Saiba mais

Mostrando postagens com marcador fernanda vaz. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador fernanda vaz. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Passages from Leonardo da Vinci's notebooks

selecionados por Fernanda Vaz

The knowledge of past times and of the places on the earth is both an ornament and nutriment to the human mind.

***

Avoid studies of which the result dies with the worker.

***

Learning acquired in youth arrests the evil of old age; and if you understand that old age has wisdom for its food, you will so conduct yourself in youth that your old age will not lack for nourishment.

***

As a day well spent procures a happy sleep, so a life well employed procures a happy death.

***

Just as food eaten without caring for it is turned into loathsome nourishment, so study without a taste for it spoils memory, by retaining nothing which it has taken in.

***

Why does the eye see a thing more clearly in dreams than with the imagination being awake?


Retirado de O Aulos de Euterpe.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Onde está Wally

"The Ambassadors" (1533). Hans Holbein, o Jovem (1597 - 1543)
Simplesmente a observação mais culta e saborosa da web na última semana.

por Fernanda Vaz

Fiz um blog para colocar só as traduções do Mabinogion e não atolar essa página com textos gigantes. Estão lá os dois contos do primeiro ramo. Vejam, vejam!

***

Percebo cada vez mais que meu gosto por História é majoritariamente anedótico e pitoresco. Sou eu aquela pessoa que decora toda a linhagem e as fofoquinhas de corte dos Tudor, mas não faz a mínima idéia de como foi o reinado de Henrique VIII politicamente para a Inglaterra.

***

Das minhas andanças pelo Google Art Project:





Com a qualidade enorme do zoom e um alemão bem chulé, pude descobrir qual é a música que está escrita escrita no livro: um coral luterano chamado Komm, Heiliger Geist, Herre Gott, cuja melodia J.S. Bach utilizou na Cantata BWV 59 e no Moteto BWV 226.

Esse quadro é um verdadeiro mundo. Poderia falar milhares de coisas dele e o post ficaria enorme antes mesmo que eu pensasse em citar a caveira anamórfica na parte inferior - sim, notem aqui, aquela coisa esquisita e branca pairando no chão na diagonal é uma caveira pintada para ser vista de um determinado ângulo. Dizem uns que o Holbein a botou ali só pra mostrar como era um pintor danado de habilidoso; outros dizem que a pintura foi feita para ser pendurada na parede de uma escada, para que a pessoa que estivesse subindo e olhando a pintura da sua esquerda tomasse um belo dum susto. É claro que acredito na segunda teoria, porque é mais legal e eu gosto de acreditar nas coisas que me parecem mais legais (A música das esferas, por exemplo).

Não à toa falei que o quadro é um mundo, também - há os que sugerem que na estante estão três planos representados: os céus (representados pelos objetos astronômicos e científicos na parte de cima), o mundo dos humanos (identificado pelos livros e instrumentos musicais) e a morte (a tal caveira, é claro, mas eu também notei que há um alaúde jogado debaixo da estante). Tem mais milhares de detalhezinhos deliciosos de se ver - o padrão dos ladrilhos do chão teria sido retirado da Abadia de Westminster. O alaúde ao lado do livro com o coral que identifiquei tem uma corda quebrada, o que é considerado símbolo de discórdia. Os dois homens retratados foram identificados como Jean de Dinteville, embaixador da França na corte de Henrique VIII em 1533, e Georges de Selve, um religioso que se tornaria bispo de Lavaur no ano seguinte à pintura. No livro sob o qual de Selve repousa o cotovelo se lê AETATIS SVAE 23, que significa que ele teria 25 anos de idade. Já na adaga de Dinteville lê-se que tinha 29 anos. O livro perto do globo terrestre é um livro de aritmética comercial de Petrus Alpianus, e está aberto numa página que demonstra a divisão. Há um esquadro e um compasso, que junto com os instrumentos musicais e os objetos científicos, remetem ao Quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música).

Com todas essas informações a coisa mais óbvia é ficar se perguntando o que quis dizer o Holbein com esse monte de parerga (elementos adicionais à obra de arte, que a embelezam mas ao mesmo tempo estão em conflito com ela). Este artigo faz uma análise bem detalhada e completa de todas as alegorias, contrastes e idéias contidas na pintura - mostra inclusive que todos os objetos astronômicos indicam a data 11 de Abril de 1533, Sexta-Feira Santa, o que fez com que aumentasse mais ainda meu fascínio pelo detalhismo e genialidade do pintor.

