Por Leandro OLiveira
Estamos todos devidamente enrolados com o lançamento da revista, terça-feira na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Final de semana sem posts, embora tanta novidade e coisa para dizer. Abaixo links para notícias na imprensa.
Na CBN, com a chamada "Revista traz ensaios das mais importantes personalidades culturais que marcaram o ano de 2010", uma entrevista com Guilherme Malzoni Rabello, presidente do Instituto de Formação e Educação (IFE), responsável pela publicação Dicta&Contradicta
CBN - A rádio que toca notícia - CBN SP
Na Eldorado, a Mona Dorf querida convida o mesmo Guilherme e o Araquém Alcântara para um papo ótimo aqui.
Além deles, na rádio, o Augusto Nunes faz uma resenha no seu blog. E teve uma Veja indica na edição desta semana...
Vai lá!
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Martina Gusman
Aproveitando a passagem do Ricardo Darín por São Paulo, Willian faz um pequeno post sobre Martina Gusman, atriz que há tempo chama atenção não só pelo Sul. Espero que gostem!
Por Willian Silveira
Ricardo Darín é avesso a homenagens. Sabe-se disto porque, contrariando o esperado, o ator argentino aceitou o convite da 5ª Mostra Cinema e Direitos Humanos e esteve em São Paulo para receber os louros por uma carreira que contabiliza mais de cinqüenta filmes. Como não poderia ser diferente, o fato foi destaque nos principais jornais do país.
Na verdade, poderia - e costuma - ser exatamente diferente caso não estivéssemos nos referindo ao protagonista de "O segredo de seus olhos" (El secreto de sus ojos, Juan José Campanella, 2009), vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro na última edição da premiação. Ou seja, não fosse a estatueta e os inúmeros serviços prestados por Darín ao cinema argentino dificilmente seriam conhecidos.
C'est la vie, diriam. Verdade, o modus operandi da imprensa - perdão pelo termo vago - é demais previsível. Porém esta é uma questão, agora, secundária. Mais vale destacar que a homenagem a Darín contou com a exibição de "Abutres" (Carancho, Pablo Trapero, 2010), seu último trabalho. Com os holofotes totalmente voltados ao ator, deixou-se escapar a presença marcante de uma das grandes revelações do cinema sul-americano, Martina Gusman.
Martina nasceu em Buenos Aires em 1978, estudou Artes Combinadas na Universidade de Buenos Aires e interpretação na renomada escola Carlos Gandolfo. Em 2002, juntou-se com Pablo Trapero e fundaram a produtora de cinema independente Matanza Cine. A parceria não poderia ter obtido melhores resultados. O talento cinematográfico de Trapero tornou-se consenso e o incluiu como mais um a figurar na seleta lista de excelentes diretores da geração, assim como Lucrecia Martel, Juan José Campanella, Marcelo Piñeyro e Daniel Burman. Martina, por sua vez, ocupou-se exclusivamente da produção executiva dos filmes durante os primeiros anos da sociedade. Foi somente em 2006, com a pequena participação em "Nacido y Creado" (Pablo Trapero), que a dúvida foi semeada: a jovem não estaria atuando do lado errado da câmera? A questão se resolveu depois que dois prêmios Clarín (atriz revelação e melhor atriz) e um Sur (atriz revelação) coroaram a aposta que a levou de forma brilhante ao trabalho realizado como protagonista de Leonera (Pablo Trapero, 2008). Se neste a atriz exibe energia ao encarar o áspero papel de mãe na luta para retomar o filho, em Abutres consolida a versatilidade de sua habilidade dramática. No papel de médica, a personagem consegue denunciar a precariedade do sistema público de saúde argentino e a máfia por trás dos golpes nas seguradoras. Com maestria, Martina demonstra segurança ao lidar com a gama de sentimentos que o filme lhe exige, seja a frieza profissional frente aos pacientes, a amabilidade junto às famílias ou a incerteza diante de uma paixão comprometedora. Saber distinguir e desenvolver as nuances necessárias em cada situação só não é mais difícil que ter de trabalhá-los ao mesmo tempo em um único personagem.
De maneira semelhante ao que aconteceu com Darín durante muito tempo, a interpretação de Martina não rendeu comentários, sequer uma nota. Se não foi miopia da mídia, então parece que a seqüência de ótimas atuações passou por mero acaso. Enquanto o Oscar não chega, talvez.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Hofmannsthal e Leopardi
Por Érico Nogueira
A direção da Dicta&Contradicta acaba de liberar o conteúdo do número 4. E esse número, caros leitores, é um pequeno motivo de orgulho pra mim: com efeito, lá estão as minhas traduções de Ein Brief, de Hugo von Hofmannsthal, e de Della fama di Orazio presso gli antichi, de Giacomo Leopardi. Textos - me refiro, evidentemente, aos originais - simplesmente maravilhosos. Seguem os links. Abraço a todos. E.
Uma carta: http://www.dicta.com.br/edicoes/edicao-4/uma-carta/
Da fama de Horácio entre os antigos: http://www.dicta.com.br/edicoes/edicao-4/da-fama-de-horacio-entre-os-antigos/
A direção da Dicta&Contradicta acaba de liberar o conteúdo do número 4. E esse número, caros leitores, é um pequeno motivo de orgulho pra mim: com efeito, lá estão as minhas traduções de Ein Brief, de Hugo von Hofmannsthal, e de Della fama di Orazio presso gli antichi, de Giacomo Leopardi. Textos - me refiro, evidentemente, aos originais - simplesmente maravilhosos. Seguem os links. Abraço a todos. E.
