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sábado, 11 de dezembro de 2010

Marsílio Ficino: Fé e Razão na Renascença


Talyta dedica este post às amigas Tati Ballan e Lou-Lou Wolf, "as quais, talvez por não estudarem filosofia, sempre que me ouvem falar de Ficino reagem com um encantamento que me supõe ser muito mais inteligente do que realmente sou." É resultado de sua defesa de dissertação de mestrado.

Por Talyta Carvalho

Sim, leitor do Ocidentalismo, realmente faz um bom tempo que não escrevo aqui. O motivo? Bem, passei os últimos dois meses estudando e me angustiando em razão daquela “malhação de Judas” acadêmica chamada “Defesa pública”. Aconteceu na semana passada (aliás, obrigada aos meus caros editores pela presença!) e com ela encerrou-se um ciclo de estudos que já vinha desde 2007. Uma das coisas que me ocorreu assim que a defesa terminou era de que havia uma pergunta em especial que eu não precisaria mais responder por um bom tempo: “O que você estuda no mestrado?” Perdi a conta de quantas vezes fiquei constrangida por causa dessa indagação. Por quê? Porque eu sabia qual seria a reação do interlocutor assim que eu respondesse “estudo Marsílio Ficino”: uma expressão facial blasé que, caso se fizesse verbal, diria “MARSÍLIO QUEM?”.

Não é um pecado intelectual uma pessoa (quer estude ou não filosofia) não saber quem é Marsílio Ficino. Meu constrangimento advinha do fato de nestes momentos eu me dava conta de que estava me tornando uma dessas pesquisadoras que não possuem interlocutor porque estudam um cara que ninguém conhece. Farei dois posts sobre Ficino. Este primeiro tem o objetivo de responder justamente a pergunta “Marsílio quem?”. O próximo deverá abordar o pensamento metafísico do autor.

Marsílio Ficino foi um filósofo neoplatonico nascido na Itália em 1433. Graças ao mecenato de Cosme de Médici pôde entrar em contato com toda a obra de Platão e de alguns neoplatonicos como Plotino e Proclo. Cosme havia adquirido manuscritos destes autores em grego (quando do Concílio de Ferrara e Florença) por meio de estudiosos bizantinos, e os entregou a Ficino para que os traduzisse para o latim. E foi justamente essa empresa de Cosme que nos legou um “primeiro” Ficino, o tradutor e divulgador das obras de Platão no Ocidente.

Em alguns anos todo o trabalho de tradução já estava concluído, e então, o filósofo passa a adicionar comentários dos textos às suas traduções. O ápice ocorre quando ele se propõe uma indústria própria e concebe sua maior obra, a "Teologia Platônica". Essa indústria a que me referi consistia, resumidamente, em provar por argumentos racionais a imortalidade da alma. A motivação de Ficino para tal projeto era por um lado religiosa e por outro intelectual. Ele identificava que em seu tempo o divórcio entre fé e razão caminhava para uma separação radical entre teologia e filosofia, o que ele considerava uma grande perda para as duas disciplinas, daí a motivação intelectual de reunir ambas em sua reflexão. Por outro lado, temos a motivação religiosa do autor. Ficino escreve para combater uma classe específica de pensadores: os averroístas, ainda bastante fortes e presentes no cenário intelectual da Renascença. o principal ponto de discórdia de Ficino com estes últimos era justamente a defesa da dissociação entre fé e razão, materializada conceitualmente na teoria da Dupla-Verdade.

A teoria da Dupla-Verdade não foi elaborada por nenhum averroísta, na realidade ela apenas ficou associada a estes pensadores. O que é, então, a teoria da Dupla-Verdade? Quando há dois corpos de doutrina (um deles elaborado teologicamente e o outro filosoficamente) que se propõem a analisar um mesmo objeto e as conclusões a que chegam são conflitantes, mas ainda assim ambas as doutrinas sustentam suas conclusões como verdadeiras, o resultado é uma teoria da Dupla-Verdade. Em suma, o que é válido nas bases da fé nem sempre vale nas bases da razão. Um averroísta do Renascimento (como p. ex. o paduano Pietro Pomponazzi) rejeita a razão como instrumento válido para reforçar os dogmas da fé. Daí não se poder provar, por exemplo, a imortalidade da alma individual. Marsílio Ficino supõe que a aceitação destes princípios desencadearia perda de fé e corrupção moral.

Ficino escrevia para um público específico que era o público erudito, por isso julgava necessário fazer provas racionais, pois se a fé não convence o letrado a razão deveria convencê-lo de que o caminho pelo qual se optava naquele momento poderia levar a consequências funestas.

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