***

Se meu gosto por história é baseado em pequenos detalhes e sutilezas, a razão não é outra que não o fato de meu gosto por arte obedecer à mesma regra. Da ornamentação do barroco até os milhares de detalhes e alegorias numa pintura - acho que por mais que passeie por outras correntes, sempre vou gostar mesmo é de um "Onde está Wally" highbrow.

Retirado de Apfelsaft.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O anseio por uma vida mais bela

Seleção de textos e comentários de Joan Huizinga - um dos lançamentos do ano de 2010.

por Fernanda Vaz

Johan Huizinga, "O Outono da Idade Média", Cap. II, p. 63:

Um pouco antes da batalha em Crécy, quatro cavaleiros franceses reconheceram a ordem de ataque dos ingleses. O rei, que aguarda impaciente o relatório deles, vai avançando lentamente pelo campo e para quando os vê voltar. Eles atravaessam a multidão de guerreiros até estarem diante do soberano. O que há de novo, senhores?, ele pergunta. Eles se entreolharam sem dizer uma palavra sequer, pois nenhum queria falar antes do companheiro. E ficavam dizendo de um para o outro: "Dizei vós, senhor, falai com o rei. Não falarei antes de vós". E assim ficaram se debatendo por algum tempo, pois nenhum queria "ter a honra" de começar a falar. Até que o rei ordenou que um deles falasse. A objetividade teve de recuar mais ainda diante da beleza da forma no caso do Messire Gaultier Rallart, o chevalier du guet de Paris, em 1418. Esse chefe de polícia nunca costumava fazer a ronda sem que três ou quatro músicos seguissem à sua frente, soprando alegres seus instrumentos, levando o povo a dizer que, na verdade, ele estava avisando os malandros: fujam, pois estou chegando.

p. 65:

Alguém a quem se destina um beijo na mão a esconde para escapar dessa honra. Assim, a rainha da Espanha esconde sua mão diante do jovem arquiduque Filipe, o Belo; este aguarda por algum tempo e, assim que vê uma oportunidade, agarra a mão de surpresa e a beija. Dessa feita a séria corte espanhola explodiu em gargalhadas, pois a rainha já não esperava por aquele gesto.

(Filipe, o Belo e Joana de Aragão. c. 1505)

Não é preciso dizer que essa minuciosa ornamentação da vida tem seu lugar sobretudo nas cortes dos soberanos, onde havia tempo e espaço pra isso. Mas também permeavam as esferas inferiores da sociedade - algo comprovado pelo fato de que essas formas sociais continuam preservadas hoje justamente na pequena burguesia (sem se falar nas próprias cortes). O convite reiterado para servir-se de mais comida, a insistência para que a pessoa fique mais um pouco, a recusa em passar na frente de alguém desapareceram em grande parte do comportamento social da alta burguesia na última metade deste século¹. No século XV, essas formas estão em pleno vigor. Ainda quando penosamente observadas, são objeto de sátira mordaz. Encontra-se sobretudo na Igreja o teatro das cerimônias longas e belas. Durante o ofertório, ninguém quer ser o primeiro a levar sua esmola ao altar.

Pode passar. - Ah, não, obrigada. - Por favor!
Sem dúvida vós ireis, prima.
- Não, eu não. - Chame a vizinha.
É melhor que oferte primeiro.
- Vós não deveis tolerar,
Diz a vizinha: Nem me passa pela cabeça:
Oferecei logo, pois depende só de vós
Para que o clérigo continue ².


___________________
¹ Huizinga viveu na transição do século XIX para o XX. Se estes costumes desapareceram mesmo nessa época, hoje acho que ainda dá pra dizer que estão é bem vivinhos - talvez o último fora de São Paulo.
² Eustache Deschamps (séc. XIV).

Retirado de Apfelsaft.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

"De Tormentibus Inferorum", Cap. IX


por Fernanda Vaz

Três são as estéticas que ditam a aparência do inferno; a da maçonaria, a da Wicca e a do Hinduísmo Kitsch. Pelas paredes se vê cabeças de bafomé, pentagramas purpurinados, pirâmides com olhos, esquadros e compassos, gentes azuis tocando flauta com os dedinhos levantados, quadros de gif animado (invenção local) com bruxinhas em estilo mangá, velas vermelhas, retratos de Morgana Le Fay desenhados a grafite por garotas de quinze anos, elefantes rosa bebê em posição de lótus [...]

[...] ecoam por todos os cantos trechos de Osvaldo Golijov - dizem uns, em espanhol, que o próprio foi para o céu, mas é certo que sua música não fez nem uma parada pequena no purgatório, descendo direto pelos mais fétidos encanamentos metafísicos até cair no lago de fogo e enxofre, onde as almas gritam incontrolavelmente frases desconexas das quais só se distingue de vez em quando alguma palavra como "desconstrução", "reificação", "pedagogia do oprimido", "coisa-em-si", "luta de classes", "pré-conceito", "pós-estruturalismo", "educação bancária", "metanarrativa" [...]

