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quarta-feira, 6 de julho de 2011

Nem tudo que é um horror é ruim.

por Leandro Olveira

O título é meu, mas o texto é excelente: Leonardo Oliveira (faríamos uma dupla sertaneja, pois não) no Euterpe.

Por incrível que pareça, tenho algumas coisas a dizer sobre o filme "Immortal Beloved" (“Minha Amada Imortal”), hoje mais lembrado como mais uma das caricaturas do cinema dos anos 90. Dirigido por Bernard Rose, o filme ficou famoso ao romancear a busca pela identidade da unsterbliche geliebte (“bem-amada imortal”) a quem Beethoven dirigiu uma misteriosa carta, de fato encontrada entre seus pertences após sua morte em 1827.

A ideia que estrutura o filme, que reconta algo de toda a vida e obra do compositor, é o seu próprio twist final: a Amada Imortal de Beethoven, enigma biográfico de mais de século, teria sido Johanna van Beethoven, sua própria cunhada tão duramente criticada e combatida judicialmente pela guarda do sobrinho. A ideia não tem qualquer respaldo biográfico, mas então qual seria a sua graça? (...)


Para íntegra, clique aqui.

Dicta na Flip

por Leandro OLiveira

Fui poupado de ir à Flip deste ano pois a Dicta enviou um correspondente... A info está no site deles:

Sim, nós somos pobres, não temos metade do orçamento da grande imprensa, mas estaremos lá, na Maravilhosa-Incrível-Festa-de-Literatura-Internacional-de-Paraty, a.k.a. FLIP, cobrindo diariamente neste blog lido por todos e negado por muitos o tal evento que todos amam odiar e que todos querem ir.

Quem fará a cobertura será o jornalista Fábio Silvestre Cardoso que, segundo me informaram, tentará ser o menos próximo da cobertura amebiótica que existe nos cadernos culturais dos jornais que todos lemos no café da manhã. Pelo menos é o que combinamos na reunião de pauta...


Para a íntegra, clique aqui.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Tchaikovsky Competition and beyond

por Leandro Oliveira

É o que se fala no mundo civilizado. Após a aparente derrocada do formato "concurso de música", eis que Valery Gergiev assume a presidência do Tchaikovsky Competition, convida alguns dos artistas mais prestigiosos da atualidade para o corpo de jurados - Nelson Freire esteve lá mas declinou após a primeira semana por estafa - e fez agitar a coisa toda.

Como sempre, muita polêmica. A principal, a saída de Eduard Kunz, muito cedo pelo que parece. E, em casos assim, o esperado: o sujeito não levou o prêmio mas já ganhou o que precisa que é visibilidade e reputação. Sua participação no evento balançou o mundo musical.



Coisas oportunas: acusações de xenofobismo com candidatos dos países satélites, juízes abandonando o certame por motivos de força maior, "ingerência política" nos resultados parciais. Não que as coisas estejam necessariamente relacionadas.

Ao fim e ao cabo, os vencedores:

Piano: Daniil Trifonov (russo);
Violino: sem medalha de ouro, dois segundo colocados: Sergei Dogadin (russo) e Itamar Zorman (israelense);
Cello: Narek Hakhnazaryan (armênio, que foi insultado por um maestro da competição por ser "caipira");
Voz: Sun Young Seo e Jong Min Park (coreanos).

Coreanos?!

Para saber mais, sugiro o excelente Tom Service, que acompanha tudo de lá.

****

Ia falar do encontro com Roberto Minczuk e a turma da Dicta semana passada. Não consegui por motivos inadiáveis - fui descansar. Mas Greg Sandow, que diz coisas que interessam e são pertinentes, diz o que seria ainda mais pertinentes no contexto do encontro. Seguir seu artigo, já na quarta parte, é a melhor maneira de concluir a discussão.

Why aren't orchestras subject (in public, or even very much in private) to detailed comparisons, revealing how well they play?

I think there are four reasons. (...) First: it would be hard to do anything with the information these comparisons would supply. (...) Second: the ideology of classical music says that everything's wonderful. (...) Third: it's in orchestra managements' interest not to have quality talked about. (...) Fourth; it's in the musicians' interest not to have their quality talked about. (...)

If baseball teams had boards, of course the comparisons would be talked about. (...)


Na mosca, não? Na íntegra aqui.