Uma carta: http://www.dicta.com.br/edicoes/edicao-4/uma-carta/
Da fama de Horácio entre os antigos: http://www.dicta.com.br/edicoes/edicao-4/da-fama-de-horacio-entre-os-antigos/
Narrativas urbanas
A modernidade traz, assim como para os artistas da virada do século XIX e XX, também aos historiadores a preocupação em levar à frente da discussão metodológica, os elementos "anônimos" da história: rotinas ordinárias, narrativas de pessoas vulgares, ferramentas tecnológicas; são os correlatos historiográficos da "quebra de paredes" que a arte propõe, ao trazer ao palco melodias folclóricas, para às telas pinturas primitivas, e aos livros a inflexão oral. "Vorticismo" e "primitivismo" na arte têm seus correlatos nas pesquisa histórica: são a abolição do estudo exclusivo de "processos" e a introdução da compreensão da vida como ela é a partir do relato de seus atores, os indivíduos. É o que nos conta Karen Worcman.
Por Karen Worcman
“Na verdade, a história oral é tão antiga quanto a própria história”, diz Paul Thompson, historiador inglês e responsável, em grande parte, pelo renascimento da História oral no mundo acadêmico na Inglaterra nos anos 70. Segundo ele, não era apenas nas sociedades essencialmente orais, como as africanas, que o uso da memória fazia parte das ferramentas para o exercício de registro e transmissão das tradições, valores e sentido de continuidade de um grupo. No entanto, nas sociedades ocidentais, esse exercício veio, pouco a pouco se restringindo à escrita. A História com H maiúsculo colocou as fontes orais de escanteio.
Com a chegada do gravador , o acesso ao registro de “falas”e entrevistas” independente da escrita, voltaram à tona. Hoje, essa pratica está presente de inúmeras formas: no mundo acadêmico, mas também no jornalismo, nos programas de TV e rádio. Os “testemunhos”são hoje parte de nosso cotidiano. Por trás deles, sempre as “histórias”.
Paralelamente à chegada do gravador, vieram as fotografias e finalmente o vídeo. Se formos pensar mais profundamente, essas tecnologias transformam nossas formas de comunicação, e com sua popularização, nosso cotidiano. Na medida em que os gravadores, as máquinas de fotografia e as câmeras de vídeo tornaram-se objetos altamente acessíveis, a idéia de que poderíamos, cada um, registrar imagens, histórias e nossas próprias memórias introduziu-se em nosso dia-a-dia familiar, pessoal ou nosso ambiente de trabalho.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Juventude
LUDMILA: (...) Você acha que estou ficando velha?
MÁRIO: Está. É. A juventude é muito velha.
LUDMILA: Com que idade a gente fica jovem?
MÁRIO: Aos cinqüenta. (Pausa) Mas aí já é tarde.
Retirado da peça "É..." de Millôr Fernandes.
MÁRIO: Está. É. A juventude é muito velha.
LUDMILA: Com que idade a gente fica jovem?
MÁRIO: Aos cinqüenta. (Pausa) Mas aí já é tarde.
Retirado da peça "É..." de Millôr Fernandes.
Rosebuds da Nova Geração
Cada tempo tem sua própria mitologia. Em seu texto de estréia, Ieda Marcondes escreve sobre "Rede Social", o filme que conta as origens do Facebook - e comenta porque algumas coisas não mudam nunca.
Por Ieda Marcondes
De acordo com o filme “A Rede Social”, a motivação principal de Mark Zuckerberg, criador do Facebook, para se tornar um bilionário é o fora que ele leva de sua namorada na faculdade. Do jeito dolorosamente hábil que algumas mulheres têm de apontar a verdade em momentos delicados, ela termina o namoro dizendo que ele passará a vida inteira achando que as garotas não gostam dele por ele ser nerd, mas que isto não era verdade, que era porque ele é mesmo um babaca. Zuckerberg, então, volta bêbado para seu dormitório e, confirmando o que foi dito, começa um site para comparar as garotas do campus, além de ridicularizar a ex-namorada em seu blog. Em qualquer outro filme, isto seria um acontecimento sem relação alguma com a criação e expansão do Facebook, mas “A Rede Social” escolhe deliberadamente tratar tal episódio como o único motivo para Zuckerberg querer criar algo que chame atenção, que o torne bem-sucedido. Ele está interessado em; 1- Criar algo que impressione sua ex-namorada e, então, 2- Conseguir finalmente esquecê-la. Nenhum dos dois acontece no filme, ele nunca deixa de gostar dela e não há reação ou comentário algum de sua ex sobre seu sucesso, mas são estas as motivações que colocam tudo em ação. É quase como se fosse um "Cidadão Kane", só que em vez de trenó, há uma garota. Parece bobo e simples, mas é muitíssimo plausível, especialmente hoje em dia.
Entendo que, em determinados momentos, para aqueles que não estão prestando atenção, o filme possa parecer misógino. Enquanto todos os personagens masculinos são gênios, dizem coisas inteligentes e engraçadas, assim que Mark e seu parceiro Eduardo começam a ficar famosos no campus, todos os tipos de mulheres vulgares e nulas se aproximam deles. Algumas se limitam a passar cenas inteiras rindo, bebendo e se drogando. Acredito que estas mulheres aparecem desta forma simplesmente porque elas com certeza existem e também porque não significam nada para nenhum dos personagens. Mas o filme está longe de ser misógino, já que duas mulheres tem as falas mais inteligentes de todo o filme. Uma das mulheres é a namorada que termina com Zuckerberg e se torna toda a sua motivação logo no início, a outra é a advogada que acompanha um dos processos contra ele e o aconselha sobre que rumo tomar. Ou seja, mulheres de substância têm papéis que definirão todo o curso da história, por mais que seja uma história predominantemente masculina.
sábado, 27 de novembro de 2010
Machado de Assis e a ópera
Por Leandro Oliveira
Esta semana a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal e meu amigo Rodrigo de Carvalho apresentaram na Sala São Paulo um programa dedicado a trechos de óperas. Achei uma crônica perfeita para ocasião: é longa para um blog mas deliciosa do primeiro ao último parágrafo.
