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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

QUEM AQUI NÃO TEVE UMA NAMORADINHA QUE TEVE QUE ABORTAR?

Sérgio Cabral, candidato reeleito Governador do Rio de Janeiro é, antes de tudo - e a despeito de sua competência ou incompetência, não entraremos no mérito - é antes de tudo, dizíamos, um falastrão. Sua última máxima é uma mínima. Talyta Carvalho discute o caso.

por Talyta Carvalho

Sou jovem, mulher, namorada, filha e tento ser “filósofa-intelectual-acadêmica”. Sou uma daquelas garotas que as pessoas olham com a impressão (pouco importa se certa ou errada) de que à minha frente há um mundo de possibilidades, de coisas a serem vividas, de vitórias a serem conquistadas. Obviamente, não atingi nenhum ápice na vida ainda, seja ele o ápice pessoal ou profissional. A rigor, ainda não cheguei a lugar algum; muito embora pareça que a tendência é que um dia eu chegue, afinal, recebi os instrumentos para tanto. Imagine você leitor, o que uma gravidez acidental poderia representar neste exato momento da minha vida, que ao que tudo indica, caminha para um belo futuro?

Falo hipoteticamente, é claro. Sei que o leitor sabe que não estou, de fato, grávida. Apenas quis apontar o lugar de onde falarei sobre o polêmico tópico da legalização do aborto. Quis apenas que ficasse claro que, como se diz na Academia, tenho “capital simbólico” para discutir o assunto. Não pretendo fazer propaganda, não pretendo convencer ninguém da minha opinião, não pretendo fazer circo algum pegar fogo. Nunca quis escrever sobre este assunto, recuso propostas de falar sobre o tema, e nunca debato minha opinião fora do pequeno círculo de amigos próximos que tenho. Mas hoje eu vou falar sim neste assunto. Escrevo este post porque tem coisas quem ficam “entaladas” na garganta ao longo dos anos, e um dia a gente cansa de se omitir e dar espaço para que toda sorte de pessoas fale sem discernimento algum de coisa séria. Sim, aborto é coisa muito séria. Tão séria que é lamentável que a discussão gire em torno de argumentos que partem de certa “positividade e objetividade da lei”, o que quer que queiram dizer com isso. Já aviso: sou contra. Se você é a favor e se irrita com pessoas que, como eu, se recusam a passar a mão em sua cabeça como quem diz que “tudo bem fazer isso”, acha “evoluído” um país que aprova a legalização, e ainda que “a mulher tem direito de escolha sobre seu corpo”, uma dica: não continue lendo este texto. Você apenas irá ficar bravo(a) e sentir desprezo por uma pessoa como eu que não “entende” e não “respeita” o tal direito de escolha (“aliás, como pode uma menina esclarecida, estudada, pensar assim??”).

Antes de qualquer coisa: simpatizo com o sofrimento de mulheres que se encontram diante da agonia de uma gravidez indesejada; Eu mesma já passei pelo drama de suspeitar estar grávida de um namorado e me pegar angustiando o que eu poderia fazer para “resolver” a situação caso ela se confirmasse. Claro que a possibilidade de um aborto sempre passa pela cabeça de qualquer uma quando se vive o impasse na pele; perturbam sua cabeça questões como “meu namorado não quer esse filho, é justo o bebê não ter pai?”, “minha família vai me matar se eu disser que estou grávida”; “até quero ter filhos, mas o momento é péssimo, mal comecei minha vida, e um bebê agora vai mudar tudo”. A realidade é que nunca estive grávida, mas essas perguntas povoaram minha cabeça antes do teste resultar negativo. Eis aqui uma verdade inconveniente: decidir manter ou não uma gravidez é sempre uma decisão tomada em meio ao desespero. Uma mulher que diga ser capaz de decidir sobre isto baseada na reflexão e nas “conversas” com especialistas (médicos, assistentes sociais, psicólogos) e na ponderação do que é o “melhor” pra si, mente. É uma decisão terrível de ser tomada, e em uma instância, determinada principalmente por um afeto: medo.

Acho hipócrita gente que diz que é “hipócrita a discussão de aborto no país, que o Estado deve dar suporte a mulher pobre que faz aborto em clínica clandestina, blábláblá”. Mais ainda se quem fala é um homem. Homem que defende aborto alegando que o faz porque acha que a “mulher tem ser ouvida” e deve “ter direito sobre seu corpo” sempre soa a mim como um canalha. Ao menos tenha a coragem de admitir que você é a favor do aborto porque quer respaldo legal para não assumir a “bomba” que é a gravidez indesejada de sua namorada, amante, ficante ou caso de uma noite, e assim induzi-la a tirar o seu do reta sem pegar muito mal para você.

Aborto não é medida que se tome para não ter filhos em momentos indesejados. Todo mundo que transa sabe que pode ter uma surpresa rosinha e chorona depois de nove meses. Não é crime algum adiar, mesmo que para sempre, a maternidade: para isso é que existem os mais variados métodos contraceptivos. E se ainda assim vier um baby não desejado que poderá colocar todos seus sonhos abaixo ou ainda o qual você não terá condições de criar e sustentar, sempre há a opção de dá-lo para adoção: você não é obrigada por lei alguma a ser mãe de um bebê só porque você o gerou. O aborto não foi criminalizado, assim como o homicídio não foi criminalizado, por isso não aceito argumentos como o baseado na idéia de que a escolha deve ser permitida, algo como dizer “legalizando você assegura liberdade de escolha a todas as mulheres, se não concorda com a prática você tem o direito de não fazer. Quem quer faz, quem não quer não faz”. Isso me soa tão absurdo quanto dizer que se deve assegurar o direito dos cidadãos escolherem, por exemplo, em uma situação dramática qualquer, se cometem um homicídio ou não, sem que tenham de pagar em termos punição legal por isso. Sou a favor da vida, e a julgo inegociável.