Duas iluminações de HIlda Hilst



Quem és? Perguntei ao desejo.
Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.

****

Enquanto faço o verso, tu decerto vives.
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo

Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.
Enquanto faço o verso, tu que não me lês
Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.
O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
“Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas”.
Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:
MORRE O AMOR DE UM POETA.
E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto

Não cabe no meu canto.


Para ler mais da Hilda Hilst, clique aqui.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Poema de Peter Goldsworthy

A Statistician to His Love

Men kill women in bedrooms, usually
by hand, or gun. Women kill men,
less often, in kitchens, with knives.
Don’t be alarmed, there is understanding
to be sucked from all such hard
and bony facts, or at least a sense
of symmetry. Drowned men — an
instance — float face down, women up.
But women, ignited, burn more fiercely.
The death camp pyres were therefore,
sensibly, women and children first,
an oily kind of kindling. The men
were stacked in rows on top. Yes,
there is always logic in this world.
And neatness. And the comfort
of fact. Did I mention that suicides
outnumber homicides? Recent figures
are reliable. So stay awhile yet
with me: the person to avoid, alone,
is mostly you yourself.


Visite o site de Peter Goldsworthy aqui.

Beethoven e Pinchas Zukerman

por Leandro Oliveira

Publiquei à ocasião de sua vinda ano passado um panegírico sobre Zukerman, o Pinchas. Acho que ainda vale a leitura já que esta semana retorna à frente da Osesp, solando e regendo Beethoven. Aqui como lá, uma enormidade. Cá estamos.

Colher de chá, uma prévia do gajo - com Mehta, o Zubin.


Na Sala São Paulo e na abertura do Festival de Campos do Jordão.

Pais e filhos e filhos e filhos...

por Leandro Oliveira

O Joel na Dicta chama atenção para algo assaz interessante. Olhe lá:

Se vivemos o início de uma implosão populacional no Ocidente, é porque, para muitos casais, ter filhos parece um sacrifício muito grande, algo que não vale a pena; ou uma responsabilidade à qual não se sentem preparados. Quem sabe um, no máximo dois, e só. Há quem, inspirado por ideais, digamos, conservadores, deplore essa situação, e exorte todos à prática do sacrifício: ter filhos é mesmo um fardo, mas é um dever que sejamos menos egoístas e aceitemos uma vida menos feliz para cumprir o “crescei e multiplicai-vos”.

Outro postura é a adotada por Bryan Caplan, professor de economia da George Mason University, exposta em seu livro "Selfish Reasons to Have More Kids": ter filhos é uma experiência muito gratificante, e os custos dela têm sido grosseiramente superestimados. Nossos cuidados com os filhos têm pouco ou nenhum efeito na pessoa que eles serão quando adultos, como indicam pesquisas feitas com filhos adotivos e gêmeos idênticos que cresceram separados. A genética fala mais alto que a formação. Portanto, pode relaxar, curtir e deixar vir os bebês.

Aqui, uma entrevista com Caplan feita pelo blog da revista "First Things". A tese é polêmica, e pode talvez desagradar à primeira vista, mas não posso deixar de notar que, de fato, as preocupações com o “jeito certo” de se cuidar de um filho chegam hoje à neurose: métodos educacionais, cursos extracurriculares, brinquedos educativos, cuidados alimentares, produtos para bebê (eu, como pai recente, sei por experiência própria a quantidade de produtos “essenciais” que nunca saíram da caixa). Talvez a tese de Caplan seja basicamente o senso comum de gerações passadas: cuide do bebê e da criança, mas sem exageros; ela vai crescer por conta própria; a responsabilidade não é tão opressiva quanto parece. E talvez isso torne a paternidade e a maternidade mais atraentes para muitos.


Com links no original, aqui.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Mahler e a morte


por Leandro Oliveira

Após a releitura de trechos da biografia de Quirino Principe sobre Mahler (quase mil páginas!), é do psicanalista Dr. Stuart Feder o mais recente livro dos meus desejos. Chama-se Gustav Mahler - a Life in Crisis e, para muito além de dissecar o famoso encontro com Freud, revela parte intrincada das referências neuróticas de Mahler - e principalmente, como estas neuroses se traduzem em sua música. Deveria ter um pouco disso no Falando de Música desta semana, quando a Osesp apresenta a Quinta sinfonia do compositor... a ver.

