humilis volat aequora iuxta.

Retirado de Ars Poetica.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Os melhores de 2010 - I

por Érico Nogueira

É claro que é uma bobagem jornalística esse troço de eleger os melhores do ano. Sílvio Santos que o diga, com o seu um dia famoso, hoje esquecido, troféu imprensa... Mas é um troço divertido, e, a título de distração, gostoso de fazer. Vamos lá.

Na minha coluna de hoje no Terra Magazine, defendo, respectivamente na poesia e na prosa de ficção, que "O cânone acidental", de Marco Catalão, e "As almas que se quebram no chão", de Karleno Bocarro, sejam os melhores de 2010. Meus argumentos são fracos - como qualquer argumento do gênero, diria o chinês de Königsberg --, mas, mesmo assim, em vez de simplesmente dizer "os melhores são Fulano e Beltrano", decidi apresentá-los ao leitor.

Digo que são os melhores porque, seguindo as pegadas do tal chinês - mais um ensaio batido do mais que batido T. S. Eliot -, são livros que "chacoalham", digamos assim, a tradição que os precede, como uma estrela nova que, surgindo na constelação, muda o desenho que enxergamos... Aliado à descrição das suas características - estilo, enredo, etc. -, isso é tudo o que posso dizer sobre eles.

Há outros livros, claro. A modéstia me impede de me indicar a mim mesmo como um possível candidato ("Dois" foi publicado este ano...), então, ah, bem, -- temos Adélia Prado e João Ubaldo Ribeiro, respectivamente com "A duração do dia" e "O albatroz azul". Só li o último: é bom, sim, e João Ubaldo talvez seja o maior estilista vivo da língua, superior, a meu ver, ao próprio Staramago, recém-falecido.

Saindo do circuito 'professora de português', gostaria de notar que a recente produção de Ricardo Domeneck, mais um e outro poema novo de Dirceu Villa disponível na rede - e ainda os últimos poemas de José Rodrigo Rodriguez -, constituem as pérolas do ano: isoladas, de vez que não saíram em livro, mas ainda assim pérolas. E, finalmente, pra deixar o Brasil pra trás, eu citaria "As desaparições", do café-com-leite Alexei Bueno, aparecido em dezembro de 2009 -- que, convenhamos, é quase 2010...

Geoffrey Hill publicou alguns poemas novos neste ano, e prepara a edição dos seus complete poems. Durs Grünbein publicou "Aroma", o melhor lançamento que tenho lido, em matéria de poesia, desde que me tenho por gente. E Gonçalo M. Tavares acaba de lançar "Uma viagem à Índia", uma epopéia que, a despeito do estilo frouxo, não deixa, por isso, de ser uma epopéia - e, pois, um feito.

O melhor melhor mesmo, porém, foi aquele que, há dois mil anos, está lá, soberbo no alto do cânon, o insuperável, o inigualável, o inefável Virgílio: que me tem ensinado a fazer verso latino e português, e que me fez chorar, lendo em voz alta os divinos hexâmetros do canto IV da Eneida, quando a rainha de Cartago morre. São muitas emoções.

Agradeço a Deus, à minha mulher e à minha família, por este ano maravilhoso. E a vocês, meus queridos, pela paciência. Abraço a todos e um Feliz Natal.

Retirado de Ars Poetica.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

"Aquele país idiota, cheio de moleques..."


Como queria assinar os textos de Érico... Este é um post-desabafo, uma petição de princípios que, se aqui parece focado em problemas específicos da literatura, deve na verdade ser entendido à luz de toda produção cultural pátria. Desfrutem.

Por Érico Nogueira

Se há um país idiota, no sentido etimológico do termo - em grego, idiotés, ou um particular que de tão particular chega a ser autista, e é, pois, incapaz de compreender o lógos comum sobre que se assenta a pólis -, esse país é o Brasil, nação que em regra não consegue entender os pressupostos mais básicos da civilização ocidental. Disso sabiam os Garotos Podres; a isso refere-se o "se não é jabuticaba, e dá só no Brasil, então é besteira".