Aborto não é mera questão de saúde pública. Converse francamente com uma mulher que tenha passado pela experiência (e antes que perguntem: sim, já conversei com muitas sobre isso, ricas e pobres). Em primeiro lugar, ela terá dificuldade de explicar como decidiu pelo aborto e, muitas vezes, fará referências a falas e conselhos de terceiros (em geral do pai, do namorado, amante, professora, analista) os quais ela desconfia que não deveria ter ouvido em um momento de tanta fragilidade e angústia. Em segundo lugar, por mais insensível que você seja, você vai notar com nitidez que o relato dela sobre a experiência exala uma percepção de que o que aconteceu naquele momento, naquela sala de uma clínica qualquer (clandestina ou super-higiênica e cara) foi uma violência com ela, e que antes fosse apenas uma violência física. Não conheço mulher alguma que tenha abortado e superado a experiência. Que ninguém se iluda pensando que é um ato que encerra ao final de um procedimento médico.

(EM TEMPO: Os postos de saúde distribuem gratuitamente camisinhas. Seu namorado, amante, caso de uma noite na balada, não tinham e não gostam de usar? Sem problemas -pelo menos no quesito “gravidez”. Advinha? Também distribuem anticoncepcionais de graça!!! Sim, você leu bem: DE GRAÇA!!! Quem diria, né?

EM TEMPO 2: No fundo no fundo, eu também acredito que a mulher tem direito sobre seu corpo: dá se quiser, se não quiser não dá. E também ingere remédios contraceptivos porque escolheu assim fazer e por ser “dona” de seu corpo pode muito bem impedir com essa atitude que outro ser ali se instale (em seu útero, precisamente) contra sua vontade. Mas uma vez que tenha escolhido (uma vez que há escolha) o risco de ter ou não outro ser como “inquilino”, aí já não há “direito sobre o corpo” que valha. Lembremos que são dois corpos agora, e embora tenha um “hóspede” indesejado em seu corpo, ela não tem direito sobre ele. Antes de tudo, ela “deixou” ele ali se instalar, sabia que poderia acontecer. Ele (o feto) é que tem direito sobre si. Então, que ele decida um dia após nascer se o melhor para ele é dar fim a sua vida ou não.)

De te fabula narratur(?)

Por Leandro Oliveira


Lt. Colonel Kilgore - You smell that? Do you smell that?

Soldier - What?

Kilgore - Napalm, son. Nothing else in the world smells like that. I love the smell of napalm in the morning. You know what, one time we had a hill bombed for twelve hours and when it was all over I walked up. We didn't find one of 'em, not one stinkin' dink body. The smell, you know that gasoline smell, the whole hill.... smelled like... victory. Someday this war's gonna end.

As lentes particulares de Jan Troell



Um dos grandes cineastas de nosso tempo, em um pequeno perfil de Willian Silveira.

Por Willian Silveira
"Eu prefiro dizer que estive à luz de Bergman"

Tão ou mais raro que encontrar filmes que carregam a mesma assinatura na direção, no roteiro e na fotografia, é conhecer Jan Troell. O sueco nascido em Malmö, em 1931, manteve-se sempre ligado à fotografia. Ensaiou seus primeiros passos na sétima arte em 1962 ao assinar a direção de fotografia do curta "Pojken och draken" (algo como "O Menino e o Dragão"), de autoria do compatriota Bo Winderberg (1930-1997). A parceria parece ter dado certo e rendido bons frutos, o que garantiu que fosse repetida um ano depois no longa "The Baby Carriage" (Barnvagnen, 1963). A partir de então, interesses distintos fizeram com que Winderberg e Troell seguissem caminhos inconciliáveis. Enquanto o primeiro optou por dar seguimento à carreira trabalhando para a indústria do cinema e da televisão, o segundo entendeu que a única maneira de preservar a originalidade dos projetos cinematográficos era evitando que se transformassem em mercadoria à mercê dos estúdios, produtores e tantos outros interesses. Procedeu da forma que planejou e, em 1966, o isolamento - facilmente entendido por muitos como um suicídio - rendeu-lhe o lançamento de "Here's your life", adaptação de um romance dos anos 30 do poeta sueco e prêmio Nobel de Literatura Eyvind Johnson (1900 - 1976).

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Amnésia Cultural - Sérgio Bernardes


Por Leandro Oliveira

Foi com Sérgio Bernardes que aprendi uma das melhores tiradas que conheço - que uso até hoje quando estou com alguma pequena doença qualquer: "ah, se não mandarem abrir estou excelente!". Era como Sérgio lidava com sua saúde já debilitada ao final da vida, no mesmo espírito alegre e simples com que ao chegar cumprimentava - fazia questão - todos funcionários e convidados da casa.

Para muito além do maior arquiteto brasileiro de sua geração - qualquer comparação possível somente talvez com as maiores inspiraçoes de Zanini -, Sergio Wladimir Bernardes (1919 - 2002) era um gentleman de rara inteligência e sensibilidade. Lembro a primeira vez que nos vimos: conquanto ele tivesse quase oitenta e eu cerca de vinte, as perguntas vinham dele. Pareceu uma curiosidade sincera, que hoje sei fruto menos de qualquer carisma de minha parte que de sua generosidade ao perceber minha timidez. Fazia questão de deixar-me à vontade.

Desde aquele primeiro encontro pude ficar algum tempo próximo de sua família, principalmente sua esposa Kykah, e seus netos Mana e Pedro, em aniversários e pequenas viagens ao litoral. Nunca fiquei sabendo de fato quem era Sérgio, pois conviver com um gênio nos faz crer que ele é alguém como nós. Sérgio não era.

"Aquele país idiota, cheio de moleques..."


Como queria assinar os textos de Érico... Este é um post-desabafo, uma petição de princípios que, se aqui parece focado em problemas específicos da literatura, deve na verdade ser entendido à luz de toda produção cultural pátria. Desfrutem.

Por Érico Nogueira

Se há um país idiota, no sentido etimológico do termo - em grego, idiotés, ou um particular que de tão particular chega a ser autista, e é, pois, incapaz de compreender o lógos comum sobre que se assenta a pólis -, esse país é o Brasil, nação que em regra não consegue entender os pressupostos mais básicos da civilização ocidental. Disso sabiam os Garotos Podres; a isso refere-se o "se não é jabuticaba, e dá só no Brasil, então é besteira".