TANNHÄUSER e bonds elétricos. Temos finalmente na terra essas grandes novidades. O empresário do Teatro Lírico fez-nos o favor de dar a famosa ópera de Wagner, enquanto a Companhia de Botafogo tomou a peito transportar-nos mais depressa. Cairão de uma vez o burro e Verdi? Tudo depende das circunstâncias.
Já a esta hora algumas das pessoas que me lêem, sabem o que é a grande ópera. Nem todas; há sempre um grande número de ouvintes que farão ao grande maestro a honra de não perceber tudo desde logo, e entendê-lo melhor à segunda, e de vez à terceira ou quarta execução. Mas não faltam ouvidos acostumados ao seu oficio, que distinguirão na mesma noite o belo do sublime, e o sublime do fraco.
Eu, se lá fosse, não ia em jejum. Pegava de algumas opiniões sólidas e francesas e metia-as na cabeça com facilidade; só não me valeria das muletas do bom Larousse, se ele não as tivesse em casa; mas havia de tê-las. Cai aqui, cai acolá, faria uma opinião prévia, e à noite iria ouvir a grande partitura do mestre. Um amigo:
— Afinal temos o Tannhäuser; eu conheço um trecho, que ouvi há tempos...
— Eu não conheço nada, e quer que lhe diga? É melhor assim. Faço de conta que assisto à primeira representação que se deu no mundo. Tudo novo.
— O que eu ouvi, é soberbo.
— Creio; mas não me diga nada, deixe-me virgem de opiniões, Quero julgar por mim, mal ou bem...
E iria sentar-me e esperar, um tanto nervoso, irrequieto, sem atinar com o binóculo para a revista dos camarotes. Talvez nem levasse binóculo; diria que as grandes solenidades artísticas devem ser estremes de quaisquer outras preocupações humanas. A arte é uma religião. O gênio é o sumo sacerdote. Em vão, Amália, posta no camarote, em frente à mãe, lançaria os olhos para mim, assustada com a minha indiferença e perguntando a si mesma que me teria feito. Eu, teso, espero que as portas do templo se abram, que as harmonias do céu me chamem aos pés do divino mestre; não sei de Amália não quero saber dos seus olhos de turquesa.
Era assim que eu ouviria o Tannhäuser. Nos intervalos, visita aos camarotes e crítica. Aquela entrada dos fagotes, lembra-se? Admirável! Os coros, o duo, os violinos, oh! o trabalho dos violinos que cousa adorável, com aquele motivo obrigado: lá, lá, lá tra, lá, lá, lá, tra, lá, lá. . . Há neste ato inspirações que são, com certeza, as maiores do século. De resto, os próprios franceses emendaram a mão dando a Wagner o preito que lhe cabe, como um criador genial...
Esta semana a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal e meu amigo Rodrigo de Carvalho apresentaram na Sala São Paulo um programa dedicado a trechos de óperas. Achei uma crônica perfeita para ocasião: é longa para um blog mas deliciosa do primeiro ao último parágrafo.
TANNHÄUSER e bonds elétricos. Temos finalmente na terra essas grandes novidades. O empresário do Teatro Lírico fez-nos o favor de dar a famosa ópera de Wagner, enquanto a Companhia de Botafogo tomou a peito transportar-nos mais depressa. Cairão de uma vez o burro e Verdi? Tudo depende das circunstâncias.
Já a esta hora algumas das pessoas que me lêem, sabem o que é a grande ópera. Nem todas; há sempre um grande número de ouvintes que farão ao grande maestro a honra de não perceber tudo desde logo, e entendê-lo melhor à segunda, e de vez à terceira ou quarta execução. Mas não faltam ouvidos acostumados ao seu oficio, que distinguirão na mesma noite o belo do sublime, e o sublime do fraco.
Eu, se lá fosse, não ia em jejum. Pegava de algumas opiniões sólidas e francesas e metia-as na cabeça com facilidade; só não me valeria das muletas do bom Larousse, se ele não as tivesse em casa; mas havia de tê-las. Cai aqui, cai acolá, faria uma opinião prévia, e à noite iria ouvir a grande partitura do mestre. Um amigo:
— Afinal temos o Tannhäuser; eu conheço um trecho, que ouvi há tempos...
— Eu não conheço nada, e quer que lhe diga? É melhor assim. Faço de conta que assisto à primeira representação que se deu no mundo. Tudo novo.
— O que eu ouvi, é soberbo.
— Creio; mas não me diga nada, deixe-me virgem de opiniões, Quero julgar por mim, mal ou bem...
E iria sentar-me e esperar, um tanto nervoso, irrequieto, sem atinar com o binóculo para a revista dos camarotes. Talvez nem levasse binóculo; diria que as grandes solenidades artísticas devem ser estremes de quaisquer outras preocupações humanas. A arte é uma religião. O gênio é o sumo sacerdote. Em vão, Amália, posta no camarote, em frente à mãe, lançaria os olhos para mim, assustada com a minha indiferença e perguntando a si mesma que me teria feito. Eu, teso, espero que as portas do templo se abram, que as harmonias do céu me chamem aos pés do divino mestre; não sei de Amália não quero saber dos seus olhos de turquesa.
