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sábado, 26 de fevereiro de 2011

Do amor e outros demônios

por Leandro Oliveira

Me faz falta o Marcelo Consentino. Está em Paris, o amigo, pesquisando e - oxalá! - finalizando o texto de sua tese de doutoramento sobre um filósofo místico russo do século XIX. Consentino me faz falta pois era um especialista no amor, ele que fez seu mestrado sobre o dito em Platão, o que evidentemente deu muito pano para manga. Desde então o gajo é meu conselheiro sobre este tema e muitos outros, e sua ausência, a despeito do que digam os tecnófilos, não se resolve pelo Skype.

Outro dia mesmo pensei em como ele me resolveria o problema: um rapaz ama uma garota, resolve que ela é a paixão de sua vida, mas não chegam ao supra-sumo, ao aleph; algo falta ou promete incessantemente, e enquanto isso evidentemente ele sofre, ela sofre mais, pois gosta dele. Mas não parece que se entendam de fato. Tempos discutindo a relação fazem deles sombras deles mesmos, já que buscando cavar nos escombros de si os motivos para os tropeços afetivos e comportamentais que os incendeiam, não imaginam que a escuridão por onde tropeçam não é a presença de algo mas a ausência de luz. Então se separam ou, pior, ficam juntos para todo o sempre chafurdando na mesma lama?

E dizendo isso lembrei de uma passagem extraordinário do Nelson Rodrigues. A cada Natal, ligando para um conhecido, o Dr. Alceu de Amoroso Lima, Nelson recebe sempre uma referência algo que bizarra, uma resposta aos votos quase protocolar onde ouvia "Ah, acabei de rezar por você". Nelson se aflige com a resposta, pois ela reitera-se ano após ano. E culmina com uma passagem extraordinária:

Bem me lembro do nosso último 24 de dezembro. Ouço a voz do dr. Alceu: — “Alô?”. Estou imaginando: — “Vai repetir tudo, igualzinho como da outra vez”. Digo: — “Dr. Alceu, é o Nelson Rodrigues. Como vai essa figura?”. Foi de uma larga e cálida efusão: — “Ah, Nelson, acabei de rezar por você”. Tomo um baque. Ele insiste: — “Tenho pedido muito por você”. Aproveito uma pausa e dou o meu recado: — “Vim desejar-lhe todas as felicidades etc. etc.”.

(E eu queria pingar, como no pires de um cego, a moeda da minha oração.) Baixa em mim o tédio: começo a crer que o amigo é uma impossibilidade. A conversa continuou e chegava a ser irreal, quase um pesadelo humorístico. Subitamente, ele suspira: — “Ah, Nelson, você aí nessa lama!”. Exatamente: — lama. Começo a ter medo do resto. Dr. Alceu dizia “lama” familiarmente, como se falasse de uma tia minha, bem idosa e até estimável. Tive a idéia de responder-lhe: — “Minha lama vai bem. E a sua, dr. Alceu?”.

Acabei com aquilo sumariamente: — “Até logo, até logo. Passar bem”. Desliguei e confesso: — com um desgosto do Natal e, até, um tédio retrospectivo do presépio do Tico-Tico. Nunca mais telefonei, nunca mais. Mas, ao relembrar o episódio, imagino um mundo em que as senhoras se cumprimentassem assim: — “Como tem passado a sua lama?”. Eis o que o dr. Alceu, na sua imodéstia de santo, não percebe — qualquer um tem seus íntimos pântanos, sim, pântanos adormecidos. É preciso não despertá-los. Mas certos acontecimentos acordam a lama do seu negro sono. Quando isso acontece, a alma começa a exalar o tifo, a malária, e a paisagem apodrece.


Reli a passagem escapando das leituras por vezes enfadonhas dos estudos acadêmicos. Lembro que ao reler pensei imediatamente na minha lama, aquela que não costumo visitar, e meditei sobre onde ela se esconderia. Projetos falhos, desejos torpes, palavras frouxas, atos vis. Acontece que era dia de sol, então não tive qualquer desconforto em pensar nelas como monstrinhos animados, gremlins que não se molham à meia noite. E fiquei ali, fumando meu cigarro semanal.

Hoje, com a fumaça de outro cigarro, me veio a explicação. Pude fantasiar, através dos caminhos divertidos da fumaça que se desintegrava no ar, como Marcelo me explicaria sua leitura de Platão. Fantasei, ia dizendo, que talvez esta paixão entre duas pessoas é apenas o reflexo de um amor maior, o Amor, cujo grau e instância é imenso, completo, infalível. Eis o que queria dizer: talvez aquele Amor - imenso, completo, infalível - seja o tema mesmo da falência desse aqui, ordinário, despedaçado, cheio de rugas; ao intuir tais alturas nos damos conta de nossa pequenez de anjos caídos. Errantes, sofremos esta nossa condição, o preço por estarmos vivos.

(Marcelo possivelmente me lembraria de um dia quando um judeu foi crucificado para que não soframos mais... a que responderia pensar Nele todo dia, sempre com o temor de que em Seu sofrimento esteja apenas o bom coração de um amigo tentando me consolar.)

2 comentários:

Zé Luis disse...

Muito bonito. Ou "bello", enfim, mas de certa forma, e devo dizer isso um dia pessoalmente, ainda que seja impossível explicar todos os meandros, pois o mistério é maior do que nós, Verbum caro factum est et habitavit in nobis (Jo 1, 14-15), o 'caro' ali é também lama porque no original carne é sarx Καὶ ὁ λόγος σὰρξ ἐγένετο καὶ ἐσκήνωσεν ἐν ἡμῖν que não quer dizer carne oposta ao espírito mas sim o que em hebraico seria basar, isto é, fragilidade de criatura. Por sua vez o skenosén se refere a fazer um acampamento, algo muito importante para um povo nômade. O Amor Uno e Trino veio morar entre nós, o que significa uma inversão da cosmogonia platônica. A idéia da perfeição grega que atrapalha o andar da carruagem, bem como as juras de amor eterno. Mas tens razão, isso só faz mesmo sentido com o epopéia do Crucificado diante e adiante.

Leandro Oliveira disse...

Puxa Zé, que bom que você gostou! São uma perplexidade para mim tais dilemas, e o texto, como a vida, tinha seus riscos. Deo gratia, você pegou o ponto e um dia falamos a respeito ao vivo. Abraços

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