O ponto é: ensina-se poesia, aqui, como uma justificada sucessão de assassinatos, até que, finalmente, se chegue ao modernismo mais chinfrim, do tipo "amor: humor", como se chega ao paraíso. Imaginem um professor italiano dizendo que Ungaretti, sim, é que é bom, e aquele almofadinha do Carducci faz muito bem em ficar na penumbra; ou um francês dizendo que Apollinaire salvou a França do rendilhado de Gautier; um alemão afirmando que Celan estirpou a praga de Rilke... Seria caso de polícia, acreditem. No Brasil não; e a criançada continua aprendendo que "amor: humor" é A poesia brasileira de verdade, enquanto "Ora o surdo rumor de mármores partidos" não passa de afetação...

O que fundamenta essa brutalidade é uma certa idéia de Brasil, mais ou menos arraigada em todos nós: o Brasil é o seu povo, e o seu povo é espontâneo, leve e cordial; a poesia genuinamente brasileira, pois, deve ter essas características, sob pena de ser mera macaqueação de modelos estrangeiros. É um apanhado de absurdos - e absurdos xenófobos, criados pelo Sr. Getúlio Vargas e decantados nas canções de Ary Barroso... O pior, porém, não são eles: é a releitura deles em chave socialista, obra máxima do cachaceiro presidencial, que já vai tarde: o Brasil é o seu povo, e o seu povo, espontâneo, leve e cordial, depois de longa luta de classes chega finalmente ao poder para não mais sair. Tudo o que não for povo, pois, não é Brasil, é 'elite', e deve, ou bem abrasileirar-se, ou... Como se vê, trata-se da reedição do inesquecível "Brasil: ame-o ou deixe-o". Dá vontade de vomitar.

Concluindo: a sofisticação formal, em poesia, nunca foi tão política como hoje. É resistência contra a imbecilização. É afirmação do indivíduo contra a massa de idiotas.

Retirado de Ars Poetica.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Cultura i(n)-útil


Por Leandro Oliveira

Para defesa pessoal podemos considerar como arma todo o qualquer objeto que possa ser usado em resposta a uma agressão. São cinco os tipos de objetos de defesa.

1) Os de tipo "martelo" são aqueles que permitem maior rigidez no contato. Ou seja: eles são usados como algo que sirva em substituição ao próprio punho ou pé pela sua eficiência e dureza. Uma cadeira, um cinzeiro ou um telefone celular, a ponta do sapato: tudo que é rígido é útil para golpear o adversário. Use a imaginação.

2) Os de tipo "perfurante" são não só as pontas de faca mas também os furadores de gelo ("Instinto Selvagem"?), os saca rolhas, as canetas, os espetos de churrasco, as hastes de óculos e, claro, para as meninas, os prendedores de cabelo. Não importando o tamanho (o tamanho diz sobretudo da distância com relação ao adversário), atingindo o lugar certo - os olhos, por exemplo - fazem maravilhas!

3) Os de tipo "cortante" são usadas, como o nome diz, para cortar. Aqui a referência óbvia são as facas - mas lâminas de alumínio, cacos de vidro, garrafas quebradas podem ser excelentes. É fácil por exemplo fazer um corte profundo com pontas de brinquedos quebrados... depois eu mostro.

4) "Dispersivos" são usados para serem arremessados contra o adversário. Mas atenção: você não está brincando de beisebol, então seu objetivo não é levar ninguém a nocaute, mas tirar a atenção ou confundir. Serve tudo: boné, casaco, dinheiro, chaveiro, areia... ou mesmo o celular, a cadeira, o prendedor de cabelo e a caneta. O problema é: distrair seu agressor para quê? Aí mora o busílis. Pode ser para sair correndo, para dar uns sopapos... depende de sua disposição. Mas saiba, os dispersivos devem ser encadeados em outras ações, necessariamente; não vale jogar o vinho de sua taça na cara do sujeito para ver o que acontece. Adianto: isso não vai acalmá-lo.

5) Objetos do tipo "corda": fios elétricos, fio dental, cordas para pular na ginástica, pedaços de arame. Bons para amarrar, evidentemente, mas quem viu filmes de ação sabe alguns usos diferentes - há muitos outros!

Não se deve duvidar de tudo


Joel Pinheiro faz uma pequena reflexão - que bem poderia ser uma espécie de "editorial" de Ano Novo. Que venha 2011!

Por Joel Pinheiro da Fonseca

Três argumentos: o ético, o filosófico, e o econômico.

Por duvidar quero dizer negar assentimento a uma proposição e procurar razões pelas quais ela possa não ser verdadeira.

O ético: crenças (e aqui falo no sentido mais amplo: afirmações sobre a realidade assentidas pelo indivíduo) levam a ações. Ações podem ser boas ou más. Assim, duvidar de uma crença qualquer pode fazer com que não mais façamos uma boa ação, ou com que façamos uma má ação. Se um abolicionista potencial duvidasse de que negros são seres humanos, a causa abolicionista perderia muita importância para ele. A máxima de Hume “Daring in thought, conservative in action” até funciona para impedir atrocidades, mas falha para nos convencer a agir bem (para além da mediocridade esperada) quando esse agir bem depende de crenças das quais duvidamos.

Esse argumento, contudo, tem uma grande falha que é submeter crenças à moralidade, que incentiva antes a suposição de contos de fada coloridos para preservar certas boas ações do que a procura da verdade acima de tudo e, como conseqüência dela, a descoberta de uma ética baseada na realidade. Ainda assim, em casos pontuais parece-me uma consideração legítima; há vezes em que é melhor não duvidar.

O filosófico: mesmo para se formular uma dúvida é preciso aceitar alguns pressupostos (por exemplo, que há tal coisa como verdade e falsidade). Portanto, é impossível duvidar de tudo de uma vez só. Seria, contudo, possível duvidar de tudo uma coisa de cada vez? Tampouco, pois há certos princípios (o mencionado acima é um deles) que devem estar presentes em todo e qualquer ato de duvidar; e mais, em todo e qualquer ato de pensar. Não é possível ser e não ser, uma coisa é o que ela é, etc. Dessas não podemos duvidar, pois ao duvidarmos estaremos aceitando-as. Se se trata de uma conseqüência da estrutura da mente (e portanto sem relação com a realidade em si) ou de uma percepção básica e inescapável da realidade vai do feitio filosófico de cada um.