Era assim que eu ouviria o Tannhäuser. Nos intervalos, visita aos camarotes e crítica. Aquela entrada dos fagotes, lembra-se? Admirável! Os coros, o duo, os violinos, oh! o trabalho dos violinos que cousa adorável, com aquele motivo obrigado: lá, lá, lá tra, lá, lá, lá, tra, lá, lá. . . Há neste ato inspirações que são, com certeza, as maiores do século. De resto, os próprios franceses emendaram a mão dando a Wagner o preito que lhe cabe, como um criador genial...
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Dicta&Contradicta nº 6
Em breve teremos mais dois peixinhos no aquário, ao pé da página (aliás, alimente-os por favor sempre que puder: os editores, todos rapazes, acabamos sendo relapsos com os bichinhos...). Os peixinhos de cor laranja farão companhia aos amarelos, verdes, azuis e vermelhos, contrapostos ao roxo para o qual mudará as páginas de Ocidentalismo.org - acompanhando a capa da nova edição de Dicta&Contradicta, e a cor "daquillo" de todos nós que lutamos para fazer cultura no país.
O lançamento da Dicta já está marcado: dia 07 de dezembro, às 19hs30, no Teatro Eva Herz (Livraria Cultura – Conjunto Nacional). Para reservar na Livraria Cultura a Dicta&Contradicta nº6, é só clicar aqui.
Guilherme Malzoni Rabello comenta: "por que precisaremos de um teatro? Bom, essa surpresa fica para logo mais!"
terça-feira, 23 de novembro de 2010
A escrita como uma tecnologia que reestrutura a mente - Parte II.2
Por Leandro Oliveira
Para ilustrar nosso pequeno problema, antes de prosseguirmos, um trecho de Ortega y Gasset.
(...)Ahora se comprenderá que no es caprichoso iniciar una lectura del "Banquete" platónico invitando a que se reflexione sobre qué demonio de faena es esta de leer, que tan fácilmente consiste en no enterarse de lo que se lee.
La ausencia del dicente deja ante nosotros la palabra escrita descoyuntada del complejo expresivo que era el cuerpo de aquel. Por muy habituados que estemos a la lectura, cuanto mejor sepamos leer más sentiremos la tristeza espectral de la palabra escrita, sin voz que la llene, sin mímica carne que la incorpore y concrete. Bien decía Goethe que la palabra escrita es un subrogado, un mísero Ersatz de la palabra hablada. No es importuno aludir a esto en el frontis de una lección sobre el "Banquete", porque en la obra paralela y coetánea, el "Fedro", Platón hará constar su antipatía hacia todo libro por lo que tiene de cadavérico decir, de paralítica expresión. E insinúa agudísimamente algo en que no se suele reparar: que la relación entre lector y libro es inmoral porque ni este puede responder a nuestras objeciones, sino que sigue petulante y sin riesgo diciendo lo mismo siempre, ni puede contestar enérgicamente al imbécil lector dándole —y esto no lo dice Platón, pero se entrelee bajo sus líneas— un buen puñetazo en las narices. Embotados por la habitualidad de la lectura que nos es ya casi una segunda naturaleza, gozamos de las evidentes ventajas de la palabra escrita —menos aún, impresa— y hemos perdido conciencia de las mermas y peligros que trae consigo. Ello ha engendrado desde hace sesenta años un menosprecio creciente de la única palabra que lo es en plenitud, la palabra oral, y con ella de las maravillas más humanas de todas, que son el diálogo, la oratoria, la retórica: la única magia efectiva.
Ortega Y Gasset, "Que és Leer" in "Comentario al 'Banquete' de Platon".
Para ilustrar nosso pequeno problema, antes de prosseguirmos, um trecho de Ortega y Gasset.
(...)Ahora se comprenderá que no es caprichoso iniciar una lectura del "Banquete" platónico invitando a que se reflexione sobre qué demonio de faena es esta de leer, que tan fácilmente consiste en no enterarse de lo que se lee.
La ausencia del dicente deja ante nosotros la palabra escrita descoyuntada del complejo expresivo que era el cuerpo de aquel. Por muy habituados que estemos a la lectura, cuanto mejor sepamos leer más sentiremos la tristeza espectral de la palabra escrita, sin voz que la llene, sin mímica carne que la incorpore y concrete. Bien decía Goethe que la palabra escrita es un subrogado, un mísero Ersatz de la palabra hablada. No es importuno aludir a esto en el frontis de una lección sobre el "Banquete", porque en la obra paralela y coetánea, el "Fedro", Platón hará constar su antipatía hacia todo libro por lo que tiene de cadavérico decir, de paralítica expresión. E insinúa agudísimamente algo en que no se suele reparar: que la relación entre lector y libro es inmoral porque ni este puede responder a nuestras objeciones, sino que sigue petulante y sin riesgo diciendo lo mismo siempre, ni puede contestar enérgicamente al imbécil lector dándole —y esto no lo dice Platón, pero se entrelee bajo sus líneas— un buen puñetazo en las narices. Embotados por la habitualidad de la lectura que nos es ya casi una segunda naturaleza, gozamos de las evidentes ventajas de la palabra escrita —menos aún, impresa— y hemos perdido conciencia de las mermas y peligros que trae consigo. Ello ha engendrado desde hace sesenta años un menosprecio creciente de la única palabra que lo es en plenitud, la palabra oral, y con ella de las maravillas más humanas de todas, que son el diálogo, la oratoria, la retórica: la única magia efectiva.
Ortega Y Gasset, "Que és Leer" in "Comentario al 'Banquete' de Platon".
