terça-feira, 23 de agosto de 2011

O eterno número 2

Consta a escritora Nina Berberova ter ouvido em Nova Iorque o veredicto do próprio Prokofiev: "não há lugar para mim aqui enquanto Rachmaninoff estiver vivo... e ele viverá por mais dez ou quinze anos". Tendo chegado na América em agosto de 1918, o compositor passava maus bocados após as recorrentes e frustradas tentativas de se posicionar no mercado norte-americano.

Richard Taruskin comenta uma passagem ainda mais curiosa, que corrobora a frase melancólica do compositor exilado. Um regente russo (Andrey Boreyko) teria ouvido do filho do compositor que "quando meu pai foi perguntado o motivo pelo qual tranferiu-se para Russia em 1936, ele disse 'eu não gostei de ser o compositor russo nº2 na Europa, com Stravinsky; e nº2 na América com Rachmaninoff. Eu gostava de ser o nº1, e por isso escolhi a Rússia Soviética'".

Ironicamente, Boreyko comenta, ao menos para os músicos sérios, na Rússia ele se torna o nº2, após Shostakovich.

De Sergei Prokofiev, a Osesp apresenta esta semana a Sinfonia em Sib Maior, op.100

sábado, 20 de agosto de 2011

Citações e outros (ar)roubos

"Now old desire doth in his death-bed lie,
And young affection gapes to be his heir;
That fair for which love groan'd for and would die,
With tender Juliet match'd, is now not fair.
Now Romeo is beloved and loves again,
Alike betwitched by the charm of looks,
But to his foe supposed he must complain,
And she steal love's sweet bait from fearful hooks:
Being held a foe, he may not have access
To breathe such vows as lovers use to swear;
And she as much in love, her means much less
To meet her new-beloved any where:
But passion lends them power, time means, to meet
Tempering extremities with extreme sweet."

William Shakespeare, "Romeo and Juliet" (Prologue Act II).


Dublin July. 7. 88

A Problem Proposed to the Author of the "Essai Philosophique concernant L'Entendement".

A Man, being born blind, and having a globe and a cube, nigh of the same bignes, committed into his hands, and being taught or told, which is called the globe, and which the cube, so as easily to distinguish them by his touch or feeling; then both being taken from him, and laid on a table, let us suppose his sight restored to him; whether he could, by his sight, and before he touch them, know which is the globe and which the cube? Or whether he could know by his sight, before he stretch'd out his hand, whether he could not reach them, tho they were removed 20 or 1000 feet from him?

If the learned and ingenious author of the forementiond treatise think this problem worth his consideration and answer, he may at any time direct it to one that much esteems him, and is,

His Humble Servant,

William Molyneux
High Ormonds Gate in Dublin. Ireland


"While civilization has been improving our houses, it has not equally improved the men who are to inhabit them. It has created palaces, but it was not so easy to create noblemen and kings. And if the civilized man's pursuits are no worthier than the savage's, if he is employed the greater part of his life in obtaining gross necessaries and comforts merely, why should he have a better dwelling than the former?"

Henry D. Thoreau, "Walden" (Lembrado pela Fernandinha Ribeiro no seu blog "Apfelsaft")

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

What the Universe tells me

Ao final do encontro de sábado do Falando de Música um aluno me conta de "Árvore da Vida", um filme sobre a perda de um filho. Segunda-feira, Luiz Felipe Pondé faz um texto belíssimo na Folha de São Paulo, argumentando a partir do que seria a tese central do filme; no mesmo dia Martim publica seu ensaio elogioso a respeito no site da Dicta.

Fiquei ansioso e fui. Minha expectativa era enorme, como não poderia deixar de ser e, infelizmente, detestei o filme. Digo infelizmente pois respeito meus alunos, respeito o Pondé e acho que Martim tem um ótimo faro cinematográfico. Mas talvez o filme seja um pouco demais para mim.

Ficou evidente que Terrence Malick tem um excelente sensiblidade para as perguntas que se coloca - e que de alguma maneira nos afronta a todos: "por que sofremos? qual a lógica de nossa miséria e fortuna?" - ao argumentar a partir de uma aparente dicotomia explicita nas primeiras cenas, onde propõe que "devemos aprender a viver pela Natureza ou pela Graça".

Tudo isso foi discutido por nossa crítica. Curiosamente, o que não foi discutido é o filme. Pois sobre o filme duas coisas saltam aos olhos: sua pretensão e sua desumanidade.