O ponto é: ensina-se poesia, aqui, como uma justificada sucessão de assassinatos, até que, finalmente, se chegue ao modernismo mais chinfrim, do tipo "amor: humor", como se chega ao paraíso. Imaginem um professor italiano dizendo que Ungaretti, sim, é que é bom, e aquele almofadinha do Carducci faz muito bem em ficar na penumbra; ou um francês dizendo que Apollinaire salvou a França do rendilhado de Gautier; um alemão afirmando que Celan estirpou a praga de Rilke... Seria caso de polícia, acreditem. No Brasil não; e a criançada continua aprendendo que "amor: humor" é A poesia brasileira de verdade, enquanto "Ora o surdo rumor de mármores partidos" não passa de afetação...

O que fundamenta essa brutalidade é uma certa idéia de Brasil, mais ou menos arraigada em todos nós: o Brasil é o seu povo, e o seu povo é espontâneo, leve e cordial; a poesia genuinamente brasileira, pois, deve ter essas características, sob pena de ser mera macaqueação de modelos estrangeiros. É um apanhado de absurdos - e absurdos xenófobos, criados pelo Sr. Getúlio Vargas e decantados nas canções de Ary Barroso... O pior, porém, não são eles: é a releitura deles em chave socialista, obra máxima do cachaceiro presidencial, que já vai tarde: o Brasil é o seu povo, e o seu povo, espontâneo, leve e cordial, depois de longa luta de classes chega finalmente ao poder para não mais sair. Tudo o que não for povo, pois, não é Brasil, é 'elite', e deve, ou bem abrasileirar-se, ou... Como se vê, trata-se da reedição do inesquecível "Brasil: ame-o ou deixe-o". Dá vontade de vomitar.

Concluindo: a sofisticação formal, em poesia, nunca foi tão política como hoje. É resistência contra a imbecilização. É afirmação do indivíduo contra a massa de idiotas.

Retirado de Ars Poetica.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Do hexâmetro em Português


Se algo chateia na música pop é a obviedade rítmica. Adorno sabia disso, Stravinsky sabia disso. Em poesia tem algo similar, como diz Érico Nogueira. Cansado do rock em "quatro por quatro"? Experimente o hexâmetro dactílico.

por Érico Nogueira

O hexâmetro, queridos, é o metro par excellence da poesia clássica, na qual o que conta não é a posição das átonas e das tônicas, como em quase todas as línguas modernas, senão a das longas e das breves, como em música:

Árma uirúmque canó, Tróiáe quí prímus ab óris

O acento agudo acima representa as sílabas longas, i.e., convencionalmente, aquelas que duram, na pronúncia, o dobro do tempo das breves. A chamada leitura escolar, porém, que todos fazemos no âmbito dos estudos clássicos, toma as longas mais ou menos como tônicas, como átonas as breves, reconduzindo-nos, pois, insensivelmente ou não, ao nosso próprio sistema acentual.
Toda essa patacoada para dizer que devemos ao ilustre Carlos Alberto Nunes a mais recente e bem sucedida tentativa de aclimatar o hexâmetro greco-latino ao português. Leiamos-lhe os versos iniciais da Ilíada:

Canta-me a cólera – ó deusa – funesta de Aquiles Pelida,
causa que foi de os Aquivos sofrerem trabalhos sem conta
e de baixarem para o Hades as almas de heróis numerosos
e esclarecidos, ficando eles próprios aos cães atirados
e como pasto das aves. Cumpriu-se de Zeus o desígnio
desde o princípio em que os dois, em discórdia, ficaram cindidos,
o de Atreu filho, senhor de guerreiros, e Aquiles divino.


Agora os mesmos versos, na recentíssima tradução de Frederico Lourenço:

Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida
(mortífera!, que tantas dores trouxe aos Aqueus
e tantas almas valentes de heróis lançou no Hades,
ficando seus corpos como presa para cães e aves
de rapina, enquanto se cumpria a vontade de Zeus),
desde o momento em que primeiro se desentenderam
o Atrida, soberano dos homens, e o divino Aquiles.