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It was the crisis of 1901 when the composer believed he faced death that the theme of mourning made its most prominent appearance in his music. It was the very next summer that the composer began his Kindertotenlieder. It was characterized by well-known stylistic changes as seen in the Fifth Symphony of the time. Clearly the Wunderhorn years were over as Mahler wrote the last of the Wunderhorn songs and turned to Rückert texts. In Kindertotenlieder, only a shadow behind the deaths of children one finds the theme of the bereavement and mourning of the parents. Biographically, Mahler has revived his identification with his own parents and the multiple deaths of his siblings. This artistic and personal trend was accompanied by an astonishing change in Mahler’s actual life. Suddenly, the confirmed bachelor was ready for marriage and soon after he met Alma Schindler in the fall, marriage rapidly became a foregone conclusion. I believe the forty-one-year-old bachelor, frightened by the passage of time and his own mortality, sought the common immortality of man: the wish to have a family of his own. Thus the importance to him of marriage and the anticipated birth of his first child. Hence, all the more intense the loss that that destiny had in store.

Stuart Feder in "Mahler, Mourning and Consolation".

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Debussy tende il proprio linguaggio fin quasi a spezzarlo senza mai spezzarlo, assotigliandolo miracolosamente e rivelando la resistenza. Mahler lo infrange continuamente, ma sui frammenti accampa qualcosa di solido, e la costruzione galleggia. Motivi estetici e una morale ironica dettano forme e movimenti alla musica di Debussy: essa somiglia allo svanire evaporando, ma una sorgente la rigenera sempre. Malgrado questo, o proprio per questo, essa gira continuamente intorno al senso de distruzione e di morte, anche nei suoi luoghi più incantati. Intorno alla distruzione e alla morte gira anche la musica de Mahler, ma in modo diverso: tentando una formula, dirò che il tono generale di Mahler è la tarda maturità che si avvicina ai limiti della decomposizione senza mai toccarli. L'inferiorità di Mahler rispetto a Debussy ha un'origine prima: in Mahler il tema della morte è molto più esplicito. Manca a Mahler la vera ironia: c'è l'autoironia (che può, scivolando malamente, ribaltarsi in autocommiserazione) oppure il sarcasmo. Mahler non riesce ad essere ostile né freddo: lo guasta un nefasto "amore" per gli uomini, da cui Debussy è luminosamente immune.

Quirino Principe in "Mahler - La Musica tra Eros e Thanatos".

terça-feira, 21 de junho de 2011

Observatório Ocidentalismo


por Leandro Oliveira

How well do orchestras play? That's a question I raised, implicitly, by asking whether a new, young orchestra might surprise us with some edge-of-the-seat commitment. Playing better, in some crucial ways, than the big established orchestras.

Greg Sandow em mais um excelente artigo sobre... cultura (música clássica) e excelência. Para desdobrar nosso papo de ontem com o maestro Minczuk (que aliás devo falar mais tarde).

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Mesmo quando não concordo, gosto do Michael Kaiser.

Spending almost two weeks speaking with hundreds of arts leaders throughout England has given me a great opportunity to observe the role and importance of a Ministry of Culture.

While it may be ironic to praise the work of such a Ministry exactly at the time it is cutting grants dramatically, I do so nonetheless.


É que ele não sabe o que o ministério da cultura faz no BRasil... Mas olhem lá.

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A história de uma histeria intelectual é sempre relevante. Wall Street Journal e o novo livro de Wilhelm Reich, aluno de Freud relevante mais pelo impacto do que fala do que de fato pelo que fala...

This maddening, saddening account of Wilhelm Reich's crash-and-burn life leaves you yearning for a poet or philosopher who understands a fundamental truth: Nothing explains everything. (I recommend Shakespeare.)

Reich did not understand this truth. He was a disciple of Freud (who later excommunicated him). He was a world-famous psychoanalyst back when psychoanalysts could be world-famous, a crusader for sexual freedom back when that cause belonged to intellectuals, not Hugh Hefner or Lady Gaga. He was a prophet of salvation through perfection of the orgasm, sometimes referred to as the "apocalyptic orgasm."


Na íntegra aqui.