Na porta do inferno lê-se em Comic Sans roxa "Dejad toda esperanza, vosotros que entráis" [...] os primeiros anos de tormento eterno são passados ainda na antecâmara, um enorme labirinto em que os recém-chegados são perseguidos por Gabriel Colombo. Outras versões dizem que a primeira frase que as almas penadas ouvem ao entrar no território internal é "vamo quebrá tudo, galerinha", seguida de uma enorme gincana onde os participantes precisam constantemente formar círculos, dar as mãos, ter suas pernas amarradas nas do coleguinha, carregar ovos na colher com a boca, passar folhas de papel uns aos outros com a boca e toda sorte de torturas excruciantes e diabólicas. Autores mais antigos, entretanto, tiveram o cuidado de avisar o homem comum sobre a grande chance de serem reais não um ou outro, mas ambos os tipos de tormento [...]

Em face de todas estas cousas, muitos sábios e filósofos se perguntaram que lugar tinham nas hostes infernais os pequenos monstros e criaturas horrendas de Bosch e Dürer (que sabe-se residirem ao lado de Bach e Mahler). Verdade é que se encontram estas numa ala inteira do céu, bicando felizes com seus bicos e saltitando com suas pernas mirradas, ao lado do horrendo homem para o qual a criança eternamente olha e de todas as cousas feias construídas ainda assim de acordo com os preceitos do belo.

sábado, 30 de outubro de 2010

Monteiro Lobato e o politicamente correto


Parafraseando Augusto Nunes, de nossa "Era da Mediocridade" não escapa sequer o pai do Jeca Tatú... Recentemente é Monteiro Lobato, aquele do Sítio do Pica-Pau Amarelo, que recebe censuras do politicamente correto. Fernanda Vaz, sempre altiva e educada, não se conteve e entrou na briga ao lado do pai da Narizinho.

Por Fernanda Vaz

Os que me conhecem minimamente sabem que não sou lá a pessoa mais dada a discutir atualidades, especialmente se estiverem de alguma forma relacionada a governos ou política. Digo isso sem temer críticas - a mim faz bem deixar de ler o "Times" para ler as "Eternities", como recomendava Henry David Thoreau, e assumo certo nível de alienação sem maiores conflitos de consciência.

Há certas coisas, entretanto, que nem a mais blasé das almas consegue ignorar. Uma delas é a proposta do Conselho Nacional de Educação de banir das escolas brasileiras o livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato. É redundante falar sobre a importância das obras de Monteiro Lobato para a literatura brasileira, sobre o valor de seus livros para a alfabetização, sobre o enriquecimento de linguagem que proporcionam (posso citar de memória pelo menos meia dúzia de palavras que lembro ter aprendido, na infância, lendo as Memórias da Emília) ou, last but not least, sobre o universo rico, imaginativo e estimulante que é o Sítio do Pica-Pau amarelo. "As Reinações de Narizinho" e "Os Serões de Dona Benta" foram parte importante da infância dos meus pais, da minha própria e de muitos brasileiros mais.

Pois bem, parece que agora uma tal de Secretaria de Alfabetização e Diversidade resolveu dizer que o livro só pode ser usado quando o professor tiver "a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil". Não sei você, leitor, mas a mim parece que essas pessoas acham que se um professor citar tia Nastácia se esquecendo dos reumatismos e "trepando feito uma macaca de carvão", as crianças vão automaticamente começar a zombar dos colegas negros. Essa, entretanto, não é nem de longe a questão principal - o autor comparou a personagem a uma "macaca de carvão". Suponhamos que fosse Dona Benta a trepar, digamos, em uma árvore, esquecendo-se de qualquer limitação física: imagino que a comparação seria mudada de "macaca de carvão" para "macaca de açúcar" ou "macaca de algodão", porque para mim é evidente que a palavra relacionada à cor da pele da personagem é "carvão", não "macaca". O animal só tem relação com o ato de subir em algo com agilidade.

Mas as pessoas do Conselho Nacional de Educação parecem não saber ler. Acho que os cérebros ali funcionam como computadores simples que têm armazenadas certas palavras-chave e fazem soar o 'alarme vermelho' sempre que as encontram, seja qual for o contexto. E vejam, não são algumas pessoas - o caráter racista da obra foi aprovado por unanimidade na Câmara de Educação Básica e no CNE. Lá, caros meus, se encontram dez, vinte, trinta, cinqüenta, sabe-se lá quantas pessoas que não sabem ler. Que, lendo Monteiro Lobato, não conseguem encontrar nada além de suposta desigualdade racial. O quão assustador é isso?