Antes de mais, é curioso notar que a revolta contra as convenções, os hipérbatos e as figuras mais sutis e sofisticadas, em poesia, coincida, no tempo e no espaço, com o regime da ação direta, e o ódio às instâncias mediadoras, em política: o, digamos, 'imediatismo' poético contemporâneo nasceu de mãos dadas com os - sempre imediatistas e, pois, autoritários - movimentos de massa do começo dos novecentos. É o homem-massa, ou o homem vulgar - para usar expressões de Ortega y Gasset -, elevado a juiz do bom e a arauto do belo. Brutti tempi.
Pois bem: a tradução de Lourenço, numa palavra, não tem sal; o tradutor busca essencialmente verter o sentido do texto grego, e, por meio de uma distribuição mais ou menos regular das tônicas em cada linha -- mais algumas homofonias aqui e acolá --, imprimir uma aura de poesia à sua tradução em prosa. A Ilíada é solene -- é o que de mais solene já se escreveu; de modo que uma tradução, mesmo literal, fica 'poética', fica 'bonitinha'.

Mas para apreciar como convém a tradução de Nunes, é preciso de uma certa bagagem, o que a afasta um pouco do leitor 'comum': CANta-me a CÓlera -- ó DEUsa -- fuNESta de aQUIles PeLIda: trata-se de um hexâmetro clássico em português, sem tirar nem pôr. O leitor acredite: isso é uma proeza, e não é pequena.

Enfim: há um grande e mais ou menos recíproco desprezo, no que respeita à tradução dos clássicos - antigos e modernos -, entre Portugal e o Brasil. Portugal, às vezes com razão, recusando o coloquialismo e o excessivamente informal das traduções brasileiras; o Brasil, corretamente, vez por outra, fugindo do convencional e do muito engessado das portuguesas. São dois caipiras teimosos, dois inveterados provincianos.

Mudando de assunto, e à guisa de conclusão: um grande desafio seria reinventar o hexâmetro na própria poesia de língua portuguesa. Alguém se candidata?

Retirado de Ars Poetica.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Hofmannsthal e Leopardi

Por Érico Nogueira

A direção da Dicta&Contradicta acaba de liberar o conteúdo do número 4. E esse número, caros leitores, é um pequeno motivo de orgulho pra mim: com efeito, lá estão as minhas traduções de Ein Brief, de Hugo von Hofmannsthal, e de Della fama di Orazio presso gli antichi, de Giacomo Leopardi. Textos - me refiro, evidentemente, aos originais - simplesmente maravilhosos. Seguem os links. Abraço a todos. E.

Uma carta: http://www.dicta.com.br/edicoes/edicao-4/uma-carta/

Da fama de Horácio entre os antigos: http://www.dicta.com.br/edicoes/edicao-4/da-fama-de-horacio-entre-os-antigos/

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Alguma Poesia de Pablo Simpson

Por Érico Nogueira

Em tempos de ENEM fodendo, me agrada lembrar que, além de Dirceu Villa e Caio Gagliardi, conheci também o poeta, professor de literatura francesa, enófilo e gourmand Pablo Simpson quando trabalhei naquela terra ruim...

O poeta estreou em 2003, com "Mitologias", um belo livro, sem dúvida, mas que, edição do autor, só foi distribuído entre uns poucos privilegiados. Sempre gostei do poema de abertura:

O anúncio da voz cruza teu rosto branco.

As tardes se evocam em ti, guirlandas e arcos de sol.

Observo a casa engastada nas pedras.
Também quis curvar-me sombra aos temores do vento,
esconder-me nos homens. Também quis curvar-me
aos desígnios da luta.

Mas o ocaso da tarde inclina-me as sombras duras do corpo.
O anjo sem equilíbrio da tarde risca no ar
denso azul de chuva.

As águas então se afeiçoam a mim, súbito
uma poça se forma em meus pés,
prende-me os passos.

Mas miro-me nas ladeiras da tarde que se erguem de ti.
Miro-me na veste luminosa que se dobra em teu peito:
na íntima claridade do nome.