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O Vírgilio gostou... como eu gosto do site, publico a sua pergunta, que não deixa de ser interessante. Sobre o Dudamel do domingo:

Se na música popular, ganha pontos aquele cantor que interpreta a música de uma maneira toda peculiar e bem própria, porque na música, dita erudita, não haveria de ser o mesmo? Carregar aqui ou acolá faz parte dessa leitura e num mundo midiático como o nosso, faz sucesso quem sabe - com seu talento - empolgar a platéia e transformar uma audição clássica, num show. Sacrilégio? Estilo, isso sim. Virgilio.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Gorilla musicmaking


por Leandro Oliveira

Todos os que estavam ansiosos por uma oportunidade de puro deleite musical ontem à noite no concerto extra da temporada oficial da Sociedade Cultura Artística, devem ter saído decepcionados. Infelizmente, são raros os eventos deste ano que poderíamos, de antemão classificar como extraordinários; assim foram Keith Jarret, a Orquestra do Festival de Budapeste e Ivan Fischer, assim será a 8 de Mahler com a Osesp. Assim deveria ter sido a apresentação da Orquestra Símon Bolivar e seu regente das multidões, Gustavo Dudamel.

Ok, nada há a ser dito sobre a formação. Afinal são jovens com menos de trinta anos, todos empenhados verdadeiramente em trazer alguns momentos de música para seu público. E disso, sua energia, empenho e visceralidade, qualquer um poderá dizer nada. A bem da verdade, o engajamento da orquestra é algo por si só louvável, ainda mais conhecendo as tantas formações similares que conhecemos - quando os aspirantes a músicos rapidamente conhecem as benesses de se tornarem burocratas da música. Jamais seria uma acusação possível à Símon Bolivar. O problema da orquestra - e aqui falo por inferência, saindo do evento em particular e indo para o plano geral - é que ela não sabe muito bem o que fazer quando a música não está lá para os "Mambos" e "Malambos" da nossa vida.

E preciso dizer, embora lá venha bronca de muitos: tampouco o sabe o maestro Dudamel. Dudamel, digam o que digam, não soube construir com seu energético instrumento os distintos e elaborados timbres que Mahler exige; mas, muito antes disso, também não conseguiu equilibrar os naipes ou tornar orgânicos as tantas mudanças de clima da música. Sua orquestra toca sem nuances sonoras, sua gradação dinâmica vai do mezzo-forte ao fortíssimo mesmo em momentos de inspiração noturna. Sua transcendência é como a que busca alguém ao drogar-se, intoxicação de baixa sofisticação, o êxtase de um usuário de crack.

E aqui entra o verdadeiro crime da noite: a escolha do repertório. Não é que uma orquestra jovem não possa tocar Mahler - ouvi já algumas versões belíssimas pela formação do Festival de Campos do Jordão com Kurt Masur, a West-Eastern Divan Orchestra com Barenboim, ambas apresentando a Primeira Sinfonia do compositor. Ouvi uma orquestra jovem de Boston fazer uma das mais impressionantes leituras da Quinta que ouvi ao vivo.

Mas a Sétima é uma sinfonia de difícil digestão, talvez a menos palatável entre todas. A bem da verdade, com os elementos em cena ontem, duvido muito que tivéssemos uma versão satisfatória mesmo se nos fosse apresentado a Quarta. Mas certamente, os jovens aspirantes a músicos foram expostos cruamente, os pobres solistas vivendo seu pequeno pesadelo nas tantas oportunidade que a peça oferece.

Talvez a idéia seja fazer com que os jovens percam medo da Grande Música (ou de música grande, que no caso da Sétima de Mahler dá no mesmo), mas entre perder o medo das notas e realmente dominá-las, um abismo de distância que dificilmente se justifica em uma turnê internacional - mesmo que seja pela América Latina.

Dudamel é um sujeito muito carismático, ninguém há de negar. Sua regência é clara e comunicativa, como todos sabem; mas temo que aquilo que o faça apresentar a Sétima de Mahler não cumpra nenhum de seus objetivos declarados - trazer alegria às pessoas, fazer com que os jovens saiam de sua situação social ou coisa que o valha. Creio sinceramente que seja apenas vaidade; e todos nós que estivemos a frente de uma orquestra sabemos como podemos nos sentir poderosos comandando as forças necessárias para trazer à luz uma obra dessas. No caso, Dudamel não dominou nada além de si. Mahler não pode estar presente.

Lançamento Dicta


por Leandro Oliveira

Hoje é o dia do lançamento da Dicta 7. Para marcar o evento, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional às 19h30, aqui em São Paulo, a turma da Dicta bate um papo com o maestro Roberto Minczuk. No site o texto que segue.