Uma acusação de racismo mais absurda ainda está no outro trecho citado pela matéria d'O Globo, onde se lê "não é à toa que macacos se parecem tanto com os homens. Só dizem bobagens". Esta é uma frase que não é nem passível de análise - posso revirá-la e lê-la quantas vezes for, que não consigo ver onde está o racismo. Tivesse Monteiro Lobato comparado os macacos faladores de besteiras aos homens negros, a crítica seria compreensível, mas ele só fala de homens. Os narradores do Discovery Channel que tomem cuidado, porque daqui a pouco a simples menção a um símio vai configurar racismo.

Diz o velho ditado que a maldade está em quem a vê, e esse é um clássico caso de racismo in the eyes of the beholder. Não vou nem falar da mentalidade simplista, politicamente correta e burrinha dos órgãos que decidem o que deve ser feito nas escolas, pois isso a essa altura do campeonato já deve ser bem óbvio. Só o que há para dizer é que talvez Monteiro Lobato estivesse mais certo do que nunca. Certos macacos e homens (brancos, negros, amarelos, azuis ou magenta com bolinhas verdes) são parecidíssimos mesmo - só dizem (e fazem) bobagem.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Book Curses


Quem nunca emprestou um livro e o perdeu de vista, não leia este post. Para todos os demais, Fernanda mostra que o problema não é típico da vida contemporânea. Emprestar às calendas estes nossos tão desejados objetos de desejo, ou mesmo tê-los literalmente roubados, são coisas de sempre - tanto assim que é possível inventariar algumas soluções já bastante engenhososas desde a Idade Média.

Por Fernanda Vaz

Não sou eu a maior fornecedora de livros - as bibliotecas dos amigos costumam ser muito maiores e mais interessantes do que a talvez meia centena da qual sou dona até agora. Aos emprestadores que sofrem com amigos caloteiros, entretanto, tenho uma dica oriunda da idade média: maldições escritas.

Numa época em que um único exemplar de uma obra era fruto do trabalho árduo de um monge copista, um livro que não fosse copiado não sobreviveria, bem como um que fosse adulterado ou tivesse suas boas cópias destruídas antes que outros pudessem reproduzí-las. O roubo de um livro criaria uma lacuna talvez irremediável na biblioteca de origem. Assim, para proteger de ladrões o fruto de seu trabalho, alguns monges depois de terminar a cópia deixavam escritas maldições como esta:

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amém. No milésimo, duocentésimo, vigésimo nono ano da encarnação de nosso Senhor, Pedro, de todos os monges o menos importante, deu este livro ao [Monastério Beneditino do] mais abençoado mártir, São Quintino. Se alguém roubá-lo, que saiba que no Dia do Juízo o mais santo mártir será contra ele o acusador, diante da face de Nosso Senhor Jesus Cristo.

ou:

Thys boke is one
And Godes kors ys anoder;
They take the ton,
God gefe them the toder

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Neue Zeitschrift


Ocidentalismo.org é um exemplar da vira-latice nacional; no entanto, como vira-latas atípicos - um pouco esnobes - estamos muito zelosos de nossa árvore genealógica. Assim, pedimos a Fernandinha Vaz para que apontasse as raízes do projeto. Ela nos presenteia com a apresentação de um bisavô espiritual, a Neue Zeitschrift für Musik de Robert Schumann.

Por Fernanda Vaz


Em meados de 1833 as principais revistas de música da Alemanha eram produzidas por editores de partituras, e falavam, naturalmente, das peças por eles próprios publicadas. Não muitos anos haviam se passado desde Beethoven e Schubert, e ainda assim reinava no mercado a música de salão: peças baseadas geralmente em melodias de ópera já muito conhecidas do público, prezando pela exibição virtuosística.

Incomodados, alguns jovens músicos de Leipzig decidiram que algo precisava ser feito para que altos ideais artísticos voltassem a guiar a criação musical – algo além de discutir entre si em cafés todas as noites. Assim, com um objetivo particularmente semelhante ao nosso no Ocidentalismo.org, foi criado o Neue Zeitschrift für Musik ("Novo Periódico de Música"), tendo por editor um certo saxão que teria completado neste Junho exatos 200 anos, mas que na época tinha apenas 24 e demonstrava talvez tanto talento para as letras quanto para a música.