E vejo que uma chuva fria transborda
um verde seguro na margem de teu olho.

O que temos aqui é a mais fina flor da moderna tradição francesa transplantada -- e muito bem aclimatada -- para solo brasileiro. Valéry, Char e Bonnefoy, eu diria; mas também, quem sabe, um pouco de Saint-John Perse... Rastrear referências, porém, é o de menos: o que importa é notar como o poeta consegue, já no seu livro de estréia, fazer uma poesia leve, aguda e sutil, de sugestões e murmúrios quase surdos, sem cair na tentação de teorizar em verso. Esse equilíbrio, leitor, é muito difícil de conseguir...

domingo, 7 de novembro de 2010

Ánguelos Seferiadis, "Hipólito"


Mais uma apresentação de um poeta notável, em tradução de Mario Domínguez Parra.

Por Érico Nogueira

En su autobiografía Kydathineon 9 (dirección de la casa familiar en el barrio de Plaka, en Atenas), Tsatsu dedica algunos párrafos a la figura de su hermano Ánguelos Seferiadis, del que (comparado con su padre, Stylianós Seferiadis, abogado y profesor universitario además de poeta lírico y traductor de Byron, y su otro hermano, Yorgos Seferis, el primer premio Nobel griego), escribió que era de pocas palabras, cuidadoso con cada una de ellas, austero e inclinado al silencio. Poeta, traductor de Hamlet, obra a la que dedicó muchos años. Durante la invasión nazi estuvo en la cárcel durante un tiempo. Tras esa experiencia decidió emigrar a Nueva York. Murió en Monterrey, donde daba clases de griego en la Escuela de Oficiales. Su vida se apagó mientras dormía, con el Fedón de Platón entre las sábanas. No llegó a cumplir los cuarenta y cinco años. Henry Miller, que conoció a Seferis, en una carta a Lawrence Durrell desde Big Sur, fechada en 1948, escribió: «Recibí la visita de Ánguelos Seferiadis, que está dando clases de griego en “El Presidio” (escuela militar), en los alrededores de Monterrey» (vid. The Durrell-Miller Letters, 1935-1980, ed. Ian S. MacNiven, New Directions, 1988). El poema que aquí presento, «Hipólito», aparece citado en Kydathineon 9, aunque Tsatsu inserta un comentario justo antes de la mención de los ríos, lo cual invita a pensar que pueda tratarse de dos textos diferentes. Dada la dificultad de encontrar una edición original del libro de Seferiadis y por el notable interés que me parece que tiene el texto, o los dos textos juntos, decidí presentarlos como un poema.

ÁNGUELOS SEFERIADIS

HIPÓLITO

Cuando se derrite, chupando la arena fresca, la ola
te respira en un pulso saladísimo.
Y tras alejarse cual león que pisa las algas
me grita, y su voz me trae tu señal,
hijo mío. Cómo brama la voz de la sangre…
Muero
sereno en el resplandor. Oculto e incierto,
separo ahora el fruto de las raíces.

Tantos ríos que se derramaban en el Mar Negro se secaron; el Volga, el Dniéper, el Dniéster, y sólo el ensangrentado Escamandro, un poco más abajo, se desbordó hoy de nuevo, bullendo.

El Escamandro, o Astiánax, un arroyo increíble, insondable,
—puesto que goteaban las lágrimas en el bajo del escudo
y los cuervos partían a recogerse en las quemadas proas de los barcos—se levantó el lodo, como la herida cicatrizada que vuelve a abrirse, y corrió su densa, rojísima sangre, indiferente.
Lo encontré, bajando a Monastiraki,
conforme iba a comprar tabaco y papel de fumar.
Lloraba en los brazos de una desconocida,
que no era Andrómaca, la famosa princesa ganada con la lanza…
Se encontraron de nuevo varias noches
como dos flechas en el cuerpo de un San Sebastián.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Ioanna Tsatsu - "Tu amargura"



Érico Nogueira por voltas com poesia neo-helênica no seu blog Ars Poetica, cujo epíteto deveria ser "o necessário". Como ele ressalva, os textos são traduzidos pelo poeta espanhol Mario Domínguez Parra. Érico tem o bom tom de introduzir o poeta da vez; após a nota biobibliográfica onde esclarece Ioanna Tsatsu, segue o poema "Tu amargura".