Sete é um número cabalístico. Para os antigos indicava a totalidade, pois era a soma do “mundo” (os quatro ventos, os quatro cantos da terra, os quatro elementos) e da “divindade” (o três, primeiro primo ímpar, representava uma plenitude indivisível). Hoje continua a ter uma multidão de ressonâncias simbólicas, das sete cidades do Piauí aos sete samurais de Kurosawa. E, nessa veia, costumamos ver nos sete anos a chegada da “idade da razão”.

Com este sétimo número a Dicta entra – esperamos – numa certa idade da razão. Nesses quatro anos, deixou de ser a aposta mais ou menos aloucada de um grupo de amigos que gostavam de discussões filosóficas regadas a café para se transformar num empreendimento editorial sólido. Para marcar este passo, como o leitor pode ver, a revista renovou-se na aparência, mas sem mexer uma vírgula no conteúdo: textos de fundo que ajudem a pensar. Todas as mudanças tiveram como meta melhorar a clareza comunicativa de algumas partes – especialmente do índice e da seção de resenhas – e dar mais viveza e agilidade gráfica aos textos. (...)


Para saber mais clique aqui.

domingo, 19 de junho de 2011

Leandro I, do Rio de Janeiro


por Leandro Oliveira

Após um mês de falsas investidas retorno à labuta deste site. Os poucos leitores não perderam muita coisa, todas proferidas aos melhores, íntimos amigos. Talvez algumas diatribes sobre a insolência de nosso meio musical. E o mau-humor típico de épocas doutorais. E a inspiração tosca dos casos de amor.

São meus pequenos demônios: a música, o trabalho e o amor. Àqueles que me imaginavam juntar duas coisas em uma - afinal não sou músico von Beruf? - respondo que, assim como trabalho com música, amo meu trabalho e só faço música por amor. Ou seja, a distinção é mera convenção: todos minhas tentações se completam para fazer caso a mim mesmo, este que vos escreve. O Demônio é legião, mas é um, nesta pseudo-teologia leandrina que vos permito ensinar.

Mas evito a digressão: quero dizer antes que se estes são os percursos últimos de minhas tentações, sou, Deo gratia, muito mais que isso. E então, retorno ao site.

Retorna com outra forma. A idéia de profissionalizar a coisa toda me exauriu. E assim passo a lidar com este espaço da forma mais trivial possível: como meu hobby pessoal. Então, embora me comprometa com sua regularidade e a qualidade dos textos, não vou mais realizar investimentos, encotnrar e cobrar colaboradores, contratar equipes ou buscar sarna para me coçar. Os blogs convidados seguirão convidados, em bases menos oficiais - farei a menção ao post e o link para a página original. Os colaboradores funcionarão assim: alguém quer mandar um texto manda, se eu gostar publico. Se não gostar não publico. Se Louis XIV pôde dizer "o Estado sou eu!", isso sem ter água devidamente quente para banho, vaso sanitário ou anestesia na dor de dente, eu posso dizer, do alto do conforto de meu lar - cujo sol matinal e as companhias eventuais, asseguro, o fazem muito mais interessante que Versailles - o que segue: "O Ocidentalismo sou eu!".

Tal como posta, a frase não passa por um exame de boa correção, com a elisão natural e musical dos "os" do início de frase que a fazem, antes de tudo uma esquisitice. É a última flor estranhando meus barroquismos. Então vamos nessa, como no original, carioca pedante que sou:

- L'Occidentalism c'est moi!

E que sejam todos, mais uma vez e de uma vez por todas, muito bem vindos.

domingo, 22 de maio de 2011

Curso sobre Cultura

por Leandro OLiveira

Logo logo retorno a escrever - finalizando coisas do doutorado. Mas para quem quer saber sobre o curso de cultura ocidental no Conjunto Nacional, aqui na Avenida Paulista, o link com as informações no site da Dicta.com.br.

Imperdível galera!

terça-feira, 17 de maio de 2011

Upa lê-lê!

Ocidentalismo.org volta em breve. Avisem os amigos: está tudo dominado!