O econômico (e favorito): A vida humana é finita e os recursos são escassos. Não temos nem tempo nem capacidade de fazer tudo o que gostaríamos; devemos priorizar o que se nos apresenta como sendo o melhor. Algumas dúvidas levam-nos a questões interessantes e a trabalhos intelectuais altamente proveitosos; outras são estéreis e contribuem muito pouco para nossa busca da verdade (que é a finalidade de toda e qualquer dúvida real). Duvidar demanda tempo. Portanto, é preciso priorizar aquelas dúvidas que têm o maior benefício esperado (do nosso ponto de vista) e deixar de lado outras que, embora possam até guardar um certo interesse, não parecem muito relevantes.

Portanto, ao contrário do que se diz por aí, não se deve duvidar de tudo. Talvez deva-se estar disposto a duvidar de grande parte das coisas caso bons motivos apareçam para tanto.

Retirado de Terra à Vista. Publicado originalmente no excelente Protosophos.

Notícias de um lançamento. Dicta 6 - Bráulio e Padilha

Por Leandro Oliveira


É o Bráulio contando um pouco sobre a história do segundo Tropa de Elite. O lançamento foi um badalo extraordinário, e a discussão de muito bom nível. Os únicos surpreendidos foram os amigos intelecteco-tuais, blasés como não poderiam deixar de ser, admirados com a inteligência de Bráulio e Padilha. Eles achavam ainda que sucesso + cultura popular não daria caldo inteligente.

PAFT: SE LIGA MERMÃO!

Quer novidades? Ano que vem tem muito mais debates...

domingo, 12 de dezembro de 2010

Amnésia Cultural - Márcio Montarroyos

Por Leandro Oliveira

Exatamente três anos atrás ficamos órfãos de Márcio Montarroyos.

Apesar da distância de nossa idade, formávamos um círculo muito próximo e eclético de amigos: ele e a Cris sua esposa linda, Cesarina Riso, Nelson Freire, Miguel Abrãao, Alberto Vescovi e Sabina (meus cumpadres), Alberto Nicolau, David Hadjes, o Rubens Farias, Marquinhos Portinari, Malena belíssima... Cada um de nós fazendo nossas vidas e escolhas cheias de erros e acertos, tentando discernir o que "no meio do inferno não é inferno" e seguindo em frente. Uníamo-nos por tardes inteiras, tardes que se tornavam dias e noites cheias de música e vida. Momentos despretensiosos e inesquecíveis.

Monta foi um amigo querido em uma fase muito importante da minha vida - aquela onde tomamos as decisões sobre o futuro profissional, sobre quem queremos ser e o que queremos deixar no mundo. Na verdade, sigo tomando diariamente tais decisões, mas a convivência com Marcinho me fez imaginar que era aquela alegria, inteligência e prazer permanente da arte que definitivamente eu deveria perseguir.

E segui meu caminho. Com minha transferência para São Paulo, o "mantra" da cidade caos acabou com a regularidade extraordinária daqueles dias extraordinários. Comecei a trabalhar com Neschling na Osesp, sai e voltei à Sala São Paulo e desde então sigo aqui meus dias trabalhosos e heróicos.

Alguns de nós nos distanciamos. Às vezes penso que tudo tratou-se de um sonho; às vezes acordo de sonhos que me fazem imaginar a vida como uma premonição e intuo que tudo retornará, que nos encontraremos todos nos preparativos de uma pescaria interminável, amarrando o bote à lancha que nos levará à luz do Sol e às nuvens leves de uma baía eterna. Ali ouviremos uma sonata de Beethoven e o veredicto de Márcio que aquele acorde em Ré maior é azul - e gargalharemos e estaremos felizes.

"Wave" com o trompetista Márcio Montarroyos é um presente que recebi e compartilho com todos neste domingo 12 de dezembro de 2010.

Poema de Amor

Por Leandro Oliveira

O mais belo poema de amor que conheço:

Elsa
Noites de longa insônia e de castigo
que ansiavam a alba e a temiam,
dias daquele ontem que repetiam
outro inútil ontem. Hoje os bendigo.
Como pressentiria nesses anos
de solidão de amor, que as atrozes
fábulas da febre e as ferozes
auroras não eram mais que os degraus
torpes e as errantes galerias
que me conduziriam à pura
culminância de azul que no azul perdura
dessa tarde de um dia e de meus dias?

Elsa, em minha mão está tua mão. Vemos
no ar a neve e a queremos.


Elsa
Noches de largo insomnio y de castigo
que anhelaban el alba y la temían,
días de aquel ayer que repetían
otro inútil ayer. Hoy los bendigo.
¿Cómo iba a presentir en esos años
de soledad de amor que las atroces
fábulas de la fiebre y las feroces
auroras no eran más que los peldaños
torpes y las herrantes galerias
que me conducirían a la pura
cumbre de azul que en el azul perdura
de esa tarde de un día y de mis días?

Elsa, en mi mano está tu mano. Vemos
en el aire la nieve y la queremos.

Jorge Luis Borges
Cambridge, 1967.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Wikileaks

The dissolution of the distinction between the private and public spheres was one of the great aims of totalitarianism. Opening and reading other people’s e-mails is not different in principle from opening and reading other people’s letters. In effect, WikiLeaks has assumed the role of censor to the world, a role that requires an astonishing moral grandiosity and arrogance to have assumed. Even if some evils are exposed by it, or some necessary truths aired, the end does not justify the means.

Theodore Dalrymple

Marsílio Ficino: Fé e Razão na Renascença


Talyta dedica este post às amigas Tati Ballan e Lou-Lou Wolf, "as quais, talvez por não estudarem filosofia, sempre que me ouvem falar de Ficino reagem com um encantamento que me supõe ser muito mais inteligente do que realmente sou." É resultado de sua defesa de dissertação de mestrado.