Por Érico Nogueira

Ioanna Tsatsu nació en Atenas en 1909. Su familia tiene una profunda relación con las letras. Su padre, Stelios Seferiadis, fue poeta y traductor de Lord Byron al griego moderno. Su hermano Yorgos Seferis, uno de los grandes poetas griegos. Su otro hermano, Ánguelos Seferiadis, fue poeta también, aunque oculto. El único libro de Tsatsu en español es "Diario de la invasión" (tr. Alicia Villar Lecumberri, Madrid, Ediciones Clásicas, 1991), crónica de los cuatro años de la invasión nazi de Grecia y de las penalidades que sufrieron ella y su entorno, que permanecieron en Grecia mientras que Yorgos Seferis formaba parte del gobierno griego en el exilio.

La obra poética de Tsatsu es amplia e importante, y está impregnada tanto de los ecos de la Grecia Clásica como de una profunda religiosidad proveniente del Cristianismo Ortodoxo. Escribió libros en prosa, como el mencionado diario. Otro libro del mismo género, La poesía y el Hades, diario que comprende los años 70 y 80, surge a partir de la amistad de Tsatsu con el poeta católico francés Pierre Emmanuel. Es necesario también mencionar un libro capital en el campo de la biografía, Mi hermano Yorgos Seferis, que mereció el Premio Nacional de Biografía en Grecia, en 1974, año en el que cayó la dictadura de los coroneles contra la que se manifestó Seferis desde el golpe de estado de 1967.

Esta biografía cuenta los primeros cuarenta y cinco años de la vida del poeta. Escribió también cuentos y un libro autobiográfico, Kydathineon 9 (dirección de la casa familiar en el centro de Atenas). Tsatsu escribió en este libro: «Para mí, de niña, Atenas significaba lo que estaba alrededor de la Acrópolis». Por esta casa pasó buena parte de la sociedad literaria y política del país, puesto que Tsatsu era esposa del dramaturgo, filósofo, ensayista y político Konstantinos Tsatsos, que llegó a ser Ministro de Educación y posteriormente Presidente de la República. Este libro incluye la crónica biográfica, el diario y el género epistolar. Tsatsu murió en 2000.


TU AMARGURA

No se me va el sabor
de tu amargura,
así no obstante cruzo
la corteza de la tierra

sangré el mundo
y mi corazón
recogí todo lo valioso
la salvaje pena del aire
ríos del cataclismo de mi nostalgia

lo dejé sobre tus rodillas;

me miraste con insistencia
avanzaste hacia tu vida.

(Tradução de Mario Domínguez Parra.)

Retirado de Ars Poetica.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Diário de Bordo 4 - Bruges


Última parada, Bruges. Érico Nogueira nos leva a Veneza do norte, pequena pedra preciosa da europa.

Por Érico Nogueira

Bruges é um presépio de pedra incrustado em Flandres. No centro da cidadezinha, onde as lojas de chocolate & quinquilharias se acumulam -- e os turistas se apinham --, parece fake, como o centro de Campos do Jordão. Mas, ainda como Campos do Jordão, tem recantos impagáveis: os monastérios; certas igrejas recônditas, a quinze minutos a pé do centro de mentira; e as livrarias, claro, que são em número exorbitante numa cidade tão pequena.

E são-no pelo seguinte: em Bruges nasceu o maior poeta flamengo dos tempos modernos, o padre Guido Gezelle (1830-1899). Qual não foi então a nossa fortuna quando, depois de igrejas e monastérios e moinhos, demos com um professor e seus alunos adolescentes, para os quais explicava -- em flamengo, sim, como não? -- a vida e a obra de Gezelle. Pedi-lhe permissão para me juntar ao grupo; a aula estava no final: o professor pediu que aguardássemos um pouco.