O filme é pretensioso no pior sentido do termo: grandes dimensões (mais de duas horas), imagens assombrosas, excesso do que poderia chamar de "pedagogismo". Neste sentido, sua literalidade é realmente desconcertante, ao ponto de, à leitura das perplexidade do livro de Jó quanto da nossa ignorância a respeito da máquina do Universo ("Onde é que você estava quando criei o mundo?"), o diretor realiza um grande périplo para cenas que contam... a criação do mundo! Jó estava em lugar algum quando o mundo foi criado, mas Malick estava lá. Talvez a parte mais constrangedora do filme seja esta espécie de "La terre vue du ciel", cenas que Discovery Channel algum botaria defeito. (Juro que quando vi um dinossauro fiquei com vontade de ir embora). O resultado quanto mais cenicamente deslumbrante, mais incomoda - se visto no contexto da morte de um filho, é nada mais que tétrico.

E nisto o filme é desumano. Não há a menor forma de compartilhar a dor dos personagens ou, por outro lado, construir o dilema filosófico de maneira inequívoca. As imagens não prevêem contradições, e o problema é demasiadamente humano para ser visto de baixo (a situação onde o diretor nos coloca) ou de cima (de onde, aparentemente, o diretor está).

A crítica da Movieline vai na mosca: "Tree of Life" é sobre a vida, mas Malick não parece ligar muito para pessoas. Malick se preocupa com suas imagens, com sua textura e iluminação; é um mestre de sua ourivesaria cinematográfica. Mas um filme que fala da perda e tragédia precisa antes estar plena de compaixão, não de savoir faire.

(...)Desert rock formations, rushing streams, sunflowers waving gently in the sun, and all sorts of cradle-of-life folderol are the things that really rock his world — he cuts to them whenever he needs to try to explain the inexplicable, which is often. This is a movie about spiritual searching, about reckoning with the nature of God and his frustrating insistence on allowing suffering in the world. We know that because the movie’s characters tell us what they’re thinking, repeatedly, in voice-over: “How did she bear it? Mother.” “Lord — why?” Never trust an actor’s face to convey complicated feelings when you can just dub in words. 

(...) There certainly is a lot of filmmaking going on here: Malick grabs our attention with diminutive jump cuts; he often shoots characters in three-quarters profile, so we’re left to wonder what their faces might be saying; he invents dream images (like a slightly airborne Chastain pirouetting among the trees) and inserts them in unexpected places. There’s also lots of majestic orchestral music, courtesy of Alexandre Desplat, Bach and, presumably, God.

(...) It puzzles me that people think of Malick as a strong visual filmmaker. His movies are often gorgeous-looking — that was true even of The New World, which probably tops even Tree of Life in the pretentious snoozefest department.

But strong visuals don’t necessarily equal strong visual storytelling. If Malick could tell a story mostly with pictures — and faces — why would he need so many voice-overs? There are some good performances here, to the extent that Malick allows us to focus on them: Pitt, in particular, captures the essence of preoccupied dadness. As he schools his boys in the art of respecting the line dividing their property from a neighbor’s, or takes them all out to eat at a local diner, he’s both distanced and affectionate in the way many of us may remember our own dads to have been. Chastain has less latitude: She’s cast in the role of beatific mom-symbol, and it constrains her.

I can already hear the chorus of dissenters: But you just don’t understand! Tree of Life a tone poem made by a genius! You need to see it again, or at least think about it a lot more! Admittedly, in this particular case, deadline constraints demanded some pretty rapid processing. But I don’t think I’d find much more beneath the surface of Tree of Life if I thought about it for 12 more hours or 12 more days. Malick is doing what lots of directors do as they get older and ponder larger issues. I’m sympathetic, at least, to his intent. But he’s trying to answer big questions by making the biggest movie possible. Where is God when you need him? The one place he forgets to look is in his characters’ eyes.

Forte mas está tudo aí. Disse que meu aluno, no sábado, foi o primeiro a chamar a atenção para o filme; falávamos de Kindertotenlieder de Gustav Mahler. O texto de Friedrich Rückert fala de uma criança, o filho do poeta, morto de rubéola em 1833; Mahler aproveita setenta anos mais tarde do impacto dramático do poema e realiza sua pequena obra prima. A música é prudente e pungente - dor, sobretudo dor, e ao fim uma aposta. Dois anos depois sua filha mais velha Maria Anna falece de rubéola, aos cinco anos de idade. E o que Mahler diz? "(Quando fiz a música) me coloquei na situação da perda de um filho. Mas quando realmente perdi milha filha eu não poderia mais ter escrito tais canções..."