Abracabraços,
Leandro Oliveira

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Destino virtual

por Leandro OLiveira

Parece destino, e é. Todos os empreendimentos com a natureza deste site acaba fadado ao que está: a falta de zelo por falta de tempo. A verdade é que Ocidentalismo.org serve como plataforma para tantas coisas - aulas, reflexões, aglutinação de afinidades -, mas a rotina com suas necessidades faz com que as tantas coisas - aulas, reflexões e busca de afinidades - se tornem mais importantes que a plataforma que as tornam públicas.

Ocidentalismo.org interrompe suas atividades por um período indeterminado.

Aos colaboradores e amigos, meu muito obrigado.

Aos leitores, além do agradecimento, as desculpas pelos erros.

Ps: O novo layout é lindo. Oxalá nosso retorno, quando for, se dê com a cara nova.

terça-feira, 19 de abril de 2011

There is so much beauty in the world

selecionado por Leandro Oliveira


I had always heard your entire life flashes in front of your eyes the second before you die. First of all, that one second isn't a second at all: it stretches on forever, like an ocean of time.

For me, it was lying on my back at Boy Scout Camp, watching falling stars.

And yellow leaves from the maple trees that lined our street.

Or my grandmother's hands, and the way her skin seemed like paper.

And the first time I saw my cousin Tony's brand new Firebird...

And Janie! and Janie!

And Carolyn.

I guess I could be pretty pissed off about what happened to me, but it's hard to stay mad when there's so much beauty in the world. Sometimes I feel like I'm seeing it all at once, and it's too much. My heart fills up like a balloon that's about to burst. And then I remember to relax, and stop trying to hold on to it, and then it flows through me like rain, and I can't feel anything but gratitude for every single moment of my stupid little life.

You have no idea what I'm talking about, I'm sure. But don't worry - you will someday.

Em busca de um outro modelo


por Leandro Oliveira

Jamais deixei de tratar aqui o "caso OSB" como o que definitivamente é: uma comédia de erros, de enredo pífio, sem pé ou cabeça, onde as conclusões últimas são nada mais que desdobramentos conseqüentes de decisões invariavelmente desastrosas que sucedem-se a exaustão. Os protagonistas são diletantes vaidosos e sindicatos, que agem em nome dos incompetentes. A esta altura o assunto se tornou por demais enfadonho para que possamos seguir a riso; e que todos o sigam levando a sério não deixa de tornar tudo ainda mais enfadonho.

Para ser didático, chamo apenas a atenção para uma idiossincrasia. Os jornalistas e amigos que defendem o processo de reestruturação partem de uma perplexidade, a de que tudo não passa da ação de um grande maestro realizando os procedimentos necessários para reconstruir uma que um dia foi uma grande orquestra; ele estaria sendo sabotado.

Então, questão de ordem: quem é que disse que Roberto Minczuk é um grande maestro? Quem disse que a OSB um dia foi uma grande orquestra? Apenas em um país onde a cultura musical é paupérrima coisas assim podem reverberar inadimplentes. Ninguém precisa acreditar em mim e por isso trago, para provar o primeiro, que o segundo é hors de question, a crítica da atuação do maestro junto à Philadelphia Orchestra.

E o faço não por crueldade mas para tomar o verdadeiro assunto do post que é a Philadelphia Orchestra - uma das big five, as cinco mais poderosas instituições orquestrais dos EUA, e que acaba de pedir concordata. Após a greve da Orquestra Sinfônica de Detroit (que durou alguns meses e terminou semana passada), este é o verdadeiro assunto da música clássica internacional. No Brasil, nenhum caderno de cultural deu uma notinha sequer, jornalistas especializados provincianos que temos.

(A título de exemplo, imaginem se o clube do Barcelona pedisse falência, imaginem a possibilidade da notícia passar incólume pelos grandes veículos de esporte!)

Todos especialistas do mundo da música clássica se perguntavam, a boca pequena, já há muito tempo, qual seria a primeira grande orquestra a fechar as portas. Minha aposta pessoal era alguma da Itália, que cancelara parte das suas subvenções estatais no governo Berlusconi. Mas a surpresa veio mesmo após a crise americana.

A Philadelphia Orchestra é uma das mais influentes e tradicionais do Ocidente. "Influente" e "tradicional" de fato, não algo como a a OSB onde a palavra "tradição" é apenas um sucedâneo para "velhice". (Para casos como a OSB, Gustav Mahler nos deixou uma frase ótima: Tradition ist Schlamperei!). Diante da Philadelphia Orchestra estamos frente a um monumento norte-americano, uma orquestra que teve sua fase áurea com Eugene Ormandy, e por onde passou, antes dele, Leopold Stokowsky, e após, Wolfgang Sawalisch ou Christoph Eschenbach.