Pergunte ao Julio Lemos
Por Julio Lemos
Qual é o sujeito do primeiro verso do Hino Nacional? Não vale pesquisar. 30 segundos para responder. Valendo!
Ouviram... o brado retumbante / de um povo heróico (inversão). A crase resolve: se consideramos "às margens plácidas", temos um sujeito indeterminado; se consideramos "as margens plácidas", temo-las como sujeito. Tertium non datur. Corrija-me se estiver errado.
Quais obras sobre história do direito você recomenda? Acha importante o estudo disso? Nos cursos acadêmicos brasileiros não se comenta nada...
Sim, lógico que é importante. Perguntar quase ofende. Defendo pena de morte para professores (que dirá de juristas...) que ousem esnobar a história do direito, e joelho no milho para os estudantes que engulam isso. Recomendaria a "História do direito privado moderno" do Wieacker, além da "Introdução histórica ao direito" de Gilissen. Anyway, meu interesse no direito não é histórico.
O que você acha sobre o dadaísmo, o futurismo o surrealismo e o abstracionismo modernista?
Os três primeiros são apenas aquilo: "ah, legal" e acabou. Ninguém lê, por exemplo, o manifesto futurista. Já a arte abstrata sempre teve um pouco mais a dizer e é mais permanente. Ainda assim, serve mais para decorar consultórios.
Você é a favor de pesquisa com células-tronco embrionárias?
Ser a favor ou contra é um pouco simplista. O que acredito é que experimentar com embriões é grotesco. Enquanto continuarem a proteger ovos de tartaruga faço questão que protejam embriões humanos. Ocorre que os boçais não pensam nesse tipo de contradição.
Júlio, a realidade é construção.
Então desenhe um avião e dirija-se ao portão de embarque.
Julio Lemos é editor de Ocidentalismo.org, além de consultor informal para todos os assuntos e especialista nos outros. Quer fazer alguma pergunta? Clique aqui.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Elogio à Caecilia
Padroeira da música, Santa Cecília poderia servir de mote para mais este elogio à beleza do empreendimento humano: a "fonte" ou tecnicamente a família tipográfica criada por um jovem genial chamado Peter Matthias Noordzij. Assunto interessante e pouco conhecido, é a estréia do designer José Luís Bomfim no Ocidentalismo.org.
por José Luis Bomfim
"Caecilia" é uma família tipográfica desenhada por Peter Matthias Noordzij e publicada no ano da graça de 1991 pela Linotype. Trata-se de um marco; o fito desta nota é explicar o porquê.
Corriam na época as primeiras tentativas sérias de desenhar uma fonte que fosse adaptada à fotocomposição digital, conhecida também como off-set digital. O fato é que uma família tipográfica, uma fonte, não existe no ar. Uma família tipográfica é boa na medida em que serve para um determinado projeto tipográfico, e um projeto tem como fim uma boa impressão. Tipografia à moda antiga, com tipos em metal, é um tipo de impressão de resultados escultóricos: o tipo escava o papel dando-lhe aquele matiz aveludado, onde as terminações (tecnicamente terminais) se fazem mais presentes do que na impressão offset, na qual a letra é colocada sobre o papel de forma homogênea. Ora, o desenho deve acompanhar tais mudanças para poder refletir não somente o Zeitgeist, mas para servir ao leitor, que certamente esquecerá da fonte se esta for boa, se for, enfim, legível.
Aí que entra Noordzij, o estudante de tipografia que tinha recebido de seu pai uma educação que insistia na confiança no traço manual. Entre 1985 e 1986 Noorddzij empreendeu uma façanha: queria desenhar uma fonte que fosse um reflexo da vitalidade humanista presente nas fontes renascentistas, dada pelo resquício do sabor do traço dos calígrafos no desenho da fonte e ao mesmo tempo incorporasse o traço contínuo, não modulado, típico das fontes com serifa quadrada ou egípcia tão marcadamente técnicas e sisudas. Para isso ele teve de recuperar o arquétipo de cada letra e combiná-lo em um ritmo que fosse, no desenrolar do texto, gracioso.
Alguma Poesia de Pablo Simpson
Por Érico Nogueira
Em tempos de ENEM fodendo, me agrada lembrar que, além de Dirceu Villa e Caio Gagliardi, conheci também o poeta, professor de literatura francesa, enófilo e gourmand Pablo Simpson quando trabalhei naquela terra ruim...
O poeta estreou em 2003, com "Mitologias", um belo livro, sem dúvida, mas que, edição do autor, só foi distribuído entre uns poucos privilegiados. Sempre gostei do poema de abertura:
O anúncio da voz cruza teu rosto branco.
As tardes se evocam em ti, guirlandas e arcos de sol.
Observo a casa engastada nas pedras.
Também quis curvar-me sombra aos temores do vento,
esconder-me nos homens. Também quis curvar-me
aos desígnios da luta.
Mas o ocaso da tarde inclina-me as sombras duras do corpo.
O anjo sem equilíbrio da tarde risca no ar
denso azul de chuva.
As águas então se afeiçoam a mim, súbito
uma poça se forma em meus pés,
prende-me os passos.
Mas miro-me nas ladeiras da tarde que se erguem de ti.
Miro-me na veste luminosa que se dobra em teu peito:
na íntima claridade do nome.
E vejo que uma chuva fria transborda
um verde seguro na margem de teu olho.