Talvez a sensibilidade do projeto Malick seja realmente notável, mas a arte é feita da comunicação desta sensibilidade - e nisto a técnica é apenas subsidiária. E na comunicação, os símbolos, quando soltos, são apenas símbolos soltos. Em "A Árvore da Vida", o que vemos na maior parte do tempo é uma colagem de imagens espetaculares, de grande e indubitável impacto por si, mas realmente sem pretexto ou nexo narrativo dentro do grande e real drama que se coloca: a perda, a morte, a eventual transfiguração e consolo dos que ficam. Ao fim e ao cabo, o filme pareceu-me uma grande colcha de retalhos onde percebemos as sombras de uma história trágica, e não conseguimos saber se tal trama do Universo que nos apresenta o filme passa pela cabeça dos O'Briens - e portanto é a justificativa de seu sonho redentor ao final -, ou se as sombras são apenas os gafanhotos, espumas do mar e dinossauros da câmera de Malick - portanto, parte de um certo proselitismo, convencendo a NÓS da redenção final do filho crescido.

Para falar da vida no cinema é necessário mais do que senso plástico, é necessário contar histórias, mesmo quando cheia de horríveis contradições. Malick sabe coisas demais; talvez seja o maior de todos. Mas eu não o entendo.

Ps: Mahler faz uma belíssima reflexão sobre o Universo, a Natureza e a transfiguração da vida na sua Terceira Sinfonia. É uma obra filosófica e instigante, esmiuçada no premiadíssimo documentário "What the Universe Tells me". No filme, as mesmas imagens impressionantes, a mesma música transcendente que nos remeteria a "Árvore da Vida". Mas a linguagem enxuta elucida a belíssima narrativa mahleriana e suas bases na filosofia de Schopenhauer. O filme completo no link abaixo:

por Leandro Oliveira

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Berlim e seu ano-novo

Os antigos leitores do blog acompanharam minhas andanças por Berlim, no fim de ano entre 2009/2010. Agora retorno com uma turma boa e concertos entre os dias 27 de dezembro e 2 de janeiro.

Farei conferências diárias para eventos como o da Filarmônica de Berlim, com Simon Rattle e Evgueni Kissin, a extraordinária nova montagem de "O Morcego" da Komische Oper, a nona de Beethoven no Staatsoper com Daniel Barenboim, o gala com minha musa Anna Netrebko (em Dresden) e - last but not least - Lylian Zilberstein com a orquestra do Konzerthaus.

É uma iniciativa da Sociedade Chopin no Brasil e aberta a interessados de todo país. Vagas limitadas, bien sûr.

Além da reserva dos tickets de concertos e minhas conferências, estão garantidos o hotel (o Adlon Kempinski, ali pertinho do portão de Brandemburgo), e transfers do aeroporto além da ida/volta para Dresden.

Mais informações, como valores e tal, no (11) 3021-0752.

Nos divertiremos como nababos. Espalhem!

Observatório Ocidentalismo

Curto quando o Reinaldo Azevedo faz pequenas viagenzinhas. A de hoje é especial para mim pois acabei de recomendar o livro a amigos e alunos. Me diverti com a coincidência.

Por Reinaldo Azevedo:

Se o leitor ainda não o fez, deve fazê-lo: ler “O Visconde Partido ao Meio”, do escritor italiano Italo Calvino. Não chegará a ser o seu livro de cabeceira, mas se ganha bastante em poucos mais de 100 páginas. Coisa para duas ou três horas de um daqueles domingos que, muitas vezes, se desenrolam sem motivo aparente… Vocês conhecerão o Visconde Medardo di Terralba, que foi combater os turcos. Um tiro de canhão o rachou ao meio, na vertical. Uma parte, a direita, volta para a casa. Era a metade perversa, má no limite do tédio… dos outros! Depois de algum tempo, suas vítimas já haviam se acostumado com suas perversidades. Até que chegou o lado esquerdo, que havia sido cuidado por monges. Era de uma bondade… insuportável!!! Chamavam-no “o vagabundo”. As duas partes acabarão duelando pelo amor de Pamela. O resto, vocês conferem no livro.