Ao findar de 1834, Robert Schumann assumiu toda a responsabilidade pela continuação do projeto, que correu o risco de ser abortado por causa da morte de um dos membros e da saída de vários outros (o que certamente não desejamos que seja também uma semelhança!). Schumann dizia que até então havia passado mais tempo de vida sonhando ao piano do que com livros (e digo eu que muito tempo passo sonhando com as músicas de Schumann); sabemos entretanto que tinha gosto por literatura desde muito jovem, tendo sido influenciado por autores como E.T.A. Hoffmann e Jean Paul Richter. Demonstrava em suas críticas e textos um estilo poético, cheio de metáforas, alusões obscuras e enigmas.

A Neue Zeitschrift se propunha não só a apresentar resenhas e críticas de concertos e novas obras, mas também ensaios em geral sobre música, poesia e outros tipos de arte literária. Na falta de guerreiros reais para conduzir sua guerra, Schumann criou para si um exército imaginário: a Davidsbund ou "Liga de Davi", cujo nome é alusão ao personagem bíblico famoso por matar o gigante Golias e derrotar os Filisteus - que neste caso seriam todos aqueles com gosto medíocre para música ou qualquer outra arte; os que perpetuavam a admiração pelo virtuosismo vazio; os extremamente conservadores que não davam atenção à boa música nova que vinha sendo produzida etc. Exatamente como hoje.

Schumann gostava especialmente de promover a música de outros jovens compositores, estando entre eles Brahms, Mendelssohn e Chopin. Não se deve, entretanto, cair no erro de enxergar nisto um espírito vanguardista muito grande ou um gosto exagerado pela novidade: o criador da sociedade Davidita tinha sólida consciência das grandes idéias do passado e admiração especial por J.S. Bach, que havia sido “redescoberto” alguns anos antes por Felix Mendelssohn. Como se lê no editorial de ano novo de 1835, a idéia era “manter na memória os velhos tempos e suas obras, enfatizando que apenas de tal fonte pura podem sair novas belezas artísticas”.

Tal consciência histórica é a base de toda a Liga de Davi, da qual “Mozart já foi um membro tão proeminente quanto é hoje Berlioz, sem que se necessite de certificado algum de participação”. Fugindo do conservadorismo extremo e do novo pelo novo, Robert Schumann foi um dos poucos bem-sucedidos a seu tempo em encontrar equilíbrio no que diz respeito a julgamento artístico – o que nos dias de hoje é ainda tão de se conseguir!

Entre os Davidsbündler também estavam algumas figuras imaginárias, heterônimos criados por Schumann para expressar aspectos contrastantes de sua personalidade e, em suas palavras, equilibrar de forma bem-humorada Dichtung und Warheit, “poesia e verdade”. Havia o sereno Eusebius, quieto e sonhador, e o selvagem Florestan, impetuoso e temperamental. O equilíbrio entre os dois era dado por Mestre Raro, usualmente uma representação de Friedrich Wieck, professor de piano e sogro de Schumann, que não poucas vezes era quem dava a palavra final nas críticas e textos construídos em forma de diálogo.

É interessante notar também a influência da sociedade imaginária em suas composições: Florestan e Eusebius são os nomes assinados em diversas obras do período e têm suas representações musicais em duas das 20 pequenas peças para piano do “Carnaval”, op. 9 – ciclo em que aparecem também Clara Wieck (“Chiarina”), Paganini e Chopin, que teve muitos de seus trabalhos louvados com empolgação pelos personagens de Schumann. Fechando o cortejo carnavalesco imaginário está ainda a Marche des Davidsbündler contre les Philistines, que cita um antigo tema do século XVII, simbolizando idéias ultrapassadas e antigas a serem derrubadas.


Em 1853, nove anos depois de ter deixado o comando da Neue Zeitschrift, Schumann escrevia que cada época tem sua sociedade secreta de espíritos afins. Em certo sentido, podemos ser ainda hoje Daviditas (embora bem reais, sem doppelgänger ou alter-egos - ao menos até onde se sabe!), lutando contra o filistinismo que pinta grandes obras e idéias como monstros complicados e inacessíveis demais. Dadas as devidas proporções, o objetivo atual de muitos entre nós continua sendo aquele do século XIX: a elevação de padrões. Isso não significa que apenas um grupo deva desejar pegar para si e transformar em “sabedoria oculta” todo o legado cultural ocidental, mas sim que é bom que este seja preservado e restaurado ao lugar devido – que não é o de opressor de pobres mentes engessadas e nem de salvador de pobres almas perdidas, mas sim de instrumento valioso para a formação humana.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...