Por Talyta Carvalho

Sim, leitor do Ocidentalismo, realmente faz um bom tempo que não escrevo aqui. O motivo? Bem, passei os últimos dois meses estudando e me angustiando em razão daquela “malhação de Judas” acadêmica chamada “Defesa pública”. Aconteceu na semana passada (aliás, obrigada aos meus caros editores pela presença!) e com ela encerrou-se um ciclo de estudos que já vinha desde 2007. Uma das coisas que me ocorreu assim que a defesa terminou era de que havia uma pergunta em especial que eu não precisaria mais responder por um bom tempo: “O que você estuda no mestrado?” Perdi a conta de quantas vezes fiquei constrangida por causa dessa indagação. Por quê? Porque eu sabia qual seria a reação do interlocutor assim que eu respondesse “estudo Marsílio Ficino”: uma expressão facial blasé que, caso se fizesse verbal, diria “MARSÍLIO QUEM?”.

Não é um pecado intelectual uma pessoa (quer estude ou não filosofia) não saber quem é Marsílio Ficino. Meu constrangimento advinha do fato de nestes momentos eu me dava conta de que estava me tornando uma dessas pesquisadoras que não possuem interlocutor porque estudam um cara que ninguém conhece. Farei dois posts sobre Ficino. Este primeiro tem o objetivo de responder justamente a pergunta “Marsílio quem?”. O próximo deverá abordar o pensamento metafísico do autor.

Marsílio Ficino foi um filósofo neoplatonico nascido na Itália em 1433. Graças ao mecenato de Cosme de Médici pôde entrar em contato com toda a obra de Platão e de alguns neoplatonicos como Plotino e Proclo. Cosme havia adquirido manuscritos destes autores em grego (quando do Concílio de Ferrara e Florença) por meio de estudiosos bizantinos, e os entregou a Ficino para que os traduzisse para o latim. E foi justamente essa empresa de Cosme que nos legou um “primeiro” Ficino, o tradutor e divulgador das obras de Platão no Ocidente.

Em alguns anos todo o trabalho de tradução já estava concluído, e então, o filósofo passa a adicionar comentários dos textos às suas traduções. O ápice ocorre quando ele se propõe uma indústria própria e concebe sua maior obra, a "Teologia Platônica". Essa indústria a que me referi consistia, resumidamente, em provar por argumentos racionais a imortalidade da alma. A motivação de Ficino para tal projeto era por um lado religiosa e por outro intelectual. Ele identificava que em seu tempo o divórcio entre fé e razão caminhava para uma separação radical entre teologia e filosofia, o que ele considerava uma grande perda para as duas disciplinas, daí a motivação intelectual de reunir ambas em sua reflexão. Por outro lado, temos a motivação religiosa do autor. Ficino escreve para combater uma classe específica de pensadores: os averroístas, ainda bastante fortes e presentes no cenário intelectual da Renascença. o principal ponto de discórdia de Ficino com estes últimos era justamente a defesa da dissociação entre fé e razão, materializada conceitualmente na teoria da Dupla-Verdade.

A teoria da Dupla-Verdade não foi elaborada por nenhum averroísta, na realidade ela apenas ficou associada a estes pensadores. O que é, então, a teoria da Dupla-Verdade? Quando há dois corpos de doutrina (um deles elaborado teologicamente e o outro filosoficamente) que se propõem a analisar um mesmo objeto e as conclusões a que chegam são conflitantes, mas ainda assim ambas as doutrinas sustentam suas conclusões como verdadeiras, o resultado é uma teoria da Dupla-Verdade. Em suma, o que é válido nas bases da fé nem sempre vale nas bases da razão. Um averroísta do Renascimento (como p. ex. o paduano Pietro Pomponazzi) rejeita a razão como instrumento válido para reforçar os dogmas da fé. Daí não se poder provar, por exemplo, a imortalidade da alma individual. Marsílio Ficino supõe que a aceitação destes princípios desencadearia perda de fé e corrupção moral.

Ficino escrevia para um público específico que era o público erudito, por isso julgava necessário fazer provas racionais, pois se a fé não convence o letrado a razão deveria convencê-lo de que o caminho pelo qual se optava naquele momento poderia levar a consequências funestas.

Magister dixit. (minha pesquisa para o mestrado)


A descrição de projetos de dissertação de mestrado por vezes assemelha-se a contos fantásticos de Jorge Luís Borges. Leonardo Valverde comenta seu tema, sua justificativa e tudo o mais... À diferença das ficções do escritor maior argentino, no entanto, a pesquisa de Valverde é real.

por Leonardo Valverde

1. Delimitação do tema.

Os historiadores situam a descoberta da língua sânscrita como um dos grandes fatores para o desenvolvimento do estudo da linguagem. A partir desta descoberta temos os estudos filológicos comparativos do indo-europeu, e daí uma ciência geral da linguagem, que se chamaria por fim de linguística; embora alguns tratados antigos de língua já tenham sido estruturados linguisticamente, fazendo com que certas teorias modernas sejam apenas um ‘retorno’ ao conhecimento dos gramáticos antigos. Alguns desses historiadores, como R.H. Robins, consideram o ano de 1786 um marco inicial da ciência linguística contemporânea, onde possivelmente teria se dado a primeira das quatro ‘rupturas’ significativas ocorridas no desenvolvimento do que hoje entendemos por estudos linguísticos. Aconteceu neste ano a famosa declaração no Royal Asiatic Society por William Jones que “o sânscrito, sem levar em conta sua antiguidade, possui uma estrutura maravilhosa: é mais perfeito que o grego, mais rico que o latim e mais extraordinariamente refinado que ambos” (ROBINS, 2004: 106). Aqui no Brasil, o nosso famoso linguista J. Mattoso Camara Jr. dedicou um capítulo de sua História da Lingüística ao sânscrito, dizendo que “os métodos e as concepções da gramática do sânscrito, que se encontravam em Pāṇini e seus seguidores, estimularam o espírito europeu no sentido de uma nova visão da linguagem” (CAMARA JR., 1975: 44).

Esta nova visão não se restringiu somente à linguística histórico-comparativa. O estudo do sânscrito deu origem a muitas análises de linguística sincrônica, já que as gramáticas originais desta língua abordaram praticamente todos os campos deste ramo. Os estudos linguísticos do sânscrito eram divididos em vyākaraṇa (análise linguística), śikṣā (fonética) e nirukta (etimologia), as três faziam parte de uma educação tradicional voltada para a linguagem chamada vedāṅga [1] (conhecimento auxiliar). Estes estudos, de acordo com Robins, podem ser considerados sob três aspectos: teoria linguística geral e semântica; fonética e fonologia; gramática descritiva (ROBINS, 2004: 109).