Muitos quiseram decifrar o sentido metafísico do Visconde de Calvino. Até se tentou uma leitura política, com a “direita má” e a “esquerda boazinha”, ambas impróprias para o convívio humano. “Reunidas” as metades do marquês, nem por isso se formou uma inteireza. Somos, os homens, assim mesmo: não cindidos em duas partes, mas em muitas. “Nada do que é humano me é estranho”, escreveu Terêncio. Porque não é, somos levados a fazer escolhas, que acabam determinando com quais pessoas decidimos viver e que moralidade nos serve. Aos escolher os outros, escolhemos o nosso próprio caminho. Potencialmente, podemos ser o monstro moral da metade má ou o abestalhado da metade boa; podemos atormentar os outros tanto com o nosso egoísmo com nossa generosidade. Nada pode crescer à volta de um e de outro; um mata com o seu fel; o outro, com o seu mel. Mas que não se conclua apressadamente que a virtude está no meio, no doce-amaro, na indefinição. A “verdade”, qualquer que seja ela, está no conjunto. A razão tem de domesticar, a cada dia, a besta cínica e a besta crédula que há em nós.

Por que me lembrei de Calvino? Será Dilma Rousseff “a presidente partida ao meio”? (...)

Na íntegra aqui.

por Leandro Oliveira

Nova música - the american way

Steve Reich, falando sobre influências. O maestro fez 75 anos no último dia 10 de agosto:

I would say that later on, very important influences came by discovering African music on recording and having no idea how it was put together, but kind of wanting to find out. As a graduate student with Luciano Berio, we went down to the Ojai Festival - the festival that Stravinsky started north of Los Angeles. I guess that was 1962, maybe ’63. The people who were holding forth included Gunther Schuller, who was just finishing up his book on the history of early jazz. And when Schuller was speaking to us -he was a graduate student - he said he’d discovered a book that contained the first accurate scores of West African music and transcription. And I said, “Excuse me, Mr. Schuller. What’s the book?” He said, “’Studies in African Music’ by A.M. Jones.”

And I went back up to Northern California, where I was living at the time, and got the two-volume set: one volume of just scores, another volume of analysis of those scores, and some interesting sociology as well. And it’s still on my bookshelf, I mean, I returned the book to the library and bought a copy, which was very expensive. And - at about the same time that was going on - I was listening to John Coltrane when he was playing “My Favorite Things” and on what became “modal jazz,” but what you could describe, very simply, as “playing a lot of notes to very few harmonies.” An [album] like “Africa/Brass,” [with two sessions], which really impressed me, was basically a half-an-hour in F. Jazz musicians say, “Hey man, what’s the changes?” “F.” “No! F for half-an-hour!”

That was very instructive. And, at the same time, I was studying with Luciano Berio and writing 12-tone music. The way I wrote 12-tone music was like, “Don’t transpose the row. Don’t retrograde the row. Don’t invert the row. Just repeat the row over and over, and you can try to sneak in some harmony.” And Berio said, “If you want to write tonal music, why don’t you write tonal music?” And I said, “That’s what I’m trying to do.” So I would say, “If you put all that into a jug and shake it, out I come.”

It was a very, very difficult period because, basically, the people that I was going to graduate school with were either very interested in European Serial Music or in John Cage--or in both. And, honestly, I was involved in neither. I could respect the purity of spirit in John Cage’s work, and I could certainly appreciate the mastery in Berio and Stockhausen, but my heart wasn’t in the game. I became a composer because I loved Bach, because I loved Stravinsky, because I loved jazz. And this was answering none of those. There was no fixed pulse, there was nothing you could tap your foot to, there was nothing you could whistle to, there was no key to hang on to; it was the very antithesis of that. So people who didn’t write that way at that time were simply a joke; you just weren’t taken seriously.(...)

Entrevista maravilhosa, na íntegra aqui.

por Leandro Oliveira

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

As agruras da boa música

Tentam me vender algo ordinário como histórico. Não, não é o Obama presidente dos EUA - mas o Maazel regendo a OSB.

Alguns amigos que sempre perguntam sobre os "porquês" e "comos" de um regente, devem agora estar se revirando para saber como pôde a OSB ter se apresentado de forma tão profissional neste ciclo Beethoven. Não trata-se de uma orquestra decadente, formação em meio a uma crise sem precedentes?