Dispensando os seus alunos, ele nos falou um pouco, dessa vez em inglês, sobre a relação especial de Flandres -- i.e., a Bélgica de língua neerlandesa -- com os seus poetas; que muitos deles ou foram padres, ou latinistas e filelenos, ou ambos; e que eu, se queria mesmo, como lhe dizia, aprender neerlandês para ler o que se escrevera na língua, devia procurar, além da poesia de Gezelle, a do latinista, fileleno e também padre Anton van Wilderode (1918-1998), geralmente considerado o maior poeta flamengo do pós-guerra.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Diário de Bordo 3 - Bruxelas


Em sua penúltima parada - Bruxelas - Érico nos leva a dois poetas de gerações distintas, a boas cervejas e talvez alguma esperança. O texto em francês, sobretudo o primeiro, não deve assustar: é obra de mestre. Comentávamos no final de semana que se tivesse condições financeiras Ocidentalismo.org deveria manter Érico eternamente na Europa; gostamos de imaginar que suas andanças por lá quase nos fazem bem mais que a ele.

Por Érico Nogueira

Saímos de Amsterdã neste último dia primeiro, com destino a Bruxelas; duas horinhas e meia, e pumba, já estávamos lá. Meu amigo, o poeta Zachary Lusten, nos reservara um hotel próximo da sua casa, a uns 20 minutos a pé de Brussel-Centraal. Tudo muito perto, tudo muito interessante.

Lusten nos fez de guia, e passou as primeiras horas daquela tarde a discursar sobre a cidade do seu coração: a diferença ente flamengo e holandês, Bélgica e Holanda, catolicismo e protestantismo, o reinado de Carlos V de Espanha, a independência da Bélgica -- e poesia, claro, francófona e neerlandesa, principalmente. Presenteou-me com Dans la chaleur vacante, do seu mestre André du Bouchet:

EXTINCTION

Le noeud du souffle qui rejoint,

plus haut, l'air lié,
et perdu.

Ce lit dispersé avec le torrent,

plus haut, par ce
souffle.

Pour nous rêver torrent, ou inviter le froid, à travers
tout lieu habité.

De la montagne, ce souffle, peut-être, au début du
jour.

L'air perdu m'éblouit, se fermant sur mon pas.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Diário de Bordo 2 - Amsterdã


A cidade dos canais foi a penultima parada de Érico Nogueira. Mais uma vez, generosamente para nós do Ocidentalismo.org, Érico deixa mais do que impressões de ponto turísticos, uma singela descrição daquela "paisagem humana" muito particular.

por Érico Nogueira

De trem, a viagem de Berlim a Amsterdã dura 6 horinhas... Tranqüilo; eu ia lendo As confissões de Agostinho de Hipona, então nem vi o tempo passar; desembarcamos em Amsterdam Centraal, e, como sempre, sem mapa nem nada - só com as indicações do google maps anotadas num pedaço de papel -, saímos desbravando a cidade, rumo ao hotel Adolesce.

Saí da estação, e fiquei de queixo caído; era a cidade mais linda que eu já vira, sem dúvida, e o povo, bem, o povo era uma espécie de alemão alegre e afetuoso (que, pois, deixou de ser alemão, ah ah), a cuja sociedade os imigrantes das Antilhas, do Suriname, da África do Sul e da Indonésia, principalmente - ex-colônias holandesas -, estão muito bem integrados; o holandês se lixa pra cor da sua pele, e pro lugar donde você vem: não há mau-cheiro de xenofobia no ar. Cidade moderníssima, portanto, aberta, multicultural e multirracial; e linda, linda linda linda. Pensei logo em Gilberto Freyre, e no conceito de democracia racial: lá sim, em Amsterdã, a coisa funciona...