Das obras linguísticas da época, a gramática Aṣṭādhyāyī (Oito Capítulos) de Pāṇini, este conhecido gramático do século IV a.C., foi o primeiro tratado científico de uma língua, e chegou a ser considerada por Bloomfield como “um dos maiores monumentos da inteligência humana” (BLOOMFIELD, 1984: 11). As regras são todas organizadas em pequenas sentenças, sūtra ou “fio”, que surpreendem por tamanha economia com que conseguem formular suas afirmações linguísticas. Da obra de Pāṇini e da vyākaraṇa saíram conceitos como o termo fonológico sandhi (usado por Mattoso Camara Jr. para explicar certos casos do português), o desenvolvimento de processos de formação de palavras, o estudo morfofonêmico[2], e a representação zero de um elemento ou categoria - familiar aos linguistas modernos.

O processo descritivo de sua gramática, mais de dois mil anos depois, influenciou as análises que Saussure fez de certas palavras gregas, alguns importantes trabalhos do Bloomfield[3], e também sabe-se que a gramática gerativo-transformacional criada por Chomsky teve sua influência paniniana, porque em seu “trabalho de descrição, as regras são de tal modo ordenadas, que as últimas levam sempre em conta os resultados das primeiras. Isto permite obter maior economia no processo descritivo, o que era um dos objetivos primordiais da obra de Pāṇini” (ROBINS, 2004: 188).[4]

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Pergunte ao Julio Lemos


Por Julio Lemos

Sei que é pergunta de leigo, de jornalista, mas vou tentar de novo: qual é a importância do Direitor Romano nos dias atuais?

Se você fizer essa pergunta em Portugal, na Escócia, na Itália, na Espanha ou na Alemanha, vão achar que você é um alienígena. Quem me disse isso foi um jornalista português, João Pereira Coutinho. No Brasil não existe cultura. Ergo.

Situação concreta: o sujeito tem uma namorada, sente que gosta dela bastante pelo caráter, porque o trata bem, mas sente que não corresponde que ela não corresponde à imagem sedimentada há anos em seu interior "daquela que lhe foi destinada." Que fazer?

Não acredito em um alguém "destinado" a outro. A realidade está sempre por fazer: o futuro ainda não aconteceu. Ou ao menos é assim que a realidade se nos apresenta (o problema do determinismo pode ser resolvido da mesma forma); não temos informação para lidar com um mundo pré-determinado, com futuros já dados. No contexto 'romântico', é evidente que certas pessoas estão mais por assim dizer *talhadas* para nós. Mas é sempre bom reformular nossas expectativas cristalizadas sobre como deve ser uma mulher (ou um homem): pode se tratar de uma birra, de falta de realismo. Não há resposta exata a essa questão. De certo modo, acredito na Providência. Mas mesmo ela não é resultado de uma função matemática; e seus sinais são certamente inexatos.

O que você responderia a alguém que dissesse: "Eu não escolhi nascer. A vida é uma piada de mau gosto. O que quer que houvesse antes da existência, era melhor do que isto. Logo, por não ter escolhido, não aceito responsabilidades."

PAFT - ACT LIKE A MAN

Oscar Wilde, que pensas?
Um dos caras do final do séc. XIX: mestre da ironia, do sentido de mistério, um homem profundamente triste -- pari passu um escritor da alegria e da perda. Gosto montã daqueles contos publicados acho que em 1889, "The Happy Prince & Other Stories", uma das coisas mais líricas (em sentido impróprio) que li entre os ingleses. "The Nightindale and the Rose" é pura 'sad beauty', que nos faz querer chorar litros em agridoce.

Escondida nele - Wilde parecia muitas vezes um dandy sem mais, um homem frívolo e gratuitamente provocador - estava uma profunda sabedoria, algo quase chestertoniano, posto que depressivo.

Lembro de uma gafe numa obscura tradução portuguesa de "The Importance of Being Earnest" -- "A importância de ser Ernesto"... Só pra recomendar a leitura direto no original.

Quando entrou para o Dream Team?
Vc diz a Dicta? ˆˆ Sempre estive lá.

Um verso roubado de Huizinga

Por Pedro Gonzaga

quando o mundo era quinze anos mais jovem,
costumávamos pensar que chegaria a hora:
o sangue nas artérias não conta então as voltas que dá -
bom sangue
ingênuo sangue
todas as células que decidiram ser seiva
inutilmente.
desperdício é um conceito futuro
compensação para a seca
enquanto opera o fogo-baixo
do escárnio.
eu me pergunto: para que serve o estoicismo tomado de Marco Aurélio
para quê, meu deus, para quê?
do corpo toda a energia se perde ou se dissipa
não se pode querer numa quarta-feira de 2010
a vida que vibrava em meus pés na hora do recreio
prodigalidade inteira dos meus 8 anos
não há acumulação
não há reservas.
poderá o desejo reconhecer a si mesmo em 2025?
quinze anos se passam
e cá estão apenas os escombros do desejo
lenha calcinada, nó de pinho negro entre as cinzas claras.
quem poderia prevê-lo,
me diga,
ao crepitar das chamas
quando o mundo era quinze anos mais jovem?

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

The cold solemnity of blasphemy

Por Leandro Oliveira

Atonalism, though plastic in minor details of texture, is in fact the least flexible and most monotonous of media, and for that reason alone it is unlikely to play much part in the music of the future. It will always remain a thing apart, having something of the hieratical solemnity and exclusiveness of a hereditary religious order; and the more we free ourselves from tonal prejudice and from the tyranny of textbook harmony the less appeal atonalism will have, because it is based on a direct reversal of academic method. Like blasphemy, it requires a background of belief for its full effect. Composers like Bartók or Vaughan Williams could no more become atonalists than a freethinker could take part in a Black Mass.

There is a strong flavour of the Black Mass about Schönberg. He has the complete lack of humour of the diabolist, while a glance at his earlier work indicates how devout a believer he once was. His later eccentricities are in direct ratio to his early conventionalities, just as the excesses of a revolution are in direct ratio to the previous oppression.