O que temos aqui é a mais fina flor da moderna tradição francesa transplantada -- e muito bem aclimatada -- para solo brasileiro. Valéry, Char e Bonnefoy, eu diria; mas também, quem sabe, um pouco de Saint-John Perse... Rastrear referências, porém, é o de menos: o que importa é notar como o poeta consegue, já no seu livro de estréia, fazer uma poesia leve, aguda e sutil, de sugestões e murmúrios quase surdos, sem cair na tentação de teorizar em verso. Esse equilíbrio, leitor, é muito difícil de conseguir...
Em tempos de ENEM fodendo, me agrada lembrar que, além de Dirceu Villa e Caio Gagliardi, conheci também o poeta, professor de literatura francesa, enófilo e gourmand Pablo Simpson quando trabalhei naquela terra ruim...
O poeta estreou em 2003, com "Mitologias", um belo livro, sem dúvida, mas que, edição do autor, só foi distribuído entre uns poucos privilegiados. Sempre gostei do poema de abertura:
O anúncio da voz cruza teu rosto branco.
As tardes se evocam em ti, guirlandas e arcos de sol.
Observo a casa engastada nas pedras.
Também quis curvar-me sombra aos temores do vento,
esconder-me nos homens. Também quis curvar-me
aos desígnios da luta.
Mas o ocaso da tarde inclina-me as sombras duras do corpo.
O anjo sem equilíbrio da tarde risca no ar
denso azul de chuva.
As águas então se afeiçoam a mim, súbito
uma poça se forma em meus pés,
prende-me os passos.
Mas miro-me nas ladeiras da tarde que se erguem de ti.
Miro-me na veste luminosa que se dobra em teu peito:
na íntima claridade do nome.
E vejo que uma chuva fria transborda
um verde seguro na margem de teu olho.
O que temos aqui é a mais fina flor da moderna tradição francesa transplantada -- e muito bem aclimatada -- para solo brasileiro. Valéry, Char e Bonnefoy, eu diria; mas também, quem sabe, um pouco de Saint-John Perse... Rastrear referências, porém, é o de menos: o que importa é notar como o poeta consegue, já no seu livro de estréia, fazer uma poesia leve, aguda e sutil, de sugestões e murmúrios quase surdos, sem cair na tentação de teorizar em verso. Esse equilíbrio, leitor, é muito difícil de conseguir...
domingo, 21 de novembro de 2010
Adeus a um mestre
Por Leandro Oliveira
O maestro José Antônio de Almeida Prado faleceu hoje, em São Paulo. Nascido em Santos em 1943, estudou no Brasil com Dinorah de Carvalho, Osvaldo Lacerda e Camargo Guarnieri. Após vencer o Festival da Guanabara em 1969, estudou com Nadia Boulanger e Olivier Messiaen e, a partir dali, tornou-se um dos primeiros compositores brasileiros a enveredar pelas trilhas da então “música de vanguarda”, abordando técnicas atonais e pós-seriais desenvolvidas à sua própria maneira:
Não rejeitei nada [de minha formação], acabei fazendo uma síntese de tudo, do nacionalismo de Camargo Guarnieri às ideias “ecológicas” de Messiaen, que era profundamente ligado à natureza. Isso rendeu as "Cartas Celestes", por exemplo, que é música universal, sem se preocupar em saber se o tema é nordestino ou seja lá o que for. (Revista Concerto, 2000)
Sempre presente na Sala São Paulo - era um papo ótimo -, recentemente Almeida Prado foi um dos responsáveis pela música de um dos concertos mais emocionantes que pude participar: aquele que a Fundação Osesp fez em parceira com a Cinemateca na projeção do filme "Études sur Paris", sob a regência do maestro Cláudio Cruz. Antes (2005) sua "Sinfonia dos Orixás" já havia sido um alvoroço...
Para ouvir uma recente peça do compositor, com Antônio Meneses, clique aqui.
PS: O maestro era primo da inacreditável Hilda Hilst, e dela são os poemas de algumas músicas.
O maestro José Antônio de Almeida Prado faleceu hoje, em São Paulo. Nascido em Santos em 1943, estudou no Brasil com Dinorah de Carvalho, Osvaldo Lacerda e Camargo Guarnieri. Após vencer o Festival da Guanabara em 1969, estudou com Nadia Boulanger e Olivier Messiaen e, a partir dali, tornou-se um dos primeiros compositores brasileiros a enveredar pelas trilhas da então “música de vanguarda”, abordando técnicas atonais e pós-seriais desenvolvidas à sua própria maneira:
Não rejeitei nada [de minha formação], acabei fazendo uma síntese de tudo, do nacionalismo de Camargo Guarnieri às ideias “ecológicas” de Messiaen, que era profundamente ligado à natureza. Isso rendeu as "Cartas Celestes", por exemplo, que é música universal, sem se preocupar em saber se o tema é nordestino ou seja lá o que for. (Revista Concerto, 2000)
Sempre presente na Sala São Paulo - era um papo ótimo -, recentemente Almeida Prado foi um dos responsáveis pela música de um dos concertos mais emocionantes que pude participar: aquele que a Fundação Osesp fez em parceira com a Cinemateca na projeção do filme "Études sur Paris", sob a regência do maestro Cláudio Cruz. Antes (2005) sua "Sinfonia dos Orixás" já havia sido um alvoroço...
Para ouvir uma recente peça do compositor, com Antônio Meneses, clique aqui.
PS: O maestro era primo da inacreditável Hilda Hilst, e dela são os poemas de algumas músicas.
Humanitas
João Vidal estréia com um post muito sucinto, espécie de saudações cultíssimas a todos - e dois links para quem quer aperfeiçoar o latim.
Por João Vidal
Mala tempora, laboriosa tempora, hoc dicunt homines.
Bene vivamus, et bona sunt tempora.