Seu eventual fechamento é o primeiro que pode, de modo real, acontecer no universo das grandes instituições clássicas. Esta é a notícia musical do mês: pode fechar as portas uma orquestra fundada em 1900 que desbravou parte importante do mercado fonográfico em 1925 e - sobretudo - participou, em 1940, da gravação do extraordinário "Fantasia" de Walt Disney; uma orquestra que não deitou em berço esplêndido e, sempre antenada com os tempos, se tornou, em 2006, a primeira a disponibilizar para download a gravação de suas performances, diretamente de seu website.

Na prática, a concordata a alivia de pagamento a credores, e permite a renegociação imediata do contrato com os músicos - inclusive com os fundos de aposentadoria. De fato, esperamos todos, deverá servir como o primeiro passo para uma eventual reconstrução. O que devemos entender atentamente é como tal reconstrução apresentará saídas para um modelo de negócios que, fundado no trinômio "subvensão pública - venda de assinaturas - verbas de patrocinadores", parece fadado ao fracasso.

Gestores de cultura de todo mundo acordaram em um pesadelo - ele contava que uma orquestra sinfônica é uma entidade muito cara para não prever permanentemente fórmulas generosas e criativas de geração de receita e controle de gastos.

O mundo clássico virou seus olhos para Philadelphia. Parece impossível deixar de acompanhar as bobagens aqui ao lado, mas ao menos alguns de nós para lá é que deveríamos virar.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Amnésia Cultural - Monteiro Lobato

por Leandro Oliveira

Deus e a Osesp fizeram com que minha segunda-feira amanhecesse em Taubaté no exato dia do aniversário do filho ilustre da cidade, Monteiro Lobato. A Providência - esta senhora cheia de caprichos - fizera antes com que no sábado, dia 16, sem que soubesse das comemorações de aniversário ou atinasse que aqui tratava-se da cidade natal do escritor, eu vasculhasse minha biblioteca trechos do "Urupês" e outras bizarrias do homem que sonhou a Cuca, a Emília e o Visconde de Sabugosa.

Não entendendo tais desígnios mas imaginando que raros deles são vãos, decido compartilhar minhas perplexidades. E homenagear o homem, com sua famosa autobiografia.

Nasceu em Taubaté, aos 18 de abril de... 1884 (na verdade 1882). Mamou até 87. Falou tarde, e ouviu pela primeira vez, aos 5 anos, um célebre ditado: “Cavalo pangaré/Mulher que... em pé/Gente de Taubaté/ Dominus libera mé”.

Concordou.

Depois, teve caxumba aos 9 anos. Sarampo aos 10. Tosse comprida aos 11. Primeiras espinhas aos 15.

Gostava de livros. Leu o Carlos Magno e os doze pares de França, o Robinson Crusoé, e todo o Júlio Verne.

Metido em colégio, foi um aluno nem bom nem mau – apagado. Tomou bomba em exame de português, dada pelo Freire. Insistiu. Formou-se em Direito, com um simplesmente no 4º ano – merecidíssimo. Foi promotor em Areias, mas não promover coisa nenhuma. Não tinha jeito para a chicana e abandonou o anel de rubi (que nunca usou no dedo, aliás).

Fez-se fazendeiro. Gramou café a 4,200 a arroba e feijão a 4.000 o alqueire.

Convenceu-se a tempo que isso de ser produtor é sinônimo de ser imbecil e mudou de classe. Passou ao paraíso dos intermediários. Fez-se negociante, matriculadíssimo. Começou editando a si próprio e acabou editando aos outros.

Escreveu umas tantas lorotas que se vendem – Urupês, gênero de grande saída, Cidades mortas, Idéias de Jeca Tatu, subprodutos, Problema vital, Negrinha, Narizinho. Pretente publicar ainda um romance sensacional que começa por um tiro:

- Pum! E o infame cai redondamente morto...

Nesse romance introduzirá uma novidade de grande alcance, qual seja, a de suprimir todos os pedaços que o leitor pula.

Particularidades: não faz nem entende de versos, nem tentou o raid a Buenos Aires.

Físico: lindo!


Monteiro Lobato, "A Novela Semanal" (São Paulo, 2 de maio 1921)
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