Constant Lambert, "Music Ho!"

Ainda vale a pena ouvir Richard Wagner?


O caráter desprezível de Richard Wagner só pode ser comparado à sua genialidade. São diretamente proporcionais, como souberam quase todos aqueles que o apoiaram nas mais diversas fases de sua vida. Sua visão de obra de arte, pensada teoricamente e realizada em uma série de obras primas, é das mais influentes de todos os tempos; sua personalidade irascível e arrogante, das mais desprezíveis de todos os tempos. Tentando entender uma hipérbole é que David Goldman e a É Realizações entram no debate.

Por Martim Vasques da Cunha

A resposta a esta pergunta, segundo David P. Goldman, também conhecido como Spengler, é um sonoro “não“. Para ele, Richard Wagner – um dos gênios mais canalhas que já existiu na face desta terra – se tornou uma espécie de “muzak“, um exemplo a ser copiado na marcha imperial de Darth Vader ou na escala cromática de “Somewhere over the rainbow”. Deixemos o autor argumentar um pouco:

Wagner’s power comes, first of all, from his music, but we have lost the capacity to hear it the way Baudelaire and Mahler did. And our inability to hear Wagner’s music constitutes a lacuna in our understanding of the spiritual condition of the West. Despite Wagner’s reputation for compositional complexity, his musical tricks can be made transparent to anyone with a rudimentary knowledge of music. In some ways, Wagner is simpler to analyze than the great classical composers. Because—as Nietzsche said—Wagner is a miniaturist who sets out to intensify the musical moment, his spells, at close inspection, can be isolated.

Popular literature and program notes describe Wagner’s compositional technique in terms of the so-called leitmotif, or leading motive—a musical theme associated with a particular concept or character. This is true, but trivial. This device has become such a commonplace among film composers that we cannot help hearing, in Darth Vader’s “DA-da-da-DA-DUM-de-DA-DUM-de-DA,” a caricature of the giants’ motive in Das Rheingold—which is exactly what it is. Today we hear Wagner the same way we hear the background music to Star Wars. The lampoon has displaced our perception of the original work.


Contudo, o pessoal da É Realizações acha o contrário. Hoje, dia 9 de dezembro, começa uma seqüência de eventos que discutirá a importância de Richard Wagner, inclusive com o lançamento de um livro de ninguém menos que Roger Scruton.

Quais das versões você vai escolher? Ora não cabe a mim decidir. Afinal de contas, não foi para a posteridade que Wagner fez sua música?

Retirado de Dicta.com.br.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Aliena vitia in oculis habemus, in tergo nostra sunt


De gramáticos e loucos todos temos um pouco. Afinal, quem não fica atento ao que escreve - mesmo que o que escreve seja um email ou post no facebook -, inevitavelmente comete gafes. Mas há, entre aqueles que deveriam mais dedicar-se ao estudo da língua, os críticos dos que tentam estabelecer um ordenamento lógico para o idioma, e portanto algumas normas e "regras": eles detestam a "gramática prescritiva". É o que comenta Richard Costa.

Richard Costa

Assisti a uma palestra do Mamede Mustafa Jarouche que no geral foi boa. Quase no final ele estava discutindo algo sobre linguagem, e acabou citando Napoleão de Almeida, o qual não li e só conheço superficialmente. Mas foi o modo como ele citou o sujeito que achei curioso, algo assim: "Como dizia aquele quadrúpede (quadrúpede porque prescritivo) Napoleão de Almeida, etc..." — o que causou uma onda de risadinhas na plateia.

Um acadêmico de peso, inteligente (não li sua tradução de Mil e uma noites, mas tive em mãos os dois primeiros volumes e achei respeitável) diz uma coisa dessas numa universidade? O simples fato de ser prescritivo é motivo pra ser insultado em público? Até onde sei, Napoleão de Almeida era meio tosco como gramático normativo, então tá, fazer o quê, não vou defender a falta de finesse do sujeito. Mas essa unanimidade de que prescritivismo é sinônimo de preconceito linguístico, de ignorância, de ódio contra quem fala errado... isso é absurdo. Sujeitos como Marcos Bagno, por exemplo, acreditam que prescritivismo é praticamente um crime contra a humanidade. Para a grande maioria dos acadêmicos na área de letras e linguística, é injustificável afirmar-se prescritivista, é o mesmo que dizer publicamente que você nunca será um acadêmico respeitável e que será pária dos círculos que frequentar.

É verdade que um linguista de ambições antropológicas deve ser necessariamente descritivista, posto que, por exemplo, o estudo de um dialeto documentado durante uma pesquisa numa vila indígena, africana ou asiática, deverá ser neutro e desligado de uma tradição normativa. Mas o estudo de uma língua clássica ou moderna não pode prescindir de uma tradição normativa, ou será quase impossível extrair sentido de textos de qualquer época, especialmente textos literários. Alguns poderão dizer que, sendo uma língua passível de mudanças ao longo do tempo, não é possível estabelecer uma tradição normativa que seja aplicável a todas as variações da língua. Mas toda variação de uma língua num determinado período do tempo segue uma gramática normativa que é válida durante esse período.

Existe uma função tanto para o prescritivismo quanto para o descritivismo. Dizer que um exclui o outro, que são sempre antagônicos; que ser prescritivo é ser um quadrúpede.. isso é uma atitude ridícula e indigna de um linguista maduro e inteligente.