Nos sumus tempora: quales sumus, talia sunt tempora.
Sed quid facimus? Non possumus ad bonam vitam convertere multitudinem hominum?
Pauci qui audiunt bene vivant: pauci bene viventes multos male viventes ferant.
»Tempos ruins, tempos difíceis, é o que dizem os homens.
Mas vivamos bem, e bons serão os tempos.
Nós somos os tempos: Tal como somos, assim são os tempos.
Mas o que podemos fazer? Não podemos converter à vida do bem a multidão dos homens?
Que vivam bem os poucos que ouvem, e que os poucos que vivem bem tolerem os muitos que vivem mal.«
Augustinus: Sermo Nr. 80:8
http://www.vivariumnovum.it/accademia/Lat/
Retirado de Das Blog ohne Eigenschaften.
sábado, 20 de novembro de 2010
O Animal agonizante em três tempos
Por Willian Silveira
É interessante notar como certas obras se localizam à greta de outras. No caso de Philip Roth, a produção prolífica e o incessante acúmulo de premiações a partir dos anos oitenta catapultaram seu nome à posição de patriarca da literatura americana. Obras de talento irrefutável como O Complexo de Portnoy (Portnoy's Complaint, 1969), Teatro de Sabath (Sabbath's Theater, 1995) e Pastoral Americana (American Pastoral, 1997) com o passar do tempo transformaram-se em sinônimos do autor. Entre a sombra de tais totens, reside O Animal Agonizante (The Dying Animal, 2001).
Último dos três livros do personagem David Kepesh - "The Breast" (1972) e "O Professor do Desejo" (1977) -, O Animal Agonizante apresenta o relato de um professor de literatura em fim de carreira que acaba por envolver-se com a bela e jovem Consuela Castillo, sua aluna no curso de Practical Criticism. Solipsista, hedonista e esteta, Kepesh profere uma religião que cobra caro, em última instância, pelo deus que adora. Seu relato é um acerto de contas e um desabafo.
Depois de adaptado ao cinema pela espanhola Isabel Coixet, em 2008, e de receber no Brasil o péssimo título de Fatal, a short novel chegou ao Theatro São Pedro, em Porto Alegre, para quatro apresentações. Sob a direção de Luciano Alabarse e com Luiz Paulo Vasconcellos no papel principal, a peça que estreou na primeira semana de novembro segue, a partir do dia 12, no Instituto Goethe.
Apesar dos visíveis esforços e de acertos particulares, tanto Coixet quanto Alabarse deixam a desejar em suas recriações. O que não significa que sejam ruins e dispensem a investida, pelo contrário, o problemático é colocá-las constantemente em comparação com o texto original, deixando-as enfrentar de forma desleal o vigor e a profundidade da narrativa - por vezes quase histérica - de Roth.
Para evitar lançar observações gratuitas sobre as escolhas dos diretores, penso nas dificuldades encontradas tanto no filme quanto na peça e tento resolvê-las, mas as alternativas viáveis nem sempre resultam melhores. A exposição excessiva, por exemplo, atrapalha muito o filme e é contornada quando o teatro privilegia o monólogo. O que se pode concluir não é nenhuma novidade: o expositivo se configura melhor nos palcos que na tela.
Televisão para Adultos
Por Joel Pinheiro da Fonseca
Não sei se é o meu gosto que mudou, mas vejo cada vez menos motivos para ir ao cinema. A quase totalidade dos filmes (ou ao menos dos filmes que passam aqui no Brasil) são produções boçais para o público adolescente. Basta lembrar que o filão de maior sucesso são os filmes inspirados em histórias em quadrinhos (nada contra as HQs; algumas dão bons filmes; mas não matam o desejo por algo mais denso e profundo). Ao mesmo tempo, as séries de TV têm ficado cada vez melhores. Sem a limitação de tempo do filme, e sem os recursos bilionários para se perder em efeitos especiais, elas podem se dar ao luxo de construir bons roteiros e personagens interessantes, indo além da pose que passa por caracterização em nosso cinema pós-Tarantino.
Mesmo nas séries, há as adolescentes e as adultas. Nas adolescentes nada é permanente: empregos e relacionamentos mudam com facilidade; aliás, o enredo consiste basicamente na troca de casais, briguinhas explosivas e saídas repentinas. Apesar de constantes e irrelevantes, as mudanças são sempre acompanhadas de muito drama, e a falta de valor objetivo é inversamente proporcional à quantidade de lágrimas e considerações pseudo-filosóficas para convencer o espectador de que tudo aquilo é profundo e “importa”, sempre da forma mais óbvia e escancarada possível. O melhor exemplo desse tipo de série é Grey’s Anatomy.
The Good Wife, cuja segunda temporada acaba de começar, pode ser classificada na categoria oposta: a série adulta. Isso quer dizer que os eventos na tela de fato importam. Coisas reais estão em jogo: uma família, uma carreira, uma empresa, uma reputação. Por isso mesmo não há necessidade de se exagerar no melodrama; ela pode ser sutil.
O centro da série é a advogada Alicia Florrick, que teve que retornar à profissão quando o marido Peter, promotor público, é preso num escândalo envolvendo corrupção e prostituição. Até que ponto ele é corrupto nunca fica claro, mas quanto ao uso de uma prostituta não há dúvidas. Com o marido preso, Alicia e os filhos mudam-se para um apartamento e ela volta ao Direito que havia abandonado para se tornar dona de casa; mais especificamente, vai trabalhar na Sterne, Lockhart & Gardner, empresa de seu velho amigo e antigo flerte de faculdade, Will Gardner. O problema é que a própria empresa não tem ido muito bem das pernas, e só pode contratar mais um associado; Alicia terá que disputar a vaga com Carey Ago, um jovem promissor recém-saído de Harvard Law. Paralelamente, Peter e seu estrategistas conseguem aos poucos reverter a situação calamitosa e suas perspectivas começam a melhorar, de forma que ele não só talvez saia da prisão, como mesmo possa voltar à vida pública. A relação com Alicia, contudo, continua fragilizada; Peter a quer de volta, mas Alicia resiste.