Depois de nos perder um pouquinho - sempre acontece também -, chegamos, enfim, ao hotel, uma antiga casa à beira de um canal, totalmente reformada e modernizada, mas com um não sei quê de atávico, de tradicional. O proprietário, um senhor dos seus 50, 55 anos, estava ouvindo Simon & Garfunkel quando entramos, e foi muito simpático, como, aliás, todos os holandeses com que tratei. Perguntei-lhe por uma livraria, pelo poeta flamengo Karel van de Woestijne (1878-1929), citado pelo nosso Carpeaux e recomendado por Márcio José Silveira Lima. Spreek je Nederlands?, ele perguntou. Not yet, respondi, e soltei uma risada. Ele riu; e nós, agora com um mapa na mão, saímos turistar.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Diário de Bordo 1 - Berlim


Berlim, Amsterdã e Bruxelas: estas serão as cidades que bisbilhotaremos no diário de viagens de Érico Nogueira, poeta e tradutor que a partir de hoje é mais um dos seletos aristocratas que compõem este projeto Ocidentalismo.org. A primeira parada de Érico foi também para alimentar a si - e a nós - da mais bela poesia contemporânea.

Por Érico Nogueira

Terça-feira passada, 24/08, partimos, Adriana e eu, para Berlim, onde fomos muitíssimo bem recebidos por Ricardo Domeneck, que inclusive nos cedeu o seu apartamento, dizendo "Eu me arranjo em outro lugar: vocês ficam aqui"; isso é que é hospitalidade.

Afora a cerveja e a comida alemãs - de que sou suspeito para falar -, foi a cidade mesma de Berlim que nos chamou a atenção. Uma cidade ainda hoje de cicatrizes abertas, quase no segundo decênio do séc. XXI; uma cosmópole onde a cena poética não sofre de provincianismo agudo; um lugar estimulante para a vida, para o pensamento, - e para a poesia, claro.

Com a biblioteca de Ricardo à minha disposição, pude ler o incrível poeta português Al Berto (1948-1997), e me deliciar com a sua linguagem a um só tempo bruta e doce - uma lição a quanto inconformismo ingênuo, a quanto confortável tradicionalismo possa haver em poesia; a tradução de Mandelstam assinada por ninguém menos que Paul Celan - simplesmente um clássico; e a poesia completa (em inglês) do poeta polaco Zbigniew Herbert (1924-1998), cujo poema "Why the classics" condensa em poucas linhas tudo o que eu queria (e ainda quero) dizer com a minha poesia:

Why the Classics

1

in the fourth book of the Peloponnesian War
Thucydides tells among other things
the story of his unsuccessful expedition

among long speeches of chiefs
battles sieges plague
dense net of intrigues of diplomatic endeavours
the episode is like a pin
in a forest

the Greek colony Amphipolis
fell into the hands of Brasidas
because Thucydides was late with relief

for this he paid his native city
with lifelong exile

exiles of all times
know what price that is

2

generals of the most recent wars
if a similar affair happens to them
whine on their knees before posterity
praise their heroism and innocence

they accuse their subordinates
envious collegues
unfavourable winds

Thucydides says only
that he had seven ships
it was winter
and he sailed quickly

3

if art for its subject
will have a broken jar
a small broken soul
with a great self-pity

what will remain after us
will it be lovers' weeping
in a small dirty hotel
when wall-paper dawns

Traduzido por Peter Dale Scott e Czeslaw Milosz.


Saímos de Berlim domingo, 29/08, às 8h30, com destino a Amsterdã; Adriana levando muitas fotos e impressões e um pretzel na mochila, e eu com um exemplar de "Aroma", o último livro do poeta alemão Durs Grünbein (n. 1962), um dos maiores nomes da nova poesia alemã - se não mesmo o maior. Grünbein retoma e desenvolve o hexâmetro alemão, e, leitor de Horácio, Marcial, Ovídio - mas sobretudo de Juvenal -, opera nessa tensão entre o passado e o presente, ontem e hoje, atualizando os procedimentos formais da sátira latina. Eu amei descobrir esse poeta: sensação de não estar sozinho... Vocês aguardem: em breve vou traduzir aqui o fenomenal "Torso des Polyphem", poema alusivo, claro está, não só à tradição greco-romana, mas também a Rilke.

E chegamos a Amsterdã...

Retirado de Ars Poetica.
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