Se meu parágrafo anterior fosse a apresentação de um problema matemático, aí estariam os termos: um excelente maestro, uma orquestra decadente; variáveis: o que faz um maestro? o que é uma orquestra profissional? Que Lorin Maazel é um dos mais respeitados regentes de nosso tempo, todos sabemos mas, o que faz sua notoriedade tornar a orquestra algo mais do que razoável? Este é o busílis.

Todos nós que já vimos o maestro Maazel em ação sabemos bem suas qualidades. E, preciso dizer, seus defeitos. Lembro certa feita em Firenze, quando assisti uma apresentação sua com Pastoral de Beethoven. Lembro que me impressionou sua técnica - claríssima! - e sua cara completamente blasé na regência da obra. Maazel regendo parecia estar aborrecido, um pouco enfastiado com tudo aquilo. Como ouvimos também com os olhos, era impossível não se contaminar: a sinfonia do mestre de Bonn se mostrava bem chatinha. Poucos dias depois tive a oportunidade de bater um papo com o maestro Zubin Mehta sobre a performance (acompanhava sua montagem do "Wozzeck" de Alban Berg); ele, não coincidentemente, havia tido a mesma impressão sobre outra ocasião, quando ouvira com Maazel uma sinfonia de Brahms e a mesmo nonchalance. Fiquei aliviado.

Falávamos de envolvimento (não confundir envolvimento com "macaqueação", saltos no palco e coisas similares, coisa de amadores) e as imagens explicam melhor que palavras:

São dois Brahms distintos mas, sobretudo, são duas personalidades distintas: uma correta, precisa e distante; outra correta, precisa e emocionada. Façam suas escolhas.

Poderia falar várias coisas a partir do "problema" como posto, mas para apresentação da OSB e seu ciclo Beethoven, duas lições.

1) Maazel é, indubitavelmente um regente de idéias claras e é isso que fica explícito em sua técnica. Ele sabe o texto, sabe o que quer do texto e sabe como expressar aquilo que quer do texto - elementos que só podem melhorar com a idade. Parece simples mas não é e, preciso dizer, no mundo da arte de hoje, e da música no Brasil, é bastante coisa.

Que não seja um mitificador da música ou de si é apenas outro elemento que, acrescido ao talento, cultura (fala quase dez idiomas - me contaram certa feita haver perguntado à orquestra se preferia ensaios em inglês britânico ou americano) e familiaridade com o repertório, o torna um senhor muito respeitado entre músicos - embora evidentemente não a escolha dos corações de alguém. Nunca deixará de ser un po freddino, como se diz em italiano.

2) No contexto do caos da OSB, toda esta frieza de um rapport profissional parece ter sido suficiente senão para fazer a esquadra levantar vôo, ao menos para apresentar com fluência e algum espécie de graça as obras de Beethoven. E posso acreditar que tenha sido para alguns algo inesquecível pois a este tipo de memória depende sempre do nível de expectativa, ela é fruto da emoção que se baseia tanto no que se espera do que o que se nos apresenta.

O papel do crítico é ter uma expectativa muito muito alta para saber distinguir e contextualizar os eventos no grande quadro. É claro, a energia do ciclo era grande. Forte como é a música de Beethoven, inspirados como deveriam estar os músicos por apresentar-se com um maestro da estatura de Maazel, competente como é o maestro, não poderíamos pensar nada medíocre.

Mas a OSB foi regida por Stravinsky, Eleazar de Carvalho, Kurt Masur; o Rio de Janeiro ja ouviu - eu ouvi - Claudio Abbado e Berliner, Barenboim e Chicago. Por favor, não me digam que Maazel fez o melhor concerto que a cidade já ouviu.

por Leandro Oliveira

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Algumas questões de Bob Dylan

With your mercury mouth in the missionary times, and your eyes like smoke and your prayers like rhymes, and your silver cross, and your voice like chimes - who among them do they think could bury you?

With your pockets well protected at last, your streetcar visions which you place on the grass, your flesh like silk, and your face like glass - who among them do they think could carry you?

Sad eyed lady of the lowlands (where the sad-eyed prophet says that no man comes), my warehouse eyes, my arabian drums - should I leave them by your gate or, sad-eyed lady, should I wait?(...)