Esse é, em poucas linhas, o enredo da primeira temporada de The Good Wife. Vamos ao que torna a série um produto superior. Em primeiro lugar, fugir de todas as resoluções fáceis. Uma série inferior com um enredo desses teria uma saída fácil e convencional: Peter como o grande vilão, o machista dominador que manipula sua esposa, ao passo que Will seria o verdadeiro amor da vida dela. Nada disso por aqui. Primeiro porque o próprio Will é alguém com sérios defeitos: é alguém que encarnou em si a lógica do Direito, e para quem vitórias no tribunal e dinheiro para a firma estão acima de tudo (a proximidade com Alicia parece abrandar um pouco sua inescrupulosidae); ao mesmo tempo, é alguém distante e defensivo, que foge de seus verdadeiros sentimentos em casos puramente carnais. Que o objeto de interesse ilícito seja imperfeito é até comum; o mais inesperado é a caracterização de Peter e sua mudança ao longo da temporada.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
terça-feira, 16 de novembro de 2010
A escrita como uma tecnologia que reestrutura a mente - Parte II
Por Leandro Oliveira
É um aparente paradoxo, mas tecnologias são artificiais apenas na medida em que a artificialidade é natural aos seres humanos. O fato de não sentirmos comumente a influência da escrita como tecnologia decisiva para o processamento de nosso pensamento demonstra sua interiorização radical.
A tecnologia alfabética é tão imperiosa que a tomamos não raramente pela própria linguagem. (Tendemos a assumir como normativa a linguagem escrita e não à toa cunhamos o termo “analfabeto” a quem não domina a leitura. Pela raiz mesma da palavra, o “analfabeto” diz daquele a quem falta algo, ou seja, uma espécie de handicaped). Mas pensá-la assim é distorcer um processo de complexidade extraordinário. O que de fato está em jogo no processo do domínio da escrita é uma readequação muito específica das nossas funções intelectuais.
Por exemplo, se eu sugerir para uma pessoa com o domínio fluente do alfabeto, como qualquer um de nós, que pense na palavra "felicidade".
Alguém se habilita?
Provavelmente quem tentar terá presente na imaginação apenas letras - cursivas ou de fôrma - talvez de forma obliterada, mas incontestável. Isso é prosaico. O caso se torna mais instigante caso tentássemos fazer o mesmo exercício, pensando na mesma palavra, agora por um minuto e sem o uso de qualquer letra do alfabeto. Ou seja, pensar na palavra “felicidade” mas não pensar em consoantes e vogais.
sábado, 13 de novembro de 2010
Isonomia
Por Pedro Gonzaga
Isonomia
A nação está em festa
enquanto meu coração
cravejado de estilhaços
pulsa lento
e supura sangue.
A raiva não arrefece,
lamento o revólver
de meu avô
que perdi
para o desarmamento.
Ah, o creme da empunhadura -
láctea madrepérola -
o cano cromado,
a solução ruidosa
no tambor
as seis balas fúteis,
a curva sutil,
fria
e logo quente
do gatilho.
Em casa
(as mãos nuas)
vejo pela televisão
que já não há mais
coragem no mundo.
Há tentativas,
negociações,
liminares,
o bárbaro de terno e gravata
termina sorridente,
e então percebo
que talvez nem à bala
pudera haver
isonomia.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
A escrita como uma tecnologia que reestrutura a mente - Parte I
Por Leandro Oliveira
A escrita, quer dizer, o evento histórico que permite este ato que faço agora e que o leitor tem a oportunidade de acessar quando dou enter no mecanismo do blogger, a escrita, como dizia, foi um desdobramento muito recente para a humanidade. O primeiro registro incontroverso de linguagem de fato que conhecemos foi desenvolvido entre os Sumérios na Mesopotâmia somente por volta do ano 3500 A.C - ou seja, mais ou menos 6.000 anos atrás; o alfabeto, esta inovação tecnológica extraordinária, menos de 4.000 anos. Se considerarmos que, em uma estimativa conservadora, o Homo Sapiens está na Terra há pelo menos 30.000 anos, temos a conclusão decisiva: é uma sorte estatística você estar aí enquanto eu aqui tomo um chá quente e batemos este papo - o mais provável seria que estivéssemos mostrando os dentes ou tentando fazer filosofia por sinais de fumaça (impossibilidade categórica, mas explico isso depois...).
Claro que não necessariamente seríamos tão bárbaros. Muito antes dos primeiros registros escritos da fala, havia a fala (rá!), e, com ela, podemos permitir dizer, algum tipo de comunicação elaborada entre seres humanos. A questão é que das mais de dez mil línguas que serviram ou servem para comunicação oral no curso da história humana, apenas uma parte ínfima - Munro Edmonson em seu estudo "Lore: An Introduction to the Science of Folklore and Literature" de 1971 calcula pouco mais de 100 - compromete-se de algum modo com a escrita de maneira a permitir produção de registros regulares escritos. A maior parte delas jamais foi registrada: mesmo entre as cerca de 4.000 línguas faladas hoje, estimamos cerca de oitenta com a disponibilidade para preservar algo que podemos chamar de literatura .
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