Existe um provérbio: A gramática é o túmulo da língua. Um túmulo implica que o morto será lembrado, que lhe foi dada a dignidade e o respeito que se deve aos mortos. Mas na opinião dos linguistas atuais, a gramática é a causa da morte da língua, como se a partir do momento em que uma língua é normalizada, fosse esfaqueada por gramáticos reacionários e racistas praguejando contra pobres e negros. A verdade, longe disso, toma a forma do meu professor de latim: um senhor de idade, prescritivo, de maneiras brandas e com tato e tolerância no trato com as pessoas, mesmo com alunos imbecis que odeiam a gramática.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Do hexâmetro em Português


Se algo chateia na música pop é a obviedade rítmica. Adorno sabia disso, Stravinsky sabia disso. Em poesia tem algo similar, como diz Érico Nogueira. Cansado do rock em "quatro por quatro"? Experimente o hexâmetro dactílico.

por Érico Nogueira

O hexâmetro, queridos, é o metro par excellence da poesia clássica, na qual o que conta não é a posição das átonas e das tônicas, como em quase todas as línguas modernas, senão a das longas e das breves, como em música:

Árma uirúmque canó, Tróiáe quí prímus ab óris

O acento agudo acima representa as sílabas longas, i.e., convencionalmente, aquelas que duram, na pronúncia, o dobro do tempo das breves. A chamada leitura escolar, porém, que todos fazemos no âmbito dos estudos clássicos, toma as longas mais ou menos como tônicas, como átonas as breves, reconduzindo-nos, pois, insensivelmente ou não, ao nosso próprio sistema acentual.
Toda essa patacoada para dizer que devemos ao ilustre Carlos Alberto Nunes a mais recente e bem sucedida tentativa de aclimatar o hexâmetro greco-latino ao português. Leiamos-lhe os versos iniciais da Ilíada:

Canta-me a cólera – ó deusa – funesta de Aquiles Pelida,
causa que foi de os Aquivos sofrerem trabalhos sem conta
e de baixarem para o Hades as almas de heróis numerosos
e esclarecidos, ficando eles próprios aos cães atirados
e como pasto das aves. Cumpriu-se de Zeus o desígnio
desde o princípio em que os dois, em discórdia, ficaram cindidos,
o de Atreu filho, senhor de guerreiros, e Aquiles divino.


Agora os mesmos versos, na recentíssima tradução de Frederico Lourenço:

Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida
(mortífera!, que tantas dores trouxe aos Aqueus
e tantas almas valentes de heróis lançou no Hades,
ficando seus corpos como presa para cães e aves
de rapina, enquanto se cumpria a vontade de Zeus),
desde o momento em que primeiro se desentenderam
o Atrida, soberano dos homens, e o divino Aquiles.


Antes de mais, é curioso notar que a revolta contra as convenções, os hipérbatos e as figuras mais sutis e sofisticadas, em poesia, coincida, no tempo e no espaço, com o regime da ação direta, e o ódio às instâncias mediadoras, em política: o, digamos, 'imediatismo' poético contemporâneo nasceu de mãos dadas com os - sempre imediatistas e, pois, autoritários - movimentos de massa do começo dos novecentos. É o homem-massa, ou o homem vulgar - para usar expressões de Ortega y Gasset -, elevado a juiz do bom e a arauto do belo. Brutti tempi.
Pois bem: a tradução de Lourenço, numa palavra, não tem sal; o tradutor busca essencialmente verter o sentido do texto grego, e, por meio de uma distribuição mais ou menos regular das tônicas em cada linha -- mais algumas homofonias aqui e acolá --, imprimir uma aura de poesia à sua tradução em prosa. A Ilíada é solene -- é o que de mais solene já se escreveu; de modo que uma tradução, mesmo literal, fica 'poética', fica 'bonitinha'.

Mas para apreciar como convém a tradução de Nunes, é preciso de uma certa bagagem, o que a afasta um pouco do leitor 'comum': CANta-me a CÓlera -- ó DEUsa -- fuNESta de aQUIles PeLIda: trata-se de um hexâmetro clássico em português, sem tirar nem pôr. O leitor acredite: isso é uma proeza, e não é pequena.

Enfim: há um grande e mais ou menos recíproco desprezo, no que respeita à tradução dos clássicos - antigos e modernos -, entre Portugal e o Brasil. Portugal, às vezes com razão, recusando o coloquialismo e o excessivamente informal das traduções brasileiras; o Brasil, corretamente, vez por outra, fugindo do convencional e do muito engessado das portuguesas. São dois caipiras teimosos, dois inveterados provincianos.

Mudando de assunto, e à guisa de conclusão: um grande desafio seria reinventar o hexâmetro na própria poesia de língua portuguesa. Alguém se candidata?

Retirado de Ars Poetica.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Nelson Rodrigues e Arthur Moreira Lima


Por Leandro Oliveira

Frases de Nelson Rodrigues

O Flamengo tem mais torcida, o Fluminense tem mais gente!

Grandes são os outros, o Fluminense é enorme.

A Grande Guerra seria apenas a paisagem, apenas o fundo das nossas botinadas. Enquanto morria um mundo e começava outro, eu só via o Fluminense.

Pode-se identificar um Tricolor entre milhares, entre milhões. Ele se destingue dos demais por uma irradiação específica e deslumbradora.

Se quereis saber o futuro do Fluminense, olhai para o seu passado. A história tricolor traduz a predestinação para a glória.

Nas situações de rotina, um `pó-de-arroz' pode ficar em casa abanando-se com a Revista do Rádio. Mas quando o Fluminense precisa de número, acontece o suave milagre: os tricolores vivos, doentes e mortos aparecem. Os vivos saem de suas casas, os doentes de suas camas e os mortos de suas tumbas.

Eu vos digo que o melhor time é o Fluminense. E podem me dizer que os fatos provam o contrário, que eu vos respondo: pior para os fatos

Uma torcida não vale a pena pela sua expressão numérica. Ela vive e influi no destino das batalhas pela força do sentimento. E a torcida tricolor leva um imperecível estandarte de paixão.

Ser tricolor não é uma questão de gosto ou opção, mas um acontecimento de fundo metafísico, um arranjo cósmico ao qual não se pode - e nem se deseja - fugir.

Se o Fluminense jogasse no céu, eu morreria para vê-lo jogar.

'Você é químico?' Não, sou Fluminense, respondi de pronto ao ser abordado por um vizinho que me viu brincando com alguns líquidos de diversas cores. Eu tinha apenas três anos de idade, mas com uma convicção clubística anterior ao meu nascimento, e, quem sabe, anterior ao útero materno.

Sou tricolor, sempre fui tricolor. Eu diria que já era Fluminense em vidas passadas, muito antes da presente encarnação.

O Fluminense nasceu com a vocação da eternidade...tudo pode passar...só o Tricolor não passará jamais.


Aos amigos do "Falando de Música", Arthur Moreira Lima ao piano apresenta o hino do nosso atual campeão brasileiro.

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