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Spiegel im Spiegel


(...) Houve uma tremenda desgraça, bela senhora. Um dia nós notamos que nos faltava uma palavra. Ninguém a havia roubado, nós tampouco a esquecemos. Ela simplesmente não estava mais lá. Mas sem essa palavra nós não podíamos continuar encenando, porque nada mais fazia qualquer sentido. Ela era a palavra através da qual tudo se relacionava com tudo. Compreende, bela senhora? Desde então estamos viajando para tentar reencontrá-la.

– A palavra através da qual tudo se relaciona com tudo? – perguntou a senhora espantada.

– Sim – disse o velho acenando sério –, na certa a senhora também já deve ter notado, bela senhora, que o mundo é composto somente de fragmentos, dos quais nenhum tem nada mais a ver com o outro. Ele tem sido assim desde que perdemos a palavra. E o pior de tudo é que os fragmentos continuam a se partir, restando deles cada vez menos partes que se relacionem com outras. Se não encontrarmos a palavra que relacione tudo com tudo, o mundo vai acabar um dia se pulverizando por completo. É por isso que estamos viajando para procurá-la. (...)

Michael Ende, do livro O espelho no espelho - Um labirinto.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Voyeurismo digital

Dica do Nelson Ascher no Facebook. Kristine Opolais. Uma nova diva? Não sei - ela tem pouco menos que minha idade... Mas me interessa sobretudo a ária, pois casa com minha melancolia atávica.

Vissi d'arte, vissi d'amore, non feci mai male ad anima viva! Con man furtiva, quante miserie conobbi....
Sempre con fè sincera la mia preghiera ai santi tabernacoli salì - sempre con fè sincera, diedi fiori agli altar.

Nell'ora del dolore perché, perché, Signore, perché me ne rimuneri così? Diedi gioielli della Madonna al manto, e diedi il canto agli astri, al ciel, che ne ridean più belli... Nell'ora del dolore, perché, perché, Signor' - ah, perché me ne rimuneri così?

A grande literatura do pequeno gesto no cinema

Não estou em idade adequada mas é fato que ultimamente tudo e qualquer coisa que me animam são reminências. Bashevis Singer, por exemplo: ler sobre o sujeito na belíssima resenha de Luiz Oricchio me fez lembrar a primeira vez que li o autor polonês.

Lembro - lembrei esta manhã novamente - que quando o li fiquei alerta: seus contos, passados na comunidades judaicas de Nova Iorque e Varsóvia, ou de pequenos stetl do leste europeu, são jóias de psicologia, humor e servem de deleite para qualquer pessoa sinceramente encantada com o mundo de vidas e encantos prosaicos que é este o nosso.

Coloco Bashevis Singer, a partir de expressões bem diferentes, ao lado de V.S. Naipaul que comentei em outro post logo abaixo. E sua diferença é como a das faces de uma mesma moeda: enquanto Naipaul parece encarnar a idéia tão cara à modernidade, do homem cosmopolita, a que tudo no mundo devora, Singer é um definitivo artesão a laborar miudezas de sua comunidade, de seu obtuso microcosmos. O primeiro, expressa aquela perplexidade que nos dá olhar o diferente, e perceber a nós; o segundo, outra emoção, a que mostra que o microcosmos particular espelha nuances de todo o universo.

Não sei qual dos dois modos mais me movem, mas sei que em Singer reencontrei uma dívida cara. E lembro que lê-lo foi uma aventura de um mundo que me fez reler em melhores moldes esta outra aventura que é o meu dia-a-dia e suas idiossincrasias. "O amor chega tarde", filme baseado em elementos de sua obra, parece-me ser, segundo posso ler no Estadão, a melhor dica para este final de semana.

Entre seus livros, "No tribunal de meu pai" é uma obra-prima. Se Joel chamou atenção no site da Dicta para referências sobre "o problema do divórcio" na mídia americana recente, Singer traz neste livro, em dado trecho, uma visão muito particular, como solução curiosa, ancestral e nobre. Chama-se "O Sacrifício".

Há neste mundo indivíduos muito estranhos, cujos pensamentos são ainda mais singulares que eles próprios.

Em nossa casa em Varsóvia - na rua Krochmalna, número 10 -, dividindo o hall de entrada conosco, vivia um casal de anciãos. Eram pessoas simples. O homem era artesão, ou talvez vendedor ambulante, e seus filhos já estavam todos casados. Contudo os vizinhos diziam que, apesar da idade avançada, os dois continuavam apaixonados. Todo sábado à tarde, após o cholent, saíam para passear de braços dados. Na mercearia, no açougue - aonde quer que fosse fazer compras -, a mulher só falava do homem: "Ele gosta de feijão... ele gosta de um bom pedaço de carne... ele gosta de vitela...". Há mulheres assim, que vivem falando de seus maridos. Ele, por sua vez, estava sempre dizendo: "Minha mulher".

Minha mãe, descendente de várias gerações de rabinos, implicava com o casal. A seus olhos, tal comportamento era uma demonstração de vulgaridade. Mas no fim das contas, o amor - sobretudo entre duas pessoas idosas-não pode ser tão facilmente repudiado.

De repente começou a correr um boato que escandalizou a todos: os dois velhos pretendiam divorciar-se! (...)

Nesse ínterim, em nossa casa, a verdade veio à tona.

A velha procurou minha mãe e falou-lhe em termos tais que o rosto pálido de mamãe enrubesceu de constrangimento. Apesar de ela ter tentado me despachar para longe dali, a fim de que eu não escutasse, acabei escutando, pois estava ardendo de curiosidade. A mulher jurava que amava o marido mais do que qualquer outra coisa no mundo.

"Cara senhora", argumentava ela, "eu daria minha vida para salvar uma unha dele que fosse. Pobre de mim, estou velha - sou um trapo de gente -, mas ele, ele ainda é um homem. E precisa de uma mulher. Por que obrigá-lo a carregar esse fardo? Enquanto nossos filhos viveram conosco, era preciso ter cuidado. As pessoas falariam. Mas agora o que elas dizem me preocupa tanto quanto o miado de um gato. Já não preciso de marido, porém ele - oxalá continue assim-é como um jovem. Ainda pode ter filhos. E agora encontrou uma moça que o quer. Ela tem trinta e poucos anos; é a hora dela de também ouvir a música das bodas. Além do mais, é órfã e trabalha como criada numa casa; será boa para ele. Com ela, ele gozará a vida. Quanto a mim, não passarei necessidade. Ele garantirá meu sustento, e eu sempre ganho alguns trocados vendendo badulaques. De que preciso na minha idade? Só quero que ele seja feliz. E ele me prometeu que - após cento e vinte anos, quando chegar a hora - jazerei a seu lado no cemitério. Voltarei a ser sua mulher no outro mundo. No Paraíso, servirei de escabelo para seus pés. Está tudo combinado."

A mulher viera a fim de, simplesmente, pedir a meu pai que cuidasse do divórcio e celebrasse o matrimônio.

Minha mãe tentou dissuadi-la. Como as outras mulheres, ela via naquele caso uma afronta ao sexo feminino. Se todos os homens de idade dessem para se divorciar de suas esposas e casar-se com mocinhas, em que bonito estado ficaria o mundo. Mamãe disse que a idéia toda era evidentemente obra do Diabo e que tal amor era uma coisa impura. Chegou a citar um dos livros de ética. Porém aquela mulher simples também sabia citar as Escrituras. Lembrou a minha mãe que Raquel e Lia haviam dado suas servas Bala e Zelfa como concubinas a Jacó.

Embora eu fosse apenas um menino, não me achava completamente indiferente à questão. Queria que os velhos fossem em frente. Em primeiro lugar, adorava assistir a um divórcio. Em segundo, nas cerimônias de casamento, eu sempre ganhava um pedaço de pão-de-ló e um golinho de conhaque ou vinho. E em terceiro, quando papai recebia algum dinheiro, costumava me dar umas moedinhas para eu gastar em doces. Não bastasse isso, no fim das contas eu também era um homem... (...)

Solução curiosa esta, a da separação como ato de amor. Lembro de Hoffmansthal e sua Marschelin no "Rosenkavalier" de Richard Strauss... Mas isso é outra coisa.

O trecho de Singer na íntegra aqui.

por Leandro Oliveira

Osesp de volta

No programa desta semana, o concerto nº 27 de Mozart, o último do mestre de Salzburgo. Feliz como a vida, como podem ouvir todos no vídeo abaixo:

A solista é a pianista Angela Hewitt - que executa no domingo as monumentais "Variações Goldberg" de Bach. Isso é outro post, outra história.
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